10.1590/s0103-40142017.3190017 Mário de Andrade e Richard ...· pôr-do-sol que se tomou por uma

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  • ESTUDOS AVANADOS 31 (90), 2017 253

    Im artigo publicado no jornal A Gazeta em 31 de julho de 1919 e dedica-do ao seu professor de piano Giuseppe Wancolle, Mrio de Andrade apre-senta uma leitura sobre a compreenso da expresso msica moderna.

    Reconhecendo diferenas entre escolas nacionais de composio, ele ressalta a relevncia para todas elas do compositor alemo Richard Wagner:

    Sob a influncia poderosa do gnio de Ricardo Wagner modificaram-se todas as escolas musicais; e desde ento, como ningum pudesse, embora afanosamente porfiando, imit-lo, seguindo na pegada do possante refor-mador, cada qual tirou dele mais de um dos seus defeitos e qualidades e todas essas diversas orientaes se classificaram pomposamente de msica moderna. A Frana, por influxo do autor do Parsifal viu nascer DIndy, que deu origem formao da Jeune cole de efmera durao. Desta, e consequentemente de Wagner, surgiram Faur, Debussy, Ravel, Dukas, Ra-baud. Massenet foi o ltimo que explanou as delicadezas do meio-termo que eram as caractersticas da Escola Francesa; quanto a Saint Saens, um homem de outras idades, um clssico que adormecendo nos tempos de Weber e de Gluck acordasse balburdia do mundo hodierno para cantar o Mon coeur souvre a ta voix... do segundo ato de Sanso a mais sublime melodia que explodiu dum corao humano.Ainda sob a influncia wagneriana o gnio de Verdi, transformando-se no que lhe era possvel transformar suas tendncias de melodista admirvel, deu-nos Aida, Otelo e Falstaff, seus trs maiores lavores e os trs maiores orgulhos da Escola Italiana. Ainda Mascagni modificou-se, e foram apare-cendo Boito, Franchetti, Perosi, Zandonai. S Puccini... Mas no falemos em Puccini!Houve quem chegasse a assinar a Wagner a paternidade da Escola Russa. H um exagero manifesto nessa afirmativa, embora a ele se devam as mo-dificaes poderosas por que passaram os artistas russos. A mais moa de todas as escolas musicais talvez a que ainda se poder afirmar que existe; mas em Scriabin, por exemplo, nada ou quase nada reside do fundo po-pular, da dolente nostalgia que do Escola Eslava a aurola de ser a mais amarga e mais humana.

    Mrio de Andradee Richard Wagner na aurorado modernismo paulistaEDUARDO TADAFUMI SATO I

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    Apenas a nsia, j imperialista do autor de Tristo e Isolda que desejara, antes de mais nada, uma escola genuinamente alem, dominadora de todas as outras no se realizou. Poder-se- mesmo dizer que na Alemanha o seu influxo foi antes dispersivo e iconoclasta que gerador e bom. Da espe-rana orgulhosa da escalada, dos cus que nasceram as babis e as lendas dos Tits: modernamente, as duas orgulhosas esperanas de instaurao de uma msica alem dominadora e duma hegemonia militar germnica sobre todas as gentes e civilizaes, ao passo que restaurava as foras adversrias, produzia, aquela, o aniquilamento em que jaz a msica alem, s tendo produzido de grandes Brahms e Strauss, esta, o aniquilamento duma raa que pudera ser grande, mas que est a morrer devorada por suas prprias impulses desvairadas. (Andrade, 1918a, p.1)

    Mrio de Andrade, recm-formado no Conservatrio Dramtico e Musi-cal, onde lecionava histria da msica e piano, escrevia para jornais e revistas so-bre msica e sobre os espetculos realizados na cidade de So Paulo. As leituras que realizava para preparo das suas aulas contribuam para que ele acumulasse um conhecimento musical pouco habitual para aquele momento (Toni, 2013). Ele compreendia a importncia das ideias musicais de Richard Wagner e a forma como essas foram adaptadas por diferentes tradies musicais, mas cujos reper-trios eram pouco executados em So Paulo (Lago, 2010). Mrio entende que nos compositores franceses, a influncia de Wagner se d a partir de Vincent DIndy e da Jeune cole, do mesmo modo que a pera italiana se transforma na obra tardia de Giuseppe Verdi devido a essa mesma influncia. Apesar disso, aponta tambm a existncia de excees a essas propostas, como Camille Saint Saens e Giacomo Puccini, respectivamente. Ele critica a ideia de um protago-nismo wagneriano na escola russa, ainda que reconhea a importncia de sua influncia. Em relao escola alem, Mrio aponta o fracasso do projeto de Wagner de erigir uma hegemonia germnica na msica, relacionando-o com a derrota militar na recm-encerrada Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a realizao de um diagnstico sobre o estado do desenvolvimento musical aps o conflito, Mrio apresenta essa situao de disperso, na qual a todas essas dife-rentes propostas se pode atribuir o adjetivo de moderno.

    Em artigo do dia seguinte que recebe o mesmo ttulo, Para Giuseppe Wancolle, Andrade (1918b) retoma o tema da msica moderna a partir de ou-tra perspectiva, ao apresentar o relato do compositor francs Camille Saint-Saens sobre a pea musical chamada Cavaleiro Verde realizada por clube bomio ligado ao desenvolvimento do drama lrico, localizado na Califrnia. Assim pro-cede com o intuito de demonstrar que no pelo desejo de rebuscas esquisitas e de originalidade (ibidem) que se funda a msica moderna. Utilizando-se de uma ideia remanescente romntica que a figura do gnio, Mrio afirma que esses seriam originais como consequncia de fatores da sua personalidade e no devido a formulaes tericas e estticas singulares. Apresenta, assim, o caso de Claude Debussy:

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    Se Debussy soube ser original e fantasista porque no foram estes os seus desgnios, antes qualidades inatas no seu estranho temperamento artstico. [...] Debussy, libertado de todas as regras que lhe impediam o desenvol-vimento das largas alas, soube ser verdadeiramente grande, legando aos musicistas uma fortuna de joias inconfundveis. (Ibidem)

    O compositor francs entendido como exemplo desse tipo de gnio por transportar traos de sua personalidade sua obra de maneira original. Essa concepo encontra eco na comparao realizada com Wagner, e est ligada percepo de que ambos os compositores no formaro escolas. Baseando-se em livro de Octave Sre, Mrio afirma que, mesmo que a msica de Debussy tenha esgotado nas suas obras os recursos que lhe auferiam os seus processos harmnicos, no encontrar uma continuidade por no representar os senti-mentos fortes que se originam da vida (ibidem), sendo incapaz de expressar adequadamente as circunstncias da vida moderna, com o sistema omnitnico. Como se Mrio adiantasse uma intuio sobre a necessidade de um papel do primitivismo para a expresso moderna, no v desenvolvimentos vista a partir dos desdobramentos expressivos do compositor francs.

    Nesses breves textos, os argumentos que Mrio de Andrade apresenta so-bre os desenvolvimentos da msica moderna so ainda incipientes. So poucos os termos tcnicos ou formais utilizados para explicar as mudanas estticas, o que no significa nem que o escritor no dominasse tais contedos, nem que se posicionasse a favor de uma ausncia de rigor. Aproveitava o espao cedido nas pginas do jornal para divulgar suas ideias sobre a msica, nos momentos em que no exercia a funo mais pragmtica de escrever crticas musicais logo aps a realizao de recitais e concertos. Poucos anos depois, dotado de maior reconhecimento, e de mais espao para desenvolver suas ideias, apresenta con-ferncia na Vila Kyrial, crculo intelectual ao qual comea a adentrar no ltimo ano dcada de 1910, chamada Debussy e o impressionismo. Alm de apresen-tar um paralelo com as artes plsticas e de buscar mostrar o que significava um impressionismo na msica, Mrio dedica parte do seu discurso para estabelecer e ampliar o seu vnculo com Richard Wagner e expor sua compreenso sobre o papel do compositor alemo na histria da msica. Ao se perguntar sobre quais seriam as influncias de Debussy, responde nenhuma francesa ou de msica executada na Frana at ento, e reconhece a antecedncia wagneriana mesmo que como um esforo de reao, ao qual conclui em palavras diretas:

    Debussy no existiria se no existisse Wagner. A politonalidade do autor dos Noturnos no uma flor de raro perfume, nascida por gerao espon-tnea: jamais abrolharia sem o cromatismo fecundo do Tristo. (Andrade, 1993, p.103)

    Finaliza sua apresentao da importncia do compositor alemo realizan-do um paralelo com a histria poltica:

    A reforma wagneriana uma espcie de revoluo francesa musical. 1865,

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    data do Tristo e Isolda o 89 da histria da msica. O seu influxo foi unnime, mundial; e talvez mesmo mais eficaz naqueles que contra ele re-agiram. (Ibidem)

    Ao mesmo tempo, todavia, Mrio expe o esgotamento da harmonia to-nal a partir do cromatismo como recurso levado ao limite por Wagner, que consegue retirar o limite de expressividade a partir da ideia de leitmotif. Conclui, concordando com a famosa afirmao de Debussy: Wagner foi um esplndido pr-do-sol que se tomou por uma aurora. Essa frmula aceita para Mrio como aplicvel a ambos os compositores: Wagner explora a limites extremos as melhores realizaes da sua proposta esttica; Debussy pela difaneidade e flexibilidade dos exemplos que apresentou. Para o poeta, porm, no fazer es-cola no significa no ter influncia, j que ambos podem ser entendidos como fundamentais para os futuros desenvolvimentos harmnicos na msica.

    As leituras que Mrio de Andrade apresenta acerca de Richard Wagner ressaltam a existncia de um projeto esttico bem acabado e realizado, porm sem uma continuidade possvel a no ser a partir de oposies e crticas, enten-dimento que semelhante ao modo como caracteriza a poesia de Olavo Bilac no Prefcio interessantssimo:

    Explica-se historicamente o seu defeito: Tarde um apogeu. As decadn-cias vm depois dos apogeus. O apogeu j decadncia, porque no pode conter em si um progresso, uma evoluo ascensional. Bilac apresenta uma fase destrutiva da poesia; porque toda perfeio em arte significa destrui-o. (Andrade, 2013, p.70-1)

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