1968 - Boitempo - Carlos Drummond de Andrade

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Boitempo Boitempo e a falta que ama Carlos Drummond de Andrade I Boitempo Caminhar de costas CAUTELA Hora de abrir a sesso da Cmara. O presidente no aparece. O presidente est impedido. O presidente est preso em casa. Monta guarda junto ao quarto repleto de ouro em p. Pode a campainha tilintar, o sino do Rosrio bater e rebater, o Senado da Cmara implorar protestar destituir o faltoso. O presidente tesoureiro do ouro em p tributo do povo regncia trina v l se vai abrir sesso. Presida quem quiser, que esse ouro aqui ladro nenhum vir roubar. O ATOR Era um escravo fugido por si mesmo libertado. Meu av se foi Mata vender burro brabo fiado. Chega l, deita no rancho para pitar descansado. Duzentas, trezentas lguas em macho bem arreado, por muito que um homem seja de ferro, fica estrompado. "Vou dormir, sonhar meu sonho de cobre e mulher tranado. Por favor ningum me amole

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que trago dependurado no aro da sela meu coldre com pau-de-fogo. Obrigado." "Dormir to cedo, meu amo? se no rancho do outro lado do rio tem espetado que h de ser de vosso agrado. Faz trs dias ningum cuida na roa e no povoado seno de ver esta noite A Vingana do Passado." Nem mais se recorda o velho que estava mesmo pregado. Cala bota, arrocha cinto e j se v preparado. De noite, luz de candeeiro, o drama tem outra face. como se letra antiga outro valor se juntasse. O rosto do ator imerge de repente na penumbra e uma pungncia maior entre cangalhas ressumbra. Metade luz e metade mistrio, a pea caminha estranha. Dormem l fora a tropa e a bsta-madrinha. Na noite gelada a histria fala de nobres de Espanha e do dote de uma virgem conspurcada pela sanha caprina de Do Fernando. E depois de mil malcias o vil exclama: "Calor, ai calor que abrasa um conde!" "Que ouo? Que fua esta?" Meu av salta do banco. O fidalgo enxuga a testa que a luz devassa, mostrando a estelar cicatriz do seu escravo fugido bem por cima do nariz. Empurrando a uns e outros, meu av aode cena e brandindo seu chicote (pois anda sempre com le em roa, brejo ou vila)

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fustiga o conde, sem pena: "Bacalhau, ai bacalhau que te abrase o rabo, diabo. Acaba com esta papeata seno sou eu que te acabo." Era uma vez um artista pelo bero mui dotado. Ficou a noite mais triste na tristido do calado. Cada qual se retirando achava bem acertado. Cumpre-se a lei. Est escrito a cada um o seu gado. Para um escravo fugido no h futuro, h passado, pelo qu l vai o conde tocando burro e vigiado. A tropa vai caminhando pelo Segundo Reinado.

CRIAO A alma dos pobres se vai sem msica, mas a dos grandes exigente. A Banda Euterpe, logo chamada por Monsenhor para chorar o morto conspcuo azar nova, sem partitura. S se pedir banda rival. . . Henrique Dias (nome da outra) recusa, egosta. Defunto vista querendo arte. A tarde emurchece e Monsenhor espera, aflito, marcha ou o que seja. Emlio Soares, maestro, fecha-se no seu quartinho. D r mi sol. . . A Musa baixa, ou Santa Ceclia, dita ao maestro o fnebre arroubo. Onze da noite. Dormem os fiis, no Monsenhor. Eis, no silncio, clara, a cometa do carcereiro chamando os msicos (so todos guardas municipais) para ensaiar. A banda valente acorda o povo, causando pnico a Monsenhor e a todo mundo, que novidade

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igual nunca houve. Como j sofrem, amanhecendo, os de Henrique Dias! s nove, enterro. frente, a batina de Monsenhor. L vai seguido da Banda Euterpe que toca exausta, com sentimento, luto orgulhoso, o Lbera-M, favo da noite, glria de Emlio, ddiva ao morto, que o cu inspira, por Monsenhor. Jamais um grande se foi sem msica e jamais teve outra, ungindo os ares, como esta, grave, de Emlio Soares. 15 DE NOVEMBRO A proclamao da Repblica chegou s 10 horas [da noite em telegrama lacnico. Liberais e conservadores no queriam acreditar. Artur Itabirano saiu para a rua soltando foguete. Dr. Serapio e poucos mais o acompanhavam de leno incendiado no pescoo. Conservadores e liberais recolheram-se ao seu [ infortnio. O Pico do Cau quedou indiferente (era todo ferro, supunha-se eterno). No resta mais testemunha daquela noite para contar o efeito dos lenos vermelhos ao suposto luar das montanhas de Minas. No restam sequer as montanhas.

Vida paroquial AUSNCIA Subir ao Pico do Amor e l em cima sentir presena de amor. No Pico do Amor amor no est. Reina serenidade de nuvens sussurrando ao corao: Que importa? L embaixo, talvez, amor est, em lagoa decerto, em grota funda. Ou? mais encoberto ainda, onde se refugiam coisas que no so, e tremem de vir a ser.

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O RELGIO Nenhum igual quele. A hora no bolso do colete furtiva, a hora na parede da sala calma, a hora na incidncia da luz silenciosa. Mas a hora no relgio da Matriz grave como a conscincia. E repete. Repete. Impossvel dormir, se no a escuto. Ficar acordado, sem sua batida. Existir, se ela emudece. Cada hora fixada no ar, na alma, continua soando na surdez. Onde no h mais ningum, ela chega e avisa varando o pedregal da noite. Som para ser ouvido no longilonge do tempo da vida. Imenso no pulso este relgio vai comigo. SERENATA Flauta e violo na trova da rua que uma treva rolando da montanha fazem das suas. No h garrucha que impea: A msica viola o domiclio e pe rosas no leito da donzela.

O BANHO Banheiro de meninos, a gua Santa lava nossos pecados infantis ou lembra que pecado no existe? gua de duas fontes entranadas, uma aquece, outra esfria surdo anseio

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de apalpar na laguna a perna, o seio a forma irrevelada que buscamos quando, antes de amar, confusamente amamos. A tarde no cai na gua Santa. Ela pousa na sombra da gameleira, fica vendo meninos se banharem.

PROCISSO DO ENCONTRO L vai a procisso da igreja do Rosrio. L vem a procisso da igreja da Sade. O encontro em frente casa de Joo Rosa. Encontro de Me e Filho trgicos, imveis nos andores. Ao ar livre o plpito de prpura drapeja no entardecer da serra fria. A voz censura ternamente o Homem que se deixa imolar por muito amor e do amor materno se desprende. No h nada a fazer para impedi-lo? A terra abre mo de seu resgate para salvar o Deus que quis salv-la. O ferro da cidade se comove, no o peito de Cristo. E o roxo manto, as lgrimas de sangue, a cruz, as sete espadas vo navegando sobre ombros pela rua-teatro, lentamente. OS ASSASSINOS Os assassinos vm de longe. Vm do Ona, do Periquito, das Bateias, da Serra do Alves. Sangue seco nos dedos, olhar duro, na roupa-o crime escrito. Os assassinos alam a foice na curva da estrada. A gameleira conta o que viu e foi um brilho desabando na entranha do inimigo. Estavam destinados a matar. Mamaram leite turvo. Na escola eram diferentes. As namoradas estranhavam

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seus beijos sem doura. A terra decidiu que matassem. Cumpriram, sem discutir. Jri mais concorrido do que missa. TERAPIA OCUPACIONAL A enxovia fascina a peneira colorida a gaiola de taquara o boneco de engono o riso dos presos o embaixo da vida. A enxovia dando para o ar livre casamento de luz e misria imanta o menino a voz do assassino um curi suave propondo a venda de um girassol de trapo. CEMITRIO DO CRUZEIRO O sol incandesce mrmores rachados. Entre letras a luz penetra nossa misturada essncia corporal, atravessando-a. O ser banha o no-ser; a terra . Ouvimos o galo do cruzeiro nitidamente cantar a ressurreio. No atendemos chamada. CEMITRIO DO ROSRIO beira do crrego, beira do ouro, beira da histria, beira da beira, os mais esquecidos inominados de todos os mortos antigos

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dissolvem a idia de morte em ausncia deliciosa, lembrana de vinho em garrafo translcido. INDSTRIA E viva o governo: deu dinheiro para montar a forja. Que faz a forja? Espingardas e vende para o governo. Os soldados de espingarda foram prender criminoso foram fazer eleio foram caar passarinho foram dar tiros a esmo e viva o governo e viva nossa indstria matadeira. CENSO INDUSTRIAL Que fabricas tu? Fabrico chapu feito de indai. Que fabricas tu? Queijo, requeijo. Que fabricas tu? Fao po-de-queijo. Que fabricas tu? Bolo de feijo. Que fabricas tu? Gelia da branca e tambm da preta. Que fabricas tu? Curtidor de couro. Que fabricas tu? Fabrico selim, fabrico silho s de sola d'anta. Que fabricas tu? Eu fao cabresto, barbicacho e loro. Que fabricas tu? Toco uma olaria. Que fabricas tu? Santinho de barro.

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Que fabricas tu? Fabrico melado. Que fabricas tu? Eu fao garapa. Que fabricas tu? Fabrico restilo. Que fabricas tu? Sou da rapadura. Que fabricas tu? Fabrico purgante. Que fabricas tu? Eu torro caf. Que fabricas tu? Ferradura e cravo. Que fabricas tu? Panela de barro. Que fabricas tu? Eu fabrico lenha furtada no pasto. Que fabricas tu? Gaiola de arame. Que fabricas tu? Fabrico mundu. Que fabricas tu? Bola envenenada de matar cachorro. Que fabricas tu? Fao pau-de-fogo Que fabricas tu? Faco e punhal de sangrar capado. Que fabricas tu? Caixo de defunto. Que fabricas tu? Fabrico defunto na dobra do morro. Que fabricas tu? No fabrico. Assisto s fabricaes. ORDEM Quando a folhinha de Mariana exata informativa santificada regulava o tempo, as colheitas, os casamentos e at a hora de morrer,

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O mundo era mais inteligvel, pairava certa graa no viver. Hoje quem que pode? O RESTO No altar de cidade a boca da mina a boca desdentada da mina de ouro onde a lagartixa herdeira nica de nossos maiores grava em risco rpido no frio, na erva seca, no cascalho o eptome-eplogo da grandeza. Morar CASA H de dar para a Cmara, de poder a poder. No flanco, a Matriz, de poder a poder. Ter vista para a serra, de poder a poder. Sacadas e sacadas comandando a paisagem. H de ter dez quartos de portas sempre abertas ao olho e pisar do chefe. Areia fina lavada na sala de visitas. Alcova no fundo sufocando o segredo de cartas e bas enferrujados. Ter um ptio quase espanhol vazio pedrento fotografando o silncio do sol sobre a laje, da famlia sobre o tempo. Forno estufado fogo de muita fumaa e renda de picum nos barrotes. Galinheiro comprido sombra de muro mido.