Cartas Paulinas

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Text of Cartas Paulinas

Escola Diaconal So Francisco de Assis-------- DIOCESE DE APUCARANA --------

CARTAS PAULINAS

Frei Ildo Perondi

APRESENTAOCaros futuros Diconos: Paz e Bem!

Esta a Apostila do nosso Curso de Cartas Paulinas. Ela um material introdutrio e sempre incompleto, porm j tem um pouco de histria. A primeira redao foi feita pelo Frei Ccio Roberto Petekov, a partir das aulas do Pe. Fonsati, em Ponta Grossa. Depois disso fui fazendo vrios acrscimos e mudanas, sobretudo lendo os livrinhos do Jos Bortolini da Coleo Como Ler... da Paulus. E fui acrescentando outros dados a partir da leitura de outros livros, sobretudo o livro Lettere Paoline e altre lettere, de Alessandro Sacchi e collaboratori. A finalidade da apostila sempre dar uma introduo, seja ao tema, como a cada uma das Cartas, sobretudo contextualizando cada escrito e dando informaes sobre o ambiente da comunidade ou da pessoa que recebeu o escrito. As aulas levaro em conta o que apresentamos nesta apostila, mas vamos nos deter ao texto das cartas. preciso ler Paulo! O que devemos reconhecer no assim to fcil. Paulo tem o auxlio dos secretrios e utiliza um bom grego (vamos sofrer por no termos um bom conhecimento da lngua original). Alm disso, para compreendermos toda a profundidade dos seus escritos precisamos conhecer e entender os termos que o Apstolo usa e qual o sentido que d a eles. Nosso mtodo de estudo ser contextualizar o escrito e depois ler. Para ler o Apstolo preciso no ter pressa. Ler devagar, entender o significado de cada expresso. E vamos perceber a importncia das pequenas palavras, sobretudo as preposies. So elas que indicam a relao entre um termo e outro que Paulo faz muito bem. Tenho certeza que o fato de ler Paulo apressadamente, o que faz seus escritos muitas vezes parecer sem sentido e quase nunca comentados apesar de presentes em nossa liturgia. certo que diante de alguns escritos (Cl, Ef, 2Ts, 1 e 2 Tm e Tt) vamos nos defrontar com o problema da autenticidade paulina ou no. Em geral preferimos adotar uma postura mais conservadora, mas sem excluir a opinio daqueles autores que possuem outra viso. O problema da autoria no ser resolvido to logo. Ento neste curso, o mais importante ler e estudar os textos inspirados e descobrir os seus contedos. Utilizaremos para o estudo a verso da Bblia de Jerusalm. Porm, ainda que seja a melhor verso para estudo, ela limitada. Ter outras verses, compar-las e confront-las, e (quando possvel) ir ao texto grego ser uma maneira para entender melhor o texto e descobrir sua riqueza e contedo. As notas de rodap da BJ so importantes, mas tambm limitadas. Por isso, as notas da Bblia do Peregrino ajudam a completar esta deficincia. A vocs compete a misso de no querer esgotar Paulo num breve curso como este. Esta apenas uma porta que se abre. Ler e reler estes escritos (muitos deles os primeiros textos do NT) ajuda a tirar aquela idia equivocada to mal difundida por alguns autores que qualificam o Apstolo como duro, frio, machista, submisso ao imprio... (penso que leram mal seus escritos). Cabe a vocs continuar lendo e estudando e enriquecer esta apostila. Ns podemos dizer das Cartas o mesmo que o Apstolo escreveu a respeito dos textos sagrados que tinha em mos: Tudo o que se escreveu no passado para nosso ensinamento que foi escrito, a fim de que, pela perseverana e pela consolao que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos a esperana (Romanos 15,4). Que as Cartas de Paulo nos ensinem a conhecer melhor a mensagem de Deus! Que elas nos ajudem a sermos perseverantes nas dificuldades que vamos encontrar em nossa caminhada! Que elas nos animem a sentir a consolao que Deus nos d quando precisaremos de um ombro amigo. Mas, sobretudo, que estas Cartas alimentem a nossa esperana! a esperana que nos ajuda a sermos melhores, a caminhar, a no desanimar e fazer de nossas comunidades lugar de encontro, de comunho e de caridade como foram as comunidades que receberam estes textos do Apstolo! A vocs: graa e paz! Que o Senhor nos abenoe e que tenhamos um Bom Curso! Frei Ildo Perondi (ildo@sercomtel.com.br)

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CARTAS PAULINAS1. IntroduoNos escritos do NT encontramos vinte e uma Cartas. Treze delas so atribudas ao Apstolo Paulo (algumas tem sua autoria questionada, como veremos adiante), e outras so colocadas sob a autoridade de outras figuras significativas da Igreja primitiva: duas so de Pedro; trs de Joo; uma de Tiago e uma de Judas. E temos a Carta aos Hebreus de um autor desconhecido e que erroneamente foi atribuda a Paulo. Para a f crist estes escritos tm uma grande importncia, seja porque so cannicos, seja porque deram origem sucessiva reflexo teolgica. Lendo as Cartas percebe-se logo que os autores manifestam um vivo testemunho da vida das primeiras comunidades. Estas Cartas enriquecem muito o quadro que obtemos do livro dos Atos dos Apstolos, composto no final do I sculo. As Cartas Paulinas so uma reflexo teolgica ou pastoral num segundo momento (com exceo da Carta aos Romanos). Antes disso, houve o trabalho missionrio de fundar e organizar as comunidades. certo que o nmero de comunidades fundadas pelo Apstolo Paulo e seus companheiros foi muito maior daquelas que receberam alguma Carta. Outra constatao importante que no foi possvel conservar todos os escritos paulinos. Algumas cartas se perderam e no esto no cnon bblico. Antes do estudo propriamente dito das Cartas Paulinas, vamos conhecer um pouco melhor a figura do seu autor. Sem conhec-lo bem, tambm sempre mais difcil entender toda a riqueza da sua mensagem. O ambiente e o contexto de cada uma das comunidades ser conhecido por ocasio do estudo particular de cada Carta.

2. Paulo de TarsoO Apstolo Paulo nasceu entre os anos 5 e 10 dC, na cidade de Tarso da Cilicia (At 9,11; 21,39; 22,3). Era filho de judeus, da tribo de Benjamin e como era o costume foi circuncidado ao oitavo dia. So Jernimo informa que seus pais eram de Giscala, na Galilia. Paulo cresceu seguindo a mais perfeita tradio judaica (Fl 3,5). Tinha uma irm e um sobrinho que moravam em Jerusalm (At 23,16). Sua profisso era arteso, fabricante de tendas (cf. At 18,3). O seu estado civil tambm um tanto incerto, ainda que na maioria das vezes se afirme que era solteiro. De fato, em 1Cor 7,8 ele escreve Aos solteiros e s vivas, digo que seria melhor que ficassem como eu. Mas em 1Cor 9,6 ele escreve No temos o direito de levar conosco nas viagens uma mulher crist, como fazem os outros Apstolos e os irmos do Senhor e Pedro?. Ainda jovem foi para Jerusalm e, na escola de Gamaliel, se especializou no conhecimento da sua religio. Tornou-se fariseu, ou seja, especialista rigoroso e irrepreensvel no cumprimento de toda a Lei e seus pormenores (At 22,3). Cheio de zelo pela religio, comeou a perseguir os cristos (Fl 3,6; At 22,4s; 26,9-12; Gl 1,13). Esteve presente no martrio de Estevo, cujos mantos foram depositados aos seus ps (At 7,58). Continuou perseguindo a Igreja (At 8,1-4; 9,1-2) at que se encontrou com o Senhor na estrada de Damasco (At 9,319). A experincia de Jesus mudou completamente a sua vida. De perseguidor passou a ser o anunciador at a sua morte, provavelmente em 68 dC. Na sua primeira misso apostlica, entre os anos 45 e 49, anunciando o Evangelho em Chipre, Panfilia, Pisidia e Lacania (At 13-14), passou a usar o nome grego de Paulo de preferncia a Saulo 1, seu nome judaico (At 13,9). Era um homem bem preparado, alm de conhecer bem a sua religio (o que pode ser comprovado pelas muitas citaes ao AT), possua boas noes de filosofia e das religies gregas do seu tempo. Em Tarso, sua cidade natal, havia escolas filosficas (dos esticos e cnicos) e tambm escolas de educadores. Ali nasceu Atenodoro, professor e amigo do imperador Augusto. Paulo algumas vezes utiliza frases desse educador: Para toda criatura, a sua conscincia Deus (Cf. Rm 14,22a). Ou: Guarde para voc, diante de Deus, a conscincia que voc tem ou: Comporte-se com o prximo como se Deus visse voc, e fale com Deus como se os outros ouvissem voc (Cf. 1Ts 2,3-7). Alm disso conhecia bem o grego e o mtodo da retrica. Esforava-se para compreender o modo grego de viver. Alm disso era cidado romano (At1

Talvez seu verdadeiro nome hebraico fosse Saul, em homenagem ao primeiro rei de Israel e que tambm era da tribo de Benjamin.

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16,37s; 22,25-28; 23,27). Embora no mencione isso em suas Cartas, como se o desprezasse, pois para ele a verdadeira cidadania outra (Fl 3,20). Porm, ele soube tirar proveito desse ttulo, bem como de toda a bagagem cultural adquirida, para conduzir todos a Jesus (1Cor 9,19-22). Lendo as Cartas percebemos o carter do Apstolo: s vezes muito meigo e carinhoso; s vezes, severo. No abria mo das suas idias e ameaava com castigos. Escrevendo s comunidades comparava-se me que acaricia os filhinhos e era capaz de dar a vida por eles (1Ts 2,7-8). Sentia pelos fiis as dores do parto (Gl 4,19). Amava-os, e por isso se sacrificava ao mximo por eles (2Cor 12,15). Mas era tambm pai que educava (1Ts 2,11), que gerava as pessoas, por meio do Evangelho, vida nova (1Cor 4,15). Sentia, pelas comunidades que fundou, o cime de Deus (2Cor 11,2), temendo que elas perdessem a f. Quando se fazia necessrio, exigia obedincia (1Cor 4,21). Muitas vezes Paulo apresentado como algum distante do povo e das suas comunidades, incapaz de manifestar sentimentos, indiferente ao drama das pessoas, anti-feminista, moralista e assim por diante. Os que vem Paulo com esses olhos esquecem-se de suas viagens, cadeias, sofrimentos, perigos e, sobretudo, sua paixo por Jesus e pelo povo2. Era capaz de amar todos os membros de todas as comunidades, sem distino, chamando-os de queridos e amados ou irmos. Queria que todos fossem fiis a Deus. Assim se tornariam seus filhos, como por exemplo, era Timteo (1Cor 4,17). interessante ler as suas Cartas e anotar com quanta freqncia ele usava expresses, tais como: tudo, todo, sempre, continuamente, sem cessar, etc., e com elas expressar sua constante