Gastos em sa de

  • View
    16

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

  • ARTIGO

    GASTOS EM SADE: OS FATORES QUE AGEM NA DEMANDA E NA OFERTA DOS SERVIOS DE SADE

    Paola Zucchi* Carlos Del Nero*

    Ana Mara Malik**

    * Faculdade de Sade Pblica da Universidade de So Paulo ** Faculdade de Sade Pblica da Universidade de So Paulo e Escola de Administrao de So Paulo da Fundao Getlio Vargas

    RESUMO: Neste momento de crise financeira do Estado, importante o uso adequado dos recursos econmicos disponveis, e este trabalho objetiva estudar os fatores que determinam o aumento dos gastos em sade; uma reviso crtica do tema, com um levantamento sistemtico das publicaes dos ltimos dez anos, considerando-se os principais estudiosos da disciplina da economia da sade no Brasil e de outros pases. Os fatores que agem na demanda por servios de sade so de natureza variada, podendo se sobrepor, o que aumenta ainda mais a demanda: necessidade sentida, fatores psicossociais, seguridade social, demografa, epidemiologa, utilizao dos servios, regulamentao e fatores culturais. Os que agem na oferta da assistncia sade so: progresso tcnico-mdico, difuso da inovao e multiplicao dos centros de assistncia sade. Os fatores da demanda no podem ser rapidamente contidos, enquanto que os de oferta so muito mais facilmentecontrolados, mas so poucos os exemplos encontrados na literatura sobre o sucesso das medidas de controle.

    PALAVRAS-CHAVE: crise financeira, servios de sade, gastos em sade, demanda, oferta

  • INTRODUO

    No atual momento de crise financeira do estado, torna-se importante o uso adequado dos recursos econmicos disponveis. Gastar menos e melhor deve ser um dos objetivos a ser seguido pelo setor sade. A reflexo sobre o tema, o estudo dos fatores que interferem no consumo de assistncia sade, sejam do lado da oferta ou da demanda, alm de outras razes importantes envolvidas no crescimento dos gastos em sade, observados na maioria dos pases ocidentais, so a proposta deste trabalho.

    As razes mais comumente evocadas para explicar o aumento dos gastos em sade so o envelhecimento das populaes, a maior oferta de mdicos e servios de sade e o progresso tecnolgico. Estes fatores tm, sem dvida, grande importncia, porm no conseguem ser suficientes para explicar o aumento dos gastos em sade.

    Existe uma preocupao crescente com os fatores econmicos, que condicionam tanto a prestao de servios de sade como o prprio nvel de sade da populao. Isto explica a inquietude dos poderes pblicos em relao a um setor cujas despesas crescem a um ritmo superior ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

    Encontram-se no setor sade diversas abordagens relativas ao papel representado pelo estado e pelo mercado em seu funcionamento. Nos Estados Unidos observa-se uma liberdade relativa de fixao de preos dos servios de sade, com a predominncia do seguro privado, privilegiando o assim chamado pensamento pr-mercado. Na Europa, nota-se a existncia de tabelas de preos regulamentadas, alm da influncia exercida pelos enormes sistemas de seguridade social, predominando na economia da sade uma perspectiva de administrao pblica(LABOURDETTE, 1988).

    A presso da demanda requer no s incrementos permanentes na oferta. preciso um acesso mais equnime aos servios para toda a populao. A exigncia social de maior cobertura conduz a uma atuao do governo, criando e mantendo direta ou indiretamente servios de sade. No Brasil, como em muitos outros pases, coexistem os dois tipos de atuao, dois pesos e duas medidas: o que vlido para o setor privado no assim no setor pblico e vice-versa(VIANA, ROMEU & CASTRO, 1982).

    Deixando para os cientistas polticos a polmica deciso sobre o papel do estado na sade, chamamos a ateno para o financiamento especfico das atividades gerais desse setor econmico. A indstria da sade pode ser considerada como um setor econmico cuja expanso das mais rpidas. Esse aumento da "produo em sade" relaciona-se com a melhoria da qualidade de vida e pode ser interpretado como progresso social(ILLICH, 1975).

  • Ao pensarmos na alocao de recursos para o setor sade, percebemos que uma atividade onde a determinao dos meios e a avaliao das conseqncias so sempre complexas. Os mdicos, diante do tratamento de uma doena, tm, na maioria das vezes, vrios tipos de tratamentos sua disposio. Sua escolha ser feita a partir do que se tem disponvel e nada nos garante que a mnima considerao da relao qualidade-preo seja determinante na deciso teraputica final, ainda mais numa atividade ligada vida humana, onde as preocupaes de ordem tica contrapostas a possveis anlises econmicas tornam-se importantes. Essas preocupaes desaparecem tendo em vista as consideraes sobre custos, despesas, rendimentos, sempre presentes, tanto no nvel individual como no coletivo. O dilema entre a misso dos servios de sade e a conseqente administrao dos negcios da sade nos faz pensar que ao lado dos objetivos humanitrios, as polticas de sade devem estimular o aumento da produo e a eficincia, nunca esquecendo porm, do paciente e da coletividade, seus objetivos ltimos (MOATTIL, 1991).

    Outro ponto importante que deve ser discutido a eqidade. O governo deve procurar diminuir as diferenas de mortalidade entre as categorias sociais, diferenas que trazem tona a desigualdade.

    A eqidade tem sido freqentemente associada justia social. Sua definio e os princpios distributivos dai decorrentes dependem do conjunto de valores scio-econmicos predominantes na sociedade em questo.

    MOONEY em 1986, sugere cinco possveis definies de eqidade em sade.

    A definio de equidade deve pressupor no s o sentido restrito da quantidade de recursos materiais e humanos (leitos, consultrios, mdicos, enfermeiros, etc.) mas tambm qualidade dos servios oferecidos.

    A teoria ainda no foi capaz de definir o que viria a ser de fato a necessidade por assistncia sade. Por mais equitativos que sejam a oferta e o acesso a assistncia sade, persistiro iniquidades de resultados determinadas por desigualdades de renda, de nvel educacional e, claro, de infra-estrutura sanitria(GIRALDES, 1988; JARDANOVSKI & GUIMARES, 1993).

    O setor sade frustra-se quando, extrapolando sua competncia de produzir servios mdicos-sanitrios, tenta influir por si s nos indicadores de sade da coletividade, sem levar em conta que a melhoria do nvel de sade de uma populao s se torna permanente quando oriunda de medidas que superem as restries impostas pelo contexto econmico e social (VIANA, ROMEU & CASTRO, 1982).

  • Nessa tentativa de proporcionar uma assistncia sade que no frustre o setor, os pases desenvolvidos confrontam-se com um aumento rpido dos gastos em sade. normal que se tenha procurado as causas que expliquem este aumento, entre elas o aumento da demanda por sade assume um papel essencial.

    Quando medimos a progresso das despesas de sade em um grande nmero de pases da O.C.D.E. (Organizao de Cooperao e de Desenvolvimento Econmico), em vinte anos, a participao da sade no Produto Interno Bruto, dobrou ou quase dobrou (LABOURDETE, 1988).

    Os gastos mundiais com sade totalizaram cerca de US$ 1700 bilhes em 1990, que representam 8% dos recursos globais. Os pases economicamente estveis gastam cerca de US$ 1500 bilhes em sade enquanto os pases em desenvolvimento gastam US$ 170 bilhes. Esses nmeros so fundamentais para nos mostrar o quo importante entender o impacto das polticas governamentais na sade das pessoas.

    Os governos tambm influenciam indiretamente a sade atravs de suas polticas de educao, saneamento, e outros setores, alm de regular o prprio sistema de sade e os recursos que o alimentam(WORDL DEVELOPMENT REPORT, 1993).

    To importante quanto a magnitude do gasto com sade a forma de organizao do sistema de sade e suas condies de acesso.

    OS FATORES DE CONSUMO E DEMANDA QUE AGEM NA ASSISTNCIA SADE

    O crescimento dos gastos em sade depende do mercado, ou seja, do encontro entre os que querem adquirir os bens e servios de sade e aqueles que os oferecem. Nas sees seguintes estudaremos os fatores envolvidos no consumo e na demanda por assistncia sade.

    Os Fatores de Consumo

    Uma definio simplificada de mercado o lugar onde se encontram, para realizar suas trocas, os que ofertam e os que demandam, ou seja os vendedores e os compradores, a organizao de ofertas e demandas, determinando, aps troca de informaes, a formao do preo do bem e a determinao das quantidades trocadas (SIMON, J.M.; BERTRAND, D. MICROECONOMIE, 1992).

  • O consumo consiste no uso de bens ou de servios visando a satisfao direta das necessidades. Podemos falar em consumo de bens e servios de sade, que trazem uma melhora do bem estar e das condies de existncia de uma populao.

    O consumo traduz-se sob a forma de compra de bens e servios sendo portanto, um gasto efetivamente realizado. A demanda geral por um bem reflete as intenes de compra em paralelo com os diversos nveis de preo. O consumo de sade um consumo final em oposio ao consumo intermedirio efetuado em vista da produo dos bens (TRIOMPHE.1975).

    Em seu artigo de 1963, ARROW, refere-se a especificidade do setor de sade em relao grande maioria dos outros setores econmicos: "Os mecanismos habituais pelos quais o mercado assegura a qualidade dos produtos no tem grandes implicaes no setor de sade1.

    O setor sade apresenta estruturas de mercado complexas e nada bvias. Essas estruturas influenciam criticamente os padres de atendimento mdico e no podem ser ignoradas. Pelo lado da oferta, o lucro no por si s um motivo adequado para explicar o "mercado" da sade, como para outros tipos de bens e servios, dado que h um grande nmero de instituies pblicas e privadas no lucrativas que prestam servios de sade. Como tais servios no podem ter um preo "a priori" definido no mercado, torna-se difcil medir a preferncia dos consumidores por eles. A prpria medicina estatal, em um grande nmero