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1683 leia algumas paginas

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  • PRIMEIRA PARTE AES COLETIVAS

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    CAPTULO 1

    AES COLETIVAS NO DIREITO ESTRANGEIRO

    1.1. CONSIDERAES INICIAIS

    Os mecanismos coletivos de resoluo de litgios de massa, dentre eles as aes coletivas, vm ganhado importncia no cenrio processual nacional, tanto na doutrina quanto nos tribunais. Isso decorre em ra-zo da enorme quantidade de processos judiciais de ndole individual que assoberbam a justia brasileira, prejudicando a entrega da prestao jurisdicional adequada.

    Para compreender com profundidade o sistema processual coletivo brasileiro, necessrio se faz estudar o desenvolvimento da tutela juris-dicional coletiva no direito estrangeiro, especialmente porque as aes coletivas brasileiras surgiram no ordenamento jurdico nacional como derivao das class actions norte-americanas.

    Na dcada de 70, processualistas italianos introduziram naquele pas a preocupao com o conceito e a necessidade de defesa dos direi-tos coletivos. Inauguraram, ento, no mbito doutrinrio, um debate a respeito da tutela jurisdicional coletiva, passando a estudar as modernas class actions norte-americanas. Destacam-se, nessa poca, os trabalhos cientficos produzidos por Michele Taruffo5, Mauro Cappelletti6,

    5. TARUFFO, Michele. I limiti soggettivi del giudicato e le class actions. In: Rivista di Diritto Processuale, n. 24, 1969, p. 618.

    6. CAPPELLETTI, Mauro. Appunti sulla tutela giurisdizionale di interessi collettivi o diffusi. In: Le azioni a tutela di interessi collettivi: atti del convegno di studio. Pa-dova: Cedam, 1976.

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    Andrea Proto Pisani7, Vittorio Denti8, Vincenzo Vigoriti9 e Ni-col Trocker10.

    Embora as class actions tenham-se desenvolvido nos Estados Uni-dos da Amrica, a processualstica brasileira, historicamente influen-ciada pelos autores italianos11, passou a estudar indiretamente as aes coletivas norte-americanas, a partir da observao de trabalhos desen-volvidos na Itlia a respeito do tema. Congressos, artigos jurdicos e livros produzidos pelos estudiosos italianos entusiasmaram o surgimen-to da doutrina das aes coletivas brasileiras e, tambm, contriburam para sistematizar e identificar demandas coletivas j existentes no orde-namento jurdico brasileiro, mas que no possuam a qualificao e a sistematizao de uma ao coletiva (por exemplo, a ao popular), pela falta de cientificidade do tema no pas naquela poca12.

    Apesar da importncia das aes coletivas norte-americanas para a evoluo cientfica e legislativa no Brasil, a doutrina, salvo algumas excees, no vem dando o tratamento merecido evoluo histrica das aes coletivas no direito estrangeiro.

    Normalmente, o desenvolvimento histrico da tutela jurisdicional coletiva no direito comparado tratado quase que exclusivamente da tica das class actions norte-americanas, esquecendo-se, por exemplo, que os primeiros registros histricos apontam as actiones popularis do direito romano como o embrio das aes coletivas no cenrio jurdico mundial.

    7. PISANI, Andrea Proto. Appunti preliminari per uno studio sulla tutela giurisdi-zionale degli interessi collettivi (o pi esattamente superindividuali) innanzi al giudice civile ordinario. In: Le azioni a tutela di interessi collettivi: atti del convegno di studio. Padova: Cedam, 1976.

    8. DENTI, Vittorio. Relazione introduttiva. In: Le azioni a tutela di interessi colletti-vi: atti del convegno di studio. Padova: Cedam, 1976.

    9. VIGORITI, Vincenzo. Interessi collettivi e processo: la legittimazione ad agire. Mi-lano: Giuffr, 1979.

    10. TROCKER, Nicol. Processo e costituzione. Milano: Giuffr, 1974.11. Sobre a influncia dos estudos italianos no Brasil ver GIDI, Antonio. Las acciones

    colectivas y la tutela de los derechos difusos, colectivos e individuales en Brasil: un mo-delo para pases de derecho civil. Trad. Lucio Cabrera Acevedo. Ciudad de Mxico: Universidad Nacional Autnoma de Mxico, 2004, p.17-19.

    12. DIDIER JR., Fredie; e ZANETI JR., Hermes. Curso de Direito Processual Civil. 6. ed. Salvador: Jus Podivm, 2011, v. 4, p. 29-30.

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    Alusio Gonalves de Castro Mendes, por exemplo, divide a evolu-o histrica da tutela jurisdicional coletiva no direito estrangeiro em trs grandes marcos histricos: (a) o surgimento das aes coletivas na Inglaterra; (b) as class actions norte-americanas; e (c) a doutrina italiana13.

    O presente trabalho ousa acrescentar mais um perodo diviso histrica proposta por Mendes, com foco sobre as actiones popularis do perodo romano. As demandas populares so praticamente esque-cidas pela doutrina nacional e internacional, at mesmo pelos livros de direito romano14.

    No intuito de contribuir com a mais completa compreenso do tema proposto, nas prximas linhas sero traados alguns apontamen-tos sobre os trs grandes marcos histricos da tutela jurisdicional co-letiva, na forma proposta por Alusio Mendes, com a incluso de um perodo antecedente sobre as aes populares do direito romano.

    Ademais, sero estudadas as caractersticas atuais dos sistemas pro-cessuais de tutela coletiva da Inglaterra, Estados Unidos da Amrica e Itlia, que tanto contriburam, ainda que indiretamente, para o desen-volvimento da tutela jurisdicional coletiva no Brasil.

    1.2. AS AES POPULARES (ACTIONES POPULARIS) DO DI-REITO ROMANO

    A afirmao de que durante o Imprio Romano teria sido con-cebido o embrio das aes coletivas modernas soa estranha porque, naquela poca, a noo de Estado no estava to bem delineada como atualmente. Causa perplexidade imaginar, nesse panorama inicial, a existncia de um instrumento processual capaz de permitir a alguns

    13. MENDES, Alusio Gonalves de Castro. Aes Coletivas no Direito Comparado e Nacional. 2 ed. rev., atual e ampl. MARINONI, Luiz Guilherme. BEDAQUE, Jos Roberto dos Santos (coord.). Coleo Temas Atuais de Direito Processual Civil. So Paulo: RT, 2009, v. 4, p.37.

    14. ROQUE, Andr Vasconcelos. Origens Histricas da Tutela Coletiva da Actio Po-pularis Romana s Class Actions Norte-Americanas, In: Revista de Processo, So Paulo: RT, n. 188, out., 2010, p. 103.

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    cidados o ingresso em juzo para a defesa de um direito que no lhe pertencia diretamente, mas sim a toda coletividade15.

    Para Rodolfo de Camargo Mancuso, a perplexidade inicial desva-nece quando se considera que a relao existente entre o cidado e a res publica, mesmo naqueles tempos, baseava-se no sentimento de que esta ltima pertencia, de alguma forma, aos cidados romanos16.

    A existncia de uma ao de ndole coletiva em um sistema predo-minantemente individualista deveu-se exatamente ao fato de a noo de Estado no estar bem definida. O Estado no possua autonomia, de modo que a res publica pertencia a todos os cidados romanos, como uma espcie de comunho indivisvel17. As demandas populares, por-tanto, nada mais eram do que aes com que os cidados ingressavam para a defesa da coisa pblica18.

    Em que pese a actio romana exigisse um interesse pessoal e direto exercido pelo titular do direito, as actiones popularis eram tidas como exceo a esse princpio. Atravs das demandas populares o cidado

    15. MANCUSO, Rodolfo de Camargo Mancuso. Ao Popular Proteo do errio, do patrimnio pblico, da moralidade administrativa e do meio ambiente. 7. ed. rev., atual. e ampl. So Paulo: RT, 2011, p. 47.

    16. Idem, Ibidem.17. Paulo Barbosa de Campos Filho explica a questo da seguinte forma: Para Ihe-

    ring, representam as aes populares fenmeno digno de nota, seja do ponto de vista do Direito pblico atual, seja do ponto de vista do prprio direito roma-no. Do primeiro, por facultarem a particulares o exerccio de funes de polcia. Do segundo, porque o mesmo Direito, que em geral mantinha, com o mximo rigor, o princpio da legitimatio ad causam do autor, pareceria abandon-lo no caso das populares actiones, para conferi-las a pessoas que nenhum intersse pessoal aparentemente tivessem. A suprsa da exceo a seu ver desvanece, tanto que se relacione o fenmeno com a comunho de bens dos gentiles, dos primrdios da velha Roma. Os bens da gens explica o grande romanista no pertenciam a esta como pessoa jurdica, abstrao que s depois se concebeu. Pertenciam, sim, aos gentiles, encarados em conjunto. E foi para proteger ce rapport particulier de communaut indivise du droit, que surgiram as primeiras aes populares (CAMPOS FILHO, Paulo Barbosa de. Da ao popular constitucional. So Paulo: Saraiva, 1968, p. 07).

    18. LEONEL, Ricardo de Barros. Manual de Processo Coletivo. 2. ed. So Paulo: RT, 2011, p. 39.

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    perseguia um fim altrusta, de defesa dos bens e valores mais impor-tantes para a coletividade19.

    Assim, o direito romano admitia uma especial categoria de de-manda, de carter popular e coletivo, destinada defesa do interesse pblico. O cidado romano tinha legitimao para ingressar em juzo instaurando o processamento de uma demanda de ndole privada, a fim de obter a condenao de qualquer pessoa que tivesse causado dano ao patrimnio pblico ou a interesses pblicos20. Ao assim agir, o cidado romano defendia seu interesse pessoal e, ao mesmo tempo, o interesse de toda a coletividade.

    Jos Afonso da Silva, fazendo uso das lies de Charles Maynz, explica que, com o tempo, o pretor alargou o conceito de interesse de agir para as demandas populares, permitindo o ajuizamento por autores que no tivessem qualquer interesse pessoal na lide, desde que o objeto da demanda fosse inerente a toda coletividade21.

    Na verdade, as demandas populares do direito romano eram um conjunto de aes diferentes, cuja caracterstica era permitir a alguns cidados o ingresso em juzo, ainda que no tivessem interesse pessoal direto sobre o objeto da demanda, para a defesa de interesses de todos22.

    Destaque-se, todavia, que as actiones popularis tinham carter marca-damente penal23. Normalmente, o ajuizamento da demanda popular tinha como consequncia uma deciso de carter inibitrio, visando a impedir ou a fazer cessar a conduta lesiva, inclusive com a aplicao de multa.

    Considerando que a demanda popular proposta no tratava dire-tamente de direito individual do autor da ao, a aplicao de multa

    19. Idem, ibidem; e MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Op. cit., p. 48.20. CAMPOS FILHO, Paulo Barbosa de. Op. cit., p. 07.21. SILVA, Jos Afonso da. Ao popular constitucional: doutrina e processo. 2. ed. So

    Paulo: Malheiros, 2007, p.18-19. 22. BIELSA, Rafael. A ao popular e o poder discricionrio da administrao. Trad.

    Guilherme A. dos Anjos. In: Revista Forense. Rio de Janeiro: Forense, n.52, v.157, jan./fev., 1955, p. 37.

    23. LUGO, Andrea. Azione popolare. In: Enciclopedia del diritto. Milano: Giuffr, 1959, v. 4, p. 861.

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    tinha carter premial24. Servia de incentivo para ajuizamento de de-mandas populares, visto que os cidados romanos, tomando conheci-mento de transgresses ao patrimnio pblico, poderiam ajuizar aes com o objetivo de obter a reverso da pena pecuniria, em vista do no cumprimento da medida inibitria25.

    Por meio dessas demandas, os cidados romanos exerciam uma es-pcie de poder de polcia de natureza jurisdicional, no como expresso de autoridade, mas em razo da movimentao do Poder Judicirio para condenar os transgressores dos direitos relacionados a segurana pblica, moralidade administrativa, patrimnio pblico, etc.26.

    Destaquem-se, ainda, trs importantes temas a respeito das actiones popularis no direito romano clssico. (a) a legitimao para agir; (b) a coisa julgada; e (c) a representatividade adequada.

    No direito romano, as mulheres, os escravos e os menores no po-diam ingressar em juzo por meio da demanda popular, salvo, excepcio-nalmente, se tivessem interesse especial em jogo27. Ademais, vale desta-car que as aes populares no poderiam ser transmitidas a herdeiros, o que demonstra certo carter personalssimo da demanda, mesmo em se tratando de direitos pertencentes a toda coletividade.

    Outro importante tema diz respeito coisa julgada nas aes po-pulares romanas. Segundo o que consta no Digesto de Justiniano (D.

    24. LEONEL, Ricardo de Barros. Op. cit., p. 41.25. Alfredo Buzaid assim explica a questo: No direito romano, segundo Keller, no

    h uma nica espcie de ao popular. H vrias aes a maior parte penais que se fundavam sobre motivos de interesse pblico e cujo objetivo era, todavia, deixa-do aos cuidados de particulares o Estado, dando a todos os membros da cidade o poder de as propor de qualquer sorte como procurator populi. Foi desta maneira que se objetivaram contravenes de polcia, violao s ordens dos magistrados e outros delitos, pelos quais, de ordinrio, se estabelecia uma pena pecuniria, cujo montante, em caso de condenao, era atribuda caixa pblica do magistrado, mas do qual uma parte a metade, por exemplo era quase sempre deixada ao autor em recompensa de sua solicitude (BUZAID, Alfredo. Consideraes sobre o mandado de segurana coletivo. So Paulo: Saraiva, 1992, p. 39).

    26. BIELSA, Rafael. Op. cit., p. 38.27. LEONEL, Ricardo de Barros. Op. cit., p. 42.

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    47.23.2)28, no caso de determinada matria j ter sido apreciada em ao popular anterior, no poderia o mesmo assunto ser, mais uma vez, examinado pelos julgadores, ainda que o autor da segunda ao popular proposta fosse diferente do da primeira demanda. Assim, identificando-se a coisa julgada entre demandas populares, ainda que propostas por autores legitimados diferentes, o ru do processo poderia alegar a preliminar de coisa julgada29.

    Por fim, o ltimo tema sobre as actiones popularis que se destaca como relevante no presente resumo histrico refere-se outra regra es-tabelecida no Digesto de Justiniano (D. 47.23.3)30. Segundo o disposto no referido diploma, na hiptese de mais de uma pessoa ingressar em juzo com demandas populares tratando acerca do mesmo objeto, seria dada preferncia demanda que apresentasse melhores condies em termos de idoneidade e maior interesse pessoal no litgio31.

    Trata-se de regra que, de forma embrionria, estabelece uma con-cepo inicial do controle judicial da representatividade adequada, uma das principais regras e caractersticas das modernas class actions norte--americanas. Todavia, importante esclarecer que a concepo de re-presentatividade adequada no direito estadunidense foi desenvolvida sem influncia direta do direito romano, de modo que os estudiosos do assunto afirmam que no se pode falar em uma evoluo contnua das actiones popularis at as aes coletivas norte-americanas32.

    28. D.47.23.2: Si plures simul agant populari actione, Praetor eligat idonneiorem Traduo: Porm, se por uma mesma causa so ajuizadas aes fundadas no mesmo fato, lcito opor-se a exceo de coisa julgada (BUZAID, Alfredo. Op. cit., p. 40).

    29. Idem, Ibidem; ROQUE, Andr Vasconcelos. Op. cit, p. 106; e LEONEL, Ricar-do de Barros. Op. cit. p 42.

    30. D.47.23.3: Sed si ex eadem causa saepius agatur, quum idem factum sit, exception vulgaris rei iudicatae opponitur. Traduo: Nas aes populares cabe preferncia quele a quem ela interessa (BUZAID, Alfredo. Op. cit., p. 40).

    31. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado das aes. So Paulo: RT, 1970, t. I, p. 153.

    32. ROQUE, Andr Vasconcelos. Op. cit, p. 107; e LEONEL, Ricardo de Barros. Op. cit. p 47.

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    1.3. INGLATERRA

    A Inglaterra apontada, por alguns, como o bero mundial das aes coletivas33. A obra de Stephen Yeazell divide a evoluo histrica dos litgios coletivos na Inglaterra em trs perodos: (a) o medieval (do sculo 12 ao sculo 15); (b) o primitivo-moderno (do sculo 16 ao s-culo 17); e o moderno e contemporneo (do sculo 18 em diante)34. A seguir, passa-se a estudar esses trs perodos histricos.

    1.3.1. Aes coletivas na Inglaterra medieval (do sculo 13 ao sculo 15)

    Stephen Yeazell35cita trs acontecimentos que seriam os preceden-tes histricos das aes coletivas na Inglaterra medieval36.

    Em 1199, o proco Martin, de Barkway, ajuizou demanda perante a Corte Eclesistica de Cantebury, discutindo o direito a certas oferen-das e servios dirios, em face dos paroquianos de Nuthmstyead, povo-ado de Hertfordshire. Estes foram considerados como um grupo (e no como indivduos), para fins de legitimidade passiva, do qual apenas alguns integrantes compareceriam em juzo para a defesa dos interesses desse agrupamento.

    O segundo acontecimento relevante tratado por Yeazell remonta ao sculo 13, quando trs aldees ingressaram em juzo em face das comu-nidades das cidades de Donington e de Bykere. Tinham por objetivo obter

    33. MENDES, Alusio Gonalves de Castro. Op. cit., p. 37.34. YEAZELL, Stephen C. From the medieval group litigation to the modern class ac-

    tion. New Haven: Yale University Press, 1987.35. Idem, p. 21.36. Edward Peters, ao revisar criticamente a obra de Stephen Yeazell, faz referncia ao

    que pode ser a primeira ao coletiva do panorama jurdico da Idade Mdia. De acordo com o autor, no ano de 1179, na cidade de Paris, um grupo de aldees da vila Rosnysous-Bois ingressou com ao em face de seus senhores (o abade e clrigos de Santa Genoveva), reivindicando o fim da condio de servos. Esse processo envolveu trs reis e cinco papas e durou at o ano de 1246, quando os camponeses compraram a sua liberdade, sob a condio de no constiturem uma comuna (PETERS, Edwards. The American Journal of Legal History, 1990, v. 36, p. 429; apud LEAL, Mrcio Flvio Mafra. Aes Coletivas: Histria, Teoria e Prtica. Porto Alegre: Srgio Antonio Fabris Editor, 1998, p. 21-22).

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    provimento jurisdicional em benefcio prprio e de toda a populao de Helpingham, a fim de que os moradores daquelas cidades tivessem de prestar assistncia na reconstruo de represas ali existentes.

    Nesse segundo caso, no figuraram como partes as pessoas jurdi-cas, como, por exemplo, os municpios de Donington e de Bykere. Tam-pouco eram partes os moradores das cidades, individualmente conside-rados. A parte ativa da demanda eram apenas trs aldees, considerados como um grupo (e no como indivduos isoladamente), na defesa do interesse de toda a coletividade. E a parte passiva eram as comunidades (e no os municpios) de Donington e de Bykere37.

    O terceiro e ltimo caso tratado por Yeazell aconteceu no perodo de 1307 a 1326. Na poca, Emery Gegger e Robert Wawayn ingressaram em juzo em face de Roger Coress, John Hughsson, Warin Draper e dos demais ricos burgueses de Scarbotough, em benefcio prprio e de todos os demais pobres e mdios burgueses da cidade.

    A partir dos sculos 14 e 15, as demandas de grupo tornaram-se mais frequentes. Os casos relatados por Yeazell so exemplificativos38. Certamente, outros conflitos tpicos da Inglaterra medieval entre pro-cos e paroquianos, servos e senhores feudais, burgueses pobres e ricos ocorreram outras diversas vezes, sem nenhum registro histrico. Isso porque a grande maioria dos litgios da poca medieval era decidida pelas cortes locais e senhoriais. As cortes reais eram juzos de exceo. Assim, no existem muitos assentamentos histricos de processos cole-tivos no mbito das cortes locais e senhoriais. Apenas alguns registros da Corte de Westminster foram preservados39.

    De todo modo, analisando os registros fragmentrios40 dos trs casos mencionados por Yeazell, observa-se que, naquela poca, no havia qualquer discusso tcnica a respeito da titularidade da deman-da coletiva, da legitimao para agir, da coisa julgada, etc. A discusso

    37. MENDES, Alusio Gonalves de Castro. Op. cit., p.39.38. YEAZELL, Stephen C. Op. cit., p. 50.39. ROQUE, Andr Vasconcelos. Op. cit., p. 111.40. YEAZELL, Stephen C. Op.cit., p. 38-39.