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1906 leia algumas paginas

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Text of 1906 leia algumas paginas

  • 2016

    RENATO BRASILEIRO DE LIMA

    Cdigo de

    PROCESSO PENAL Comentado

    Lima- CPP Comentado 1ed.indb 3 27/01/2016 13:52:27

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    LIVRO I

    DO PROCESSO EM GERAL1-2

    TTULO I

    DISPOSIES PRELIMINARES

    Art . 1 O processo penal reger-se-, em todo o territrio brasileiro, por este Cdigo,3 ressalvados:4-6

    I - os tratados, as convenes e regras de direito internacional;7

    II - as prerrogativas constitucionais do Presidente da Repblica, dos mi-nistros de Estado, nos crimes conexos com os do Presidente da Repblica, e dos ministros do Supremo Tribunal Federal, nos crimes de responsabilidade (Constituio, arts. 86, 89, 2, e 100);8

    III - os processos da competncia da Justia Militar;9

    IV - os processos da competncia do tribunal especial (Constituio, art. 122, n 17);10

    V - os processos por crimes de imprensa.11 (vide ADPF n. 130)Pargrafo nico. Aplicar-se-, entretanto, este Cdigo aos processos

    referidos nos nos. IV e V, quando as leis especiais que os regulam no dis-puserem de modo diverso.12

    1. Processo penal e o Estado Democrtico de Direito: quando o Estado, por intermdio do Poder Legislativo, elabora as leis penais, cominando sanes queles que vierem a praticar a conduta delituosa, surge para ele o direito de punir os infratores num plano abstrato e, para o particular, o dever de se abster de praticar a infrao penal. No entanto, a partir do momento em que algum pratica a conduta delituosa prevista no tipo penal, este direito de punir desce do plano abstrato e se transforma no jus puniendi in concreto. O Estado, que at ento tinha um poder abstrato,

    genrico e impessoal, passa a ter uma preten-so concreta de punir o suposto autor do fato delituoso. Surge, ento, a pretenso punitiva, a ser compreendida como o poder do Estado de exigir de quem comete um delito a submisso sano penal. Atravs da pretenso punitiva, o Estado procura tornar efetivo o ius puniendi, exigindo do autor do delito, que est obrigado a sujeitar-se sano penal, o cumprimento dessa obrigao, que consiste em sofrer as consequncias do crime e se concretiza no dever de abster-se ele de qualquer resistncia contra os rgos estatais a que cumpre executar

    Lima- CPP Comentado 1ed.indb 13 27/01/2016 13:52:27

  • CPP COMENTADO RENATO BRASILEIRO DE LIMA

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    Art. 1

    a pena. Todavia, esta pretenso punitiva no pode ser voluntariamente resolvida sem um processo, no podendo nem o Estado impor a sano penal, nem o infrator sujeitar-se pena. Em outras palavras, essa pretenso j nasce insatisfeita. Afinal, o Direito Penal no um direito de coao direta. Apesar de o Estado ser o titular do direito de punir, no se admite a imposio imediata da sano sem que haja um processo regular, assegurando-se, assim, a apli-cao da lei penal ao caso concreto, consoante as formalidades prescritas em lei, e sempre por meio dos rgos jurisdicionais (nulla poena sine judicio). Alis, at mesmo nas hipteses de infraes de menor potencial ofensivo, em que se admite a transao penal, com a ime-diata aplicao de penas restritivas de direitos ou multas, no se trata de imposio direta de pena. Utiliza-se, na verdade, de forma distinta da tradicional para a resoluo da causa, sendo admitida a soluo consensual em infraes de menor gravidade, mediante superviso ju-risdicional, privilegiando-se, assim, a vontade das partes e, principalmente, do autor do fato que pretende evitar os dissabores do processo e o risco da condenao. da que sobressai a importncia do processo penal, pois funciona como instrumento do qual se vale o Estado para a imposio de sano penal ao possvel autor do fato delituoso. Mas o Estado no pode punir de qualquer maneira. Com efeito, considerando-se que, da aplicao do direito penal pode resultar a privao da liberdade de locomoo do agente, entre outras penas, no se pode descurar do necessrio e indispensvel respeito a direitos e liberdades individuais que to caro custaram para serem reconhecidos e que, em verdade, condicionam a legitimidade da atuao do prprio aparato estatal em um Estado Democrtico de Direito. Na medida em que a liberdade de locomoo do cidado funciona como um dos dogmas do Estado de Direito, intuitivo que a prpria Constitui-o Federal estabelea regras de observncia obrigatria em um processo penal. a boa aplicao (ou no) desses direitos e garantias que permite, assim, avaliar a real observncia dos elementos materiais do Estado de Direito e distinguir a civilizao da barbrie. De fato,

    como adverte Norberto Bobbio, a proteo do cidado no mbito dos processos estatais justamente o que diferencia um regime demo-crtico daquele de ndole totalitria. Na dico do autor ((As ideologias e o poder em crise. Traduo de Joo Ferreira; reviso tcnica Gilson Csar Cardoso. 4 ed. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 1999, p. 96-97), a diferena fundamental entre as duas formas antitticas de regime poltico, entre a demo-cracia e a ditadura, est no fato de que somente num regime democrtico as relaes de mera fora que subsistem, e no podem deixar de subsistir onde no existe Estado ou existe um Estado desptico fundado sobre o direito do mais forte, so transformadas em relaes de direito, ou seja, em relaes reguladas por nor-mas gerais, certas e constantes, e, o que mais conta, preestabelecidas, de tal forma que no podem valer nunca retroativamente. A conse-quncia principal dessa transformao que nas relaes entre cidados e Estado, ou entre cidados entre si, o direito de guerra fundado sobre a autotutela e sobre a mxima Tem razo quem vence substitudo pelo direito de paz fundado sobre a heterotutela e sobre a mxima Vence quem tem razo; e o direito pblico externo, que se rege pela supremacia da fora, substitudo pelo direito pblico interno, inspirado no princpio da supremacia da lei (rule of law). esse, pois, o grande dilema do processo penal: de um lado, o necessrio e indispensvel respeito aos direitos fundamen-tais; do outro, o atingimento de um sistema criminal mais operante e eficiente. Na linha do ensinamento de Antnio Scarance Fernandes, o vocbulo eficincia aqui empregado usado de forma ampla, sendo afastada, contudo, a ideia de eficincia medida pelo nmero de condenaes. Ser eficiente o procedimento que, em tempo razovel, permita atingir um resultado justo, seja possibilitando aos rgos da persecuo penal agir para fazer atuar o di-reito punitivo, seja assegurando ao acusado as garantias do processo legal. (Sigilo no processo penal: eficincia e garantismo. Coordenao Antnio Scarance Fernandes, Jos Raul Gavio de Almeida, Maurcio Zanoide de Moraes. So Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008. p.

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  • TTULO I DISPOSIES PRELIMINARES

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    Art. 1

    10). H de se buscar, portanto, um ponto de equilbrio entre a exigncia de se assegurar ao investigado e ao acusado a aplicao das garan-tias fundamentais do devido processo legal e a necessidade de maior efetividade do sistema persecutrio para a segurana da coletividade. dentro desse dilema existencial do processo penal efetividade da coero penal versus observncia dos direitos fundamentais que se buscar, ao longo da presente obra, um ponto de equilbrio no estudo do processo penal, pois somente assim sero evitados os extremos do hipergarantismo e de movimentos como o do Direito Penal do Inimigo ou do Direito Penal da Lei e da Ordem.

    2. Sistemas processuais penais: histori-camente, sempre existiram dois sistemas ou modelos processuais, quais sejam, o acusatrio e o inquisitrio. Tambm houve uma tentativa de fundir os dois sistemas, dando origem ao sistema misto. Nos dias de hoje, no existem sistemas acusatrios ou inquisitrios puros. Na verdade, ora o processo penal predomi-nantemente acusatrio, ora apresenta caracte-rsticas peculiares dos sistemas inquisitoriais. Quando o nosso Cdigo de Processo Penal entrou em vigor no dia 1 de janeiro de 1942, prevalecia o entendimento de que o sistema nele previsto era misto. A fase inicial da perse-cuo penal, caracterizada pelo inqurito poli-cial, era inquisitorial. Porm, uma vez iniciado o processo, tnhamos uma fase acusatria. Porm, com o advento da Constituio Fede-ral, que prev de maneira expressa a separao das funes de acusar, defender e julgar (art. 129, I), estando assegurado o contraditrio e a ampla defesa, alm do princpio da presuno de no culpabilidade, estamos diante de um sistema acusatrio. bem verdade que no se trata de um sistema acusatrio puro. De fato, h de se ter em mente que o Cdigo de Pro-cesso Penal tem ntida inspirao no modelo fascista italiano. Torna-se imperioso, portanto, que a legislao infraconstitucional seja relida diante da nova ordem constitucional. Dito de outro modo, no se pode admitir que se pro-cure delimitar o sistema brasileiro a partir do Cdigo de Processo Penal. Pelo contrrio. So as leis que devem ser interpretadas luz dos

    direitos, garantias e princpios introduzidos pela Carta Constitucional de 1988.

    2.1. Sistema inquisitorial: adotado pelo Direito cannico a partir do sculo XIII, o sistema inquisitorial posteriormente se pro-pagou por toda a Europa, sendo empregado inclusive pelos tribunais civis at o sculo XVIII. Tem como caracterstica principal o fato de as funes de acusar, defender e julgar encontrarem-se concentradas em uma nica pessoa, que assume assim as vestes de um juiz acusador, chamado de juiz inquisidor. Essa concentrao de poderes nas mos do juiz compromete, invariavelmente, sua imparciali-dade. De fato, h uma ntida incompatibilidade entre as funes de acusar e julgar. Afinal, o juiz que atua como acusador fica ligado psicologicamente ao resultado da demanda, perdendo a objetividade e a imparcialidade no julgamento. Em virtude dessa concentrao de poderes nas mos do juiz, no h falar em con-traditrio, o qual nem sequer seria concebvel em virtude da falta de contraposio entre acu-sao e defesa. Ademais, geralmente o acusado perman