A reinven§£o do jornalismo Projeto Draft

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  1. 1. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 1/34 GUEST MEMBERS Areinveno do jornalismo. (Spoiler: horade abaixar o topete,mas de levantar a cabea.)Leandro Beguoci - 13 de maio de 2015 Leandro Beguoci: "como transformar o jornalismo num item de primeira necessidade? Como convencer pessoas, organizaes e empresas a dar seu tempo e seu dinheiro para quem se dedica a produzir jornalismo profissionalmente?" (Foto: Pedro Burgos) Por Leandro Beguoci
  2. 2. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 2/34 (Leandro produziu este inspirado Longform 32 000 caracteres diretamente de Nova York, exclusivamente para o Draft. Leandro est em Nova York desde janeiro, para um perodo de 5 meses, estudando novos modelos de negcio em jornalismo no Tow-Knight Center in Entrepreneurial Journalism, na City University of New York.) John Cheever um dos escritores que mais entenderam a vida da classe mdia americana. Seus contos so relatos precisos sobre o que significa ter muitas expectativas e somente algumas realizaes. Se voc gosta de TV, vale dizer que Cheever foi exaustivamente lido pela equipe que criou Mad Men, uma das sries mais aclamadas pela crtica nos ltimos anos. Ele tinha uma enorme capacidade para captar pequenos movimentos de grande significado. Cheever tambm um dos escritores americanos que mais entenderam a mdia at porque mdia central para uma vida de classe mdia. Um dos meus contos favoritos dele se chama The Enormous Radio. Cheever descreve, de forma magntica, a vida de um homem e de uma mulher diante daquele aparelho de metal e madeira. impressionante ler sobre o poder do rdio dentro de um apartamento americano nos anos 50. Aquele som cheio de ranhuras conectava a casa ao mundo. Esse conto uma excelente reflexo sobre a mdia porque mostra, de uma maneira simples e poderosa, o valor que os veculos tradicionais
  3. 3. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 3/34 trouxeram para a nossa vida. Jornais, revistas, rdios e TVs nos informaram sobre os grandes assuntos que tm impactos gigantescos em nossas vidas. Eles nos aproximaram da realidade de pessoas que vivem to perto de ns apesar de serem to diferentes. Eles foram as primeiras janelas para o mundo e concentraram ateno proporcional a essa relevncia. O mundo em telas Com a passagem do tempo, a oferta de mdia aumentou e, ao mesmo tempo, se fragmentou. H mais veculos de mdia e mais plataformas para consumir essa mdia. Porm, a informao no vem mais em um pacote fechado. Quando voc comprava um jornal ou uma revista, a mesma empresa controlava a produo da notcia, a impresso e a distribuio. No caso de rdio e TV, elas controlavam a produo e a distribuio do contedo voc s precisava escolher o aparelho. Era um mundo de ateno concentrada, que produziu grandes empresas. Elas tinham oligoplios de ateno. Hoje, as pessoas continuam procurando informao, mas muitas reportagens simplesmente chegam at elas por canais que no produzem contedo mas que tm a ateno dos seus usurios. O Google, o Facebook, o Twitter, o YouTube no produzem contedo so plataformas que servem para encontrar e distribuir contedo, e representam novos oligoplios de ateno. Apesar de algumas pesquisas apresentarem dados desencontrados, j d para dizer que boa parte
  4. 4. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 4/34 das pessoas usa plataformas digitais, incluindo as redes sociais, como primeira fonte para encontrar contedo. O Facebook o rdio de John Cheever. o jornal lido exaustivamente no trem. a TV na sala de uma famlia dos anos 50. A ateno migrou das plataformas integradas de produo e distribuio para as plataformas de distribuio e interao. A grfica e o caminho, a antena e a mesa de centro agora so sociais e esto ficando mveis. Ns, jornalistas, no temos mais o controle da ateno das pessoas. Os dados mostram isso. Em boa parte do mundo, a circulao de jornais e revistas vem caindo drasticamente. No Brasil, os dados indicam estagnao, com tendncia de queda. A TV ainda poderosa, mas alguns dos seus principais programas j no tm os nmeros gloriosos do passado. Faa um exerccio e olhe ao seu redor. Quantas pessoas esto usando o Whatsapp, o Facebook ou publicando no Instagram ao seu redor? O tempo das pessoas no infinito. Se elas esto fazendo algumas coisas, esto deixando de fazer outras. Os joguinhos de celular, hoje, competem com o radinho de pilha. O Twitter compete com os editoriais impressos em papel jornal.
  5. 5. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 5/34 Isso traz um grande impacto econmico. Veculos de comunicao sempre pagaram boa parte das suas contas com dinheiro de publicidade. As empresas precisavam falar com as pessoas. Ento, fazia todo sentido gastar dinheiro com quem concentrava ateno. Quando a ateno se fragmentou e migrou para outros lugares, o dinheiro seguiu o movimento. Apesar de alguns nmeros no serem pblicos nem precisos, j aceito que Google e Facebook concentram boa parte da verba publicitria do planeta. E o resultado esse que estamos vendo no Brasil nas ltimas semanas: As empresas de tecnologia contratam cada vez mais gente (inclusive jornalistas). As empresas de jornalismo demitem cada vez mais gente (e no apenas jornalistas). Em parte porque as novas fontes de receita no so suficientes para tapar o buraco na velha mdia. Os paywalls, a cobrana por contedo implementada por vrios jornais ao redor do mundo, ainda so experimentos. No h dados muito precisos, mas estima-se que apenas 1% da audincia online de veculos de comunicao pague assinaturas digitais. Boa parte das pessoas nunca chega no limite de artigos. uma
  6. 6. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 6/34 evidncia de que o valor dos bons produtores de contedo no to percebido assim pelas pessoas, infelizmente. No conseguimos fazer com que muitas pessoas cliquem em 10, 20 links nossos por ms e sintam vontade de pagar pelo que fazemos. E a fica a questo: o jornalismo vai sobreviver nesse cenrio de queda? Essa a questo nmero um, hoje. Durante muito tempo, eu tambm me fazia essa pergunta, dessa forma. Ela parte da premissa de que o jornalismo precisa encontrar um novo modelo de negcios para continuar vivo e exercer sua funo pblica. uma ideia que continua viva e vlida. Mas eu acho que chegou a hora de a gente se fazer novas perguntas. Aprendi com meus professores na faculdade que uma boa reportagem nasce de uma mudana de ngulo. Novos ngulos levam a novas perguntas. E novas perguntas nos fazem pensar em novas abordagens, que levam a novos textos, udios e vdeos. Acho que esse o nosso momento. Uma crise, como diz o economista Paul Romer, uma oportunidade grande demais para desperdiar. Da abstrao ao valor concreto Eu acredito firmemente que o jornalismo essencial para sociedades livres, democrticas e estveis. Porm, a frase o jornalismo essencial para sociedades livres, democrticas e estveis uma abstrao. um credo no qual botamos f, mas que difcil de mensurar, de mostrar e de defender. Quando ns concentrvamos a ateno das
  7. 7. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 7/34 pessoas, no precisvamos nos preocupar muito em ir da abstrao prtica. A abstrao, sempre bom dizer, continua relevante porque ela fortalece o pensamento. Ningum pode se abster de pensar. Porm, a abstrao no basta por si mesma. preciso trazer o pensamento para a mesa de jantar, para o banco do metr, para a calada. Como a gente mede o impacto do jornalismo na promoo de sociedades livres? Como a gente mostra, na prtica, que o jornalismo fortalece a democracia? Como a gente defende que o jornalismo torna a sociedade mais estvel ao deix-la mais bem informada sobre o que acontece? Ns passamos dcadas sem ter de justificar o que fazemos. Nesse caminho, tambm perdemos a noo sobre o valor do que fazemos. Se voc no se preocupa com o valor que cria, voc tambm no mede o valor do que est entregando. Como voc pede o tempo e o dinheiro das pessoas se no consegue justificar quanto vale aquilo que voc faz? Hoje, ns temos um desafio bem concreto. Como a gente transforma o jornalismo num item de primeira necessidade? Como a gente convence pessoas, organizaes e empresas a dar seu tempo e seu dinheiro para quem se dedica a produzir
  8. 8. 19/05/2015 A reinveno do jornalismo | Guest Members | Projeto Draft http://projetodraft.com/a-reinvencao-do-jornalismo-spoiler-e-hora-de-abaixar-o-topete-mas-de-levantar-a-cabeca/ 8/34 jornalismo profissionalmente? O jornalismo no concorre apenas dentro do seu prprio mundo. O jornalismo concorre com o tempo e com o dinheiro que as pessoas dedicam a tudo o que importante para elas. Ns precisamos ter uma proposta de valor mais clara em vez de ficar lamentando que as pessoas no nos do valor. Ns precisamos entrar na lista das coisas mais importantes da vida das pessoas. Caso contrrio, vamos cair no paradoxo da Kodak a morte dos vencedores. A Kodak foi uma das lderes do mercado de filme fotogrfico, enquanto esse mercado existiu. Ao atrelar seu futuro a um nico jeito de ver a fotografia, com o processo mquina/filme/revelao, a Kodak