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    hipoteca judiciria e proteSto da deciSo judicial no Novo CPC e SeuS impactoS no

    ProceSSo do Trabalho

    lisson Miessa1

    SUMRIO: 1. INTRODUO; 2. HIPOTECA JUDICIRIA; 2.1. QUADRO COMPARATIVO; 2.2. DEFINIO DO INSTITUTO; 2.3. O QUE MUDOU COM O NOVO CPC; 2.4. APLICAO NO PROCESSO DO TRABALHO; 3. PROTESTO; 3.1. QUADRO

    COMPARATIVO; 3.2. DEFINIO DO INSTITUTO; 3.2.1. PROTESTO DE DECISO INTERLOCUTRIA; 3.3. APLICAO NO

    PROCESSO DO TRABALHO; 4. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS.

    1. INTRODUO

    O atual estudo do Processo Civil marcado pelo enfoque do acesso justia. Dessa forma, nas ltimas dcadas, principalmente a partir de 1965, tornou-se papel de destaque o modo de efetivao dos direitos. Nesse sentido, Mauro Ca-pelletti e Bryant Garth destacam trs ondas renovatrias da teoria do acesso efetivo Justia2.

    A primeira onda consistiu na ampliao da assistncia judiciria fornecida aos menos favorecidos financeiramente. Nesse sentido, os autores salientam que diversos pases adotaram, como primeiros esforos concretizao do acesso justia, programas com o objetivo de proporcionar servios jurdicos aos hipossuficientes. No Brasil, destaca-se o benefcio da justia gratuita conce-dida s pessoas que no tenham condies de arcar com as despesas processu-ais, em razo de sua miserabilidade.

    A segunda onda compreendeu os esforos na soluo dos problemas rela-cionados representao dos interesses difusos, os quais no possuem titula-ridade identificvel. Desse modo, foram necessrios mecanismos processuais que fossem capazes de tutelar direitos que no correspondessem apenas s controvrsias entre duas partes a respeito de seus interesses individuais, mas

    1 Procurador do Trabalho. Professor de Direito Processual do Trabalho do curso CERS on line. Autor e Coordenador de obras relacionadas seara trabalhista, dentre elas: Smulas e Orientaes Jurispru-denciais comentadas e organizadas por assunto; Recursos Trabalhistas, ambas publicadas pela editora jusPodivm.

    2 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso Justia. Traduo de Ellen Gracie Northfleet. Porto Ale-gre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1988.

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    sim que atendessem coletividade. Essa segunda onda teve influncia nas di-versas leis relacionadas ao processo coletivo, como, por exemplo, a Lei da Ao Civil Pblica (Lei n 7.347/85).

    O terceiro movimento renovatrio compreendeu a efetividade e o resulta-do do processo, ou seja, consistiu em uma concepo mais ampla do acesso justia. A terceira onda de reforma, de acordo com os autores, incluiria todo o conjunto institucional e procedimental utilizados no processo com o princi-pal objetivo de satisfazer o jurisdicionado. Observa-se que as ltimas reformas ocorridas no processo civil tiveram como objetivo a concretizao da efetivida-de e do resultado no processo civil, idealizando, portanto, essa terceira onda.

    Nesse mesmo sentido, o Novo Cdigo de Processo Civil buscou, por meio da adoo de diversos instrumentos, dar maior efetividade ao processo. Como exem-plo, podemos citar o princpio da cooperao (art. 6) que representa a necess-ria cooperao do juiz e das partes para facilitar a obteno de um processo mais justo e efetivo. Tambm pode ser destacada a valorizao das tcnicas de auto-composio na resoluo dos conflitos (art. 3), a tutela provisria, dentre outros.

    Ademais, conforme ser demonstrado a seguir, os instrumentos da hipoteca judiciria e do protesto da deciso judicial tambm podem reforar os objetivos dessa terceira onda renovatria do acesso justia, possibilitando maior efeti-vidade do processo judicial.

    Cumpre destacar, de plano, que o Novo Cdigo de Processo Civil somente entrar em vigor aps o perodo de vacatio legis de um ano aps sua publicao oficial.

    2. HIPOTECA JUDICIRIA

    2.1. QUADRO COMPARATIVO

    Lei n 5.869/73 (CPC) Lei n 13.105/15 (Novo CPC)

    Art. 466. A sentena que condenar o ru no pagamento de uma prestao, consistente em dinheiro ou em coisa, valer como ttulo constitutivo de hipoteca judiciria, cuja ins-crio ser ordenada pelo juiz na forma pres-crita na Lei de Registros Pblicos.

    Pargrafo nico. A sentena condenatria produz a hipoteca judiciria:

    I - embora a condenao seja genrica;

    II - pendente arresto de bens do devedor;

    III - ainda quando o credor possa promover a execuo provisria da sentena.

    Art. 495. A deciso que condenar o ru ao paga-mento de prestao consistente em dinheiro e a que determinar a converso de prestao de fazer, de no fazer ou de dar coisa em pres-tao pecuniria valero como ttulo constitu-tivo de hipoteca judiciria.

    1 A deciso produz a hipoteca judiciria:

    I embora a condenao seja genrica;

    II ainda que o credor possa promover o cum-primento provisrio da sentena ou esteja pen-dente arresto sobre bem do devedor;

    III mesmo que impugnada por recurso do-tado de efeito suspensivo.

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    hipoteca judiciria e protesto da deciso judicial no novo cpc e seus impactos no processo...

    Lei n 5.869/73 (CPC) Lei n 13.105/15 (Novo CPC)

    2 A hipoteca judiciria poder ser realizada mediante apresentao de cpia da sentena perante o cartrio de registro imobilirio, inde-pendentemente de ordem judicial, de decla-rao expressa do juiz ou de demonstrao de urgncia.

    3 No prazo de at 15 (quinze) dias da data de realizao da hipoteca, a parte inform-la- ao juzo da causa, que determinar a intimao da outra parte para que tome cincia do ato.

    4 A hipoteca judiciria, uma vez constituda, implicar, para o credor hipotecrio, o direito de preferncia, quanto ao pagamento, em re-lao a outros credores, observada a prioridade no registro.

    5 Sobrevindo a reforma ou a invalidao da deciso que imps o pagamento de quantia, a parte responder, independentemente de culpa, pelos danos que a outra parte tiver sofri-do em razo da constituio da garantia, deven-do o valor da indenizao ser liquidado e execu-tado nos prprios autos (grifos nossos).

    2.2. DEFINIO DO INSTITUTO

    A hipoteca representa um direito real de garantia sobre coisa alheia, permi-tindo que um bem pertencente ao devedor possa assegurar o cumprimento de obrigao pecuniria.

    H no ordenamento jurdico ptrio, quatro espcies de hipoteca: conven-cional, legal, cedular e judiciria. Em todos os tipos de hipoteca, necessrio que ela seja registrada na matrcula do bem hipotecado para que seja oponvel contra terceiros (princpio da publicidade). Portanto, hipoteca no registrada hipoteca no existente3.

    A hipoteca judiciria, prevista no art. 167, I, 2, da Lei n 6.015/1973 (Lei de Registros Pblicos) e estabelecida no art. 466 do CPC/73, corresponde a um dos principais efeitos secundrios da sentena condenatria. Referido instituto, no atual cdigo, possui como finalidade garantir o xito da futura execuo de sentenas que tenham por objeto o pagamento de quantia ou a entrega de coisa evitando, especialmente, a fraude execuo.

    3 Lacerda de Almeida apud TARTUCE, Flvio. Manual de Direito Civil volume nico. Rio de Janeiro: Forense; So Paulo: MTODO, 2011. p. 955.

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    De acordo com grande parte da doutrina, em razo de corresponder a um dos efeitos anexos da sentena condenatria, a hipoteca judiciria no repre-senta uma faculdade das partes, mas decorre de forma automtica. No neces-srio, portanto, que a hipoteca judiciria esteja expressa na sentena nem que haja deciso posterior que a defira, no sendo nem mesmo necessrio o prvio requerimento da parte interessada. Em razo disso, os autores Maral Justen Filho, Egon Bockmann Moreira e Eduardo Talamini concluem que o fato gera-dor da hipoteca judiciria no o pedido da parte ou a deciso do juiz, mas a existncia ftica de uma sentena condenatria.4 Nas palavras do doutrinador Cndido Rangel Dinamarco:

    No incomum a lei instituir certos efeitos externos que acompanharo as sentenas, independentemente de a respeito haverem as partes feito qual-quer pedido e mesmo de ter havido uma explcita manifestao do juiz ao qual no sequer lcito negar tais efeitos externos, por acima de seu poder est a lei que os institui. Esses so os efeitos secundrios da sentena, em oposio aos efeitos principais, ou primrios, que so necessariamente ex-plcitos e dependem de prvio pedido em regular demanda. A sentena , para os efeitos que a lei lhe agrega, tomada como mero fato jurdico (Enzo Enriques). grifos no original5

    Em outras palavras, possvel dizer que a hipoteca judiciria no depende de prvio requerimento das partes ou at mesmo da discricionariedade do juiz, uma vez que decorre da publicao de sentena condenatria. Desse modo, o ato do juiz que determina a inscrio da hipoteca judiciria manifesta-se apenas por mero despacho, no havendo cunho decisrio6.

    Ademais, embora no processo do trabalho os recursos tenham efeito mera-mente devolutivo (CLT, art. 899), no h diferenas prticas em razo de a sen-tena estar ou no sujeita a recurso com efeito suspensivo, considerando que a hipoteca judiciria decorre automaticamente da sentena condenatria. Para Justen Filho, Moreira e Talamini, a hipoteca judiciria pode ocorrer mesmo no caso de interposio de recurso com efeito suspensivo7. Nesse mesmo sentido, Fredie Didier acredita que o recurso com efeito suspensivo apenas suspende os efeitos principais da sentena, no atingindo seus efeitos secundrios, como o caso da hipoteca judiciria8.

    4 JUSTEN FILHO, Maral; MOREIRA, Egon Bockmann; TALAMINI, Eduardo. Sobre a Hipoteca Judiciria. Disponvel em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/197/r133-09.PDF?sequence=4. Acesso em: 19 fev. 2015.

    5 DINAMARCO, Cndido Rangel. Instituies de Direito Processual Civil: vol III. 6 ed. Malheiros Editores Ltda, 2009, p. 212.

    6 DIDIER JR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de Direito Processual Civil: volume 2. 8.ed. Salvador: Editora JusPodivm, 2013, p. 413.

    7 JUSTEN FILHO, Maral; MOREIRA, Egon Bockmann; TALAMINI, Eduardo. op. cit.

    8 DIDIER JR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. op cit., p. 414.

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    Cumpre esclarecer que, como visto, a hipoteca representa um direito real de garantia. Dentre as principais caractersticas dos direitos reais, cabe destacar o direito de sequela e o direito de preferncia.

    O primeiro corresponde aderncia do direito real coisa, possibilitando que o titular do direito real possa perseguir o bem independentemente de este estar com terceiros e de onde esteja localizado. Exemplificando: Empregado A registra sentena condenatria proferida em face da empresa B, hipotecando o imvel Y. Caso a empresa B venha a alienar o aludido bem em favor de C, antes de realizar o pagamento da deciso judicial, esta alienao ser ineficaz em re-lao ao empregado A, possibilitando a execuo do bem.

    O direito de preferncia, por sua vez, confere quele que tem garantia real pre-ferncia no pagamento em relao aos outros credores, ressaltando que essa pre-ferncia apenas em relao ao produto da venda do bem dado em garantia real9.

    Alguns autores, nos dias atuais, sustentam que, na hipoteca judiciria, ape-nas se verifica o direito de sequela, inexistindo o direito de preferncia. Nesse sentido, Humberto Theodoro Junior, ao destacar os ensinamentos de Amlcar de Castro, salienta que a hipoteca judiciria possui como objetivos a preveno de fraudes e no a constituio de preferncia ao credor 10. Esse era o entendimen-to expresso no art. 824 do Cdigo Civil de 191611.

    Entretanto, considerando que referido dispositivo no foi includo no Cdi-go Civil de 2002, parte da doutrina passou a sustentar que a hipoteca judiciria, alm do efeito de sequela tambm gera o direito de preferncia ao credor, apli-cando-se o disposto no art. 1.422 do CC/0212:

    Art. 1.422. O credor hipotecrio e o pignoratcio tm o direito de executar a coisa hipotecada ou empenhada, e preferir, no pagamento, a outros credo-res, observada, quanto hipoteca, a prioridade no registro.

    Cabe ressaltar que, mesmo perante a vigncia do Cdigo Civil de 1916, al-guns autores j destacavam o direito de preferncia no instituto da hipoteca judiciria, considerando as disposies do Cdigo de Processo Civil de 197313.

    Outra discusso doutrinria, no atual cdigo, diz respeito s decises que permitem a hipoteca judiciria, uma vez que o artigo 466 do CPC apenas pre-

    9 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil: volume 5 Reais. 9 ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2013, p. 864.

    10 THEODORO JNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil Teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento vol. 1. Rio de Janeiro: Forense, 2013, p. 564.

    11 Art. 824. Compete ao exeqente o direito de prosseguir na execuo da sentena contra os adquirentes dos bens do condenado; mas, para ser oposto a terceiros, conforme valer, e sem importar preferncia, depende de inscrio e especializao.

    12 DIDIER JR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. op. cit., p. 414.

    13 JUSTEN FILHO, Maral; MOREIRA, Egon Bockmann; TALAMINI, Eduardo. op. cit.

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    lisson miessa

    via o mencionado instrumento nas sentenas condenatrias ao pagamento de quantia ou para a entrega de coisa. O Cdigo Civil de 1916, entretanto, dispunha que qualquer obrigao poderia ser convertida em pecnia14, o que permitiu que a interpretao quanto ao cabimento da hipoteca judiciria fosse realizada de forma ampliativa, abrangendo as obrigaes de pagar quantia, entregar coisa e fazer e no-fazer.

    Em sentido oposto, todavia, considerando o cumprimento especfico das obrigaes de fazer, no fazer e de dar coisa, Fredie Didier leciona: parece que a interpretao do art. 466 do CPC deve ser mais restritiva: a hipoteca judiciria efeito anexo da deciso que certifica um direito ao pagamento de quantia e s.15 Isto porque, o objetivo da hipoteca judiciria a constrio sobre o bem para que este, posteriormente, possa ser alienado em hasta pblica, satisfazen-do o credor. Como exceo, admite-se a aplicao dos institutos nas obrigaes de fazer, no fazer e de dar coisa quando estas forem convertidas em perdas e danos, seja por impossibilidade de seu cumprimento na forma especfica, seja por requerimento do credor, nos termos do artigo 461, 1 do CPC.

    Para Theodoro Junior, a hipoteca judiciria no depende de uma sentena tipicamente condenatria, podendo ser deferida em sentenas declaratrias ou constitutivas sempre que nelas se der o acertamento da existncia de obrigao cuja prestao seja a entrega de coisa ou o pagamento de soma de dinheiro16.

    Por fim, vlido destacar que o princpio da proporcionalidade estabelece que caso haja diversos bens, deve ser hipotecado aquele cujo valor mais se aproxime do total da condenao ou, caso os valores sejam prximos, deve ser hipotecado o bem oferecido pelo devedor17. Deve-se tambm levar em considerao que a hi-poteca somente poder recair sobre bens penhorveis. Nesse sentido, Theodoro Junior assevera que o STJ j decidiu que a impenhorabilidade do bem de famlia impede que sobre ele seja constituda a hipoteca judiciria, mesmo porque, em caso contrrio, a hipoteca judiciria no alcanaria seu objetivo de garantia ao credor, uma vez que no seria permitida a futura expropriao desse bem18.

    2.3. O QUE MUDOU COM O NOVO CPC

    O Novo Cdigo de Processo Civil ampliou a disciplina jurdica da hipoteca judiciria e solucionou diversas controvrsias doutrinrias. O instituto passou a ser disciplinado pelo art. 495 do novo diploma legislativo.

    14 Art. 1.534. Se o devedor no puder cumprir a prestao na espcie ajustada, substituir-se- pelo seu valor, em moeda corrente, no lugar onde se execute a obrigao.

    15 DIDIER JR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. op cit., p. 412.

    16 THEODORO JNIOR, Humberto. op. cit., p. 565.

    17 NEVES, Douglas Ribeiro. Hipoteca Judiciria. Dissertao (Mestrado em Direito) Faculdade de Direito, Universidade de So Paulo, So Paulo, 2011, p. 59.

    18 THEODORO JNIOR, Humberto. op. cit., p. 564.

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    hipoteca judiciria e protesto da deciso judicial no novo cpc e seus impactos no processo...

    O caput do artigo, com a nova redao, passou a dispor que a hipoteca judi-ciria ser constituda pela deciso que condenar o ru ao pagamento de pres-tao consistente em dinheiro e a que determinar a converso de prestao de fazer, de no fazer ou de dar coisa em prestao pecuniria.

    Inicialmente, observa-se a utilizao do termo deciso e no mais do ter-mo sentena. Destaca-se ainda que todo o dispositivo referiu-se deciso, com exceo do 2 que ainda utilizou o termo sentena. Ao realizar essa alterao, nos parece que o legislador teve como objetivo elevar a hipoteca judiciria no somente s sentenas condenatrias, como aos acrdos, s decises monocr-ticas e tambm s decises interlocutrias suscetveis de execuo de quantia certa, como o caso da tutela antecipada. Dessa forma, parece ter ocorrido uma falha tcnica no tocante ao 2 do artigo 495 do NCPC.

    certo que a hipoteca judiciria sempre foi vista como um efeito secundrio da sentena. Contudo, a criao deste instituto anterior existncia da tutela antecipada que passou a dar uma nova faceta s decises interlocutrias, pos-sibilitando, inclusive, sua execuo e, no Novo CPC, a formao de coisa julgada em alguns casos, vez que a deciso interlocutria tambm pode ser uma deciso de mrito.

    Com efeito, mesmo que no tenha sido o objetivo do legislador inserir a hipoteca judiciria como efeito das decises interlocutrias, a leitura do dis-positivo permite que seja feita essa interpretao ampliativa, possibilitando a hipoteca judiciria tambm das decises interlocutrias.

    A partir do caput, percebe-se ainda que a discusso no tocante s decises que possibilitam a hipoteca judiciria foi solucionada com o novo dispositivo, seguindo o entendimento que j era majoritrio na doutrina de que a hipoteca judiciria decorrente das decises condenatrias ao pagamento de quantia e das decises que convertem as obrigaes de fazer, de no fazer ou de dar coisa em prestao pecuniria.

    Nos mesmos moldes do pargrafo nico do artigo 466 do CPC, o NCPC, no 1 do art. 495, estabelece que a hipoteca judiciria decorre tambm das sen-tenas condenatrias genricas (sentenas ilquidas ou sem a exata individua-lizao do objeto), pendentes de arresto do devedor e ainda quando o credor possa promover a execuo provisria da sentena. Entretanto, pacificando o entendimento doutrinrio j mencionado, determinou que a hipoteca judiciria subsiste mesmo no caso de a deciso ter sido impugnada por recurso dotado de efeito suspensivo.

    Com o objetivo de obter maior efetividade na utilizao da hipoteca judici-ria, o NCPC inovou no 2 do art. 495 ao dispor que a hipoteca judiciria poder ser realizada mediante a apresentao de cpia da sentena perante o cartrio de registro imobilirio, independentemente de ordem judicial, de declarao

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    expressa do juiz ou de demonstrao de urgncia. Dessa forma, no h mais a necessidade de despacho ordenado pelo Juiz na forma prescrita na Lei de Regis-tros Pblicos, como disposto no caput do art. 466 do CPC.

    Observa-se que, diferentemente das demais disposies do artigo 495 do NCPC, o 2 faz referncia cpia da sentena. Entretanto, conforme j expli-cado, a melhor interpretao ao dispositivo possibilita a hipoteca judiciria tambm das decises interlocutrias. Assim, a inscrio da hipoteca judiciria poder ser realizada pela prpria parte interessada, bastando a apresentao de cpia da sentena ou da deciso no cartrio de registro de imveis.

    Outra inovao trazida pelo NCPC corresponde ao fato de que, aps a reali-zao da hipoteca, a parte dever inform-la ao juzo da causa, no prazo de 15 dias, para que a outra parte tome cincia do ato (art. 495, 3).

    O NCPC inovou ainda na redao do 4 do artigo 495 que solucionou a divergncia doutrinria quanto gerao do direito de preferncia do credor hipotecrio, solucionando, por fim, o impasse causado pelo art. 824 do CC/16. Estabeleceu, assim, que a hipoteca judiciria assegura tambm o direito de pre-ferncia sobre o bem.

    O 5 do artigo 495 do NCPC instituiu a responsabilidade objetiva da par-te beneficiada pela hipoteca judiciria no caso de reforma ou invalidao da deciso que imps o pagamento de quantia. No tocante referida disposio, devem ser realizadas algumas observaes. O 5 abrange apenas as situaes de execuo provisria, pois versa sobre a reforma ou invalidao da deciso, objetivos primordiais dos recursos. Dessa forma, no nos parece adequado que eventual ao rescisria que altere a sentena condenatria imponha a respon-sabilidade objetiva parte beneficiada pela hipoteca judiciria, tendo esta ocor-rida durante execuo definitiva.

    2.4. APLICAO NO PROCESSO DO TRABALHO

    A hipoteca judiciria no possui previso especfica na legislao trabalhis-ta. Entretanto, em decorrncia do artigo 15 do Novo Cdigo de Processo Civil que estabelece sua aplicao supletiva e subsidiria ao processo do trabalho, re-ferido instrumento passar a ser indiscutivelmente admitido na seara trabalhis-ta. Cabe destacar que a aplicao supletiva corresponde utilizao do Cdigo de Processo Civil quando a legislao trabalhista no abordar de forma comple-ta determinado instituto. J a aplicao subsidiria relaciona-se aplicao do CPC quando houver lacunas na legislao processual trabalhista. Dessa forma, em razo de a hipoteca no ser prevista pela legislao trabalhista, a aplicao do NCPC ocorrer de forma subsidiria.

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    hipoteca judiciria e protesto da deciso judicial no novo cpc e seus impactos no processo...

    Entretanto, mesmo antes do Novo Cdigo de Processo Civil, a doutrina j entendia que a hipoteca judiciria era compatvel19 e, portanto aplicvel ao pro-cesso trabalhista, em consonncia com o pargrafo nico do artigo 8 e com o artigo 769 da CLT, tendo em vista a omisso da CLT na aplicao do instituto e na compatibilidade com o direito processual do trabalho.

    Em razo da importncia da hipoteca judiciria na efetivao da tutela juris-dicional, tem-se que o instituto plenamente compatvel com o direito proces-sual do trabalho, uma vez que, em geral, os crditos decorrentes das sentenas condenatrias trabalhistas possuem natureza alimentar, representando, a hipo-teca judiciria uma medida do legislador para garantir a eficcia das decises judiciais.

    Cabe salientar que o TST, mesmo antes do NCPC, j possua o entendimento de que a hipoteca judiciria aplicvel ao direito processual do trabalho, pois assegura a eficcia de futura execuo, garantindo os crditos devidos parte credora20.

    Assim, com a hipoteca judiciria, o credor trabalhista adquire o direito de sequela, possibilitando que persiga os bens hipotecados independentemente de onde estejam localizados e de quem os possua.

    Ademais, garante-lhe o direito de preferncia na execuo do valor fixado na sentena condenatria, destacando que, na execuo de crdito com garantia hipotecria, a penhora recair preferencialmente sobre a coisa dada em garan-tia, conforme determina o 1 do artigo 655 do CPC (3 do art. 835 do NCPC).

    A propsito, previne eventual fraude execuo, pois a hipoteca provoca a presuno absoluta de m-f do adquirente.

    No que tange ao direito de preferncia cumpre fazer uma observao.

    No caso de devedor solvente, tal direito garante a ordem de preferncia de acordo com os registros apresentados, de modo que, havendo mais de um cre-dor com garantia, prefere o que tiver feito primeiramente o registro.

    J no caso de devedor insolvente, a preferncia na seara trabalhista perde um pouco a utilidade, embora ainda seja til.

    que o ordenamento, para alm das garantias reais, criou privilgios legais para alguns crditos, como o caso do crdito trabalhista. Nesse caso, enquanto

    19 Nesse sentido: SILVA, Antnio lvares da. Breves Reflexes sobre a Execuo Trabalhista. In: MIESSA, lisson; CORREIA, Henrique (org.). Estudos Aprofundados: Magistratura do Trabalho. Salvador: Editora JusPodivm, 2013, p. 722-723 e TEIXEIRA FILHO, Manoel Antonio. A smula n 375 do STJ e a fraude execuo a viso crtica do Processo do Trabalho. In: MIESSA, lisson; CORREIA, Henrique (org.). Estu-dos Aprofundados: Magistratura do Trabalho, volume 2. Salvador: Editora JusPodivm, 2014, p. 614-615.

    20 Nesse sentido: TST-RR-79000-86.2009.5.03.0111, Relator: Ministro Alexandre de Souza Agra Belmonte, 3. Turma, DEJT 24/10/2014, TST-RR-112700-96.2009.5.03.0129, Relator: Ministro Jos Roberto Freire Pimenta, 2. Turma, DEJT 21/11/2014.

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    lisson miessa

    a garantia real protege apenas um determinado bem (p.e. hipotecado), o privilgio legal se estende, para todo o patrimnio do devedor. Desse modo, no chamado concurso universal, seja na falncia do comerciante ou na execuo por quantia certa por insolvncia contra o no-comerciante, sobressaem os privilgios legais21.

    Assim, no caso de falncia, o credor trabalhista ter preferncia, indepen-dentemente da existncia da hipoteca judicial.

    No entanto, conforme se verifica pelo art. 83, inciso I da Lei n 11.101/05, a preferncia apenas observada no limite de 150 salrios-mnimos. Dessa for-ma, o valor restante poder ser analisado em consonncia com o inciso II de referido dispositivo que determina que, logo aps os crditos trabalhistas at o limite de 150 salrios-mnimos, possuem preferncia os crditos com garantia real at o limite do valor do bem gravado.

    Com efeito, na falncia, a hipoteca judiciria produzir duas preferncias ao credor trabalhista. Uma em decorrncia de seu crdito, limitada ao mon-tante descrito na lei. E outra em razo da hipoteca, limitada ao valor do bem hipotecado.

    Considerando todo o exposto, observa-se que a hipoteca judiciria represen-ta um importante meio de efetividade no cumprimento de deciso condenatria.

    Todavia, sua eficcia limitada, pois atinge, como regra, apenas os bens im-veis22. Assim, faz-se necessria a utilizao de outros instrumentos, como o caso o protesto, que ser analisado a seguir, para que se garanta de forma mais ampla a eficincia das decises judiciais.

    3. PROTESTO

    3.1. QUADRO COMPARATIVO

    Lei n 5.869/73 (CPC) Lei n 13.105/15 (Novo CPC)

    Sem Correspondncia Art. 517. A deciso judicial transitada em jul-gado poder ser levada a protesto, nos termos da lei, depois de transcorrido o prazo para pa-gamento voluntrio previsto no art. 523.

    1 Para efetivar o protesto, incumbe ao exequente apresentar certido de teor da deciso.

    21 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil: volume 5 Reais. 9 ed. Salvador: Editora JusPodivm, 2013. p. 865.

    22 Excepicionalmente, bens mveis podem ser hipotecados, como o caso, por exemplo, de aeronaves, na-vios etc.

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    Lei n 5.869/73 (CPC) Lei n 13.105/15 (Novo CPC)

    2 A certido de teor da deciso dever ser fornecida no prazo de 3 (trs) dias e indicar o nome e a qualificao do exequente e do executado, o nmero do processo, o valor da dvida e a data de decurso do prazo para pagamento voluntrio.

    3 O executado que tiver proposto ao rescisria para impugnar a deciso exequenda pode requerer, a suas expensas e sob sua responsabilidade, a anotao da propositura da ao margem do ttulo protestado.

    4 A requerimento do executado, o protesto ser cancelado por determinao do juiz, mediante ofcio a ser expedido ao cartrio, no prazo de 3 (trs) dias, contado da data de protocolo do requerimento, desde que comprovada a satisfao integral da obrigao.

    3.2. DEFINIO DO INSTITUTO

    O artigo 1 da Lei n 9.492/97 define o protesto como o ato formal e solene pelo qual se prova a inadimplncia e o descumprimento de obrigao originada em ttulos e outros documentos de dvida.

    Por sua vez, os documentos de dvida so entendidos pela doutrina como todo e qualquer documento, pblico ou particular, que se torna protestvel desde que represente uma dvida em dinheiro ou comprove a relao de dbito de natureza pecuniria contra determinada pessoa 23.

    Observa-se, dessa forma, que, embora no esteja previsto um rol dos docu-mentos protestveis, os documentos de dvida podem ser entendidos de forma ampliativa, incluindo-se, desse modo, a sentena transitada em julgado, consi-derada como um ttulo executivo judicial (art. 876 da CLT e art. 475-N do CPC).

    Todavia, em razo da ausncia de dispositivo legal que permitisse o pro-testo de sentena, havia divergncia doutrinria e jurisprudencial no tocante ao seu cabimento. Desse modo, o artigo 517 do NCPC resolveu a controvrsia,

    23 OLIVEIRA, Eversio Donizete de. O Protesto Extrajudicial de Sentena Judicial Trabalhista. In: BARBOSA, Magno Luiz; BRITO, Cristiano Gomes de (org.). Temas Contemporneos de Direito Empresarial do Traba-lho. So Paulo: LTr, 2015, p. 31.

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    estabelecendo que a deciso judicial transitada em julgado poder ser levada a protesto.

    Apesar de o protesto ser dispensvel execuo da sentena, sua utilizao pode ampliar de forma expressiva a efetividade e a celeridade do processo judi-cial. Isto porque, h pouca efetividade da execuo judicial principalmente em razo da morosidade e da resistncia do devedor, dentre outros motivos. Nesse sentido, ao destacar a ampliao da possibilidade do protesto aos documentos de dvidas, Luiz Ricardo da Silva, citado por Themistocles Pinho e Ubirayr Fer-reira Vaz, assevera:

    A Nova Ordem pe disposio de todos uma possibilidade mais vivel. O credor, atravs de um procedimento mais rpido, eficiente e a um bai-xo custo, poderia haver o seu direito, no em trs ou quatro anos, como ocorria normalmente, mas em uma semana ou um pouco mais de tempo. E ressalte-se que, no processo executrio, a possibilidade de se obter xito no recebimento do valor devido era muito pequena, pois dependeria da existncia de patrimnio penhorvel do devedor. No caso do procedimen-to extrajudicial, isto no ocorre. Pelo contrrio, o temor pelo protesto que impede a obteno de crdito, principalmente em instituies financeiras, to necessrio nos dias atuais, muito maior do que um pedido de penhora que pode se protelar por anos24.

    A principal funo do protesto , portanto, probatria, pois comprova uma determinada relao jurdica e o seu no pagamento. Entretanto, a finalidade ltima do protesto corresponde ao pagamento da obrigao. Ademais, confor-me o art. 2 da Lei n 9.492/97, os servios relacionados ao protesto so garan-tidores da autenticidade, publicidade, segurana e eficcia dos atos jurdicos.

    A publicidade, apesar de, em regra, tambm estar presente nos atos judi-ciais, no protesto pode atingir outras dimenses. O tabelio pode, por exemplo, enviar a relao atualizada de ttulos e documentos de dvida protestados para inscrio no cadastro dos rgos de restrio ao crdito, como no SPC, Serasa e CADIN (artigo 29 da Lei n 9.492/97). Desse modo, pela exposio social gerada ao devedor, bem como pela restrio de diversos tipos de crdito, o protesto tem como objetivo o estmulo ao pagamento, protegendo, dessa forma, os direi-tos dos credores.

    Cabe destacar que com a disciplina jurdica trazida pelo NCPC, o protesto de sentena dever ocorrer aps o trnsito em julgado da deciso e aps o no pa-gamento voluntrio pelo devedor (art. 523 do NCPC). Para efetivar o protesto, o credor dever apresentar certido de teor da deciso (1 do art. 517 do NCPC), contendo qualificao das partes, nmero do processo, valor da dvida e a data do decurso do pagamento voluntrio (2 do art. 514 do NCPC).

    24 COSTA FILHO, Jos Batista da apud PINHO, Themistocles; VAZ, Ubirayr Ferreira. Protesto de Ttulos e Outros Documentos de Dvida: Princpios, Fundamentos e Execuo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos Editora, 2007, p. 8-9.

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    Ademais, caso tenha sido proposta ao rescisria pelo executado, este po-der requerer a anotao da propositura da ao margem do ttulo protestado, nos termos do 3 do art. 517 do NCPC. No caso de cumprimento da obrigao, o prprio executado dever requerer o cancelamento do protesto ao juiz e, caso seja deferido, este dever encaminhar ofcio ao cartrio no prazo de trs dias (4 do art. 517 do NCPC).

    Observa-se, portanto, que o NCPC no somente solucionou a controvrsia quanto ao cabimento do protesto de sentena, como tambm disciplinou o ins-tituto, equilibrando os interesses do executado com os interesses do exequente, possibilitando um meio de execuo indireta que compreende um mecanismo adicional para a efetividade do processo e tambm a possibilidade de pagamen-to pelo devedor.

    3.2.1. Protesto de deciso interlocutria

    A redao do artigo 517 do NCPC deixa ntido que o protesto somente po-der ocorrer aps o trnsito em julgado da sentena. Parece-nos, todavia que, o objetivo do protesto seria mais bem alcanado se houvesse sua permisso mesmo antes de seu trnsito em julgado.

    Entretanto, como essa no foi a soluo adotada pelo legislador, acredita-mos que a melhor interpretao ao dispositivo deve possibilitar o protesto das decises interlocutrias transitadas em julgado.

    Isso porque o Novo CPC, condizente com a ideologia atual da deciso inter-locutria, alterou inclusive seu conceito, deixando de consider-la como aquela deciso que simplesmente resolve questo incidente (art. 162, 2, do CPC/73). Passa a conceitu-la de forma residual, determinando que ser deciso interlo-cutria o pronunciamento judicial de natureza decisria que no seja sentena (art. 203, 2, do NCPC).

    Portanto, para se alcanar o conceito de deciso interlocutria, inicialmente, dever-se- encontrar a definio de sentena, a qual foi definida pelo Novo CPC como o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, pe fim fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execuo (art. 203, 1, NCPC). Com efeito, no conceito de sentena conjugou--se o contedo da deciso (extino com ou sem resoluo do mrito), com o momento em que proferida (pe fim fase cognitiva ou extingue execuo).

    Dessa forma, a deciso, por exemplo, que extingue o processo com resoluo do mrito sem por fim fase cognitiva deciso interlocutria, o que significa que, seja a sentena, seja a deciso interlocutria podem ser decises de mrito.

    Com efeito, as decises interlocutrias, em algumas situaes, geram coisa julgada, como o caso da concesso de tutela antecipada baseada em pedido in-

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    controverso. Nessa hiptese, ao antecipar a tutela, o magistrado finaliza aquele assunto discutido durante a lide gerando uma deciso definitiva com caracters-ticas de coisa julgada sobre o pedido incontroverso, enquanto os demais pros-seguiro na lide com base no procedimento legal 25.

    O NCPC, em seu artigo 502, deixa claro o fato de a deciso interlocutria poder gerar coisa julgada ao dispor que se denomina coisa julgada material a autoridade que torna imutvel e indiscutvel a deciso de mrito no mais sujeita a recurso (Grifo Nosso).

    Essa interpretao ainda reforada pelo fato de o NCPC ter possibilitado, de forma expressa, o trnsito em julgado das decises interlocutrias, conforme se observa no art. 966 que dispe que a deciso de mrito pode ser rescindida por meio da ao rescisria.

    Dessa forma, o artigo 517 do NCPC deve ser interpretado em consonncia com os artigos 502 e 966, possibilitando, assim, o protesto de decises interlo-cutrias transitadas em julgado.

    3.3. APLICAO NO PROCESSO DO TRABALHO.

    Da mesma forma que a hipoteca judiciria, o protesto de sentena previsto no Novo Cdigo de Processo Civil pode ser aplicado ao processo do trabalho. Em razo da ausncia de previso do instituto na legislao trabalhista e de sua compatibilidade com o direito processual do trabalho, o NCPC deve ser aplicado de forma subsidiria ao processo trabalhista.

    Muitos doutrinadores podem entender que a aplicao do NCPC ocorrer de forma supletiva (complementar), uma vez que a legislao trabalhista j dis-ciplinava a certido negativa de dbitos trabalhistas, instituto semelhante ao protesto. De todo modo, considerando o teor do art. 15 do NCPC e o artigo 769 da CLT, entendemos que o protesto de sentena corresponde a mais um meca-nismo que amplia a efetividade e a celeridade do processo trabalhista, de modo que no pode ser confundido ou substitudo pela CNDT.

    A compatibilidade do protesto de sentena judicial previsto no NCPC pre-cisa, todavia de uma anlise mais aprofundada, notadamente no que tange aplicao do procedimento previsto no artigo 523 do NCPC.

    A aplicao do disposto no artigo 523 do NCPC previsto, na redao atual, no artigo 475-J do CPC possui grande divergncia doutrinria. Para o TST, no h compatibilidade de referido dispositivo com o direito processual do traba-lho, uma vez que este j possui disciplina no tocante execuo, mais especi-

    25 MACEDO, Bruno Regis Bandeira. O Projeto do Novo CPC e a Execuo Definitiva da Deciso Interlocutria do pedido incontroverso. In: DIDIER JR, Fredie; BASTOS, Antonio Adonias Aguiar (coord.). O Projeto do Novo Cdigo de Processo Civil Estudos em homenagem ao Professor Jos Joaquim Calmon de Passos: 2 srie. Salvador: Editora JusPodivm, 2012, p. 213.

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    ficamente o art. 880 da CLT26. Contudo, entendemos que referido dispositivo plenamente aplicvel ao processo trabalhista27.

    Isso porque o sincretismo buscado pelo legislador no CPC j era presente no processo trabalhista, sendo de conhecimento geral que o processo trabalhista na verdade impe uma fase executiva, como na lei processual civil, tanto que pode ser iniciada ex officio pelo juiz.

    Por sua vez, o artigo 523 do NCPC estabelece que, no caso de condenao em quantia certa, ou j fixada em liquidao, e no caso de deciso sobre parcela in-controversa, aps intimado ao pagamento do dbito, deve o executado efetuar o pagamento no prazo de 15 dias. Em caso de no pagamento voluntrio, o dbito ser acrescido de multa de dez por cento sobre a condenao e de honorrios advocatcios de dez por cento.

    V-se que referido dispositivo incide em momento intermedirio, entre a fase de conhecimento e a execuo, possibilitando o pagamento voluntrio com coero indireta, de modo que no ocorrendo o pagamento incidir a multa de 10%. Noutras palavras, a multa incidir antes de adentrar na fase executiva pro-priamente dita.

    No processo do trabalho, a multa tambm poder ser aplicada antes de se iniciar a fase executiva, seja no final da fase de conhecimento (quando a senten-a for lquida), seja na fase de liquidao (quando a sentena for ilquida).

    Assim, observa-se que no h nenhuma incompatibilidade do prazo dessa multa com o art. 880, da CLT, que estabelece o prazo de 48 horas para paga-mento ou garantia da execuo, pois ela ser aplicada antes da fase executiva trabalhista propriamente dita. Em outras palavras, enquanto o art. 880 da CLT incide na fase executiva, a multa prevista no artigo 523 do NCPC tem aplicao em momento anterior, que possibilita o pagamento voluntrio da dvida. Pode-mos esquematizar o procedimento da seguinte forma:

    Sentena lquida intimao para pagamento voluntrio no prazo de 15 dias no pagamento multa do art. 523 do NCPC incio da execuo com citao para pagamento, nos termos do art. 880 da CLT

    Dessa forma, no somente o protesto mostra-se compatvel com o di-reito processual do trabalho, mas tambm a redao do artigo 523 do NCPC, constituindo-se os dois instrumentos mecanismos de efetividade da tutela jurisdicional.

    26 TST-E-RR-201-52.2010.5.24.0000, SBDI-I, rel. Min. Horcio Raymundo de Senna Pires. 22.3.2012 (Infor-mativo n 3 do TST).

    27 MIESSA, lisson. : A Multa do Artigo 475-J do CPC e sua aplicao no Processo do Trabalho.In: Suplemento Trabalhista. LTr. ano 42. n. 103/06. p. 435-440.

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    Assim, o protesto poder ser efetivado aps o prazo de 15 dias para cumpri-mento voluntrio e antes de se iniciar a fase executiva propriamente dita.

    De qualquer modo, considerando que o art. 880 CLT permite que, no prazo de 48 horas, o executado possa realizar o pagamento da execuo, parte da dou-trina e da jurisprudncia entender que somente depois de decorrido tal prazo poder ser realizado o protesto28. Embora no sejamos adepto a essa posio, vez que entendemos aplicvel o art. 523 do NCPC ao processo do trabalho, o que mais interessa que o protesto judicial seja aplicvel na seara trabalhista, buscando o contedo da norma, a fim de tornar eficaz a tutela jurisdicional. Queremos dizer, aplicando-se o art. 523 do NCPC ou, isoladamente, o art. 880 da CLT, o importante se valer do protesto judicial para tornar mais eficaz a deciso judicial.

    Especificamente no processo trabalhista, a efetividade do protesto de sen-tena como meio de execuo indireta pode ser verificado com a publicidade e inscrio dos devedores nos bancos de dados de proteo ao crdito, estimulan-do o pagamento pelo executado de forma voluntria. Isso ocorre, pois o devedor fica temeroso em associar a imagem de sua empresa ao protesto na rea comer-cial e financeira o que dificulta tambm sua aquisio de crditos29.

    Cumpre ressaltar que, no processo do trabalho, o protesto pode ser realiza-do ex officio, ainda que na sentena no tenha sido ventilada a possibilidade de sua realizao30, como forma de exaltar os princpios da mxima efetividade da tutela jurisdicional e da durao razovel do processo.

    O ideal que os juzes j constem na sentena determinao secretaria de que, no havendo o pagamento no prazo do art. 523 do NCPC (ou do artigo 880 da CLT, se adotar essa tese), a deciso judicial seja encaminhada para protesto. Esse, sem dvida, o meio mais eficiente de se realizar o protesto da deciso judicial, dando, consequentemente, agilidade prestao jurisdicional.

    Antes de finalizar o presente artigo, faz-se necessrio tecer alguns coment-rios acerca da certido negativa de dbitos trabalhistas.

    Conforme j mencionado, instrumento semelhante ao protesto de sentena foi institudo pela Lei n 12.440/11 que incluiu o art. 642-A na CLT e estabele-ceu a certido negativa de dbitos trabalhistas (CNDT) tambm com o objetivo de ampliar a efetividade das decises judiciais.

    Referida lei imps que somente poder se habilitar nas licitaes aquele que tiver regularidade trabalhista (Lei n 8666/93, art. 27, IV). Desse modo, para

    28 Clber Lcio entende que somente pode ser realizado depois da citao do executado para pagamento ou garantia da execuo. ALMEIDA, Clber Lcio. Direito processual do trabalho. Belo Horizonte: Editora Del Rey Ltda, 2012. p. 909.

    29 OLIVEIRA, Eversio Donizete de. O Protesto Extrajudicial de Sentena Judicial Trabalhista. In: BARBOSA, Magno Luiz; BRITO, Cristiano Gomes de (org.).op. cit., p. 36.

    30 ALMEIDA, Clber Lcio. op.cit . p. 909.

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    se habilitar no processo licitatrio, dever apresentar documentao relativa regularidade trabalhista, a qual ser feita por meio de prova de inexistncia de dbitos inadimplidos perante a Justia do Trabalho, mediante a apresentao de certido negativa (Lei n 8666/93, art. 29, V).

    Ademais, alm de ser exigida para habilitao nas licitaes, o Conselho Na-cional de Justia, por meio da Recomendao n 03, orientou os tabelies de nota para que cientificassem as partes envolvidas em transaes imobilirias e partilhas de bens imveis sobre a possibilidade de obteno da Certido Nega-tiva de Dbitos Trabalhistas (CNDT).

    Com o advento da CNDT, muitos doutrinadores questionaram a utilidade do protesto da sentena judicial trabalhista, acreditando que a Certido Negativa de Dbitos Trabalhistas poderia substituir a figura do protesto havendo, inclu-sive, decises que dispensam o protesto extrajudicial nos casos em que h emis-so da CNDT31.

    Destaca-se que h semelhanas entre os dois institutos, como, por exemplo, o fato de os dois ocorrerem apenas aps o trnsito em julgado de deciso e o fator da publicidade dos dbitos trabalhistas. Entretanto, no h que se falar em substituio do protesto pela CNDT, uma vez que ambos os institutos possuem finalidades diversas. A Certido Negativa de Dbitos Trabalhistas muito eficaz para coagir as empresas que pretendem participar de licitaes e concorrncias pblicas, enquanto o protesto extrajudicial pode coagir mesmo os devedores que no possuem esta pretenso. Ademais, assim como a hipoteca judiciria, a Recomendao n 03 do CNJ passou a atingir apenas os bens imveis, ao tempo em que o protesto muito mais amplo assegurando o cumprimento de quais-quer obrigaes.

    Conclui-se, portanto, que os instrumentos apresentados no presente artigo (hipoteca judiciria, protesto de deciso judicial, CNDT e multa do art. 523 do NCPC) possuem grande importncia na efetividade do processo judicial, redu-zindo consideravelmente o tempo da fase executiva que, nos dias atuais, sem dvida a fase mais morosa do processo. Ademais, em razo das particularidades prprias de cada um dos institutos, deve-se pensar em aplicao sistemtica dos mecanismos para que o objetivo buscado pela terceira onda renovatria de acesso justia seja alcanado.

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    31 OLIVEIRA, Eversio Donizete de. O Protesto Extrajudicial de Sentena Judicial Trabalhista. In: BARBOSA, Magno Luiz; BRITO, Cristiano Gomes de (org.), op. cit., p. 33.

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