10.1590/s0103-40142017.31890014 Justiça espacial e justiça ... ?· ESTUDOS AVANÇADOS 31 (89), 2017…

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urante os ltimos anos o debate crtico teve a possibilidade de avanar em termos tericos, com alguns resultados aplicados tambm. Talvez por isso assistimos, no sem alguma perplexidade, a reaes agudas do

pensamento conservador, que chegou inclusive s ruas em vrios pases da Am-rica Latina, justamente onde governos progressistas conseguiram, no sem di-ficuldades, gerar algumas aes em prol do combate desigualdade social, com reflexo no espao geogrfico e no acesso aos recursos naturais.

Apesar do retrocesso em curso, fundamental aguar o debate crtico das condies de vida de grande parte da populao mundial. Por isso o objetivo deste artigo realizar uma primeira aproximao entre duas teorias muito em-pregadas em estudos do campo crtico e da busca da mudana social: a justia espacial e a justia socioambiental.

Para tal, ele inicia com uma discusso sobre a justia, parmetro central na argumentao que iguala a todos, ao menos no campo do Direito. Depois, mergulha no urbano contemporneo j que na cidade que a desigualdade es-pacial e socioambiental ganha mais visibilidade, pois a maior parte da populao mundial urbana.

Em seguida, apresenta-se uma reflexo sobre a justia espacial e a justia so-cioambiental, para concluir com aspectos comuns entre essas duas teorias crticas.

JustiaNeste texto no ser focada a definio de justia. Mas ser necessrio re-

cuperar alguns aspectos dessa ideia central na estrutura de direitos da sociedade para se discutir justia espacial e justia socioambiental.

Se verdade que a ideia de justia est entre as mais antigas da tradio ocidental, remontando-se Grcia Antiga, trata-se ainda de um tema que pode ser traduzido como difuso e pouco assimilado no debate contemporneo. Dis-cutir cidadania e acesso a bens, servios, a um ambiente adequado e a uma so-ciedade mais equilibrada em termos de oportunidades passa, necessariamente, pela justia.

Um dos princpios mais fundamentais da justia o princpio da equidade. A Declarao Universal dos Direitos Humanos reafirmou a noo de que todo e

Justia espacial e justiasocioambiental: uma primeira aproximao

DWAGNER COSTA RIBEIRO I

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qualquer ser humano igual por natureza, independentemente de sua condio social e de nascimento. Essa noo pode ser recuperada desde os contratualistas, como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. Para o primeiro, nossa igual-dade gera uma ameaa, posto que engendraria uma desconfiana mtua a partir do potencial de ao conhecido de uma parte pela outra. Ou seja, todos sabem o que o outro pode vir a aplicar em cada situao. Portanto, para Hobbes, pre-ciso uma fora externa que regule esses impulsos, fundamentando desse modo a necessidade do Estado. J Rousseau admite que nossa condio de igualdade est na compreenso do limite do outro, que para ele estabelecido por meio da compaixo ao verificar o sofrimento. Essa seria a medida que iguala os seres hu-manos no planeta. Caberia ao Estado evitar o sofrimento, oferecendo condies semelhantes populao que ele atende em busca de um bem-estar comum.

Mesmo que esses atributos da condio de ser no mundo tenham sido de algum modo traduzidos pelos Direitos Humanos, ainda esto distantes de serem aplicados com equidade. Afinal, diferente do que a Declarao Universal dos Di-reitos Humanos prega, cada indivduo nasce em uma situao particular, dotada de sentido de classe social. Essa situao, muitas vezes agravada por situaes histricas que marcaram ainda mais a desigualdade entre seres humanos, como a escravido, exige que polticas afirmativas sejam aplicadas como alternativa para combater as diferenas. Sem essa forma de compensao, fica difcil alterar a condio social de parcelas expressivas da sociedade de muitos pases, como o caso do Brasil.

A mobilidade social necessria ao menos enquanto existirem grandes desigualdades sociais. A construo de uma maior oportunidade e busca de di-minuio da desigualdade passa tambm pela educao e pela garantia de acesso aos principais meios de formao intelectual, como as universidades pblicas e gratuitas. Sem oferecer acesso educao superior de qualidade fica muito di-fcil encontrar meios de situar-se na disputada situao do mercado de trabalho atual. Alm disso, ela permite incorporar uma interpretao de sua condio de ser no mundo, fundamental para a transformao social.

Outro princpio da justia que muito til na discusso da justia espacial e da justia socioambiental o princpio do bem-estar. A condio de igualdade, como j foi exposto, pela Declarao Universal dos Direitos Humanos remete ao bem-estar de cada indivduo na Terra, ainda que essa condio no tenha uma definio evidente.

Algumas questes podem ser aferidas a partir desse pressuposto. A primei-ra delas justamente a definio de bem-estar. Como definir? Quais parmetros utilizar para enquadrar um povo, uma sociedade?

Um dos aspectos mais controversos dessa discusso remete ao gnero de vida de um grupo social. At que ponto um gnero de vida melhor ou pior que outro? At que ponto um determinado gnero de vida deve ser assimilado como medida para estabelecer o bem-estar da populao em escala planetria?

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Esses temas no so simples de ser abordados. No por acaso existem v-rias mtricas de qualidade de vida. Pensar em um sistema justo que compreenda o bem-estar para a populao mundial exige refletir ao menos nas condies fundamentais de reproduo da vida. Sem ao menos garantir esses aspectos no faz sentido pensar em bem-estar.

Moradia, acesso a gua e a saneamento bsico, acesso a uma alimentao de qualidade, acesso a educao e a trabalho esto entre os itens fundamentais da condio de ser no mundo no sculo XXI. Esse conjunto de condies deter-mina, facilita a convivncia social, causa primeira da reproduo da vida.

Ora, tais condies ainda no esto dispostas a grande parte da populao mundial. Mais que isso, ainda assistimos a eventos que levam degradao das condies de habitabilidade em determinados locais, resultando em injustia socioambiental.

Outra oportunidade que o bem-estar oferece estabelecer comparaes entre distintas unidades territoriais. possvel aferir as condies acima em dife-rentes escalas, como a municipal, de um estado da federao e at entre pases. Essa situao muito relevante na busca da diminuio da desigualdade, pois serve de parmetro a uma condio a ser atingida. A dificuldade consiste em alcanar tal situao sem afetar a diversidade cultural, ou seja, a parametrizao no pode servir para o aniquilamento, para a morte de distintas formas de repro-duo da vida. Tal situao pode ocorrer na vida urbana, forma hegemnica de organizao social no mundo hodierno.

O urbanoNo resta dvida de que a sociedade urbano-industrial em curso gera uma

srie de condies especficas que merecem reflexo. Tal esforo resulta em an-lises que, de um lado, procuram desvendar o ciclo do capital nas reas urbanas (Carlos, 2004) com sua repercusso na organizao espacial e na segregao inerente ao modo capitalista de produo, que, como no poderia deixar de ser, repercute tambm na produo do espao urbano. Como resultado observam--se diversas expresses do acesso desigual cidade, bem como aos equipamen-tos de uso coletivo que ela oferece, alm dos chamados servios urbanos. Essa desigualdade resultado da valorizao diferencial que determinados servios e equipamentos de uso coletivo oferecem s localidades, ou, da valorizao da localidade determinada por sua vizinhana, como ocorre em reas providas de segurana, infraestrutura urbana e reas verdes, por exemplo.

De outro lado, ainda dentro do campo crtico das anlises do fenmeno urbano contemporneo, encontram-se anlises que se baseiam na especulao imobiliria, que resulta em vazios urbanos e em reas sem uso no aguardo da valorizao (Singer, 1973; Santos, 1994). Tais interpretaes auxiliam a com-preender como as cidades se espraiam, resultando em uma mancha urbana dis-forme e desigual, em especial em pases de industrializao tardia, como o caso do Brasil e da ndia, por exemplo, nos quais as cidades ganharam dimenses

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gigantescas, como o caso das megacidades de So Paulo e Rio de Janeiro, no primeiro pas, e Mumbai, Delhi e Calcut, no pas asitico. Nesses pases, em grande parte das cidades o tecido urbano resultado de uma determinao pri-vada, na qual o principal agente da urbanizao o setor imobilirio, cada vez mais articulado ao setor financeiro (Carlos, 2008).

Esse conjunto de possibilidades de interpretao da urbanizao contem-pornea dos pases de industrializao tardia permite ainda reconhecer que a soma desses processos, que no se excluem, mas antes se complementam, re-sulta em reas em que o preo de acesso a moradia elevado, muito maior que a capacidade financeira da ampla maioria da populao. Pressionado pela necessidade de morar, esse contingente populacional se v obrigado a ocupar as chamadas reas de risco, nas quais esto sujeitos tanto a perda de suas vidas e de seus familiares, quanto esto sujeitos a perdas de seus bens materiais, muitas vezes perdidos sazonalmente, ao ritmo das intempries naturais, que somadas vulnerabilidade social resultam em recorrentes a quem tem renda baixa.

As reas de risco so uma expresso tanto da injustia espacial quanto da injustia socioambiental. Elas podem estar localizadas junto aos pontos de alagamentos e de enchentes, bem como em encostas que podem sofrer movi-mentao de massa em caso de chuva intensa e/ou intermitente, popularmente chamadas de deslizamento de terra (Ribeiro, 2010; Gamba; Ribeiro, 2012; Za-nirato; Ribeiro, 2014). Entre as duas modalidades de risco, a primeira mais fre-quente, como bem indica a ocorrncia de desastres no mundo (CRED, 2015).

Como a condio urbana hegemnica no mundo atual,