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    Sujeitos da relao de trabalho

    CAPTULO IISujeitos da relao

    de trabalho

    Sumrio 1. Empregado: 1.1. Requisitos da relao empregatcia; 1.2. Requisitos no essenciais configurao da relao de emprego; 1.2.1. Exclusividade; 1.2.2. Local da prestao de servios 2. Carteira de Trabalho e Previdncia Social: 2.1. Prazo para anotao e emisso da CTPS; 2.2. Das anota-es; 2.3. Prescrio e CTPS; 2.4. Registro do empregador; 2.5. Experincia prvia: art. 442-A da CLT 3. Relaes empregatcias especiais: 3.1. Empregado rural; 3.1.1. Identificao da figura do empregado e empregador rural; 3.1.2. Peculiaridades dos empregados rurais; 3.1.3. Contrato temporrio rural (art. 14-A da Lei n 5889/73); 3.2. Empregado domstico; 3.2.1. Direitos do empregado domstico; 3.3. Proteo do trabalho do Menor; 3.3.1. Jornada de trabalho do menor; 3.3.2. Prestao de servios em locais prejudiciais moralidade do menor: 3.3.2.1. Dos direitos de profissionalizao e proteo do trabalho. Estatuto da Criana e do Adolescente (Lei n 8.069/90 e alteraes); 3.3.3. Do papel dos re-presentantes legais do menor; 3.3.4. Da prescrio; 3.3.5. Do salrio; 3.3.6. Da prescrio; 3.4. Aprendiz; 3.4.1. Contrato de trabalho especial; 3.4.2. Prazo para o contrato de aprendizagem; 3.4.3. FGTS; 3.4.4. Obrigatoriedade na contratao de aprendizes; 3.4.5. Jornada de trabalho do aprendiz; 3.4.6. Vnculo empregatcio do aprendiz; 3.4.7. Extino do contrato de aprendizagem; 3.5. Proteo do trabalho da Mulher; 3.5.1. Proteo maternidade; 3.5.1.1. Licena-maternidade; 3.5.1.2. Estabilidade da gestante; 3.5.2. Meio ambiente de trabalho 4. Empregador: 4.1. Grupo econmico; 4.2. Sucesso de empresas; 4.3. Poderes do empregador 5. Terceirizao: 5.1. Requisitos para terceirizao lcita; 5.2. Respon-sabilidade da tomadora; 5.2.1. Fraude na terceirizao; 5.2.2. Terceirizao na Administrao Pblica; 5.3. Dono da obra e subempreitada 6. Smulas e Orientaes Jurisprudenciais do TST 7. Legislao relacionada ao captulo.

    1. EMPREGADO

    A relao de emprego tem como principal caracterstica a presena do emprega-do, parte mais fraca da relao jurdica. O Direito do Trabalho foi pensado e criado exatamente para proteger a figura desse trabalhador. H necessidade, entretanto, de diferenciar o trabalhador em sentido amplo e o trabalhador com vnculo em-pregatcio. A CLT e as demais normas trabalhistas so voltadas apenas proteo dos direitos do empregado1, ou seja, jornada de trabalho, FGTS, frias, descanso semanal remunerado, dentre outros direitos, so direcionados aos empregados,

    1. A Constituio Federal equiparou os direitos do trabalhador avulso aos direitos dos empregados. Embora o avulso no possua vnculo empregatcio, ele ter todos os direitos do trabalhador com vnculo empregatcio ( frias, dcimo terceiro, FGTS etc.).

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    HENRIQUE CORREIA

    por isso a importncia de diferenci-los dos trabalhadores autnomos, eventuais, estagirios etc.

    Princpios protetivos: Salrio-mnimo Limitao da jornada (8 horas dirias) Intervalos Descanso semanal e frias Estabilidade Demais direitos trabalhistas

    PROTEO PREVISTA NA CF/88 E NA CLT

    Empregado

    *Importante diferenci-lo dos demais trabalhadores, porque os direitos trabalhistas so direcionados ao empregado.

    Requisitos: Pessoa fsica (Pessoalidade) No eventualidade Onerosidade Subordinao

    1.1. Requisitos da relao empregatciaDe acordo com o art. 3 da CLT:

    Considera-se empregado toda pessoa fsica que prestar servios de natureza no eventual a empregador, sob a dependncia deste e mediante salrio.

    De acordo com esse artigo da CLT, h quatro requisitos essenciais para configu-rar o vnculo empregatcio. imprescindvel que o candidato ao cargo pblico saiba todos eles, assim ser comentado a seguir cada um dos requisitos:

    a) Pessoa fsica

    O empregado pessoa fsica ou natural. A lei trabalhista foi criada para proteger o ser humano. Assim, excluem-se da figura do empregado a pessoa jurdica (empresa, associao, cooperativa etc.) e a prestao de servios por animais.

    Dentro desse requisito, enquadra-se a pessoalidade na prestao de servios. O empregado contratado em razo de suas qualidades pessoais (eficincia, lealdade, conhecimentos tcnicos, moral etc.). Diante disso, no se pode fazer substituir por um terceiro. Exemplo: o empregado, quando estiver cansado, no pode mandar o irmo trabalhar em seu lugar. A pessoalidade requisito essencial para configurar o empregado2.

    b) No eventualidade

    Para configurar o vnculo empregatcio, necessrio que o trabalho realizado no seja eventual, ocasional. O contrato de trabalho de trato sucessivo, ou seja, h continuidade no tempo. Logo, haver expectativa de que o empregado retorne ao local de trabalho. A continuidade na prestao de servios no se confunde com

    2. A pessoalidade no um trao caracterstico da figura do empregador.

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    Sujeitos da relao de trabalho

    trabalho realizado diariamente. Exemplo: professor universitrio que, h dois anos, presta servios todas as segundas e quartas-feiras na universidade, ser empregado, pois h habitualidade na prestao de servios.

    c) Onerosidade

    O contrato de trabalho oneroso, como prev o art. 3 da CLT: mediante sal-rio. Em regra, presume-se que a prestao de servios onerosa, pois de um lado o empregado assume a obrigao de prestar servios, de outro, o empregador, a obrigao de pagar salrio.

    d) Subordinao

    A caracterstica mais importante da relao empregatcia a subordinao ou, ainda, de acordo com o texto da CLT: empregado trabalha sob a dependncia do empregador. Se o empregador assume todos os riscos do empreendimento, ele ter o poder de organizar e dirigir a prestao de servios. Dessa forma, o empregado fica subordinado s ordens do empregador.

    Note que, na subordinao, o empregado fica sujeito s orientaes dadas pelo empregador, como horrio de trabalho, utilizao de maquinrio etc. Essa subordi-nao no alcana a vida pessoal do trabalhador.

    A doutrina identifica trs teorias para explicar a subordinao, conforme a seguir descritas:

    1. Subordinao jurdica: a tese aceita atualmente. A subordinao do em-pregado decorre de lei. Assim, quando aceita trabalhar para o empregador, consequentemente aceitar as regras e orientaes dadas para que a pres-tao de servios seja realizada nos moldes previstos pelo empregador.

    2. Subordinao tcnica: segundo essa teoria, a subordinao existe porque o empregador detm todo o conhecimento tcnico dos meios de produo, logo o empregado estaria subordinado tecnicamente ao empregador. Tal manifestao nem sempre se apresenta, pois em um cursinho preparatrio para concursos, por exemplo, o empregador professor de matemtica e raciocnio lgico, no possuindo conhecimentos tcnicos de Direito do Trabalho, mas, mesmo assim, existe a subordinao sobre o professor dessa matria.

    3. Subordinao econmica: essa teoria defende a subordinao em razo da dependncia do salrio para o empregado sobreviver. O critrio falho, pois nem sempre o trabalhador depende apenas daquele trabalho para sobreviver, podendo prestar servios em outros locais que lhe paguem mais.

    Exemplo: o professor e juiz do trabalho que presta servios em um cursinho. Nesse caso, o empregado poder ter salrio superior ao do empregador, mas, ainda assim, estar subordinado s regras impostas pelo cursinho (horrio de trabalho, utilizao do material didtico etc.).

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    Alm dos requisitos da pessoa fsica e pessoalidade, onerosidade, no even-tualidade e subordinao, alguns autores destacam a alteridade como requisito do vnculo empregatcio. A alteridade obriga que todos os riscos do empreendimento sejam suportados exclusivamente pelo empregador. Assim sendo, em momentos de crise financeira mundial, os prejuzos da empresa sero exclusivos do empregador, no podendo dividi-los com os trabalhadores. O salrio deve ser pago, portanto, tendo a empresa lucros ou prejuzos.

    1.2. Elementos no essenciais configurao da relao de emprego

    1.2.1. Exclusividade

    No h na CLT exigncia de que o empregado preste servios com exclusivida-de. No requisito para configurar o vnculo empregatcio que ele trabalhe para apenas um nico empregador. H possibilidade de vrios contratos de trabalho, com empresas diversas, simultaneamente. Exemplo: empregado presta servios na padaria, pela manh. tarde, empregado da central de telemarketing. Nesse caso, a Carteira de Trabalho ser assinada pelos dois empregadores, possuindo, o empregado, dois contratos de trabalho ao mesmo tempo.

    1.2.2. Local da prestao de servios

    O local da prestao de servios tambm irrelevante para configurar o vnculo empregatcio. Veja, por exemplo, o trabalhador que presta servios em domiclio desenvolvendo programas de computador; nessa situao, se houver a presena dos requisitos da relao empregatcia (habitualidade, onerosidade e subordinao), ser configurada a relao de emprego, com o pagamento de todos os direitos tra-balhistas. Alis, a CLT foi recentemente alterada, para prever o teletrabalho, ou seja, o trabalho executado distncia. Nesse caso, se as ordens so passadas pelo celular ou email, configura a subordinao e, consequentemente, o vnculo empregatcio. Observe a previso expressa da nova redao do art. 6 da CLT:

    Art. 6 No se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domiclio do empregado e o realiza-do a distncia, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relao de emprego.

    Pargrafo nico. Os meios telemticos e informatizados de comando, controle e superviso se equiparam, para fins de subordinao jurdica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e superviso do trabalho alheio.

    Alm desses dois elementos anteriores, exclusividade e local da prestao de servios, a profissionalidade outro elemento no essencial caracterizao da relao de emprego3. Nesse sentido, ser empregado tanto o trabalhador braal

    3. ZANGRANDO, Carlos. Curso de Direito do Trabalho. So Paulo: Ltr, 2008. v. II, p. 457.

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    Sujeitos da relao de trabalho

    como o alto executivo, artista, mdico, advogado, desde que presentes os quatro requisitos do vnculo empregatcio ( pessoa fsica, habitualidade, onerosidade e subordinao). Conforme o art. 3, pargrafo nico da CLT:

    No haver distines relativas espcie de emprego e condio de trabalhador, nem entre o trabalho intelectual, tcnico e manual.

    2. CARTEIRA DE TRABALHO E PREVIDNCIA SOCIAL

    No h formalidade especfica para contratar o empregado, pois o contrato de trabalho poder ser celebrado, inclusive, de forma verbal. H, entretanto, exigncia de um documento obrigatrio do empregado, chamado de Carteira de Trabalho e Previdncia Social CTPS. Esse documento utilizado para identificao do empre-gado, servindo como meio de prova na rea trabalhista e previdenciria4. A falta de anotao da CTPS no afasta o vnculo empregatcio5, mas possibilita que a empresa seja autuada pela fiscalizao.

    2.1. Prazo para anotao e emisso da CTPS

    O prazo para assinatura da carteira de 48 horas , sob pena de pagamento de multa. Nas localidades onde no for emitida a CTPS, o empregado poder ser admi-tido para exercer as atividades, pelo prazo de trinta dias. A empresa fica obrigada a permitir o comparecimento do empregado ao posto de emisso mais prximo.

    Se a empresa se recusar a fazer as anotaes, o empregado poder apresentar pessoalmente, ou por intermdio do sindicato da categoria, reclamao perante a Delegacia Regional do Trabalho (art. 36 ao art. 39 da CLT).

    A CTPS ser emitida pelas Delegacias Regionais do Trabalho ou, mediante con-vnio, por rgos federais, estaduais e municipais. No sendo firmado convnios com esses rgos, podero ser conveniados sindicatos para a emisso da CTPS. O sindicato no poder cobrar remunerao pela entrega da CTPS, conforme previsto no art. 26 da CLT.

    Para a obteno da CTPS, o interessado deve comparecer pessoalmente ao rgo emitente, em que ser identificado, e prestar as informaes necessrias. Na impossibilidade de apresentao, pelo interessado, de documento idneo que o qualifique, a CTPS ser fornecida com base em declaraes verbais confirmadas

    4. Na rea previdenciria, a CTPS utilizada para comprovao do tempo de servio para fins de obteno de benefcios (auxlio-doena, aposentadoria por idade e tempo de contribuio etc.).

    5. Uma vez presentes os quatro requisitos da relao de emprego, o vnculo ser declarado, indepen-dentemente da anotao na CTPS. Do contrrio, inmeros empregadores deixariam de anotar nas carteiras de trabalho, apenas para afastar a configurao do vnculo empregatcio.

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    por duas testemunhas. E, por fim, se se tratar de menor de 18 anos, as declaraes sero prestadas por seu representante legal.

    2.2. Das anotaes

    O empregador dever anotar, obrigatoriamente, as seguintes informaes: a data de admisso do trabalhador, a remunerao e as condies especiais, se houver. Exemplos de condies especiais: salrio pago em utilidades ou gorjetas, trabalhador que exera funes externas, contrato de experincia etc. As anotaes colocadas na CTPS so, em regra, verdadeiras, mas h a possibilidade de prova em contrrio6.

    Os acidentes de trabalho so obrigatoriamente anotados pelo INSS na carteira do acidentado, conforme previsto no art. 30 da CLT.

    proibido ao empregador efetuar anotaes desabonadoras conduta do em-pregado. Exemplo: empregado que dispensado por justa causa, com suspeita de furto na empresa ou, ainda, o empregado que falta ao trabalho, injustificadamente. O empregador, mesmo diante dessas condutas, no poder descrev-las na CTPS do empregado.

    Finalmente, as anotaes nas fichas de declarao e nas CTPS so feitas seguida-mente sem abreviaturas, ressalvando-se, no fim de cada assentamento, as emendas, entrelinhas e quaisquer circunstncias que possam ocasionar dvidas, conforme previsto no art. 33 da CLT.

    2.3. Prescrio e CTPS

    O prazo prescricional est ligado exigibilidade de um direito perante o Poder Judicirio. Decorrido o prazo, perde-se a possibilidade de exigir o cumprimento da obrigao. Exemplo: decorridos dois anos do trmino do contrato, o empregador no poder ser obrigado a pagar as verbas trabalhistas no quitadas durante o contrato de trabalho, pois as parcelas j estaro prescritas.

    A anotao da CTPS para fins de comprovao perante o INSS no se aplica o prazo previsto da Constituio Federal, ou seja, o prazo de dois anos a partir do trmino do contrato de trabalho. Esse direito imprescritvel, conforme previsto no art. 11, 1, da CLT.

    A finalidade declarar a existncia da relao jurdica existente, possibilitando futuro benefcio ( aposentadoria por idade, tempo de contribuio etc.) perante a Previdncia Social. Assim sendo, no h prazo prescricional. Exemplo: empregada

    6. Smula n 12 do TST. As anotaes apostas pelo empregador na carteira profissional do empregado no geram presuno juris et de jure, mas apenas juris tantum. De acordo com essa smula, as anotaes colocadas pelo empregador podem ser questionadas, ou seja, no geram presunes inquestionveis.

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    trabalhou durante anos, sem registro em carteira, para empresa de calados. Ocor-reu o trmino do contrato e, somente depois de cinco anos, ingressou na Justia do Trabalho para o reconhecimento do vnculo e anotao na sua CTPS, pois todo o perodo trabalhado ser contado, possibilitando futura aposentadoria. Ressalta-se que as verbas rescisrias j estaro prescritas.

    2.4. Registro do empregador

    Diferentemente da CTPS, que documento pessoal do trabalhador, o empregador obrigado a efetuar o registro de seus empregados em livros, fichas ou sistemas eletrnicos, o que corresponde a documento interno da empresa (prprio do em-pregador). A falta desse registro possibilitar a aplicao de multa pela fiscalizao do trabalho.

    De acordo com o art. 41 da CLT:

    Em todas as atividades ser obrigatrio para o empregador o registro dos respectivos trabalhadores, podendo ser adotados livros, fichas ou sistema eletrnico, conforme instrues a serem expedidas pelo Ministrio do Trabalho. Alm da qualificao civil ou profissional de cada trabalhador, devero ser anotados todos os dados relativos sua admisso no emprego, durao e efetividade do trabalho, as frias, acidentes e demais circunstncias que interessem proteo do trabalhador.

    CTPS

    Documento de identificao do trabalhador meio de prova na rea trabalhista e previdenciria documento obrigatrio no requisito para configurar o vnculo empregatcio

    Prazo e emisso prazo de 48 horas localidades em que no for emitida: 30 dias emisso: Ministrio do Trabalho e Emprego ou mediante convnio retirada da CTPS comparecimento pessoal

    Anotaes

    obrigatrias

    anotaes no geram presunes inquestionveis vedao s anotaes desabonadoras

    data de admisso remunerao condies especiais

    Registrodocumento obrigatrio do empregador

    registro onde sero anotados dados relativos aos seus trabalhadores

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    2.5. Experincia prvia: art. 442-A da CLTRecentemente, a CLT foi alterada para incentivar o ingresso de novos profissionais

    no mercado de trabalho. Como forma de proporcionar que trabalhadores, ainda sem experincia, possam ocupar novos postos de trabalho, o empregador est proibido de exigir do candidato comprovao de experincia prvia por tempo superior a seis meses. De acordo com o art. 442-A da CLT:

    Para fins de contratao, o empregador no exigir do candidato a emprego comprovao de experincia prvia por tempo superior a 6 (seis) meses no mesmo tipo de atividade.

    difcil, na prtica, fiscalizar a conduta do empregador, pois no h necessidade de fundamentar o motivo da no contratao dos candidatos mais inexperientes. Entretanto, se comprovada a prtica discriminatria, por meio de anncio no jornal, por exemplo, a empresa pode ser autuada pela fiscalizao do trabalho.

    3. RELAES EMPREGATCIAS ESPECIAISH empregados que possuem direitos peculiares em razo da atividade exercida,

    ou em razo da sua prpria condio fsica. Em todos os casos tratados a seguir, h presena dos quatro requisitos essenciais da relao de emprego. O que ir dife-renciar uma relao da outra ser a ampliao ou reduo de direitos trabalhistas.

    3.1. Empregado ruralInicialmente, o empregado rural no possua os mesmos direitos dos emprega-

    dos urbanos. Com a promulgao da Constituio Federal de 1988, ocorreu a equi-parao de direitos entre empregados urbanos e rurais. H, entretanto, algumas peculiaridades do meio rural, previstas na Lei n 5889/73, que devem ser estudadas, pois so frequentes em provas de concurso pblico para o cargo de Tcnico do TRT.

    3.1.1. Identificao da figura do empregado e empregador ruralEmpregado rural possui os mesmos requisitos para configurar o vnculo empre-

    gatcio: pessoa fsica, no eventualidade, onerosidade e subordinao. H um ponto importante para identificar o trabalhador rural: prestar servios ao empregador rural. Assim sendo, se o trabalhador prestar servios ao empre gador rural, ele ser empregado rural, independentemente da atividade que prestar na propriedade rural7. De acordo com o art. 2 da Lei n 5889/73:

    Empregado rural toda pessoa fsica que, em propriedade rural ou prdio rstico, presta servios de natureza no eventual a empregador rural, sob a dependncia deste e mediante salrio.

    7. OJ n 419 da SDI I do TST. Considera-se rurcola empregado que, a despeito da atividade exercida, presta servios a empregador agroindustrial (art. 3, 1, da Lei n 5.889, de 08.06.1973), visto que, neste caso, a atividade preponderante da empresa que determina o enquadramento.

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    O importante para identificar o trabalhador rural definir quem o empregador rural. De acordo com a lei, a pessoa fsica ou jurdica que explore a atividade agro-econmica. Assim sendo, mesmo que o prdio esteja localizado em rea urbana, se a sua destinao envolver explorao agrcola ou pecuria, o empregado ser rural.8

    Deve-se ressaltar que o empregado que prestar servios ao empregador rural em mbito residencial, por exemplo, na sede da fazenda, empregado domstico, pois no est inserido em atividade lucrativa.

    No meio rural, frequente a figura do aliciador de trabalhadores, chamado de gato, que funciona como intermedirio de mo de obra. Ele contrata e fornece transporte aos trabalhadores rurais e os coloca disposio do empregador. Nes-se caso, a intermediao ilcita e o vnculo empregatcio ser diretamente com o empregador rural. Nesse sentido:

    Os denominados gatos ou turmeiros, os quais ficam arregimentando trabalhadores para laborar em propriedades rurais, no so consi-derados empregadores, mas sim simples intermedirios, formando--se o vnculo de emprego dos empregados rurais diretamente com a empresa rural9.

    Por fim, houve alterao do art. 7, XXIX, da CF/88, e o prazo prescricional do trabalhador rural passou a ser o mesmo do urbano: dois anos para ingressar com a ao judicial, aps a extino do contrato, com possibilidade de pleitear os direitos trabalhistas, dos ltimos cinco anos, a contar da propositura da ao.

    3.1.2. Peculiaridades dos empregados rurais

    a) Aviso-prvio

    O aviso-prvio dado pela parte (empregado ou empregador) que decidir pr fim relao empregatcia. Se a iniciativa partir do empregador, a legislao trabalhista prev a reduo da jornada de trabalho, como forma de proporcionar ao trabalhador a busca por um outro emprego. O empregado rural notificado da dispensa sem justa causa tem direito reduo de um dia por semana para buscar novo emprego, sem prejuzo da sua remunerao.

    A ttulo de comparao, o empregado urbano ter reduo de duas horas dirias ou sete dias corridos, de acordo com o art. 488 da CLT.

    b) Intervalo intrajornada

    O intervalo concedido ao empregado rural para descanso e refeio, na jor-nada superior a seis horas, ser de acordo com os usos e costumes da regio.

    8. Orientao Jurisprudencial n 315 da SDI-I do TST. considerado trabalhador rural o motorista que trabalha no mbito de empresa cuja atividade predominantemente rural, considerando que, em modo geral, no enfrenta o trnsito das estradas e cidades.

    9. SARAIVA, Renato. Direito do Trabalho. Srie Concurso Pblico. 7. ed. So Paulo: Mtodo, 2008. p. 60.

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    Cabe frisar, entretanto, que o TST posicionou no sentido de que o empregado rural que tenha jornada superior a seis horas dirias possui o direito ao intervalo de, no mnimo, 1 hora, conforme nova smula n. 437 do TST. Caso no seja concedido esse intervalo mnimo, haver o pagamento de horas extras, com base no art. 71, 4, da CLT. Outra particularidade diz respeito aos servios intermitentes, em que h possibilidade de intervalos mais longos, como dos empregados que trabalham com gado leiteiro, que saem de madrugada para a primeira ordenha e voltam apenas no fim da tarde para a segunda. Esses intervalos no so computados na jornada de trabalho.10

    A ttulo de comparao, o empregado urbano ter intervalo de, no mnimo, 1 e, no mximo, 2 horas, salvo norma coletiva em contrrio, conforme previsto no art. 71 da CLT. Deve-se ressaltar que a durao do trabalho para ambos, urbano e rural, est prevista no art. 7 da Constituio, 8 horas dirias e 44 semanais.

    c) Trabalho noturno

    O ser humano no possui hbitos noturnos. Assim sendo, o trabalho noturno deve conter aspectos mais protetivos e possuir remunerao superior do diurno. O horrio noturno ser de acordo com a atividade desenvolvida: a) na pecuria inicia-se s 20 horas e termina s 4 horas; b) na agricultura, a jornada ser das 21 horas s 5 horas. A hora noturna rural, ao contrrio do trabalhador urbano, no reduzida, ou seja, a hora ter durao de 60 minutos. Durante a jornada noturna h necessidade de pagamento de adicional noturno de, no mnimo, 25% a mais que a hora diurna.

    A ttulo de comparao, o horrio noturno do empregado urbano das 22 horas s 5 horas. A hora noturna reduzida: 52 minutos e 30 segun-dos. E o adicional noturno de, no mnimo, 20% sobre a hora diurna, de acordo com art. 73 da CLT.

    TRABALHO NOTURNO

    Agricultura

    21h Adicional 25% 5h

    Pecuria

    20h Adicional 25% 4h

    10. Art. 6 da Lei n 5889/73. Nos servios caracteristicamente intermitentes, no sero computados, como de efetivo exerccio, os intervalos entre uma e outra parte da execuo da tarefa diria, desde que tal hiptese seja expressamente ressalvada na Carteira de Trabalho e Previdncia Social.

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    d) Salrio utilidade ou salrio in natura

    O salrio poder ser pago em dinheiro ou, ainda, em utilidades, como alimen-tao e moradia. Essa forma de pagamento chamada de salrio in natura ou utilidades. H possibilidade de desconto do salrio-mnimo para o pagamento das utilidades, respeitando os seguintes percentuais: a) at 20%, moradia11; b) at 25%, pelo fornecimento de alimentao sadia e farta, atendidos os preos vigentes na regio. Para esses descontos, h necessidade de prvia autorizao do empregado rural; sem tal autorizao essas dedues sero nulas de pleno direito.

    A ttulo de comparao, os limites mximos permitidos para os em-pregados urbanos so: 25% para habitao e 20% para alimentao; esses descontos sero sobre o salrio contratual do empregado, de acordo com 3 do art. 458 da CLT. No h, na CLT, previso de prvia autorizao do trabalhador urbano.

    3.1.3. Contrato temporrio rural (art. 14-A da Lei n 5889/73)

    Recentemente, houve alterao na lei para disciplinar a contratao por pequeno prazo do trabalhador rural, na tentativa de formalizar as contrataes dos diaristas do campo. Apenas o empregador pessoa fsica poder contratar sob essa modalidade, o que exclui as empresas rurais, cooperativas e demais pessoas jurdicas.

    Esse contrato ser por prazo determinado, com durao mxima de dois meses dentro do perodo de um ano. Veja que esse contrato possibilita vrios perodos descontnuos. Exemplo: contrata-se trabalhador rural por duas semanas; depois de um ms de intervalo, contrata-se novamente, por mais uma semana. Se ultrapassado o perodo mximo de dois meses, dentro do perodo de um ano, o contrato ser transformado em prazo indeterminado.

    O empregador rural obrigado a recolher as contribuies previdencirias e efetuar os depsitos do FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Servio. Ademais, dever anotar na CTPS Carteira de Trabalho e Previdncia Social ou poder fazer contrato escrito com o trabalhador rural.

    Por fim, o trabalhador rural contratado por curto perodo ter direito remune-rao equivalente do trabalhador rural permanente, e todos os demais direitos de natureza trabalhista, relativos ao contrato por prazo determinado12. Essas parcelas sero calculadas dia a dia e pagas diretamente ao trabalhador.

    11. No tocante moradia, art. 9, 2 e 3 da Lei n5889/73: Sempre que mais de um empregado residir na mesma moradia, o desconto de 20% ser dividido proporcionalmente ao nmero de empregados, vedada, em qualquer hiptese, a moradia coletiva de famlias. Rescindido ou findo o contrato de trabalho, o empregado ser obrigado a desocupar a casa dentro de 30 dias.

    12. O contrato previsto no art. 14-A de prazo determinado. Logo, no h aviso-prvio, indenizao do FGTS e nem direito estabilidade, pois so direitos ligados ao contrato por prazo indeterminado.

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    EMPREGADO RURAL (Lei n. 5.889/73)

    Peculiaridades do trabalhador

    rural

    aviso-prvio reduo de 1 dia por semana (iniciativa do empregador)

    intervalo: de acordo com usos e costumes da regio

    trabalho noturno (hora de 60 minutos)

    salrio-utilidade (desconto sobre salrio-mnimo)

    20% moradia 25% alimentao prvia autorizao

    Contratotemporrio rural(art. 14-A Lei Rural)

    empregador: pessoa fsica durao: 2 meses dentro do perodo de 1 ano recolher FGTS e contribuies previdencirias mesmos direitos dos demais empregados permanentes

    pecuria 20h s 4h agricultura 21h s 5h adicional noturno: 25%

    Empregado rural

    equiparao de direitos como os urbanos (art. 7 CF/88) identificao: trabalha para empregador rural prescrio: mesmo perodo dos trabalhadores urbanos

    (2 anos para ingressar na justia/pedido dos ltimos 5 anos)

    3.2. Empregado domstico

    Recentemente, o Brasil deu um importante passo rumo efetivao dos direitos fundamentais trabalhistas, reconhecendo direitos bsicos do empregado domsti-cos via EC-72 2013. Essa alterao do art. 7, pargrafo nico da CF/88 ser objeto dos prximos concursos pblicos para Tcnico do TRT. Atualmente, o empregado domstico conquistou, por exemplo, direitos bsicos como a limitao da jornada de trabalho em 8 horas dirias.

    Esses trabalhadores so regidos pela Lei n 5859/72. Assim como os demais em-pregados, h nessa relao jurdica a presena dos quatro requisitos indispensveis para configurar o vnculo empregatcio ( pessoa fsica, onerosidade, continuidade e subordinao). Para a contratao do empregado domstico necessrio que o empregado tenha, no mnimo, 18 anos. H quem defenda a idade mnima de 16 anos, em razo do art. 7 da CF possibilitar o trabalho a partir dos 16 anos. Entretanto, como h outras normas nacionais e convenes internacionais prevendo a idade mnima como 18 anos, esse o posicionamento que deve prevalecer. Mas a questo da idade est ainda polmica.

    O empregado domstico aquele que presta servios de natureza contnua e de finalidade no lucrativa pessoa ou famlia em mbito residencial. Verifica-se, assim, a necessidade de trs requisitos para identificar o empregado domstico:

    a) Prestao de servio para pessoa ou famlia. No h possibilidade de o empregado domstico trabalhar em pessoa jurdica (empresa, associao,

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    Sujeitos da relao de trabalho

    cooperativa, massa falida, condomnios, comunidades religiosas etc.). Exemplo: oficina mecnica contrata mulher para fazer os servios de limpeza, de segunda a sexta-feira. Na CTPS, ela foi anotada como empregada domstica, entretanto no se trata de trabalho domstico, mas de vnculo empregatcio regido pela CLT, porque a contratao foi realizada por pessoa jurdica (oficina mecnica). Alm disso, h possibilidade de contratao de empregado domstico por pessoa, como a repblica de estudantes, casal homossexual etc.

    b) Servios prestados em mbito residencial. As atividades desenvolvidas pelo empregado domstico devem ser prestadas em mbito residencial, como: motorista, jardineiro, enfermeiras particulares etc. Quanto a esse tpico, duas observaes so importantes: 1. Cabe ressaltar que a casa de campo/praia utilizada apenas para o lazer

    considerada extenso da residncia, portanto h possibilidade de contratar empregados domsticos para trabalhar nesses locais.

    2. As atividades de empregado domsticos esto voltadas, em regra, a fun-es ligadas ao mbito residencial, como cozinheiro, servios de limpeza, bab etc. Entretanto, outras atividades de profissionais, inclusive com nvel universitrio, como professores e enfermeiras, educador fsico, por exemplo, se prestadas em mbito residencial a empregador domstico, sero enquadradas como empregadas domsticas. Nesse sentido:

    preciso lembrar que para ser domstico basta trabalhar para em-pregador domstico, independentemente da atividade que o empre-gado domstico exera, isto , tanto faz se o trabalho intelectual, manual ou especializado. Portanto, a funo do domstico pode ser de faxineira, cozinheira, motorista, piloto de avio, mdico, professor, acompanhante, garom do iate particular, segurana particular, caseiro, enfermeira etc. O essencial que o prestador do servio trabalhe para uma pessoa fsica que no explore a mo de obra do domstico com intudo de lucro, mesmo que os servios no se limitem ao mbito residencial do empregador13.

    c) Finalidade no lucrativa. O empregado domstico no pode estar inserido na atividade lucrativa da famlia. Assim sendo, se a empregadora faz mar-mita para comercializar, e a empregada domstica auxilia no preparo dos alimentos, descaracteriza-se a figura da empregada domstica. O mesmo raciocnio utilizado para o mdico ou dentista que tm consultrio em casa e a empregada domstica faz a limpeza desses locais ou anota as consultas, estando ligada a uma atividade lucrativa da famlia.

    A Lei do Domstico utiliza-se do termo natureza contnua, em vez de no eventu-alidade prevista na CLT. Assim sendo, prevalece, na doutrina e na jurisprudncia do TST, a exigncia de prestao de servios contnuos (sem interrupes), no mnimo, 3 vezes ou 4 dias por semana, para configurar o vnculo empregatcio domstico.

    13. CASSAR,. Vlia Bomfim. Direito do Trabalho. 6. ed. Niteri: Impetus, 2012. p. 363.

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    HENRIQUE CORREIA

    Atualmente, prevalece a tese no sentido de que para configurar a continuidade necessrio que o empregado domstico trabalhe 4 dias por semana e, no mnimo, 4 horas por dia. Se os servios forem prestados em 1 ou 2 dias por semana, ficar configurada a faxineira ou a diarista, que representam trabalhadoras autnomas, sem direitos trabalhistas.

    3.2.1. Direitos do empregado domstico

    Os direitos do domstico esto previstos, em sua maioria, no art. 7, pargrafo nico da Constituio Federal. O empregado em domiclio no se confunde com do-mstico. Ele presta servios na sua prpria residncia, nas mais diferentes funes, e possui todos os direitos trabalhistas previstos na CLT.

    J o empregado domstico conquistou, recentemente, via EC/72-2013, direitos bsicos, como limitao da jornada de 8 horas dirias, horas extras, adicional noturno, salrio-famlia etc. No pode ser afirmado, entretanto, que houve equiparao de direitos entre os empregados domsticos e demais empregados.

    Na tentativa de tornar mais didtica essa nova matria ligada ao empregado domstico, iremos dividir o tema em 5 partes. Isso tornar mais fcil a memorizao para seu concurso pblico:

    1. Direitos clssicos previstos na CF e na Lei dos Domsticos antes da EC-72/2013;

    2. Novos direitos recentemente com a EC-72/2013, com aplicao imediata

    3. Novos direitos concedidos, mas pendentes de regulamentao;

    4. Direitos no estendidos aos domsticos;

    5. Discusses sobre a Prescrio aplicada aos empregados domsticos.

    1. DIREITOS CLSSICOS J PREVISTOS ANTERIORMENTE EC/72-2013, OU SEJA, ERAM ASSEGURADOS DESDE A PROMULGAO DA CONSTITUIO FEDERAL OCORRIDA EM 05.10.1988:

    a) Salrio-mnimo

    b) Irredutibilidade do salrio

    c) Dcimo terceiro salrio

    d) Repouso semanal remunerado

    e) Frias acrescidas de 1/3 a mais da remunerao

    f) Licena- gestante de 120 dias

    g) Licena-paternidade (5 dias)

    h) Aviso-prvio

    i) Aposentadoria