Carlos Drummond de Andrade 31/10/1902 - 17/08/1987 Natural: Itabira - MG 20 anos sem Drummond...

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Carlos Drummond de Andrade

31/10/1902 - 17/08/1987

Natural: Itabira - MG

www.eleniceamaralb.com.br

“20 anos sem Drummond”

Agosto de 2007

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundoe ele não pesa mais

que a mão de uma criança.

Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido deixa confundido este coração.

Nada pode o olvidocontra o sem sentidoapelo do Não.

As coisas tangíveistornam-se insensíveisà palma da mãoMas as coisas

findasmuito mais que lindas,essas ficarão.

MEMÓRIA

...Se em toda parte o tempo desmoronaaquilo que foi grande e deslumbrante,o antigo amor, porém, nunca fenecee a cada dia surge mais amante...

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência. A ausência é um estar em

mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus

braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a

ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim. Elenice.ab

...Refaço os gestos que o retratonão pode ter, aqueles gestosque ficaram em ti à esperade tardia repetição,e tão meus eles se tornaram,tão aderentes ao meu serque suponho tu os copiastede mim antes que eu os fizesse,e furtando-me a iniciativa,meu ladrão, roubaste-me o espírito.

(...) Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa,retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória.

RESÍDUO

Elenice.ab

... Quardavas talvez o amorem tripla cerca de espinhos.Já não precisas guardá-lo.No escuro em que fazes anos,no escuro é permitido sorrir.

Elenice.abr

Consolo na praia

Vamos, não chores.A infância está perdida. A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Algumas palavras

duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam.

Mas tens um cão

Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros.

Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento...

Dorme, meu filho.

... Tudo foi breve e definitivo.Eis está gravado

não no ar, em mim, que por minha vez

escrevo, dissipo.

Elenice.ab

CANÇÃO AMIGA Eu preparo uma cançãoem que minha mãe se

reconheça,todas as mães se

reconheçam,e que fale como dois

olhos.

Caminho por uma ruaque passa em muitos

países.Se não se vêem, eu

vejoe saúdo velhos

amigos.

Eu distribuo um segredo

como quem anda ou sorri.

No jeito mais naturaldois carinhos se

procuram.

Minha vida, nossas vidasformam um só

diamante.Aprendi novas palavras

e tornei outras mais belas.Eu preparo uma cançãoque faça acordar os

homense adormecer as crianças.

... Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino salta de minha vida, para restaurá-la.Mas se eu pudesse recomeçar o dia!

... E depois das memórias vem o tempotrazer novo sortimento de memórias,até que, fatigado, te recusese não saibas se a vida é ou foi.

O DEUS DE CADA HOMEM

Quando digo “meu Deus”,afirmo a propriedade.Há mil deuses pessoaisem nichos da cidade.

Quando digo “meu Deus”,crio cumplicidade.Mais fraco, sou mais fortedo que a desirmandade.

Quando digo “meu Deus”,grito minha orfandade.O rei que me ofereçorouba-me a liberdade.

Quando digo “meu Deus”,choro minha ansiedade.Não sei que fazer delena microeternidade.

Elenice.abr

...Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído,

um menino chora

www.eleniceamaralb.com.brr

CERTAS PALAVRAS

Certas palavras não podem ser ditasem qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadasem tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.

A hora do cansaço

As coisas que amamos, as pessoas que amamossão eternas até certo ponto.Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta, numa outra (maior) realidade.Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acrena boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

... De novo a estrela brilhará... E eu irei pequenino, irei luminoso Conversando anjos que ninguém conversa.

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ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar, até onde

alcançam o pensamento e o coração, vamos!

Vamos conjugar o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempre Amar, o verbo Pluriamar,

razão de ser e de viver.

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de madurosestendidos na mais estreita

cama,que se torna a mais larga e

mais relvosa,roçando, em cada poro, o céu

do corpo.É isto, amor: o ganho não

previsto,o prêmio subterrâneo e

coruscante,leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde

... Ora, afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber.

elenice.ab

... Mundo vasto mundo,

mais vasto é o meu coração.

Carlos Drummond de Andrade

Agosto de 2007

Formatação: Elenice Amaral Baratellawww.eleniceamaral.com.br

Midi:”Valsa para uma Rosa” Texto : Livro: “Reunião”- Carlos Drummond de Andrade- Ed. José Olympio- 1973

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