1. Qualidade do Gasto Público .do interesse alheio, não porque seja altruísta, mas porque essa

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of 1. Qualidade do Gasto Público .do interesse alheio, não porque seja altruísta, mas porque essa

1. Qualidade do Gasto Pblico

1 Lugar

Valdemir Aparecido Pires Transparncia Oramentria Municipal Via Internet (TOM Web) no

Contexto do Revigoramento Democrtico e Republicano: uma proposta..

1

Transparncia Oramentria Municipal via Internet (TOM Web) no contexto do

revigoramento democrtico e republicano: uma proposta

Monografia inscrita no III Prmio SOF de

Monografias 2020. Tema: Qualidade do Gasto

Pblico.

Julho de 2010

Transparncia Oramentria Municipal via Internet (TOM Web) no

contexto do revigoramento democrtico e republicano: uma proposta

PALAVRAS-CHAVES: ORAMENTO, ACCOUNTABILITY, TRANSPARNCIA

RESUMO

O objetivo desta monografia sugerir a adoo, pelos municpios brasileiros,

da Transparncia Oramentria Municipal (TOM Web), aqui definida (a partir

de conceitos desenvolvidos pelo FMI e pela OCDE) e contextualizada (captulo

3), como forma de atendimento s exigncias da Lei de Responsabilidade

Fiscal (LC 101/00) e da Lei Complementar 131/09, que determina a

disponibilizao, em tempo real, de informaes pormenorizadas sobre a

execuo oramentria e financeira da Unio, dos Estados, do Distrito Federal

e dos Municpios, por meio da rede mundial de computadores (Internet). A

sugesto feita depois de uma breve e circunstanciada reflexo acerca da

relao entre transparncia, accountability e democracia (captulo 1) e tambm

sobre a contribuio da transparncia para o revigoramento do republicanismo,

tal como tratado pela corrente neorepublicana (captulo 2). No captulo 4

apresentado o caso do Portal da Transparncia do Municpio de So Carlos,

para comprovar a viabilidade da proposta de TOM Web tal como aqui

defendida. Assim, esta monografia oferece subsdios tericos e prtico-

operacionais para sustentar as aes necessrias ao atendimento da LC

131/09 pelos municpios, de modo mais efetivo do que o simples cumprimento

ritual das novas exigncias (tantas vezes verificado no passado), com

consequente aproveitamento da oportunidade histrica de qualificao da

gesto das finanas pblicas municipais, iniciada pelo advento da Lei de

Responsabilidade Fiscal.

2

SUMRIO

INTRODUO 3

1 TRANSPARNCIA, ACCOUNTABILITY E DEMOCRACIA 5

2 TRANSPARNCIA E REPUBLICANISMO 14

3 TRANSPARNCIA ORAMENTRIA VIA INTERNET (TOM WEB) 21

3.1 Conceito e contexto 21

3.2 Histrico recente e legislao no Brasil 28

3.3 TOM Web na prtica: de uma cesta de documentos bsicos a uma poltica

pblica de transparncia 31

4 TOM WEB: O CASO DE SO CARLOS E SEU PORTAL DA TRANSPARNCIA 39

CONCLUSO 46

REFERNCIAS 49

3

INTRODUO

A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente pblico pela

sua administrao. (Declarao dos Direitos do Homem e do

Cidado, 1789, artigo 15.)

O objetivo desta monografia (ao mesmo tempo tcnico e poltico, como

convm em assuntos de finanas pblicas) sugerir a adoo, pelos municpios

brasileiros, da Transparncia Oramentria Municipal (TOM Web), aqui definida

tomando como base os conceitos de transparncia fiscal (FMI, 1998), transparncia

oramentria (OCDE, 2001) e integridade das compras pblicas (OCDE, 2008). A

definio dada no captulo 3, onde tambm se contextualiza a proposta no

ambiente da Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/00) e de seu ltimo

desdobramento, a LC 131/09 (que determina a disponibilizao, em tempo real, de

informaes pormenorizadas sobre a execuo oramentria e financeira da Unio,

dos Estados, do Distrito Federal e dos Municpios, por meio da rede mundial de

computadores) e se especificam os documentos cuja divulgao constitui o nvel

bsico da TOM Web na realidade dos municpios brasileiros.

A sugesto feita depois de uma breve, mas circunstanciada reflexo acerca

da relao entre transparncia, accountability e democracia (captulo 1) e tambm

sobre a contribuio da transparncia para o revigoramento do republicanismo, tal

como tratado pela corrente neorepublicana (captulo 2). No captulo 4 apresentado

o caso do Portal da Transparncia do Municpio de So Carlos, para comprovar a

viabilidade da proposta de TOM Web tal como aqui defendida. Assim, esta

monografia oferece subsdios tericos e prtico-operacionais para sustentar as

4

aes necessrias ao atendimento da LC 131/09 pelos municpios, de modo mais

efetivo do que o simples cumprimento ritual das novas exigncias (tantas vezes

verificado no passado), com consequente aproveitamento da oportunidade histrica

de qualificao da gesto das finanas pblicas municipais, iniciada pelo advento da

Lei de Responsabilidade Fiscal.

Espera-se que a TOM Web seja paulatinamente adotada pelos municpios

brasileiros, constituindo-se, ao longo dos prximos anos, na base de polticas

pblicas locais de transparncia, entendidas estas como um conjunto de aes,

medidas e procedimentos deliberadamente voltados para a reduo da assimetria

de informaes entre governantes e governados, ampliando assim as oportunidades

para que a cidadania se constitua numa alavanca para governos locais mais

eficientes, efetivos, eficazes e responsivos, necessrios ao desenvolvimento

socioeconmico e reduo das desigualdades no pas.

5

1 TRANSPARNCIA, ACCOUNTABILITY E DEMOCRACIA

A democracia representativa um regime de governo que pressupem e

assume como vlidas e funcionais as relaes de tipo agente-principal, tal como

contemporaneamente explicadas pela Agency Theory1. Nessa abordagem terica, o

principal detentor de um interesse a ser satisfeito ou portador de uma necessidade

a ser atendida pe a seu servio um terceiro (o agente), estabelecendo, assim,

uma relao de agncia, na qual a confiana um elemento-chave, a ser

quotidianamente administrado, o que gera custos adicionais de agncia, aceitos

diante da impossibilidade de serem evitados ou na medida em que sejam menores

do que os custos da ao direta, sem intermedirios. O agente deve atuar na defesa

do interesse alheio, no porque seja altrusta, mas porque essa atuao tambm

interessa a ele, por receber benefcios oferecidos pelo principal2. Em termos

1Agency theory has been used by scholars in accounting (e.g., Demski & Feltham, 1978), economics (e.g., Spence & Zeckhauser, 1971), finance (e.g., Fama, 1980), marketing (e.g., Basu, Lal, Srinivasan, & Staelin, 1985), political science (e.g., Mitnick, 1986), organizational behavior (e.g., Eisenhardt, 1985, 1988; Kosnik, 1987), and sociology (e.g., Eccles, 1985; White, 1985). (EISENHARDT, 1989). Em essncia, a teoria da agncia identifica o elevado potencial de ocorrncia de conflito de interesses entre agentes (que atuam em nome de terceiros diretores de sociedades annimas, por exemplo) e principais (que pem terceiros para atuar em seu nome acionistas, por exemplo) e a importncia de se reduzir as assimetrias de informaes entre esses agentes e principais, para que se restrinja a possibilidade de infidelidade nas relaes de agncia. 2 A teoria da escolha pblica (ou public choice), tambm conhecida como teoria econmica da democracia, desenvolvida a partir de meados do sculo passado para questionar os postulados altrustas do comportamento dos governantes, totalmente compatvel com a agency theory, pois assume integralmente a hiptese de comportamento individual auto-interessado dos burocratas e governantes, questionando a busca do bem comum como objetivo dos que ocupam cargos de governo. Para evitar que os cargos pblicos (eletivos ou de carreira) sejam utilizados pelos que os ocupam simplesmente para se beneficiar pessoalmente, a teoria da escolha pblica se preocupa com formas de controle sobre a ao dos governantes, encarando o sistema eleitoral como o principal freio para desalojar os governantes que no conseguem a dupla faanha de subordinar-se aos interesses do eleitorado e forar o aparato governamental (sob controle dos burocratas) a agir diligentemente nessa direo. A respeito, ver os clssicos Buchanan e Tullock (1971) e Downs (1957) e sntese de Mueller (1976). Para uma abordagem crtica da public choice, ver Pereira (2010), para quem A teoria da escolha pblica foi, ao longo das ltimas dcadas, a principal crtica terica de outra corrente (essa essencialmente econmica) que fundamenta a interveno do Estado na economia - a economia do bem-estar (welfare economics). Enquanto esta se centrava na anlise dos fracassos de mercado que justificavam a interveno correctora do Estado, a teoria da escolha pblica veio clarificar os fracassos do governo e os limites da interveno desse mesmo Estado.

6

concretos, genericamente falando, na democracia representativa o governo

(conjunto constitudo por dois subgrupos interatuantes: os governantes eleitos

periodicamente e os burocratas e tecnocratas detentores de cargos estveis de

carreira, normalmente assumidos por mrito) o grupo-agente e os

cidados/eleitores/contribuintes so o grupo-principal. O governo, tendo poder e

recursos para isso, decide e age na busca do interesse coletivo ou do bem-estar

social ou geral (expresses consagradas pelo uso para dar a noo de um interesse

para alm do individual - do cidado, do governante ou do burocrata/tecnocrata

singularmente considerado). Os cidados, enquanto eleitores, decidem,

periodicamente, quem sero os agentes d