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  • Captulo 1

    CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE

    1.1 A SUPREMACIA DA CONSTITUIOA Constituio Federal a norma fundamental, ou seja, nela que busca-

    mos o fundamento de validade de todas as normas existentes no ordenamento jurdico1, ocupando o pice da pirmide de Kelsen. Todas as situaes jurdicas devem com ela guardar relao de compatibilidade, sob pena de no nascerem vlidas.

    Como bem assentado por Jos Afonso da Silva: todas as normas que in-tegram a ordenao jurdica nacional s sero vlidas se se conformarem com as normas da Constituio Federal.2

    Com o surgimento de Constituies escritas3 e rgidas, bem como dos regimes democrticos4, sobrevm a necessidade de instrumentos necess-rios ao diagnstico da violao do Texto Fundamental. Nestes, constata-se

    1 Segundo Kelsen, citado por Regina Macedo Nery Ferrari uma norma para ser vlida preciso que busque seu fundamento de validade em uma norma superior, e assim por diante, de tal forma que todas as normas cuja validade pode ser reconduzida a uma mes-ma norma fundamental formam um sistema de normas, uma ordem normativa. Efeitos da Declarao de Inconstitucionalidade, 4 ed., So Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1999, p. 41.

    2 Curso de Direito Constitucional Positivo, 11 ed., So Paulo: Malheiros Editores, 1996, p. 50. 3 Marcelo Figueiredo pontifica: pode-se dizer que as Constituies escritas ainda so pode-

    rosos instrumentos de racionalizao do poder, oferecendo, a todos os seus destinatrios, uma real possibilidade de consagrao e s vezes de satisfao de seus direitos. O controle de constitucionalidade Algumas Notas e Preocupaes, publicado na obra: Aspectos Atuais do Controle de Constitucionalidade no Brasil, Recurso Extraordinrio e Arguio de Descum-primento de Preceito Fundamental, coordenao: Andr Ramos Tavares e Walter Claudius Rothenburg, no prelo.

    4 Fbio Konder Comparato leciona: No regime democrtico, o atributo maior da soberania popular consiste em constitucionalizar a nao. O poder constituinte pertence ao povo e somente a ele. Rquiem para uma Constituio. Revista da Procuradoria Geral do Estado de

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  • CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E SEUS EFEITOS Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira24

    o vcio a inconstitucionalidade e aplica-se a respectiva sano, preser-vando-se a segurana das relaes jurdicas, que no podem fundar-se em normas invlidas.

    No sistema constitucional ptrio est presente a caracterstica da rigidez5 da Constituio, sobressaindo-se o princpio6 da supremacia7 das normas constitucionais.8

    So Paulo, setembro de 1998, edio especial em comemorao aos 10 anos da Constituio Federal, p. 54.

    5 Celso Ribeiro Bastos ensina: Apenas as Constituies rgidas so modificveis por um procedimento especial, posto que as flexveis no veem duplicidade de processos legislati-vos, nenhuma diferena formal apresentando tanto a atividade legislativa ordinria quanto a constitucional. Curso de Direito Constitucional, 21 ed. atual., So Paulo: Saraiva, 2000, p. 51. Nossa Constituio rgida, seu artigo 60 prev um procedimento mais solene e dificultoso para alterao da Constituio comparado com as demais espcies normativas, inclusive com matrias inalterveis por Emenda Constitucional: Art. 60. A Constituio poder ser emendada mediante proposta: I de um tero, no mnimo, dos membros da Cmara dos Deputados ou do Senado Federal; II do Presidente da Repblica; III de mais da metade das Assembleias Legislativas das unidades da Federao, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. 1. A Constituio no poder ser emendada na vigncia de interveno federal, de estado de defesa ou de estado de stio. 2. A proposta ser discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, trs quintos dos votos dos respectivos membros. 3. A emenda Constituio ser promulgada pelas Mesas da C-mara dos Deputados e do Senado Federal, com o respectivo nmero de ordem. 4. No ser objeto de deliberao a proposta de emenda tendente a abolir: I a forma federativa de Estado; II o voto direto, secreto, universal e peridico; III a separao dos Poderes; IV os direitos e garantias individuais. 5. A matria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada no pode ser objeto de nova proposta na mesma ses-so legislativa. Clmerson Merlin Clve afirma que a rigidez constitucional decorre da distino entre o Poder Constituinte (ainda que derivado) e os Poderes Constitudos. Onde no h lugar para essa diferena, igualmente no h lugar para a rigidez constitucional. A fiscalizao abstrata de constitucionalidade, 2 ed., So Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 31.

    6 Adota-se neste estudo a lio de J. J. Gomes Canotilho, que trata as regras e princpios como duas espcies de normas, op. cit., p. 1124. Roque Antonio Carrazza afirma: Princpio jurdico um enunciado lgico, implcito ou explcito, que por sua grande generalidade, ocupa posi-o de preeminncia nos vastos quadrantes do direito e, por isso mesmo, vincula de modo inexorvel, o entendimento e a aplicao das normas jurdicas que com ele se conectam. Curso de Direito Constitucional Tributrio, 10 ed., So Paulo: Malheiros, 1997, p. 31.

    7 O princpio da supremacia requer que todas as situaes jurdicas se conformem com os princpios e preceitos da Constituio. Jos Afonso da Silva, Curso de Direito Constitucional Positivo, 11 ed., So Paulo: Malheiros Editores, 1996, p. 50.

    8 Jos Cretella Jr. afirma: Somente nas hipteses de Constituio rgida que se pode aludir supremacia formal da Constituio. Elementos de direito constitucional, 4 ed. atual. ampl., So Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 23.

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  • Cap. 1 CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE 25

    J. J. Gomes Canotilho teceu as seguintes consideraes sobre o tema em comento:

    A constituio confere ordem estadual e aos actos dos poderes pblicos medida e forma. Precisamente por isso, a lei constitucional no apenas como sugeria a teoria tradicional do estado de direito uma simples lei includa no sistema ou no complexo normativo-estadual. Trata-se de uma verdadeira ordenao normativa fundamental dotada de supremacia supremacia da constitui-o e nesta supremacia normativa da lei constitucional que o primado do direito do estado de direito encontra uma primeira e decisiva expresso.9

    A ausncia de dispositivo expresso consagrando a supremacia da Consti-tuio questo de somenos importncia. Esta extrada da interpretao de diversas normas constitucionais.

    Andr Ramos Tavares salienta que na Constituio de alguns pases, como Portugal (art. 3.2 e 277.1) e Espanha (art. 9.1), h previso explcita da superioridade normativa da Constituio. Contudo, em outros pases est implcita10, como no Brasil, onde a

    superioridade se colhe pela visualizao de inmeros dispositivos em especial os arts. 60, 102, e 103 da Constituio de 1.988, podendo-se acrescentar o art. 23, I, que estabelece ser da competncia comum da Unio, Estados, Distrito Federal e Municpios zelar pela guarda da Constituio, e o art. 78, que prev a submisso do Executivo Constituio e s leis.11

    Acrescentamos ao rol de dispositivos constitucionais acima, os seguintes artigos: 8512, 2513, 2914, 3215, 121 3. 16 e 4. 17, 12518, e no Ato das Disposies Constitucionais Transitrias os artigos: 119 e 1120.

    9 Direito Constitucional. 4 ed., Coimbra: Livraria Almedina, p. 245, grifo nosso.10 Nos Estados Unidos da Amrica do Norte e na Frana, a supremacia da Constituio se

    fixou por obra da jurisprudncia, conforme Andr Ramos Tavares, Tratado da arguio de preceito fundamental: (Lei n. 9.868/99 e Lei n. 9.882/99), So Paulo: Saraiva, 2001, p. 72.

    11 Tratado da arguio de preceito fundamental: (Lei n. 9.868/99 e Lei n. 9.882/99), So Paulo: Saraiva, 2001, p. 73.

    12 Constituio Federal: Art. 85. So crimes de responsabilidade os atos do Presidente da Repblica que atentem contra a Constituio Federal.

    13 Constituio Federal: Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituies e leis que adotarem, observados os princpios desta Constituio.

    14 Constituio Federal: Art. 29. O Municpio reger-se- por lei orgnica, votada em dois turnos, com o interstcio mnimo de dez dias, e aprovada por dois teros dos membros da Cmara Municipal, que a promulgar, atendidos os princpios estabelecidos nesta Constituio, na Constituio do respectivo Estado e os seguintes preceitos.

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  • CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E SEUS EFEITOS Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira26

    Elival da Silva Ramos discorre sobre o princpio da supremacia:15 16 17 18 19 20

    O que importa, entretanto, deixar patenteado que a rigidez e a supremacia (formal) das normas constitucionais esto umbilicalmente ligadas, devendo-se entender a supremacia hierrquica, simultaneamente, como regra estrutural (do ordenamento) e como um princpio constitucional, inferido, enquanto tal, das normas agasalhadoras da rigidez e do controle de constitucionalidade.21

    O Supremo Tribunal Federal, recentemente, tratou da matria:

    Sabemos que a supremacia da ordem constitucional traduz princpio essencial que deriva, em nosso sistema de direito positivo, do carter eminentemente rgido de que se revestem as normas inscritas no estatuto fundamental.

    Nesse contexto, em que a autoridade normativa da Constituio assume decisivo poder de ordenao e de conformao da atividade estatal que nela passa a ter o fundamento de sua prpria existncia, validade e eficcia -, nenhum ato de Governo (Legislativo, Executivo e Judicirio) poder contrariar-lhe os princpios ou transgredir-lhe os preceitos, sob pena de o comportamento dos rgos do Estado incidir em absoluta desvalia jurdica.22

    15 Constituio Federal: Art. 32. O Distrito Federal, vedada sua diviso em Municpios, reger-se- por lei orgnica, votada em dois turnos com interstcio mnimo de dez dias, e aprovada por dois teros da Cmara Legislativa, que a promulgar, atendidos os princpios estabelecidos nesta Constituio.

    16 Constituio Federal: Art. 121, 3. So irrecorrveis as decises do Tribunal Superior Eleitoral, salvo as que contrariarem esta Constituio.

    17 Constituio Federal: Art. 121, 4. Das decises dos Tribunais Regionais Eleitorais somente caber recurso quando: I forem proferidas contra disposio expressa desta Constituio.

    18 Constituio Federal: Art. 125. Os Estados organizaro sua Justia, observados os princpios estabelecidos nesta Constituio.

    19 Constituio Federal, Ato das Disposies Constitucionais Transitrias: Art. 1. O Presi-dente da Repblica, o Presidente do Supremo Tribunal Federal e os membros do Congresso Nacional prestaro o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituio, no ato e na data de sua promulgao.

    20 Constituio Federal, Ato das Disposies Constitucionais Transitrias: Art. 11. Cada Assembleia Legislativa, com poderes constituintes, elaborar a Constituio do Estado, no prazo de um ano, contado da promulgao da Constituio Federal, obedecidos os princpios desta. Pargrafo nico. Promulgada a Constituio do Estado, caber Cmara Municipal, no prazo de seis meses, votar a lei orgnica respectiva, em dois turnos de discusso e votao, respeitado o disposto na Constituio Federal e na Constituio estadual.

    21 A inconstitucionalidade das leis. So Paulo: Saraiva, 1994, p. 60.22 ADIn 2.215-PE (Medida Cautelar), Rel. Min. Celso de Mello, Braslia, 17 de abril de 2001.

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  • Cap. 1 CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE 27

    As precisas lies transcritas nos levam a concluir que o princpio da su-premacia da Constituio foi consagrado pelo ordenamento ptrio, de forma implcita23. Todos devem obedincia aos ditames constitucionais, governantes e governados, sem qualquer exceo, sob pena de prtica de ato invlido24.

    A prtica de qualquer ato contrrio Constituio acarreta na ocorrncia do vcio: a inconstitucionalidade25, que consiste na incompatibilidade do con-tedo de determinado ato normativo ou comportamento26, ou do respectivo processo de elaborao27, com a Constituio Federal. H, outrossim, incons-titucionalidade na omisso.

    Regina Macedo Nery Ferrari salienta que inconstitucional pode ser a ao ou omisso que ofende, no todo ou em parte, a Constituio.28 dizer, h inconstitucionalidade na omisso do Poder Pblico que deixa de regulamentar dispositivo constitucional, ou da autoridade administrativa que no pratica a conduta prevista na Constituio.

    23 Os princpios implcitos ficam subjacentes dico do produto legislado, suscitando um esforo de efeito indutivo para perceb-los e isol-los. Paulo de Barros Carvalho, Curso de Direito Tributrio, 9 ed., So Paulo: Saraiva, 1996, p. 90.

    24 Os atos jurdicos irradiam-se por trs planos: existncia, validade e eficcia. Quanto exis-tncia, a doutrina afirma que todo negcio jurdico se compe de determinados elementos estruturais, sem os quais no se pode reconhecer a sua presena. Elival da Silva Ramos, op. cit., p. 8. dizer, sem determinados elementos o ato inexistente. Vlida a norma que respeita um comando superior, ou seja, um preceito constitucional. Maria Helena Diniz, Norma Constitucional e seus efeitos, 2 ed., So Paulo: Saraiva, 1992, p. 23. Para o citado autor: Os atos invlidos (nulos ou anulveis) so sempre, necessariamente, atos existentes, donde se pode afirmar, com Pontes de Miranda: eles so, posto que nulamente sejam, op. cit., p. 9. Quanto ao plano da eficcia, afirma o professor: a despeito da presena de todos os elementos estruturais do ato e do preenchimento dos requisitos de validade para eles estabelecidos, determinado negcio jurdico pode no gerar efeitos esperados pelas partes, em face da atuao de um fator de eficcia, que, embora muitas vezes fazendo parte do suporte ftico do ato, extrnseco declarao negocial, op. cit., p. 11. No se pode olvidar que a lei s se preocupa em sancionar com a invalidade os negcios existentes, cujos elementos estruturais no preencham os requisitos de validade normativamente estabelecidos, conforme ressalta o precitado professor da Universidade de So Paulo, op. cit., p. 11.

    25 A inconstitucionalidade vcio, que no se confunde, vale ressaltar, com a sano de incons-titucionalidade, que a consequncia estabelecida pela Constituio para a sua violao: a providncia prescrita pelo ordenamento para a sua restaurao, a evoluo do vcio rumo sade constitucional. Caso essa evoluo no se verifique espontaneamente ou dependa de interveno coativa, far-se- uso dos remdios constitucionais, ou seja, dos instrumentos de garantia compreendidos no chamado controle de constitucionalidade. A inconstitucionalidade das leis: vcio e sano, So Paulo: Saraiva, 1994, p. 63-4.

    26 Inconstitucionalidade material. 27 Inconstitucionalidade formal.28 Efeitos da Declarao de Inconstitucionalidade. 4 ed., So Paulo: Revista dos Tribunais, 1999,

    p. 57.

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  • CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E SEUS EFEITOS Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira28

    A incompatibilidade entre a conduta positiva exigida pela constituio e a conduta negativa do Poder Pblico omisso, configura-se na chamada incons-titucionalidade por omisso.29

    Com o escopo de assegurar a supremacia constitucional, h previso na prpria Carta Fundamental de toda uma mecnica voltada a policiar a ordem jurdica30, tanto no que concerne ao controle ou fiscalizao da constituciona-lidade propriamente dito, como no tocante tarefa especfica de dar efetividade s normas constitucionais.

    O principal mecanismo de defesa ou de garantia da Constituio consiste na fiscalizao da constitucionalidade.31

    Verificado o vcio de inconstitucionalidade, urge a aplicao da sano32, utilizando-se o controle de constitucionalidade, que no ordenamento ptrio misto ou hbrido33, por existirem dois mtodos ou sistemas para o exerccio do controle repressivo de constitucionalidade34: o concentrado e o difuso, que sero oportunamente abordados.

    O legislador constituinte originrio no estabeleceu expressamente qual a sano cominada norma inconstitucional. Tal sano est implcita, conforme leciona a doutrina.35

    A proeminncia do Texto Maior

    tem o condo de desqualificar, no plano jurdico, o ato em situao de con-flito hierrquico com o texto da Constituio estimula reflexes tericas em torno da natureza do ato inconstitucional, da decorrendo a possibilidade de reconhecimento, ou da inexistncia, ou da nulidade, ou da anulabilidade (com eficcia ex nunc ou eficcia ex tunc), ou, ainda, da ineficcia do comportamento estatal incompatvel com a Constituio.36

    29 Dirceo Torrecillas Ramos, O Controle de constitucionalidade por via de ao, p. 100.30 Celso Ribeiro Bastos, Curso de Direito Constitucional, p.320.31 Clmerson Merlin Clve, A fiscalizao abstrata da Constitucionalidade no Direito Brasileiro.

    2 ed., So Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 34.32 Que pode ser nulidade ou anulabilidade conforme o sistema adotado pelo ordenamento

    jurdico.33 Zeno Veloso, Controle Jurisdicional de Constitucionalidade, p. 34.34 O objeto deste controle pelo Judicirio so leis ou atos normativos j editados. Vale lembrar

    que a doutrina trata do controle preventivo de constitucionalidade e dos rgos controla-dores, bem como do repressivo, que no sero versados neste, para no distanciarmos do tema estudado.

    35 Nesse sentido a lio de Gilmar Ferreira Mendes, Jurisdio Constitucional, 2 ed., So Paulo: Saraiva, 1998, p. 256; Clmerson Merlin Clve, op. cit., p. 246.

    36 ADIn 2.215-PE (Medida Cautelar), Rel. Min. Celso de Mello, Braslia, 17 de abril de 2001.

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  • Cap. 1 CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE 29

    A doutrina retrata com propriedade a importncia da fiscalizao de constitucionalidade:

    O controle da constitucionalidade das leis o corolrio lgico da supremacia constitucional, seu instrumento necessrio, o requisito para que a superioridade constitucional no se transforme em preceito moralmente platnico e a Consti-tuio em simples programa poltico, moralmente obrigatrio, um repositrio de bons conselhos, para uso espordico ou intermitente do legislador, que lhe pode vibrar, impunemente, golpes que a retalham e desfiguram.37

    Cabe ressaltar que:

    A vinculao entre sano e controle de inconstitucionalidade tanta que a primeira constatao que fazer a de que onde inexista um verdadeiro sistema de controle inexiste, tambm, sano para o vcio de inconstitucionalidade.38

    Feita uma breve abordagem sobre o controle, necessrio tecer algumas consideraes sobre a sano cominada ao ato inconstitucional.

    Na doutrina39 defende-se que a modalidade de controle de constituciona-lidade adotada identifica a sano:

    O sistema de controle de constitucionalidade funciona como critrio identifi-cador da sano de inconstitucionalidade acolhida pelo ordenamento. Assim, a sano de nulidade exige a presena do controle via incidental, apresentando a deciso que constata a incidncia da sano aparncia de uma retroatividade radical, por redundar na negativa de efeitos ab initio ao ato impugnado. J a sano de anulabilidade aparece necessariamente associada ao controle con-centrado, em que se produzam decises anulatrias com eficcia erga omnes e no retroativas ou com retroatividade limitada.40

    Canotilho concorda com os ensinamentos acima: No caso do judicial review o efeito tpico o da nulidade e no simples anulabilidade.41 E afirma: a sano nulidade tpica do controle difuso.

    Convm lembrar que:

    37 Raul Machado Horta, Direito Constitucional, 2 ed., Belo Horizonte: Del Rey, 1999, p. 130.38 Elival da Silva Ramos, A inconstitucionalidade das leis. So Paulo: Saraiva, 1994, p. 94.39 Elival da Silva Ramos, A inconstitucionalidade das leis. So Paulo: Saraiva, 1994, p. 94.40 Ibidem, p. 94.41 Direito Constitucional, 4 ed., Coimbra: Livraria Almedina, p. 875.

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  • CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E SEUS EFEITOS Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira30

    A sano de nulidade tida como a mais eficiente no que diz respeito pre-servao da supremacia das normas constitucionais, por impedir o ingresso do ato legislativo no plano da eficcia desde o seu nascedouro (ab initio), automaticamente (pleno iure).42

    Nos ordenamentos que adotam a sano anulabilidade, a norma consti-tucional produzir efeitos at o pronunciamento43 da inconstitucionalidade, ou outro momento44. Em razo desta caracterstica, o princpio da supremacia da Constituio perde sua autoridade45, o que poder ocasionar desconfiana da populao quanto observncia das normas postas na Constituio, que sero descumpridas durante tal lapso temporal, causando inevitvel insegurana jurdica.

    Zeno Veloso cita julgado do Pretrio Excelso46 no qual o Ministro Celso de Mello consignou que o repdio ao ato inconstitucional decorre, em essncia, do princpio que, fundado na necessidade de preservar a unidade da ordem jurdica nacional, consagra a supremacia da Constituio.47

    Quanto adoo da sano nulidade pelo ordenamento ptrio, no se pode olvidar, que a prpria Constituio Federal48 dispe que a inconstitucionalidade

    42 Elival da Silva Ramos, A inconstitucionalidade das leis. So Paulo: Saraiva, 1994, p. 128.43 Elival da Silva Ramos afirma que nos sistemas que adotam a sano de anulabilidade a de-

    ciso judicial provoca mudana no plano do Direito material, no obstante j anteriormente nele prevista (potencialmente), A inconstitucionalidade das leis. So Paulo: Saraiva, 1994, p. 91.

    44 Esta ltima hiptese a de restrio, ou manipulao, ou modulao dos efeitos da deciso de inconstitucionalidade que ser tratada oportunamente.

    45 Em consonncia com o afirmado, Daniel Sarmento tece consideraes acerca da sano anu-labilidade: Tal sistemtica se afiguraria contrria ao postulado da supremacia da Lei Maior, pois permitiria que, durante certo perodo, uma norma infraconstitucional se sobrepusesse Constituio, desacatando impunemente os seus mandamentos. A eficcia temporal das decises no controle de constitucionalidade, Hermenutica e jurisdio constitucional, Belo Horizonte: Del Rey, 2001, p. 11.

    46 Adin 652/MA, questo de ordem.47 Controle Jurisdicional de Constitucionalidade. 2 ed., Belo Horizonte: Del Rey, 2000, p. 184.48 Constituio Federal: Artigo 52, X suspender a execuo, no todo ou em parte, de lei

    declarada inconstitucional por deciso definitiva do Supremo Tribunal Federal; e 103, 2. Declarada a inconstitucionalidade por omisso de medida para tornar efetiva nor-ma constitucional, ser dada cincia ao Poder competente para a adoo das providncias necessrias e, em se tratando de rgo administrativo, para faz-lo em trinta dias; e Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituio, ca-bendo-lhe: I processar e julgar, originariamente: a) a ao direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou estadual e a ao declaratria de constitucionalidade de lei ou ato normativo federal; e 102, III julgar, mediante recurso extraordinrio, as causas decididas em nica ou ltima instncia, quando a deciso recorrida:...b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; e Art. 97. Somente pelo voto da maioria

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  • Cap. 1 CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE 31

    reconhecida por deciso declaratria49, o que refora a tese da nulidade da lei inconstitucional, considerando que as decises declaratrias50 reconhecem atos nulos51, no anulveis52.

    Em sntese, no h previso expressa na Constituio da sano comi-nada ao ato inconstitucional, o que caracteriza o princpio da nulidade como implcito53, extrado do controle difuso de constitucionalidade e das previses na Constituio Federal, que estabelecem que a inconstitucionalidade reconhe-cida por deciso declaratria, reafirmando a nulidade do ato inconstitucional.

    Entendemos que o princpio da nulidade da lei inconstitucional tem hierarquia constitucional54 e, segundo a doutrina, foi preservada a orientao que considera nula ipso jure e ex tunc a lei inconstitucional.55

    absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo rgo especial podero os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder pblico.

    49 Alfredo Buzaid defende que a sentena que reconhece a inconstitucionalidade declarat-ria, op. cit., p. 128-130. Em sentido contrrio entendendo tratar-se de deciso constitutiva, afirmando que a lei inconstitucional anulvel, Regina Nery Ferrari, op. cit., p. 136.

    50 O processo meramente declaratrio visa apenas declarao da existncia ou inexistncia da relao jurdica, Antonio Carlos de Arajo Cintra, Ada Pellegrini Grinover, e Cndido Rangel Dinamarco, Teoria Geral do Processo, 10 ed., So Paulo: Malheiros Editores, 1994, p. 302. Entendemos que aplicvel o conceito acima aos processos de controle abstrato, j que a inconstitucionalidade uma relao jurdica.

    51 Canotilho aponta: Fala-se em efeito declarativo quando a entidade controlante se limita a declarar a nulidade pr-existente do acto normativo. O acto normativo absolutamente nulo (null and void) e, por isso, o juiz ou qualquer outro rgo de controlo limita-se a reconhecer declarativamente a sua nulidade. o regime tpico do controle difuso, op. cit., p. 875.

    52 Walber de Moura Agra afirma que em alguns casos a deciso de inconstitucionalidade constitutivo-negativa, tornando-se o ato inconstitucional por vontade do Poder Judicirio, dimensionando-se o STF como um rgo legislativo negativo, Curso de Direito Constitucional, Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 495.

    53 No se pode olvidar que entre os princpios implcitos e os expressos no se pode falar em supremacia. dizer, ambos retiram fundamento de validade do mesmo texto jurdico, segundo lio de Paulo de Barros Carvalho, Curso de Direito Tributrio, So Paulo: Saraiva, p. 90.

    54 Gilmar Ferreira Mendes, Jurisdio Constitucional, p. 255. O citado autor em nota de rodap menciona julgado do Supremo Tribunal Federal, no RE 103.619, Rel. Min. Oscar Corra, publicado na RDA n. 160/80. No mesmo sentido Clmerson Merlin Clve, op. cit., p. 246. Ressalte-se que recentemente Gilmar Ferreira Mendes mudou de entendimento, concluindo que a lei inconstitucional no seria, portanto, nula ipso iure, mas apenas anulvel. Controle concentrado de constitucionalidade: comentrios lei n. 9868, de 10-11-1999, p. 314.

    55 Gilmar Ferreira Mendes, op. cit., p. 256. Acrescenta o citado autor que tal posio tem base constitucional: O princpio do Estado de Direito, fixado no artigo 1, a aplicao imediata dos direitos fundamentais, consagrada no 1 , do artigo 5, a vinculao dos rgos estatais aos princpios constitucionais, que da resulta, a imutabilidade dos princpios constitucionais, no que concerne aos direitos fundamentais e ao processo especial de reforma constitucional, reforam a supremacia da Constituio, op. cit., mesma pgina.

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  • CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E SEUS EFEITOS Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira32

    A maioria dos doutrinadores ptrios entende que no nosso ordenamento a lei inconstitucional nula56. Tal posicionamento adotado pelo Supremo Tribunal Federal57.

    Joo Leito de Abreu58 e Regina Maria Macedo Nery Ferrari no concordam com o entendimento que adotamos. Para eles, a lei inconstitucional anulvel, visto que esta qualidade lhe imposta por um rgo competente, conforme

    56 Adotamos a lio do professor Celso Ribeiro Bastos que toda a norma infringente da Cons-tituio nula, Curso de Direito Constitucional, p. 389. Entendem que a norma constitucional nula: Jos Cretella Jnior, Elementos de Direito Constitucional, 4 ed., So Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000, p. 100; Geraldo Ataliba, Regime Tributrio e Estado de Direito, site oficial do Tribunal Regional Federal da 3 Regio: www.trf3.gov.br/palestra03.htm, acesso em 28/09/2001; Ruy Barbosa, Os actos inconstitucionais do congresso e do executivo, p. 47; Alfredo Buzaid, Da ao direta de declarao de inconstitucionalidade, p. 132; Jos Afonso da Silva, Curso de Direito Constitucional Positivo, p. 55; Ada Pellegrini Grinover, Controle da constitucionalidade, Revista Forense vol. 341, p. 12; Gilmar Ferreira Mendes, Jurisdio Constitucional, p. 256, Clmerson Merlin Clve, A fiscalizao abstrata de constitucionali-dade, p. 249; Andr Ramos Tavares, Tribunal e jurisdio constitucional, So Paulo: Celso Bastos Editor, 1998, p. 121; Luiz Alberto David Arajo e Vidal Serrano Nunes Jnior, Curso de Direito Constitucional, 4 ed., So Paulo: Saraiva, 2001, p. 25; Michel Temer, Elementos de Direito Constitucional, 12 ed., So Paulo: Malheiros Editores, 1996, p. 40; Jos Adrcio Leite Sampaio, A constituio reinventada pela jurisdio constitucional, Belo Horizonte: Del Rey, 2002, p. 208 (este fala em nulidade no controle concentrado e inaplicabilidade no incidental), Ives Gandra da Silva Martins, Controle concentrado de constitucionalidade: co-mentrios lei n. 9.868, de 10-11-1999, So Paulo: Saraiva, 2001, p. 205-7, Lenio Luiz Streck, Jurisdio constitucional e hermenutica: uma nova crtica do Direito, Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002, p. 541; Jos Rogrio Cruz e Tucci, Aspectos processuais da denominada Ao declaratria de constitucionalidade, Ao declaratria de constitucionalidade, Ives Gan-dra da Silva Martins e Gilmar Ferreira Mendes coordenadores, So Paulo: Saraiva, 1994, p. 151; Carlos Blanco de Morais, Justia Constitucional, Tomo I, Coimbra: Coimbra Editora, 2002, p 301 (especificamente sobre o Direito Constitucional brasileiro). Cabe salientar que a Lei n. 9.882/99, em seu artigo 11, prev a possibilidade do Pretrio Excelso decidir sobre qual ser o momento da eficcia de sua deciso que declara a inconstitucionalidade, a Lei n. 9.868/99 contm dispositivo semelhante (artigo 27). Impe-se, ao nosso sentir, a inter-pretao do citado dispositivo de acordo com o princpio da supremacia e o da nulidade do ato inconstitucional. Abordaremos este assunto nos itens 3.4 e 3.5.

    57 STF, RE-93173 / SP, Relator Min. Firmino Paz, Julgamento 15/06/1982 2 Turma; RE-56192 / RN, Relator(a) Min. CNDIDO MOTTA, Julgamento 23/03/1965 PRIMEIRA TUR-MA; ADIMC-1434 / SP AO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE MEDIDA CAUTELAR, Relator Min. CELSO DE MELLO; Julgamento 20/08/1996 Tribunal Pleno; ADIQO-652/MA AO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE QUESTO DE ORDEM, Relator Min. CELSO DE MELLO, Julgamento 02/04/1992 TRIBUNAL PLENO; Rp. 980, Relator: Ministro Moreira Alves, RTJ n. 96, p. 496 (508); RE 103.619, Relator: Mi-nistro Oscar Corra, RDA n. 160, p. 80 e s.; e Supremo Tribunal Federal RTJ 55/744, 87/758, 89/367, 95/993, 101/503.

    58 A Validade da Ordem Jurdica, p. 156/165, item n. 11, 1964, Globo, apud ADIn 2.215-PE (Medida Cautelar), Rel. Min. Celso de Mello, Braslia, 17 de abril de 2001.

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  • Cap. 1 CONTROLE JUDICIAL DE CONSTITUCIONALIDADE 33

    o ordenamento jurdico, e que opera, eficaz e normalmente, como qualquer disposio normativa vlida at a decretao de sua inconstitucionalidade.59

    Acrescenta a citada autora:

    Se outro fosse o entendimento, teramos, de maneira vertiginosa, instalado o caos na vida social e em suas respectivas relaes. Como anteriormente res-saltado, a inconstitucionalidade pode ser arguida a qualquer tempo e, assim, no se teria nunca a certeza do direito, pois nunca estaramos em condio de saber se um ato praticado validamente sob o imprio de uma lei seria assim considerado para todo o sempre.60

    Para Andr Ramos Tavares tem-se

    admitida a sano anulabilidade para a lei inconstitucional como sendo a sano que melhor se amolda aos anseios atuais da sociedade, equilibrando o princpio da supremacia constitucional com a exigncia (tambm social) de segurana jurdica.61

    Gilmar Ferreira Mendes mudou seu entendimento62 acerca da sano, concluindo que a lei inconstitucional no seria, portanto, nula ipso iure, mas apenas anulvel.63

    Discordamos dos doutrinadores que afirmam que a lei inconstitucional apenas anulvel. A nulidade constitui princpio implcito64, decorrente das normas que consagram a supremacia, e do modelo de controle de constitucio-nalidade adotado. Entre os princpios implcitos e os expressos no se pode falar em supremacia65. dizer, ambos retiram fundamento de validade do mesmo texto jurdico, segundo lio de Paulo de Barros Carvalho66, que cita

    59 Efeitos da declarao de inconstitucionalidade, p. 275.60 Efeitos da declarao de inconstitucionalidade, p. 124.61 As tendncias do direito pblico no limiar de um novo milnio, So Paulo: Saraiva, 2000, p.

    89. 62 O princpio da nulidade da lei inconstitucional tem hierarquia constitucional, Jurisdio

    Constitucional, p. 255. Concluindo que foi preservada a orientao que considera nula ipso jure e ex tunc a lei inconstitucional, op. cit., p. 256.

    63 Controle concentrado de constitucionalidade: comentrios lei n. 9868, de 10-11-1999, So Paulo: Saraiva, 2001, p. 314.

    64 Nesse sentido a lio de Gilmar Ferreira Mendes, Jurisdio Constitucional, 2 ed., So Paulo: Saraiva, 1998, p. 256; Clmerson Merlin Clve, op. cit., p. 246.

    65 Paulo de Barros Carvalho, op. cit., p. 90.66 Op. cit., mesma pgina.

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