12. A homossexualidade no Brasil no século XIX

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    Adailson MoreiraProfessor Assistente do Departamento de Cincias Sociais

    da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)Graduado em Direito e Psicologia

    adailsonsm@hotmail.com

    Homosexuality in the Nineteenth Century

    A homossexualidade no Brasil no sculo XIX

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    Resumo

    O sculo XIX marcou de forma profunda a sociedade brasileira ao promover mudanas

    estruturais de grande envergadura. As prticas e os hbitos sociais foram objetos de

    ateno das cincias, que se voltaram com o propsito de compreend-los, estud-los e

    control-los, fazendo emergir as categorias de normalidade/anormalidade,

    especialmente no campo sexual. Neste, o tema da homossexualidade ganhou destaque

    quando surgiram pesquisas mdico-cientficas procurando nomear e classificar as

    variaes sexuais, logo marcadas e rotuladas como desvios ou patologias.

    Palavras-chave: Homossexualidade. Repblica. Teorias Higienistas.

    Heteronormatividade.

    Abstract

    The nineteenth century marked profoundly the Brazilian society by promoting major

    structural changes. The practices and social habits were pointed as subject of attention

    of Sciences, who turned in order to understand them, study them and control them,

    making the categories of normality/abnormality come out, especially in the sexual field,

    and from this on, the theme homosexuality has gained prominence, when they began

    looking for medical-scientific names and classifications for sexual variations, then

    marked and labeled as deviations or pathologies.

    Key-words: Homosexuality. Republic. Hygienists Theories. Heteronormativity.

  • Introduo

    O sculo XIX marcou profundamente os destinos e costumes do povo

    brasileiro. Num mesmo sculo, o pas deixou de ser colnia (1822), passou por

    dois reinados e um perodo regencial e ingressou na Repblica (1889). Alm

    disso, sofreu grandes e importantes transformaes ao abandonar seu passado

    escravocrata, por meio das vrias leis, tais como a Lei do Ventre Livre (1871), a

    Lei dos Sexagenrios (1885) e, finalmente, a Lei urea (1888).

    Ao proclamar sua independncia de Portugal em 1822, o

    Brasil herdou uma tradio cvica pouco encorajadora. Em

    trs sculos de colonizao (1500-1822), os portugueses

    tinham construdo um enorme pas dotado de unidade

    territorial, lingustica, cultural e religiosa. Mas tinham

    tambm deixado uma populao analfabeta, uma

    sociedade escravocrata, uma economia monocultora e

    latifundiria, um Estado absolutista (CARVALHO, 2008a,

    p. 17-18).

    O pensamento social republicano herdeiro da sociedade imperial,

    que contribuiu para uma Repblica formada por uma massa analfabeta e

    miservel (MISKOLCI, 2004, p. 189).

    A elite imperial era um poderoso grupo responsvel pela unificao

    ideolgica do pas por meio da educao superior, que se concentrava

    basicamente na formao jurdica (Universidade de Coimbra), e, em

    consequncia, formava um ncleo relativamente homogneo de

    conhecimentos e habilidades semelhana de uma ilha de letrados num mar

    de miserveis e analfabetos (CARVALHO, 2008b, p. 65), que no se

    interessavam, ou estavam impedidos de acesso ao universo da poltica.

    Com a Repblica, a situao no mudou muito. A poltica adotada pelo

    governo portugus nunca permitiu a instalao de estabelecimentos de ensino

    superior nas colnias (CARVALHO, 2008b, p. 69). Assim procedendo, a Coroa

    portuguesa visava manuteno da hegemonia poltica da elite, j que todos os

    que tinham condies financeiras estudavam em universidades europeias. Essa

    situao somente se alterou com a chegada da Corte em 1808, quando foram

    criadas vrias escolas de ensino superior. Contudo, as escolas dedicadas

    explicitamente formao das elites polticas (Direito, Medicina e Engenharias)

    apenas surgiram aps a Independncia (CARVALHO, 2008b, p. 74).

    Se no Imprio vigorava uma forma de lidar com a populao

    baseada na pura e simples brutalidade, o que a instituio da

    escravido corroborava, na Repblica, e sob o regime do

    255Adailson Moreiran. 07 | 2012 | p. 253-279

  • trabalho assalariado, as elites intelectuais depararam-se com

    um paradoxo maior: como incorporar ao novo regime poltico

    essa massa de desvalidos? (MISKOLCI, 2004, p. 189).

    Essa massa de desvalidos, de analfabetos, era alheia a qualquer ato ou

    acontecimento poltico. Um exemplo marcante dessa passividade foi o episdio

    da proclamao da Repblica, no qual no houve participao popular,

    contrariando o iderio republicano do povo como protagonista dos

    acontecimentos (CARVALHO, 2005, p. 9).

    A indiferena do povo impressionou diversos intelectuais, na poca. A

    carta de Aristides Lobo, publicada no Dirio Popular de So Paulo, em 18 de

    novembro de 1889, ilustra essa impresso: o povo assistiu quilo bestializado

    [...], sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar

    vendo uma parada (NUNES; MENDES, 2008, p. 92).

    O povo jamais exerceu seu papel de protagonista. Assistia aos fatos

    polticos entre surpreendido e indiferente. Os acontecimentos polticos eram

    representaes em que o povo comum aparecia como espectador ou, no

    mximo, como figurante (CARVALHO, 2005, p. 163).

    Trata-se de um perodo de crise generalizada na sociedade brasileira, de

    mudanas estruturais profundas nas polticas de domnio sobre os

    trabalhadores (CHALHOUB, 1994, p. 16). Era um momento em que todas as

    estruturas e camadas sociais estavam se organizando, se estruturando para a

    existncia republicana. O momento histrico, portanto, propcio ao surgimento

    de novos e alternativos modos de vida (NUNES; MENDES, 2008, p. 87).

    Esses novos modos alternativos de vida no se fizeram esperar. De

    novo, contudo, somente as designaes cientficas. Os hbitos e as prticas

    eram os mesmos desde sempre, mas os olhares atentos das cincias se

    voltavam para eles na inteno de compreend-los, estud-los e control-los. O

    que antes era apenas uma faceta do comportamento humano, passou a ser

    enquadrado nas categorias de normalidade/anormalidade, como valores em

    oposio, tornando-se, no sculo XIX, uma espcie de dogma cientificamente

    garantido (CANGUILHEM, 2010, p. 13).

    As prticas sexuais passaram dos domnios da religio para os da

    cincia, com sua postura higienista. Dentre estas, as prticas entre pessoas do

    mesmo sexo deixaram de ser meras prticas e foram designadas de

    homossexualismo. Essas pessoas se transformaram em uma espcie

    (FOUCAULT, 1984a) e passaram tutela da cincia mdica, para curar, e da

    jurdica, para punir, em caso de resistncia e reincidncia.

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  • Ilustrando esse processo de mudana social, a literatura produziu

    obras segundo essas concepes, j que os estudos literrios sempre se

    enriqueceram com o intercmbio disciplinar (BULHES, 2003, p. 13).

    O tema da homossexualidade bastante antigo, at a narrativa bblica

    traz relatos desse comportamento. No entanto, a preocupao com essa

    identidade sexual somente ganha realce no final do sculo XIX, quando surgiram

    pesquisas mdico-cientficas procurando nomear e classificar as variantes

    sexuais, logo rotuladas como desvios ou patologias (OLIVA, 2002, p. 15).

    Nesse perodo, a literatura desenvolveu pretenses de ser uma forma

    de conhecimento. Assim, surgiu, por exemplo, o romance Bom-Crioulo,

    publicado em 1895, que traz todos esses elementos ao narrar, de forma

    detalhada, a ligao entre dois oficiais da marinha brasileira, numa narrativa

    naturalista, privilegiando a cincia, o progresso e a verdade, segundo os

    preceitos da poca. Nervosos e agitados, os personagens naturalistas,

    exagerados ou no, revelam aos leitores e sociedade do final do sculo 19 os

    perigos e mistrios da sexualidade (MENDES, 2000, p. 23).

    Sociedade e Literatura

    Foi no cenrio social em convulso que se deu a chegada das teorias

    cientficas, dentre elas, as teorias evolucionistas e positivistas. Segundo Lara

    (2008, p. 88), [...] sua retrica foi empregada tanto por crticos sociais

    reformistas, como por elaboradores da ideologia oficial ao longo da Primeira

    Repblica, provocando mudanas sociais significativas.

    Conforme essas teorias, o homem chegou ao progresso ao atingir uma

    escala superior da evoluo, conseguindo dominar, dentro de certos limites, o

    conjunto de foras que rege o seu corpo (fsica, intelectual, sexual etc.) e a

    sociedade (MORANDO, 2002, p. 132-133).

    As concepes surgidas nesse perodo abrangem toda uma ideologia

    mdico-higienista produzida pelos avanos tecnolgicos, na maioria das vezes,

    corroborando preconceitos ou simpatias sociais. Expoente do

    desenvolvimento e progresso desejados pela burguesia, a medicina avanou e

    penetrou tanto em sentido vertical quanto em sentido horizontal no espectro

    social (QUEIROZ, 1992, p. 18).

    No mbito das cincias mdicas, a sexualidade teve especial

    destaque, acompanhada de preconceitos, medos, crenas e dogmas do

    passado. Do universo da sexualidade, emerge uma srie de prticas

    257Adailson Moreiran. 07 | 2012 | p. 253-279

  • consideradas antinaturais, aberraes as mais extravagantes, que afetam no

    somente a vida, a honra e a liberdade de suas infelizes vtimas, como tambm

    comprometem a segurana social (CASTRO, 1943, p. 5).

    Desse universo de aberraes, podem-se destacar os exibicionistas, os

    necrfilos, os stiros, os sdicos, as prostitutas, o