18 Congresso Brasileiro de Sociologia Grupo de Congresso Brasileiro de Sociologia 26 a 29 de Julho de 2017, Braslia (DF) Grupo de Trabalho 11: Ensino de Sociologia A repercusso da

Embed Size (px)

Text of 18 Congresso Brasileiro de Sociologia Grupo de Congresso Brasileiro de Sociologia 26 a 29 de Julho...

  • 18 Congresso Brasileiro de Sociologia

    26 a 29 de Julho de 2017, Braslia (DF)

    Grupo de Trabalho 11: Ensino de Sociologia

    A repercusso da disciplina de sociologia em turmas de uma escola da rede

    estadual no interior do Cear: anlise do tema desigualdade racial

    Manoel Moreira de Sousa Neto,

    Universidade Federal do Paran e Secretaria de Educao Bsica do Cear

    Mrcio Kleber Morais Pessoa,

    Universidade Estadual do Cear e Secretaria de Educao Bsica do Cear

  • Introduo

    O objeto de estudo deste texto a compreenso da repercusso da disciplina de

    sociologia no ensino mdio acerca da anlise do tema Desigualdade racial. A pesquisa foi

    realizada em uma escola de ensino mdio pertencente rede estadual de educao

    bsica do Cear, localizada no interior do estado1. Os participantes da pesquisa so

    alunos e alunas das 1 sries da escola. No total, h trs turmas de 1 srie na escola,

    perfazendo o nmero de 88 matrculas. Contudo, segundo dados colhidos em campo,

    apenas 74 frequentavam regularmente as aulas no perodo da investigao. A pesquisa

    foi censitria com os alunos daquela srie na escola.

    O objetivo geral deste trabalho analisar a interveno da disciplina de Sociologia

    em turmas de ensino mdio de uma escola da rede estadual do Cear acerca da

    temtica: Desigualdade racial. Dito isso, os objetivos especficos so: (1) refletir sobre a

    repercusso das aulas da disciplina de Sociologia acerca da apreenso de habilidades e

    competncias dos alunos em relao ao tema abordado; (2) apresentar as discusses

    sobre o tema Desigualdade racial nas aulas de sociologia com os alunos participantes; (3)

    descrever as aulas ministradas aos participantes da pesquisa, destacando assuntos,

    mtodos, dados e discusses realizadas; e (4) comparar os conhecimentos dos alunos

    participantes da pesquisa antes e depois das aulas referentes ao tema abordado.

    Os procedimentos metodolgicos empregados para se alcanar os objetivos

    propostos foram: aplicao de questionrios com alunos participantes antes e depois das

    aulas de sociologia no ensino mdio referentes ao tema Desigualdade racial, a fim de

    aferir e comparar as vises dos alunos sobre o assunto nos dois momentos indicados,

    buscando analisar as possveis mudanas de viso advindas das aulas; observaes no

    ambiente escolar, principalmente nas aulas sobre o tema com a realizao de descrio

    dos mtodos empregados e assuntos debatidos; reviso de literatura sobre o tema

    Desigualdade racial e sociologia no ensino mdio; e, por fim, anlise documental referente

    disciplina de sociologia no ensino mdio. A pesquisa de campo foi realizada entre

    novembro e dezembro de 2016.

    Perfil dos participantes da pesquisa

    A pesquisa foi realizada com alunos da 1 srie do ensino mdio de uma escola do

    interior do Cear. O primeiro questionrio foi aplicado no dia 03 de novembro de 2016

    1 A escolha dessa escola ocorreu visando a exequibilidade da pesquisa, visto que os pesquisadores, devido sua rede de relaes prvias, mantinham contato profissional com o professor de Sociologia do estabelecimento educacional, o que lhes garantiu a insero no campo.

  • com todos os alunos que estiveram presentes na aula; no total, 71 (setenta e um). Os

    dados analisados neste tpico so referentes quele questionrio. 87% deles tinham 15

    ou 16 anos. O restante tinha 17 anos ou mais. Alm disso, 70% eram catlicos e 26%

    protestantes. O sexo dos participantes ficou dividido assim: 54% feminino e 46%,

    masculino.

    Foi feita uma pergunta aberta sobre a cor de cada aluno. 73% responderam

    categorias como moreno (10), pardo (36), preto (2) e negro (4), que se encaixam na

    categoria analtica negro. Os demais se identificaram como branco, amarelo e indgena.

    Esse dado coincide exatamente com o da questo orientada por itens realizada aps

    aquela: os mesmos 73% se identificaram como pretos ou pardos, categorias englobadas

    por negro. Os dados indicam ainda que a grande maioria dos alunos se identifica por

    meio de categorias embranquecedoras, como moreno e pardo, classificao tpica da

    sociedade brasileira, que se identifica pela cor da pele, abrindo margem para

    relativizaes. O mtodo de ter dois tipos de perguntas sobre a cor converge com a

    prtica de pesquisadores e institutos de pesquisa que visam a ofertar meios para que o

    participante se autodefina livremente por meio de categorias sociais comumente utilizadas

    em seu dia a dia para s depois responder a itens elaborados por agentes externos. Vale

    ressaltar que os negros participantes da pesquisa so em maior nmero do que na

    sociedade brasileira em geral, que possui uma taxa de 53% de pessoas negras.

    Sobre a escolaridade de pais e mes, 10% destas so analfabetas, ante 5,6%

    daqueles. 46% destas tm ensino fundamental completo ou incompleto, ante 41%

    daqueles. Menos de 9% das mes e apenas 7% dos pais tm ensino superior completo

    ou incompleto. Logo, os dados indicam baixa escolaridade desses parentes. Isso se

    reflete diretamente na renda familiar mensal dos discentes, a saber:

    Tabela 01 - renda familiar mensal dos alunos participantes da pesquisa Faixa de

    renda At meio salrio mnimo

    De meio a um salrio

    De um a dois salrios mnimos

    De dois a trs salrios mnimos

    Mais de trs salrios mnimos

    Resultados 10,5% 34,2% 36,8% 7,9% 10,5% Fonte: questionrio aplicado em campo

    A tabela indica que 81,5% das famlias dos alunos ganham at dois salrios

    mnimos de renda mensal. Esse dado incide diretamente no gozo do direito a renda

    mnima ofertado pelo governo, o Bolsa Famlia. 69% dos alunos afirmam que suas

    famlias recebem esse benefcio.

    Como se pode perceber, o perfil do aluno participante da pesquisa , em geral, o

    seguinte: negro, com pais e mes de baixa escolaridade, de famlia pobre e, devido a

  • isso, usurio de servios e benefcios do governo. Devido a esse perfil, coerente o fato

    de 45% dos participantes afirmarem j ter sofrido alguma ao racista. A seguir,

    discutiremos o processo de aplicao do primeiro questionrio, importante dado de

    pesquisa.

    Raa, silncio e lgrimas: primeira rodada de questionrios

    Lilia Schwarcz, uma das principais autoras sobre a temtica Desigualdade racial no

    Brasil, escreveu em seu livro Nem preto nem branco, muito pelo contrrio (SCHWARCZ,

    2012) que a discusso sobre nossos exticos produtos cultuais mestios, dentro do

    pas, quase um tabu, predominando o silncio sobre o assunto em nosso cotidiano. A

    realizao da pesquisa que deu origem a este trabalho converge com a afirmao da

    autora.

    No dia da aplicao do primeiro questionrio2, logo na primeira turma, quando o

    professor leu a ltima afirmativa do questionrio, a qual cada aluno deveria responder seu

    grau de concordncia ou discordncia3, uma aluna, que o pesquisador identificou como

    sendo negra, comeou a chorar e os alunos ao seu redor disseram ao professor que ela

    passava mal. O docente pediu que a aluna sasse de sala, a fim de buscar apoio com o

    Ncleo Gestor da escola. Logo em seguida, o professor saiu junto com outra aluna para

    saber como estava aquela discente. Ela chorava muito e no conseguia consolo. Uma

    professora que se encontrava no ptio da escola viu a cena e conversou em particular

    com a aluna. A docente disse em outro momento que a aluna verbalizou que chorava

    porque estava com fome. Contudo, o fato de aluna ter chorado exatamente no momento

    em que respondia afirmao Brancos so de uma raa superior dos negros levantou

    a suspeita do pesquisador de que havia uma relao direta entre seu estado emocional e

    o questionrio.

    Aps alguns minutos de conversa com o professor e a professora, a aluna retornou

    para a sala de aula e finalizou seu questionrio. Encerrada a aplicao, o professor

    aproveitou para falar turma que o assunto era delicado, mas que havia a necessidade

    de discuti-lo, a fim de que entendessem as razes das desigualdades entre negros e

    brancos no Brasil, pois essa era uma forma de superar tais desigualdades.

    2 Os questionrios eram annimos, isto , no tinham espao para identificao. O anonimato e seu carter protetivo foi destacado pelos pesquisadores de forma verbal, antes da aplicao. Foi destacado ainda que aquele questionrio no tinha nenhuma relao com a avaliao de conhecimento da disciplina de sociologia. Ademais, foi deixado claro aos alunos e s alunas que no se queria saber suas opinies individuais, mas sim as opinies coletivas das turmas. 3 Itens disponveis para a afirmao: discordo plenamente, discordo parcialmente, nem discordo nem concordo, concordo parcialmente e concordo plenamente.

  • Schwarcz destaca ainda que, como o tema no abordado seriamente e

    massivamente no pas, como se atitudes racistas fossem minoritrias e excepcionais:

    na ausncia de uma poltica discriminatria oficial, estamos envoltos no pas de uma boa

    conscincia, que nega o preconceito ou o reconhece como mais brando. Neste sentido,

    97% dos participantes da primeira aplicao de questionrios da pesquisa no se

    consideram racistas. Contudo, 34% dizem j ter praticado alguma ao que consideram

    racista. como se tais aes no se caracterizassem como aes discriminatrias

    estruturais, e, sim, aes de cunho pessoal, e, por isso, brandas. (SCHWARCZ, 2012)

    Para completar, enquanto 97% no se consideram racistas, 89%