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4840503 Novo Comentario Biblico Do Livro de Atos David j Williams

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Text of 4840503 Novo Comentario Biblico Do Livro de Atos David j Williams

Novo Comentrio Bblico Contemporneo ATOSDavid J. Williams

O orgulho de nossas obras no passa de trabalho e tristeza, pois elas passam depressa e se vo... Mostre suas obras a seus servos: que seus filhos vejam sua glria.

NDICEPrefcio do Editor.................................................................................................................6 Abreviaturas..........................................................................................................................8 Introduo.............................................................................................................................9 1. Jesus Sobe aos Cus ( Atos 1.1-11).................................................................................29 2. Matias Escolhido para Substituir Judas ( Atos 1.12-26).................................................39 3. O Esprito Santo Desce no Pentecoste ( Atos 2.1-13).....................................................49 4 .Pedro Prega Multido ( Atos 2.14-41).........................................................................59 5. A Comunho dos Crentes (Atos 2:42-47).......................................................................70 6. Pedro Cura o Mendigo Aleijado (Atos 3:1-10)...............................................................75 7. Pedro Prega aos Circunstantes (Atos 3:11-26)...............................................................79 8. Pedro e Joo Diante do Sindrio (Atos 4:1 -22).............................................................88 9. A Orao dos Crentes (Atos 4:23-31).............................................................................99 10. Os Crentes Compartilham Seus Bens (Atos 4:32-37).................................................103 11. Ananias e Safira (Atos 5:1 -11)...................................................................................107 12. Os Apstolos Curam Muitas Pessoas (Atos 5:12-16).................................................113 13 Os Apstolos So Perseguidos (Atos 5:17-42)............................................................116 14. A Escolha dos Sete (Atos 6:1-7).................................................................................128 15. Estevo Preso (Atos 6:8-15).....................................................................................136 16. O Sermo de Estevo Perante o Sindrio (Atos 7:1-53).............................................141 17. O Apedrejamento de Estevo (Atos 7:54-8:1a)..........................................................158 18. A Igreja Perseguida e Espalhada (Atos 8:1 b-3).......................................................162 19. Filipe em Samaria (Atos 8:4-8)...................................................................................165 20. Simo, o Mago (Atos 8:9-25).....................................................................................167 21. Filipe e o Eunuco Etope (Atos 8:26-40)....................................................................172 22 A Converso de Saulo (Atos 9:1 -19a).........................................................................178 23. Saulo em Damasco e em Jerusalm (Atos 9:19b-31).................................................186 24. Enias e Dorcas (Atos 9:32-43)..................................................................................191 25. Cornlio chama a Pedro (Atos 10:1-8).......................................................................194 26. A Viso de Pedro (Atos 10:9-23a)...............................................................................198 27. Pedro na Casa de Cornlio (Atos 10:23b-48).............................................................201 28. Pedro Explica Suas Aes (Atos 11:1-18)..................................................................209 29. A Igreja em Antioquia (Atos 11:19-30).......................................................................212 30. Miraculoso Livramento de Pedro (Atos 12:1 -19a)....................................................220 31. A Morte de Herodes (Atos 12:19b 25)........................................................................227 32. Barnab e Saulo So Enviados (Atos 13:1-3).............................................................229 33. Em Chipre (Atos 13:4-12)...........................................................................................233 34. Em Antioquia da Pisdia (Atos 13:13 52)...................................................................238 35. Icnio (Atos 14:1-7)....................................................................................................253 36. Em Listra e Derbe (Atos 14:8-20)...............................................................................256 37. Regresso a Antioquia da Sria (Atos 14:21 -28).........................................................261 38. O Concilio de Jerusalm (Atos 15:1-21).....................................................................264 39. A Carta do Concilio (Atos 15:22-35)..........................................................................277

40. Conflito Entre Paulo e Barnab (Atos 15:36-41)........................................................280 41. Timteo Une-se a Paulo e Silas (Atos 16:1-5)............................................................282 42. Viso de Paulo do Homem da Macednia (Atos 16:6-10)..........................................283 43. Converso de Lidia em Filipos (Atos 16:11 -15)........................................................286 44. Paulo e Silas na Priso (Atos 16:16-40)......................................................................292 45. Em Tessalnica (Atos 17:1-9).....................................................................................300 46, Em Beria (Atos 17:10-15).........................................................................................304 47. Em Atenas (Atos 17:16-34).........................................................................................307 48. Em Corinto (Atos 18:1-17).........................................................................................318 49. Priscila, quila e Apolo (Atos 18:18-28)....................................................................328 50. Paulo em feso (Atos 19:1 -22)..................................................................................334 51. Tumulto em feso (Atos 19:23-41)............................................................................343 52. Atravs da Macednia e Grcia (Atos 20:1 -6)...........................................................349 53. utico Ressurge de entre os Mortos em Trade (Atos 20:7-12).................................352 54. Paulo Despede-se dos Presbteros Efsios (Atos 20:13-38).......................................354 55. A Caminho de Jerusalm (Atos 21:1-16)....................................................................363 56. Chegada de Paulo a Jerusalm (Atos 21:17-26).........................................................368 57. Paulo Preso (Atos 21:27-36)....................................................................................372 58. Paulo Fala Multido (Atos 21:3722:21)...............................................................374 59. Paulo, o Cidado Romano (Atos 22:22-29)................................................................383 60. Perante o Sindro (Atos 22:3023:11).....................................................................386 61. Trama para Matar Paulo (Atos 23:12-22)...................................................................390 62. Paulo Transferido para Cesaria (Atos 23:23-35).......................................................392 63. Julgamento Perante Fiix (Atos 24:1 -27)..................................................................396 64. Julgamento Perante Festo (Atos 25:1-12)...................................................................408 65. Festo Consulta ao Rei Agripa (Atos 25:13-22)...........................................................412 66. Paulo Perante Agripa (Atos 25:2326:32)................................................................415 67. Paulo Viaja para Roma (Atos 27:1-12).......................................................................427 68. A Tempestade (Atos 27:13-26)....................................................................................432 69. O Naufrgio (Atos 27:27-44)......................................................................................437 70. Desembarque em Malta (Atos 28:1 -10).....................................................................441 71. Chegada a Roma (Atos 28:11-16)...............................................................................445 72. Paulo Prega em Roma (Atos 28:17-31)......................................................................448

Prefcio do EditorEmbora no aparea nas listas comuns de best-sellers, a Bblia continua sendo o livro mais vendido. E apesar do crescente secularismo do ocidente, no h sinais de que o interesse pela mensagem esteja diminuindo. Ao contrrio, em meio crescente complexidade da vida moderna, mais e mais homens e mulheres esto procurando por direo em suas pginas. Encontramos esse renovado interesse pelas Escrituras em ambos os lados, tanto dentro como fora da igreja. Percebe-se esse fato entre os povos da sia e frica, tanto quanto na Europa e Amrica do Norte. Na verdade, medida que samos de pases tradicionalmente cristos parece que o interesse pela Bblia aumenta. Pessoas ligadas s igrejas tradicionais catlicas e protestantes manifestam pela Palavra o mesmo anseio que existe nas recmorganizadas igrejas e comunidades evanglicas. Desejamos, ento, ao oferecer esta nova srie de comentrios, estimular e fortalecer esse movimento de mbito mundial em prol do estudo da Bblia por parte dos leigos. Conquanto tenhamos esperana de que pastores e mestres considerem esses volumes muito teis tanto compreenso quanto comunicao da Palavra de Deus, no os escrevemos primordialmente para esses profissionais. Nosso objetivo beneficiar todos os leitores das Escrituras, provendo-lhes guias confiveis sobre os livros da Bblia, guias que representem o que h de melhor na cultura contempornea, e que no exijam, para a sua compreenso, de preparo teolgico formal. convico do editor, bem como dos autores, de que a Bblia pertence ao povo, e no meramente aos acadmicos. A mensagem da Bblia to importante que de modo algum pode ficar acorrentada a artigos eruditos, presa a ensaios e monografias hermticos, redigidos apenas para especialistas em teologia. Embora a erudio rigorosa, esmerada, tenha seu lugar no servio de Cristo, todos quantos participam do ministrio do ensino na igreja so responsveis por tornar acessveis grande comunidade crist os resultados de suas pesquisas. Assim que os eruditos em Bblia, que se unem para apresentar esta srie de comentrios, escrevem tendo em mente esses objetivos superiores. H, em portugus, diversas tradues e edies contemporneas do Livro Santo, as quais, na sua maioria, so muito boas. O leitor pode escolher, portanto, que edies da Bblia deve consultar a fim de melhor

compreender a mensagem da Palavra de Deus. Entre essas muitas verses e edies da Escritura Sagrada destacamos A Bblia de Jerusalm, baseada na obra de eruditos catlicos franceses, vividamente traduzida para o portugus por uma equipe de tradutores brasileiros, talvez seja amais literria das tradues recentes. A BLH (Bblia na Linguagem de Hoje), da Sociedade Bblica do Brasil, a traduo mais acessvel s pessoas pouco familiarizadas com a tradio crist. H, ainda, em portugus, a Almeida Revista e Atualizada, e a Edio Revisada de Almeida, alm de outras. O estudante srio da Palavra de Deus deve possuir diversas verses das Escrituras para consulta e estudo, objetivando tanto variedade quanto clareza de compreenso embora se deva salientar que nenhuma dessas verses ou edies seja isenta de falhas, nem deva ser considerada a ltima palavra quanto a qualquer ponto. De outra forma, no haveria a menor necessidade de um comentrio como este! Esta srie de comentrios, por ser traduo da lngua inglesa, faz referncias NEB que constitui verdadeiro monumento pesquisa moderna protestante e a outras verses naquele idioma, entre elas a RSV, a NAB, a NlV. Como texto bblico bsico desta srie, em portugus, decidimos usar a ECA, por ser esta a mais recente edio do texto de Almeida, a que est-se tornando padro em muitas instituies de ensino teolgico, e tambm por ser o texto utilizado nas lies bblicas "Vida Radiante", na Bblia Thompson, e em outras fontes de estudo. Por tais motivos, a traduo em portugus desta srie de comentrios recebeu pequenas adaptaes para que se ajustasse ao texto bblico da Edio Contempornea. Cada volume desta srie contm um captulo introdutrio expondo em mincias o intuito geral do livro e seu autor, os temas mais importantes, e outras informaes teis. Depois, cada seo do livro elucidada como um todo, e acompanhada de notas sobre aqueles pontos do texto que necessitam de maior esclarecimento ou de explanao mais minuciosa. Esta nova srie oferecida com uma orao: que venha a ser instrumento de renovao autntica, e de crescimento entre a comunidade crist no mundo inteiro, bem como um meio de enaltecer a f das pessoas que viveram nos tempos bblicos, e das que procuram viver em nossos dias segundo a Bblia.

AbreviaturasAHG Apostolic History ofthe Gospel (Histria Apostlica do Evangelho). Editado por W. W. Gasque e R. P. Martin. AV Verso da Bblia do Rei Tiago (Autorizada) de 1611. BC Os Comeos do Cristianismo. Editado por F. J. Foakes Jackson e K. Lake. b. Talmude Babilnico CBQ Catholic Biblical Quarterly (Peridico Trimestral Bblico Catlico) CD Documento de Damasco cp. Compare com cap (s) captulo(s) disc. discusso EQ Evangelical Quarterly (Peridico Trimestral Evanglico) Exp Expository Times (Expositor) Gr. Grego GNB Good News Bible (Bblia Boas Novas) verso em ingls atual. Antigo Testamento, 1976; Novo Testamento, 4 edio, 1976. HDB Dictionary ofthe Bible (Dicionrio da Bblia). Editado por J. Hastings. 5 vols. Edimburgo: T. & T. Clark, 1898. HTR Harvard Theological Review (Revista Teolgica de Harvard) IDB Interpreter 's Dictionary ofthe Bible. Editado por G. A. Butrick et ai. 5 vols. Nashville: Abingdon Press, 1962. j. Talmude de Jerusalm JBL Journal of Biblical Literature (Peridico de Literatura Bblica) JTS Journal of Theological Studies (Peridico de Estudos Teolgicos) lit. literalmente LXX Septuaginta (verso grega pr-crist do Antigo Testamento) m. Misna mg. margem NEB New English Bible (Nova Bblia Inglesa) Antigo Testamento, 1970; Novo Testamento, 2a edio, 1970 NIDNTT New International Dictionary of New Testament Theology (Novo Dicionrio Internacional de Teologia do Novo Testamento) Editado por C. Brown, 3 vols. Exeter: Paternoster Press. 1975 78. NIV New International Version (Nova Verso Internacional da Bblia). Antigo Testamento, 1979; Novo Testamento, 1973. NTS New Testament Studies (Estudos do Novo Testamento) Perspectives Perspectives on Luke-Acts (Perspectivas sobre LucasAtos). Editado por C. H. Talbert. T. & T. Clark, 1978. p.e. por exemplo 4QFlor Florilegium (Comentrios sobre uma seleo de passagens bblicas). 1QS Manual de Disciplina 4QT Levi Testamento de Levi, Qumran, Caverna 4 RSV Revised Standard Version (Verso Autorizada Padro da Bblia). Antigo Testamento, 1952; Novo Testamento, 29 edio, 1971. RV Verso Revista da Bblia, de 1881 Studies Studies in Luke-Acts. Editado por L. E. Keck e J. L. Martyn. s. (ss.) Versculo ou pgina seguinte (versculos ou pp. seguintes) TDNT Theological Dictionary of the New Testament (Dicionrio Teolgico do Novo Testamento). Trad. de G. W. Bromiley de Theologisches Worterbuch zum Neuen Testament, 10 vols. GrandRapids: Eerdmans, 1964-76. v. (vv.) Versculo (versculos)

IntroduoJ. B. Phillips escreve no prefcio de The Young Church in Action (A Jovem Igreja em Ao), sua traduo de Atos, que a pessoa no consegue passar vrios meses num estudo minucioso desse livro "sem ficar profundamente emocionado e, para ser honesto, perturbado. O leitor se emociona", diz esse autor, "porque v o cristianismo, o cristianismo real, em ao pela primeira vez na histria humana... Aqui estamos vendo a igreja no esplendor de sua mocidade, valorosa e ntegra... um corpo de homens e mulheres comuns unidos em comunho inconquistvel, jamais vista na terra". Entretanto, o leitor tambm fica perturbado "porque certamente", acrescenta o autor, essa " a igreja como deveria ser. Igreja vigorosa e flexvel, pois nesses dias ela ainda no havia se tornado gorda e sem flego, por causa da prosperidade, ou paralisada pelo excesso de organizao. Aquelas pessoas no praticavam 'atos de f' elas criam; no 'recitavam suas oraes' oravam de verdade. No faziam palestras sobre medicina psicossomtica, mas simplesmente curavam os enfermos"(l). Segundo os padres modernos, aqueles crentes poderiam passar por ingnuos, mas talvez por causa de sua simplicidade ou por causa de sua prontido para crer, obedecer, dar, sofrer e, se necessrio, morrer, o Esprito de Deus verificou que lhe era possvel trabalhar neles e atravs deles, pelo que 'alvoroava' as pessoas, "pondo o mundo de cabea para baixo" (veja 17:6). Atos o nico registro autntico de que dispomos dos primeiros anos da histria da igreja. H alguns poucos indcios nas cartas paulinas sobre acontecimentos que ocorreram nesses primeiros anos. Josefo prove material valioso sobre o ambiente e muitas mincias esclarecedoras (2), mas se Atos se houvesse perdido, nada haveria que lhe tomasse o lugar. Alm do mais, o resto do Novo Testamento ficaria diante de ns em dois fragmentos desconjuntados, visto que Atos o elo necessrio entre os evangelhos e as cartas. Os evangelhos nos relatam o comeo do cristianismo at a ascenso de Cristo. Todavia, se tudo quanto tivssemos fosse isso haveria grande nmero de perguntas. Qual foi a seqncia? Que fez o Senhor a seguir? Que aconteceu a seus seguidores e sua causa? As respostas a estas perguntas esto em Atos. Diga-se o mesmo acerca das cartas: Verificamos tratar-se de

cartas apostlicas dirigidas a igrejas em vrias partes do imprio romano. Entretanto, fossem elas tudo de que podamos dispor, ficaramos desejando saber quando tais igrejas vieram a existir, como se formaram e por quem. Sem Atos ainda que se trate de um texto histrico incompleto e fragmentado no teramos as respostas a muitas destas perguntas. "No s descobriramos ser quase impossvel colocar Paulo e suas obras numa seqncia cronolgica e geogrfica, como tambm em grande parte ainda estaramos em trevas a respeito do desenvolvimento da grande misso de Paulo ao redor do mar Egeu, e dos eventos que o levaram a esse trabalho, e seu interesse quanto a ir a Roma e Espanha (Romanos 15:22-29). S conseguimos entender a importncia do livro de Atos, escrito por Lucas, como fonte histrica, se fizermos esforo consciente para eliminar as informaes nele contidas (e que so de nosso conhecimento) a respeito do cristianismo primitivo" (3). Da forma como Atos nos aparece, o livro nos esclarece o suficiente para constituir ambientao histrica maioria das cartas, e testemunhar o carter apostlico da maioria de seus autores. Bastanos que consideremos quo pouco sabemos sobre a disseminao do evangelho nos lugares no mencionados na narrativa de Atos, para que apreciemos o quanto devemos a esse livro pelo que ele nos trouxe. E h mais: ficamos em dbito para com o autor pelo fato de apresentar-nos to ricas informaes de forma to legvel. Pode-se afirmar que Atos um dos livros mais emocionantes j escritos. Em que outra fonte voc poderia encontrar, em to poucas pginas, "uma srie de eventos to emocionantes, julgamentos, tumultos, perseguies, fugas, martrios, viagens, naufrgios, livramentos inscritos nesse panorama espantoso do mundo antigo de Jerusalm, Antioquia, Filipos, Corinto, Atenas e Roma? E apresentando tais cenrios e ambientes templos, tribunais, prises, desertos, navios, mares, tendas e teatros? H alguma pera dotada de tanta variedade? Diante do olho do historiador desenrola-se uma variedade incrvel de cenrios e aes. E o historiador v em tudo isso a mo providencial que produziu e orientou esse grande movimento para a salvao da humanidade" (4).

AutoriaNa erudio neotestamentria, quase axiomtico que, seja quem for que tenha escrito o terceiro evangelho, tambm escreveu Atos (veja a disc. acerca de 1:1-5). Tradicionalmente esse autor tem sido identificado como Lucas, o mdico e companheiro de Paulo. Nos manuscritos dos evangelhos, encontra-se "Segundo Lucas", quando se trata do terceiro evangelho. Esse evangelho nunca foi conhecido por outro nome. O nome Loukas (como aparece no grego) talvez seja abreviatura de Loukanos; tem-se observado que os nomes prprios contrados que terminam em as eram comumente usados para os escravos. Talvez tenha sido essa a formao profissional de Lucas, visto que os escravos s vezes eram treinados para serem mdicos. Entretanto, os fatos concretos a respeito de Lucas so escassos. Seu nome aparece apenas trs vezes no Novo Testamento (Colossenses 4:14; 2 Timteo 4:11; Filemon 24). Dessas referncias deduz-se que Lucas era gentio e esteve com Paulo em Roma, quando Colossenses e Filemon foram redigidas e (talvez) mais tarde, quando o apstolo escreveu 2 Timteo; todavia, no parece que ele tenha sido prisioneiro, como Paulo s vezes o foi nessas ocasies. A evidncia que temos sugere que Lucas poderia ter residido em Antioquia da Sria. A declarao mais antiga que temos a esse respeito aparece no prlogo antimarcionista do terceiro evangelho, que assim se inicia: "Lucas, mdico de profisso, era de Antioquia". Eusbio e Jernimo tambm estavam cientes dessa tradio, havendo mais dois pequenos fragmentos de evidncia no prprio livro de Atos que fazem aumentar o apoio a essa hiptese (presumindo-se, por enquanto, que Lucas redigiu esse livro). Em primeiro lugar, dos sete diconos "ajudadores", cujos nomes nos so dados em 6:5, o nico cujo lugar de origem mencionado Nicolau, um gentio de Antioquia. Esta meno pode refletir o interesse particular do autor por essa cidade. A segunda evidncia o texto ocidental, que tomava forma no segundo sculo, o qual acrescenta as palavras: "quando estvamos reunidos..." em 11:28. O ambiente a igreja de Antioquia, e o emprego da primeira pessoa sugere que o prprio Lucas era membro dessa igreja poca em que o incidente que ele descreve aconteceu. Se aceitarmos esta tradio, Lucas pode ter sido um daqueles gregos a quem os homens de Chipre e de Cirene pregaram, em 11:20 (mas veja-se a disc. sobre esse versculo).

Todavia, permanece a pergunta: Foi Lucas quem escreveu Atos? Afirma a tradio unanimemente que ele o escreveu. E o livro em si? Ser que ele oferece alguma iluminao sobre quem o teria escrito? As evidncias internas repousam em grande parte nas passagens em que h o pronome "ns", quando a primeira pessoa do plural substitui a terceira pessoa, na narrativa h um total de 97 versculos assim. A primeira dessas passagens marcadas por "ns" aparece sem qualquer aviso em 16:10-17 (a viagem de Trade para Filipos); h outra em 20:5-15 e em 21:1-8 (a viagem para Jerusalm), e outra ainda em 27:1-28:16 (a viagem martima de Cesaria a Roma). Tem-se apresentado a sugesto, s vezes, que o autor empregou a primeira pessoa do plural nessas passagens como recurso literrio, pois encontram-se outros relatos de viagens em que a pessoa escreve na primeira pessoa do plural (5). Entretanto, fosse esse o caso, por que no ocorre consistentemente? Ele narra algumas viagens na terceira pessoa do singular (9:30; possivelmente 11:25s.; 13:4, 13; 14:26; 17:14; 18; 18, 21). De qualquer modo, a maioria dos exemplos de narrativa na primeira pessoa do plural em que se apoia essa teoria tirada de Homero e de outros poetas, dificilmente pode ser comparada com a prosa histrica de Lucas. A. D. Nock vai mais alm quando diz que o "ns" fictcio nesse caso poderia no representar aqui o mesmo paralelo, e mais improvvel ainda para um escritor que afirma, como Lucas, estar escrevendo uma histria real (6). Ento, se estas passagens com "ns" representam o genuno envolvimento do narrador nos acontecimentos, podemos explic-los como se o autor de Atos estivesse assumindo o uso de um dirio prprio de bordo, ou o de algum. Todavia, essas passagens foram escritas num estilo que no se diferencia do resto do livro, de modo que se o autor estivesse utilizando o trabalho de outrem, precisamos supor que o autor o tenha reescrito totalmente a fim de eliminar todos os traos do estilo original. No entanto, teria feito isto com certa negligncia, pois nem sempre se lembrou de introduzir a mudana da primeira pessoa para a terceira. A explicao bem mais simples que o autor estava utilizando seu prprio material escrito, e permitiu que a primeira pessoa do plural permanecesse a fim de indicar em que pontos ele prprio tomou parte nos acontecimentos. "Desde o incio, esta seria a nica maneira pela qual os leitores o primeirssimo dos quais foi Tefilo, a quem o autor dedicou os dois volumes, e com quem teria um relacionamento pessoal poderiam ter entendido as passagens marcadas por 'ns' " (7). Deduz-se da que o autor de Atos foi companheiro de Paulo. De todos os candidatos possvel autoria, Lucas um dos pouqussimos que

no so excludos graas a Uma variedade de razes. Sabemos que ele estava em Roma com Paulo, como tambm o escriba e, embora as evidncias fiquem sem o peso das provas, elas pelo menos apontam com maior certeza na direo de Lucas que noutra direo qualquer. Entretanto, nem todos os eruditos aceitam isto. A principal objeo levantada pelos que no aceitam esta concluso que nenhum companheiro de Paulo, fosse ele Lucas ou outra pessoa qualquer, teria traado o retrato do apstolo Paulo que esse autor traa. Ningum que tivesse conhecido o apstolo, afirma-se, t-lo-ia apresentado como este livro o apresenta. Nas cartas, at quase no final de sua vida, Paulo estava em grave conflito com os que resistiam contra a admisso livre dos gentios igreja. Em Atos esse problema levantado e resolvido em grande parte no mbito de um nico captulo (cap. 15), e nunca mais se toca no assunto. Nas epstolas, Paulo um apaixonado defensor de seu aposto-lado. Nada disso se l em Atos. No livro todo ele chamado de apstolo duas vezes e isso ocorre, outra vez, no espao estreito de um nico captulo (14:4, 14). Costuma-se dizer que o Paulo de Atos tem uma cristologia, uma teologia natural, uma escatologia e uma compreenso da lei inteiramente diferentes das do Paulo das cartas (8). Ele aceita as determinaes do concilio; circuncida Timteo; prope-se a perfazer um rito de purificao, e ajuda outros a fazer o mesmo. este o apologista radical de Glatas? Creio que . Devemos lembrar-nos de que, em Glatas, Paulo pressionado por uma urgncia terrvel na controvrsia que ameaava os alicerces da prpria f. natural que nessas circunstncias Paulo falasse veementemente contra a imposio da lei sobre os gentios. Todavia, noutra passagem ns o encontramos assumindo a opinio de que os atos ritualsticos em si mesmos no so bons nem maus, exceto quando a inteno os qualifica. Isso nos faz lembrar a expresso sarcstica de Emerson a respeito da "coerncia tola" que caracteriza "os demoniozinhos de mentes estreitas, adorados por estadistas, filsofos e religiosos de esprito raso". Em vo procuraramos tal coerncia na vida de Paulo, visto que sua mente era preeminentemente ampla. No que dizia respeito aos grandiosos princpios fundamentais da f, Paulo no se comprometia; sempre que estes no eram prejudicados, o apstolo era a mais adaptvel das pessoas. Talvez Lucas no o tenha entendido com perfeio. Pode no ter assimilado a teologia paulina, nem sentido com a mesma intensidade as questes que tocavam o apstolo com ardor. Entretanto, tendo-se considerado todas as coisas, "as objees contra a opinio de que Lucas estava a par das idias de Paulo no so to fortes de modo que ultrapassem

as evidncias considerveis de que a compreenso de Lucas era perfeita" (9). preciso que mantenhamos em mente que a perspectiva que Lucas tinha de Paulo era bem diferente da nossa. Ns vemos o apstolo como telogo; Lucas o via como "um missionrio, um carismtico fundador de comunidades" (10).

FontesLucas o nico autor do Novo Testamento que diz algo a respeito de seus mtodos. Todavia, diz-nos muito pouco. Resume-se no seguinte: ao escrever o evangelho, usou as melhores fontes disponveis (Lucas 1:1 ss.). Alm do mais, no caso do evangelho somos capazes de ver como foi que Lucas as manuseou, visto que duas dessas fontes nos so conhecidas o Evangelho segundo Marcos e um documento que veio a perder-se, que Lucas partilhou com Mateus, e que at certo ponto podemos reconstituir (o assim chamado Q). Fica logo aparente ao leitor que embora Lucas exercesse suas prerrogativas editoriais de cortar e polir o material que veio s suas mos, ele todavia mostrou-se notavelmente fiei s suas fontes. Portanto, em Atos, razovel supor que Lucas serviu-se de outros materiais primitivos, no sendo menos fiel na transmisso desses fatos do que fora na transmisso do evangelho. At a metade de seu trabalho (caps. 1-12 e 15) Lucas poderia ter utilizado uma fonte aramaica, talvez mais de uma. As evidncias mais claras disto aparecem nos primeiros cinco captulos e no captulo que nos relata os "atos de Pedro" (9:31-11:18; 12:1-17). A linguagem desses captulos e algumas partes da narrativa "demonstram grande contedo semtico. No se trata de hebrasmo do tipo resultante da imitao da traduo grega, chamada Septuaginta, e que pode ser detectado noutras partes da obra de Lucas. Pode-se verificar tratar-se de aramasmo do tipo semelhante ao que se reconhece nos relatos dos ensinos de Jesus, nos evangelhos" (l1). O trabalho de traduzir tais fontes (se, na verdade, elas existiram) poderia j ter sido feito antes de chegar a Lucas. Na segunda parte do livro, Lucas disps de seu prprio dirio (conforme supomos). Tal dirio pode ter servido de fonte adicional, alm das passagens narradas na primeira pessoa do plural em 16:18-20, 20:17-38, e parte de 21:19-26:32, ou toda a passagem. Uma forma comum de tratar da questo das fontes levar em consi-

gnao as pessoas e os lugares dos quais Lucas poderia ter recebido informaes. Grande parte do livro gira em torno de Paulo; no podemos duvidar de que o prprio Paulo forneceu muitas informaes que Lucas desconhecia sobre seu heri, embora o relato esteja muito bem marcado com o estilo tpico de Lucas, de tal modo que no conseguimos distinguir hoje o que teria chegado ao autor vindo diretamente do apstolo. Mas h outros tambm pessoas como Timteo (veja a disc. acerca de 13:13-52), quila e Priscila, Aristarco, Marcos, Silas e Sospatro com quem Lucas esteve em contato uma vez ou outra. Poderiam ter acrescentado e em certos casos quase certo que o fizeram mesmo algo mais a respeito da histria de Paulo. Ao agrupar os fragmentos da histria anterior, pr-paulina, Lucas deve ter explorado algumas fontes especficas. Se Lucas fosse de Antioquia, p.e., ali disporia ele de Barnab, que viera de Jerusalm e havia se tornado um lder na igreja siraca (4:36s.; 9:26s.; 1l:22ss.). Outro lder de Antioquia era Manam, "que fora criado com Herodes" (13:1). extraordinrio que Lucas, dentre todos os evangelistas, seja o que mais nos fala da famlia de Herodes. Teria sido Manam a fonte de suas "informaes privativas'? Tendo sido companheiro de Paulo, Lucas esteve com Filipe na Cesaria, de quem poderia ter obtido os dados dos captulos 6 a 8, e 10 (veja as disc. acerca de 8:4-25 e 24:27). Lucas tambm esteve com Mnasom, a quem ele descreve como "cprio, discpulo antigo" (21:16), referindo-se talvez ao Pentecoste do captulo 2. Que mananciais de histria Lucas deve ter tido! Mais tarde, Lucas esteve com Marcos em Roma (Colossenses 4:10; Filemon 24). A casa de Marcos havia sido em certa ocasio o centro vital da igreja de Jerusalm, de modo que grande parte das informaes colhidas por Lucas, a respeito da igreja primitiva, de modo especial no que diz respeito a Pedro, poderia ter vindo dessa fonte (veja a disc. acerca de 12:1-5). Houve outras pessoas ainda. De fato, se a verdade viesse tona, talvez tivssemos o caso de informaes demais, em vez de falta de informaes. Lucas no sofreu de escassez de informantes; ter-lhe-ia sido um problema grave decidir o que incluir e o que excluir em seu livro. Entretanto, Lucas escrevia tendo em mente um propsito principal, de modo que ele se restringiu a uma cuidadosa seleo de fontes, com o objetivo de atingir seus objetivos. Daqui a pouco estaremos discutindo quais seriam os propsitos de Lucas.

Exatido HistricaPodemos confiar em Atos como sendo um relato fiel do que aconteceu? J houve poca em que a moda era considerar este livro como crnicas de quinta categoria, compiladas em meados do segundo sculo, contendo mais lendas do que fatos, transbordante de erros histricos. Hoje, poucos defendem essa opinio. Pesquisas modernas demonstraram que Atos um documento notavelmente exato. Tal declarao dificilmente surpreenderia os que aceitam a autoria de Lucas. O peso das evidncias constrangem-nos agora a encontrar uma ambientao para esse livro no primeiro sculo, no longe dos acontecimentos a que se refere, estando seu autor em contato ntimo com as pessoas envolvidas. Sua exatido histrica mais espantosa ainda se considerarmos que amplido tremenda o livro percorre, em termos de cenrios e circunstncias, estendendo-se de Jerusalm a Roma, incluindo todo tipo de povos, culturas e administraes. Entretanto, apesar de toda a complexidade do mundo por onde o autor andou, e do fato de ele escrever sem o auxlio inestimvel de bibliotecas e arquivos, no que concerne a questes topogrficas, polticas, histricas e nuticas, Lucas jamais tropea num fragmento de informao (12). Lucas sente-se vontade no Sindrio e entre seus participantes em Jerusalm, os sacerdotes, os fariseus, os guardas do templo, e os prncipes da casa de Herodes. Ele sabe que Chipre, a Acaia e a sia eram governadas por procnsules (13:7; 18:12; 19:38), que Filipos era colnia romana e quais pretores tinham jurisdio sobre ela, e eram atendidas por magistrados (16:20ss., 35ss.), que estes em Tessalnica eram chamados por um ttulo especial ("autoridades" em ECA, 17:8), que os o oficiais governamentais da provncia da sia tambm recebiam um ttulo especial ("autoridades" em ECA 19:31), que a cidade de feso rejubilava-se de ser "a guardadora do templo da grande deusa Diana" (19:35), que o poder poltico nessa cidade estava sobre o demos, a assemblia popular, dirigida pelo "escrivo" (19:35ss.). No s o autor trata dessas mincias com cuidado, como tambm procura retratar a prpria atmosfera dos lugares em que se desenrola a histria: as multides excitveis c intolerantes da parte leste de Jerusalm, e a relativa tolerncia da cosmopolita Antioquia; a metrpoles de Sria, onde se estabeleceu a primeira igreja gentlica pelos judeus; o orgulho dos filipenses, por causa de sua cidadania romana; o diletantismo intelectual

dos atenienses; a superstio dos efsios tudo isto e muito mais ainda adquire vida nas pginas de Atos. O fato mais impressionante a respeito de Atos na verdade a exatido que se projeta at nos mnimos detalhes, os mais triviais coisinhas que o pesquisador no consideraria em sua busca de verossimilhana. A prpria casualidade da exatido textual constitui sua garantia de genuinidade nada ali forjado. Se podemos confiar no autor quanto aos detalhes, certo que podemos confiar nele quanto ao corpo maior da histria (veja ainda mais sob "Lugar e Data"). Todavia, Lucas no foi um mero cronista. "Precisamos entender", adverte-nos Krodel, "que Lucas, o historiador bblico, empreendeu sua tarefa semelhana de um artista que procura interpretar a realidade, e no como um cronista que registra um fato aps outro. Ele no como um fotgrafo cujo produto precisa ser a imagem exata, mas antes como um pintor cuja tela promove uma reao face a uma mensagem" (13). Assim foi que Lucas selecionou, disps e interpretou os eventos de sua narrativa com o objetivo de explicar um tema, de modo que tudo que no estivesse ligado a esse tema era impiedosamente omitido. Nada lemos, p.e., a respeito da fundao de comunidades crists no Egito, na Cirenaica, no norte e no leste da sia Menor, na Armnia, no leste da Sria e no reino parto, ou Itlia. Essas omisses mostram-se to vastas (Hengel fala do "ecletismo quase objetvel" de Lucas, na escolha de seu material) (14) que alguns eruditos inclinam-se a ver Atos mais como uma espcie de monografia histrica do que como um tomo da histria da igreja, reservando o ttulo de "Pai da Histria da Igreja" para Eusbio (morto cerca de 339 d.C). Lucas estava interessado em apenas um tema da histria da igreja, a saber, o modo como a igreja rumou de Jerusalm a Roma e como, ao mesmo tempo partiu da misso aos judeus indo pregao da mensagem divina aos gentios (veja mais ainda na disc. de "Ttulo e Propsito"). Ainda assim Lucas deixou muita coisa de lado, por no lhe servir os propsitos. Todavia, Lucas no deve ser julgado pelas suas omisses. Ele deve ser julgado apenas dentro dos limites que ele prprio se imps; e dentro desses limites o autor saiu-se admiravelmente bem. claro que h reas problemticas (veja, p.e., a introduo de 15:1-21). Tampouco Lucas um escritor impecvel. "Ele abrevia demais alguns eventos, de tal modo que estes se tornam quase incompreensveis; quanto a outros, apenas d indcios. Ao mesmo tempo, elabora aquilo que deseja enfatizar, e emprega repetio mltipla como estilo de redao. Lucas tambm consegue combinar tradies histricas separadas de modo que sirvam a seus objetivos, e

consegue separar assuntos interligados se, como resultado, puder obter uma seqncia significativa de acontecimentos" (15). Por essas razes, Lucas no seria considerado um grande historiador segundo os padres modernos. Entretanto, ele foi um escritor competente que obteve grande sucesso em conceder-nos um relato vigoroso, interessante e exato de tudo que decidiu relatar-nos sobre a historiada igreja. No entanto, para alguns leitores h uma objeo insupervel para aceitarem Lucas como historiador digno de confiana, a saber, o fato de ele mencionar milagres. Seu interesse pelo milagroso e no h como negar que Lucas se interessava destri toda credibilidade que de outra forma ele teria, assim afirmam os crticos. Todavia, tal crtica s teria valor se os milagres no houvessem ocorrido. As evidncias indicam que houve milagres. Paulo apelou aos gaiatas, como se referisse a algo acima de qualquer dvida: "Aquele que vos d o Esprito, e que opera milagres entre vs, f-lo pelas obras da lei, ou pela pregao da f? " (Glatas 3:5). E tambm em Romanos 15:18-19, sem nenhum temor nem pensamento de contradio, Paulo declara que Deus realiza milagres. Tampouco verdade o que se tem dito, que Lucas aceitou o milagroso sem qualquer crtica, mas com bastante ingenuidade. No h milagres em Atos, s por amor aos milagres. Dunn nos faz lembrar de que "em Atos 8:18ss. Simo 0 mago denunciado por considerar o Esprito como uma espcie de poder mgico cujos segredos, ou tcnicas, algum poderia comprar; em 13:8-11 o cristianismo apresentado em contraste violento com a magia; cm 14:8-18, Lucas resiste fortemente contra a tentao (e rejeita-a) de retratar Paulo e Barnab como "deuses semelhantes aos homens"; em 19:13-16 ele sublinha o fato de que o nome de Jesus no consiste de mera frmula exorcista capaz de ser utilizada por qualquer pessoa que a aprender, mas s deve ser empregada pelos discpulos que clamam pelo seu nome (cp. 2:21; 9:14, 21; 15:17; 22:16)(16). Diz Dunn que a acusao de ingenuidade tem sido atirada indevidamente contra Lucas. "A atitude despojada de criticismo diante do poder miraculoso pode ser apenas uma reflexo fiel da atitude isenta de discriminao por parte da misso crist primitiva. Ele poderia estar em grande parte satisfeito em reproduzir as histrias que lhe eram passadas, sem coment-las". E assim que Dunn conclui: " difcil dizer onde terminam as tradies e comeam as atitudes do prprio Lucas... possvel que o modo mais justo de avaliar o tratamento que Lucas dispensou a seu trabalho, nesta altura, reconhec-lo como algum que, olhando-se para trs, de uma posio de relativa calma nos anos posteriores, esteve apaixonado e

emocionado diante do entusiasmo e poder da misso primitiva, ao ouvir testemunhas ou.relatrios mais antigos mencionarem a obra. Se assim foi, bem provvel que Lucas tenha redigido seu relato dos comeos do cristianismo tendo como objetivo transmitir algo que causasse o mesmo impacto e impresso fortes em seus leitores. Muitos deles, tanto do passado como do presente, dariam testemunho do sucesso de Lucas nesse sentido(17).

LinguagemNuma famosa passagem Tucdides, o historiador grego, descreve seu dilema concernente linguagem de seus personagens, e poltica que ele adotara quanto a elas. Disse ele: "E muito difcil para mim lembrar-me com estrita exatido das palavras realmente pronunciadas, tanto as que eu prprio ouvi, como as que me foram relatadas, vindas de outras fontes. por isso que mostro os dilogos na linguagem em que, assim me pareceu, as diferentes personagens expressaram, nas questes sob considerao, os sentimentos mais adequados ocasio, embora eu tenha, ao mesmo tempo, permanecido to prximo quanto possvel do sentido comum daquilo que foi dito"(18). Todavia, nem todos os historiadores antigos eram to conscienciosos como Tucdides. Alguns compuseram dilogos bem livremente, e colocaram-nos nas bocas de suas personagens sem muita considerao para com as probabilidades histricas, e menos ainda para com os fatos histricos. Tal fato levanta outra vez de forma especial a questo da historicidade de Atos. So as falas encontradas nesse livro relatos genunos do que se disse, ou teria Lucas aderido prtica comum de comp-las? No faltam os que se agarram a esta ltima opinio, afirmando que os discursos contm muito pouco da pregao primitiva e bastante da teologia do prprio Lucas. Esta avaliao feita com base na anlise dos prprios sermes, muitos dos quais mostram uma estrutura comum, enquanto todos do evidncias da prpria linguagem e estilo de Lucas. Entretanto, embora seja verdade que a maior parte dos sermes primitivos segue certo padro nico, tambm verdade que esse tipo de padronizao no se atem exclusivamente ao livro de Atos. Encontra-se, p.e., em Marcos 1:14-15 e numa srie de passagens das cartas (veja mais ainda na disc. de 2:14-42). Em suma, a estrutura comum utilizada mais antiga que Atos, e encontra-se noutras passagens mais amplamente do que em Atos. Seria razovel supor, portanto, que esse era

o padro homiltico da igreja, e no algo imposto sobre os sermes pelo prprio Lucas. Seja como for, dentro da reconhecida margem de semelhanas entre os discursos, h tambm lugar para a variedade. Primeiro, demonstram um desenvolvimento teolgico definido, como se esperaria de uma pessoa, caso fossem sermes pregados ao longo de seus anos de formao. Alm do mais, demonstram em alguns pontos uma teologia distinta da de Lucas (veja, p.e., a disc. de 4:24ss. e as notas sobre a disc. de 7:1-53). Em segundo lugar, s vezes demonstram as caractersticas distintivas do pregador original. certo que as marcas de Lucas esto presentes ali, mas por trs delas ouvimos a voz de Pedro, que fala como 0 Pedro da primeira carta, e Paulo falando como o Paulo que conhecemos de suas cartas (veja, p.e., as disc. acerca de 5:30; 13:39; 15:13ss.; 20:17-38). Finalmente, dois sermes (2:14-39.e 13:16-41) ostentam o estilo hermenutico dos rabinos; dificilmente algum esperaria que o prprio Lucas os compusesse. E se tudo isto aponta para trs, para a quase certeza de que Lucas serviu-se de fontes, tal conceito se fortalece diante das marcas inegveis que elas deixaram em seu uso do grego. "O estilo dos sermes no to polido como algum poderia talvez esperar, caso se tratasse de produes literrias cuidadosas; na verdade, est presente 0 tipo de redundncias e de pequenas incoerncias que assinalam a incorporao de tradies numa estrutura redacional"(19) (veja, p.e., as notas sobre 3:16; 4:11; 4:25; 10:36ss., e a introduo a 10:3443). Assim que podemos presumir que os sermes e discursos de Atos nos do, segundo o "sentido genrico" de Tucdides, um guia confivel sobre tudo que verdadeiramente foi dito. Diz Bruce: "No so invenes de Lucas, mas resumos que nos fornecem pelo menos a essncia do que foi dito em vrias ocasies. Portanto, constituem fontes valiosas e independentes quanto vida e o pensamento da igreja primitiva"(20).

Data e LugarNingum sabe onde Atos foi escrito, embora muitos tenham arriscado suas suposies. As sugestes incluem Roma, Cesaria, Antioquia, feso e Corinto. A linguagem do livro, segundo se diz, aponta para um centro em que prevalecia a influncia helenstica, mas isto pouco nos informa. Quase qualquer grande cidade a leste de Roma caberia nessa descrio.

Com respeito data, a atmosfera cultural e poltica do livro coloca-o com firmeza no primeiro sculo. Todavia, em que altura desse primeiro sculo? Alguns advogam um perodo tardio (90-100 d.C.) sob a alegao de no se tratar de mera crnica de eventos, mas ser claramente o produto de muita reflexo. Atos apresenta uma interpretao da histria, o que implica, argumentam alguns, que o autor escreveu de alguma distncia temporal de seu assunto. Imaginamos, todavia, se seriam necessrios trinta ou quarenta anos para dar ao autor essa perspectiva. Ainda em apoio de uma datao tardia, tem-se afirmado que o livro exibe os interesses e as perspectivas da igreja daquela poca posterior. s vezes tem sido dado a ele o rtulo de um "esprito institucional "primitivo. Mas onde esto as evidncias que apoiariam esta afirmativa? H pouco interesse em regras de f formuladas de modo estrito, no estabelecimento de uma "doutrina sadia", na doutrina da igreja, no desenvolvimento do ministrio da igreja, ou nos sacramentos da igreja, em tudo que caracterizou a "instituio" primitiva, do fim do primeiro sculo e comeo do segundo (21). Ao contrrio, para Lucas a igreja como instituio era notavelmente livre, sendo sua vida comunitria marcada por uma espontaneidade que no encontramos em parte alguma nesse perodo. "Nem os apstolos, nem Tiago, exercem direo autoritria sobre a igreja de Jerusalm, e tampouco o fazem Paulo e outros noutras cidades. A igreja no governada por autoridades institucionais, mas pelo Esprito Santo. o Esprito que consolida a igreja, e a disciplina tambm, e a purifica, mantendo-a ao mesmo tempo aberta para as sempre novas e misteriosas exigncias da vontade de Deus. No existem sinais de alto sacramentalismo"(22). A comparao com escritores pertencentes sem qualquer sombra de dvida ao final do primeiro sculo e princpio do segundo, como Clemente de Roma e Incio, demonstra quo longe Lucas estava deles. Verifica-se que Atos respira uma atmosfera diferente. Pertence a outra poca, mais prxima dos apstolos. Alguns autores datam Atos entre 60 e 70 d.C, enquanto outros especificamente o datam de antes da morte de Paulo (parece que ele morreu na segunda metade do reinado de Nero, cerca de 67 d.C), visto que Lucas no a menciona. Todavia, essa concluso pressupe que o interesse primordial de Lucas fosse traar uma biografia do apstolo, quando na verdade a principal preocupao do autor era assinalar o progresso do evangelho at Roma. Desde que as Boas Novas houvessem sido anunciadas em Roma, o que teria acontecido a Paulo teria ficado alm do escopo da obra (alm disso, os eventos relacionados ao apstolo talvez fossem do

conhecimento dos leitores de Lucas), no constituindo um guia seguro com respeito data de composio do livro. No entanto, ;i inda que o livro houvesse sido redigido aps a morte de Paulo, aponta uma data no muito depois desse fato, em vista de Lucas desconhecer o contedo das cartas paulinas. Essa datao mais cedo tambm convincente por causa de algumas mincias histricas, pormenores bem pequenos mas significativos, que seriam quase impossveis num escritor posterior (veja, p.e., as disc. acerca de 18:1 e 21:38; tambm Hanson, pp. Xss.). A recordao casual de nomes outra indicao de que Atos foi escrito mais perto da fundao da igreja, e no em poca posterior (p.e., 17:5; 19:33; 21:16; 28:11). Levanta-se a pergunta, ento: Sim, Atos foi escrito cedo, mas em que ano? A objeo mais forte contra uma data nos anos 60 o uso que Lucas fez do Evangelho de Marcos, na composio de seu prprio evangelho. 1'resumindo-se que a referncia em 1:1 diz respeito ao evangelho em sua forma atual, e no a um rascunho preliminar, anterior, antes de Lucas pegar o Evangelho de Marcos (o suposto "Proto Lucas"), temos uma seqncia de datas relativas: primeiro, Marcos; segundo, o Evangelho de acordo com Lucas, e, em terceiro lugar, Atos. Todavia, de acordo com as tradies mais antigas, Marcos no teria sido escrito seno aps a morte de Pedro e de Paulo (Irineu, Contra as Heresias 3.1.1), pelo que c preciso atribuir algum tempo (talvez no muito) para que a obra de Marcos chegasse s mos de Lucas, e mais algum tempo para que este pudesse redigir seu segundo volume. Na verdade, alguns eruditos acham que passaram-se muitos anos antes do livro de Atos comear a ser escrito. F. L. Cribbs argumenta em prol desta opinio afirmando que o segundo volume faz muito maior uso de conceitos como "testemunha", "sinais", "crer", do que o primeiro (23). S. G. Wilson tambm acha que se passou grande tempo, mas apresenta motivos diferentes. Diz este autor: "Parece muito provvel, puramente I nu base na escatologia de Lucas, que este escreveu Atos em poca consideravelmente posterior ao evangelho, e que no nterim, suas idias se desenvolveram e mudaram"(24). Ainda que entendamos que esses autores exageraram em sua argumentao, parece-nos muito provvel uma data ao redor de 75 d.C; Marcos teria sido escrito no final dos anos 60, ou incio dos anos 70, seguindo-se o evangelho de Lucas logo depois.

Ttulo e PropsitoO ttulo no original. Foi cunhado algum tempo depois de cortar-se a conexo do livro com o evangelho e, talvez, poca em que recebeu reconhecimento como livro cannico. A origem do nome pode estar no fato de esse livro vir antes das cartas, no Cnon, representando "atos" em vez de "palavras". A ocorrncia mais antiga desse ttulo encontra-se no prlogo antimarcionita ao Evangelho de Lucas (cerca de 180 d.C), sob a forma de "[os] Atos dos Apstolos" (Gr. Praxeis Apostolori). Um pouco mais tarde o Cnon Muratrio o intitulou "Atos de Todos os Apstolos". Subseqentemente outras variaes apareceram, mas seja qual for a forma, esse nome para o livro no adequado, nem exato. Dos doze apstolos originais, lemos muita coisa a respeito de Pedro, um pouco a respeito de Joo e de Judas, e nada absolutamente sobre os demais, exceto uma meno ocasional de "os apstolos" (a ltima das quais no cap. 15), e uma lista de seus nomes em 1:13. Por outro lado, o livro nos apresenta grande nmero de personagens que no eram apstolos. Dezesseis dos vinte e oito captulos so dedicados a Paulo. Tampouco o ttulo d-nos alguma indicao dos propsitos de Lucas. Estes devem ser encontrados nos primeiros versculos de abertura. O livro se inicia com meno ao evangelho de Lucas, no qual "todas as coisas que Jesus comeou a fazer e a ensinar" (assim diz o grego) esto registradas. Esta descrio do primeiro volume implica em que o segundo contm tudo quanto Jesus continuou a fazer e a ensinar. Mas de que maneira Jesus continuou sua obra? O propsito de Atos responder a essa pergunta, e a chave do livro encontra-se em 1:8. Ali foi dito aos apstolos que receberiam poder quando o Esprito Santo viesse sobre eles e, nesse poder eles sairiam por todo o mundo, como testemunhas de Jesus. Prosseguiriam o ensino e as obras de Jesus. Seria como Jesus havia dito: "Quem vos ouve a vs, a mim me ouve; quem vos rejeita a vs, a mim me rejeita" (Lucas 10:16). Cumpre-se o que Jesus havia prometido em Lucas 6:40 que o discpulo seria como seu mestre. Por isso, visto que o Esprito Santo havia vindo, Pedro podia curar "em nome de Jesus" (3:6, 16, etc.) ou simplesmente declarar, "Jesus Cristo te d sade" (9:34). Era uma Pessoa, porque Jesus estava ativo e presente no mundo no como antes, mas em suas testemunhas inspiradas pelo Esprito Santo. digno de nota que neste livro o Esprito Santo chamado de Esprito de Jesus (16:7).

nesse contexto que devemos entender a nfase que Lucas d pessoa de Paulo. Isso no aconteceu a fim de defender a memria de Paulo, como s vezes algum sugere, mas para apresent-lo como o "modelo das testemunhas"(25). Na mente de Lucas, a grande importncia deste homem jazia no fato de ele no ser um apstolo no, pelo menos, no sentido em que Pedro era Paulo no foi um dos Doze (embora Lucas soubesse que Paulo usava esse ttulo). Diferentemente de Pedro, Paulo no havia estado com Jesus nos dias de sua encarnao (cp. 1:21 s.), nem estivera presente no dia do derramamento do Esprito Santo. Entretanto, as realizaes de Paulo no foram inferiores s de Pedro (Lucas, muito deliberadamente traa uma srie de paralelismos entre Pedro na primeira metade do livro, e Paulo, na segunda metade, enfatizando precisamente este ponto). Assim que Paulo representa a continuidade da obra de Jesus, desde os tempos dos apstolos at os dias do prprio Lucas. Visto ser Paulo um crente dos ltimos dias, sua vida e obra mais do que as dos Doze constitua um ideal a ser colocado diante dos demais crentes que no haviam estado presentes naqueles excitantes primeiros dias do incio da igreja. A semelhana de Paulo, todos os crentes poderiam testemunhar eficazmente para Jesus Cristo. Em todos os crentes, e no s na primeira gerao de discpulos, o Senhor estaria prosseguindo sua obra. Fica claro que Lucas estava escrevendo para crentes (representados por Tefilo), o que explica os numerosos temas diferentes espalhados pelo livro todo. Um desses o do cumprimento proftico. Em certo sentido, o livro todo de Atos pode ser considerado uma espcie de comentrio de um texto: "Bem-aventurados os olhos que vem o que vs vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes, e no o viram, e ouvir o que ouvis, e no o ouviram" (Lucas 10:23s.). I ucas desejava que seus leitores entendessem que constituam um povo privilegiado e, sob essa luz, encorajlos a prosseguir na obra. Um segundo tema o da compatibilidade entre a igreja e o estado. H nesse livro "uma atitude surpreendentemente irnica, e isso sem a menor sombra de dvida, a respeito de Roma"(26). Essa atitude tem sido explicada com freqncia em termos de um hipottico interesse da parte de Lucas em convencer as autoridades romanas de que o cristianismo era politicamente "seguro". Todavia, C. K. Barrett faz uma penetrante observao: "nenhuma autoridade romana jamais filtraria um volume substancial de coisas que considerava lixo teolgico e eclesistico a fim de obter um grozinho de apologia relevante"(27). melhor, ento, explicar

essa motivao em termos de atendimento s necessidades dos crentes. Argumenta Maddox que na igreja dos dias de Lucas havia um ressentimento crescente contra o estado romano e, junto a esse ressentimento, uma inclinao para confrontar o estado e transformar as testemunhas de Cristo em mrtires. Entretanto, essa no era a ttica de Lucas. Da decorre seu cuidado em "atrair a ateno para a inocncia poltica dos cristos, e assumir, no todo, uma atitude otimista quanto ao governo imperial". O ponto de vista de Lucas era que a prpria essncia do esprito dos cristos consistia em "viver em paz com o poder soberano, tanto quanto fosse possvel" e adotar "um estilo de vida sbrio, inofensivo, e uma atitude de respeito para com o governo"(28). Outro tema que os judeus excluem-se da salvao por causa de sua persistente hostilidade contra o evangelho. Todavia, por que razo Lucas precisaria insistir neste ponto perante leitores cristos? Talvez por que os leitores de Lucas corressem o perigo de mudar de pensamento. Talvez pudessem ser levados a pensar que os cristos (no os judeus) que estavam excludos da salvao. Foi por essa altura que os judeus introduziram em sua liturgia uma orao em que suplicavam que os apstatas ficassem privados de toda esperana, e que os nazarenos e todos os demais hereges se perdessem. As atitudes odientas endureciam-se de ambos os lados, de modo que Lucas poderia ter sentido que seria bom a igreja ver de que lado estavam os hereges e de que lado o povo de Deus. Por causa de sua forte tradio, os judeus exerciam grande influncia. A atitude deles para com os cristos est bem expressa em Joo 2:28-29: "Discpulo dele sejas tu! Ns somos discpulos de Moiss. Sabemos que Deus falou a Moiss, mas este nem mesmo sabemos de onde ". A resposta de Lucas foi mostrar que Jesus havia cumprido tudo quanto Deus havia anunciado por meio dos profetas, de modo que todo aquele que no o aceitasse estaria separado do povo de Deus e destrudo (3:23). Os judeus no os cristos, seus leitores que eram apstatas e hereges; eles que estavam excludos, e isto por sua prpria escolha, visto que o evangelho havia sido pregado a eles desde o princpio. Todavia, se Atos havia sido escrito com a finalidade de atingir a esses objetivos didticos, no somos porventura levados de volta ao ponto inicial do crculo, questo da confiabilidade da histria de Lucas? Podemos confiar em Lucas? Com freqncia esta pergunta formulada como se Lucas s pudesse ser uma coisa ou outra um historiador ou um telogo, mas no ambos ao mesmo tempo. Entretanto, no h razo alguma pela qual ele no poderia ser ambos simultaneamente, escrevendo com um propsito definido,

mas ao mesmo tempo fornecendo-nos um relato confivel de tudo que aconteceu. Afinal, Lucas expressamente afirma que foi seu propsito teolgico que o motivou: "Pareceu-me tambm a mim conveniente descrevlos a ti, excelente Tefilo, por sua ordem, havendo-me j informado minuciosamente de tudo desde o princpio" (Lucas 1:3). Observa muito bem Hengel: "O sistema radical 'redacional-crtico' to popular hoje, que v Lucas acima de tudo como um telogo que inventa coisas livremente, mtodo que perde de vista o propsito real de Lucas, a saber, que este'historiador' cristo prope-se a relatar os acontecimentos do passado que provem os alicerces da f e sua extenso. Seu objetivo primordial no apresentar sua prpria 'teologia"(29). Resumamos, ento: se tivssemos que localizar uma expresso "de cobertura" que caracterizasse Lucas o escritor, nenhuma palavra o descreveria melhor do que a palavra "pastor". Lucas "desejava escrever uma hislria, mas histria que trouxesse uma mensagem a seus contemporneos. Esta nfase na motivao prtica e pastoral dos escritos de Lucas deixa ampla margem para distinguirmos vrios temas dentro desta descrio genrica e, ao mesmo tempo, mostra-nos onde se encontra o centro de gravidade dos interesses de Lucas. Ele se interessava primordialmente pelos problemas prticos, no pelos 'teolgicos'"(30). Preocupava-se com a igreja de seus dias: ela devia entender onde estava, e o que devia fazer. Todavia, Lucas escreve como algum que tem certeza absoluta de haver cumprido seu dever sagrado, consciente e integralmente. No descobrimos razes para duvidar dele. Conquanto sua histria tenha ficado incompleta, podemos l-la crendo que tudo quanto ele escreveu Verdadeiro, e que pessoas comuns, cheias do Esprito Santo, realizavam Feitos incomuns, extraordinrios. Aqueles milagres foram realizados em nome de Jesus", sendo essa a razo por que "tm alvoroado o mundo". Atos termina em 28:31, mas a histria de Jesus prossegue onde quer que seu Esprito encontre homens e mulheres dispostos a crer, a obedecer, a dar, a sofrer e, se necessrio, morrer por ele.

Notas1.J.

B. Phillips, The Young Church in Action (A Jovem Igreja em Ao) Londres: Geoffrey Bles, 1955, p. vii. 2.Veja Hengel, Acts (Atos), p. 39. 3.Hengel, Hengel, p. 38.

J. Goodspeed, Introduction to the New Testament (Introduo ao Novo Testamento) Chicago: University of Chicago Press, 1937, pp. 187s. 5.Veja V. K. Robbins, Perspectives (Perspectivas), pp. 215ss. 6.Veja "The Book of Acts" (O Livro de Atos), em A. D. Nock, Essctys onReligion and the Ancient World (Artigos sobre Religio e o Mundo Antigo) Londres: Oxford University Press, 1972, vol. 2, pp. 821ss. 7.Hengel, Acts (Atos), p. 66. 8.Veja, p.e., P. Vielhauer, Studies (Estudos), pp. 33-50. 9.Hanson, p. 27. 10.Hengel, Jesus p. 110. 11.C. H. Dodd, The Apostolic Preaching and lis Development (A PregaoApostlica e Seu Desenvolvimento) Londres: Hodder & Stoughton, 1944, pp.19s. 12. Veja, p.e., Hengel Jesus p. 121: "O conhecimento [de Lucas] das condies reinantes na Judia durante mais ou menos os ltimos quinze anos, antes da ecloso da guerra judaica, e o interesse especial [desse escritor] com respeito destruio de Jerusalm demonstram como ele foi influenciado por esses acontecimentos, e a eles se manteve relativamente unido". 13.Krodel, p. 15. 14.Hengel, Acts (Atos), p. 35. 15.Hengel, Acts (Atos), p. 61. 16.Dunn, Jesus, pp. 168s. 17.Dunn, Jesus, pp. 169. 18.Tucdides, History of the Peloponnesian War (Histria da Guerra Peloponsia) 1.22. 19.Marshall, p. 40. 20.Bruce, Acts (Atos), p. 21. 21.J. H. Elliott, A Catholic Gospel: Reflections on 'Early Catholicism' in the New Testament", CBQ31 (1969), pp. 213ss. 22.Maddox, p. 185. 23.F. L. Cribbs, Perspectives (Perspectivas), p. 61. 24.S. G. Wilson, Lucan Eschatology (Escatologia de Lucas), NTS 16 (1969-70), p. 347. Veja tambm Hengel, Jesus, p. 107. 25.Hengel, Acts, (Atos), p. 59. 26.Maddox, p. 21.

4.E.

27.C.

K. Barrett, Luke the Historian in Recent Study (Lucas o Historiador em Estudo Recente), Londres: Epworth Press, 1961, p. 63. 28.Maddox, pp. 96s. 29.Hengel, Acts (Atos), pp. 67s. 30.S. G. Wilson, The Gentiles and the Gentile Mission in Luke-Acts (Cambridge: Cambridge University Press, 1973), pp. 266s. Nota: No comeo deste livro h uma lista das abreviaturas empregadas neste comentrio.

1. Jesus Sobe aos Cus ( Atos 1.1-11)Atos e o terceiro evangelho certamente nasceram da mesma mo. A dedicatria comum, e tambm os interesses comuns e a unidade de linguagem e estilo eliminam toda dvida. Alm do mais, a maneira como ambos os livros so apresentados o evangelho com seu prefcio relativamente minucioso, e Atos com sua introduo mais breve, mas fazendo eco da linguagem do primeiro livro salienta o fato de que no se trata apenas de dois livros escritos pelo mesmo autor, mas dois volumes de um nico livro. Essa disposio de uma obra em certo nmero de "volumes" com o mesmo prefcio, e outros livros sendo publicados mais tarde com suas prprias introdues breves, no eram novidade na editorao antiga (cp. p.e., Josefo [Contra Apio], 2.1-7; veja BC, vol. 2, p. 491). Diferentemente do evangelho, em Atos no h uma linha demarcadora que separe a introduo da narrativa. O que se inicia em Atos como referncia ao prefcio do outro livro torna-se resumo breve do contedo total do evangelho uma narrativa conducente ao novo material da seo seguinte. O famoso satrico grego Luciano (nascido cerca de 120 d.C.) diznos sob forma de mxima que a transio entre o prefcio de um livro e a narrativa propriamente dita deve ser gradual e suave (On Writing History 55 [Escrevendo a Histria]). Lucas atende aos preceitos de Luciano. 1 : 1 / O livro dedicado a Tefilo, um homem de certa posio, segundo o cumprimento no evangelho, "Sua Excelncia" (Lucas 1:3, GNB; ECA: " excelente Tefilo"). Explica Lucas que no primeiro tratado evidente que se refere ao evangelho Lucas se propusera fornecer "uma narrao dos fatos que entre ns se cumpriram... desde o princpio..." (Lucas 1:2-3), "tudo o que Jesus comeou, no s a fazer, mas tambm a ensinar, at o dia em que foi recebido em cima no cu..." (Atos 1:1-2). Estas palavras revelam como que Lucas entendia o escopo de seu primeiro volume. Esse primeiro livro interessava-se apenas pelo comeo do trabalho de Jesus, ficando a implicao de que tal obra prosseguiu "at o dia em que [Jesus] foi recebido em cima". A tese de Lucas a seguinte: Jesus continua ativo. O que mudou foi seu mtodo de trabalho. Agora ele no est mais na carne; ele prossegue "a fazer, mas tambm a ensinar" mediante seu "corpo",

a igreja (veja disc. acerca de 9:5). Essa a histria de Atos. 1:2 / Antes de encetar a narrao de sua histria, Lucas recorda brevemente os eventos que encerraram o primeiro livro. Antes da ascenso, Jesus havia dado mandamentos... aos apstolos que escolhera. No evangelho, o ttulo "apstolos" limita-se aos Doze (Lucas 9:10; 17:5; 22:14; 24:10; cp. Mateus 10:2ss; Marcos 6:30), e segundo o prprio Lucas, foi Jesus quem o concedeu pessoalmente aos Doze (Lucas 6:13). Em Atos tambm a referncia primordial desse ttulo cabe aos Doze, embora os versculos 21 e 22 sugiram que outros discpulos poderiam ter sido includos e que, com toda certeza, outras pessoas partilharam as experincias dos apstolos (veja ainda as notas sobre o v. 26). Mais tarde, esse ttulo haveria de receber aplicaes mais amplas (veja 14:4, 14). Como vemos do v. 5, as instrues de Jesus relacionavam-se em parte ao dom do Esprito Santo. Todavia, o Esprito j se envolvera na obra que o Senhor realizava. que Jesus os ensinava agora pelo Esprito Santo. Alguns comentaristas preferem aplicar essa expresso escolha que Jesus fizera dos Doze; todavia, a leitura mais natural do texto grego leva-nos a aplic-la declarao de que o Senhor havia "dado mandamentos" e a entend-la com o sentido de que Jesus, em seu magistrio, estivera investido de poder e autoridade divinos. Seja como for, somos informados aqui de que na histria prestes a ser narrada, o Esprito Santo desempenha papel de suma importncia. O Esprito mencionado quatro vezes s neste captulo (vv. 2, 5, 8 e 16). 1:3 / Durante quarenta dias aps sua morte, Jesus apareceu a seus discpulos. O grego diz literalmente: "por espao de quarenta dias", o que parece no significar que o Senhor estivera com eles continuamente, mas que aparecia de tempos em tempos durante esse perodo de tempo. Quarenta era usado com freqncia como nmero arredondado, mas neste caso especfico parece referir-se ao nmero exato de dias, constituindo um perodo menor do que os cinqenta dias entre a Pscoa e o Pentecoste (veja disc. sobre 2:1). A mais extensa relao de que dispomos das aparies de Jesus inicia-se em 1 Corntios 15:5, embora at mesmo esta lista, como o demonstram os evangelhos, est longe de ser completa. A expresso "muitas vezes" usada por GNB (no existe correspondente no grego) pode ser hiptese aceitvel. evidente que quanto mais vezes os discpulos vissem a Jesus, menores seriam as probabilidades de que estivessem enganados. Observe como Lucas sublinha a realidade da experincia mediante repeties: "aos quais... se apresentou vivo;" "sendo visto por eles". Estas expresses no dizem tudo, porque o Senhor tambm falou a eles, e como

ficamos sabendo mediante outra passagem, comeu e bebeu com eles, da maneira como o fizera nos primeiros dias (veja 10:41; Lucas 24:30, 42s; cp. Lucas 22:17-20). O resultado final disso tudo foi que os discpulos ficaram com uma convico irredutvel de que Jesus estava vivo, e havia estado com eles. Lucas emprega expresses fortes, e poderia ter dito: "ficou comprovado sem sombra de dvidas". No tivessem eles estas muitas e infalveis provas os eventos descritos neste livro jamais teriam ocorrido. O Senhor lhes falara a respeito do reino de Deus. Desde o comeo esse havia sido o assunto de Jesus, e passaria a ser o assunto de seus discpulos tambm (veja 8:12; 14:22; 19:8; 20:25; 28:23, 31), conquanto o pregassem de uma perspectiva diferente. que o reino havia "chegado com poder" atravs da salvao pela morte de Jesus, e na seqncia de eventos (Marcos 9:1). Ainda assim, o que eles pregavam no era o ensino deles mesmos acerca destes acontecimentos, ou uma doutrina que eles prprios haviam criado, mas o que lhes fora ensinado pelo prprio Jesus a respeito de sua morte (veja Lucas 24:25s., 45ss.) e, nos anos vindouros, pelo ministrio do Esprito de Jesus (veja, p.e., 1 Corntios 2:10). Na frase depois de ter padecido, Lucas emprega uma palavra que, mais do que a maioria, traz-nos lembrana o custo mediante o qual nossa salvao foi alcanada (cp. 17:3; 26:23). 1:4 / Alm deste tema, outro assunto em particular encontrou lugar de destaque nas instrues de Jesus: os apstolos no deveriam sair de Jerusalm, mas aguardar o dom do Esprito Santo, a promessa que o Senhor lhes fizera, a saber, a ddiva que viria do Pai (cp. Isaas 32:15; Joel 2:28-32; Atos 2:33, 39; Glatas 3:14; Efsios 1:13, e quanto ao ensino de Jesus, Mateus 10:20; Joo 14:16s., 25; 15:26; 16:7s., 13-15). Em NIV, os versculos 4 e 5 parecem referir-se a algo que Jesus havia dito numa ocasio especfica, o que pode ser real. possvel que tenhamos nesses versculos um lembrete do ltimo encontro que tiveram com o Senhor (cp. vv. 6-8; Lucas 24:48s.). Contudo, no grego o uso do particpio presente sugere, em vez disso, que a referncia se aplica a vrias ocasies em que estiveram reunidos, nas quais essas instrues foram dadas (cp. Joo 20:22). Fica bem claro que para Jesus era questo de suma importncia que os discpulos estivessem prontos para receber o dom que o Pai lhes havia prometido. O fato de os discpulos estarem prontos, e haverem expressado essa prontido pela orao cheia de expectativa, pode ter sido a condio que lhes possibilitou receber o dom do Esprito. Parece que o local tambm tinha grande importncia. A tendncia dos discpulos teria sido voltar Galilia (veja Joo 21), mas Jesus enfatizou que deveriam permanecer em

Jerusalm depois de ter dado mandamentos... ordenou-lhes (vv. 2, 4); no grego h um verbo que Lucas emprega com freqncia quando quer dar nfase especial. No entanto, no sabemos por que Jerusalm; sabemos, porm, que Isaas havia falado de um novo ensino que procederia dessa cidade, e de uma nova obedincia que se seguiria (Isaas 2:3), e tudo quanto se profetizou veio a cumprir-se. Seja como for, havia algo bem apropriado em o dom do Pai ser concedido naquele mesmo lugar onde, bem pouco tempo atrs, um povo rebelde e desobediente havia sentenciado Jesus pena de morte (cp. 7:51; Neemias 9:26). E aqui, evidentemente, um maior nmero de pessoas haveria de receber o testemunho inicial dos apstolos a respeito de Cristo. 1:5 / Jesus lhes havia prometido o poder para testemunhar to logo fossem batizados com o Esprito Santo (cp. v. 8). Esta expresso tambm havia sido usada por Joo Batista (veja Mateus 3:11, etc), e deriva do batismo com gua. Sendo metfora do dom do Esprito, essa expresso no comunica tudo que o dom representa e contm, mas infunde a conscincia exigida para uma experincia arrebatadora. A promessa haveria de ser cumprida no muito depois destes dias (veja disc. sobre 2:4; cp. 2:17; 11:15). 1:6 / Lucas considerou to importante o ensino desses poucos dias anteriores ascenso, que nos deixou trs relatos diferentes a seu respeito: um no evangelho (Lucas 24:44-49), outro no prefcio de Atos, e um terceiro nos versculos 6 a 8 desta seo. Embora o texto possa basear-se na memria de uma ocasio particular, talvez o ltimo encontro de Jesus com seus discpulos seja considerado tpico das instrues que o Senhor lhes deu durante todo o perodo ps-ressurreio. Os demais versculos desta seo (9-11) relatam o acontecimento que encerrou esse perodo. Constituem o relato mais completo, talvez o nico em todo o Novo Testamento, sobre a ascenso, visto que os textos de Marcos 16:19 e Lucas 24:51 talvez no sejam originais. Dada a singularidade dessa passagem, seu valor histrico tem sido questionado, e Lucas acusado de trasladar um evento puramente espiritual para o mundo material. Todavia, ainda que tal acontecimento no seja descrito noutras passagens, certamente a ascenso fica subentendida nas freqentes referncias a Cristo mo direita de Deus (p.e., 2:33s.; 3:21; Joo 6:62; Efsios 4:8-10; 1 Tessalonicenses 1:10; Hebreus 4:14; 9:24; Apocalipse 5:6) sendo claramente afirmada duas vezes, uma vez por Pedro (1 Pedro 3:21s.), e outra por Paulo (1 Timteo 3:16), que talvez estivesse citando um hino cristo primitivo.

bem difcil imaginar que Lucas escreveria uma histria fictcia desse teor, e ainda assim ficasse impune, estando vivos os apstolos (mencionados como testemunhas oculares dos fatos) e seus sucessores. certo que o Novo Testamento no oferece nenhuma explicao para o sbito fim nas aparies ps-ressurreio de Cristo. No entanto, visto que Lucas est descrevendo um evento que transcende este mundo, tendo que usar termos deste mundo, no se pode dar-lhe uma interpretao literal. No devemos, todavia, perder de vista o fato de que algo sobrenatural aconteceu um fato que convenceu os apstolos de que Jesus havia sido "recebido em cima no cu"; teria sido um evento inefvel (podemos supor) cuja melhor descrio humana seria vazada nesses termos. A pergunta feita neste versculo pelos apstolos poderia ter sido formulada em qualquer poca, durante aqueles quarenta dias em que Jesus esteve com eles, visto ter-lhes o Senhor falado vrias vezes a respeito do reino de Deus (cp. v. 3). De fato, o verbo no tempo imperfeito sugere que a pergunta fora formulada mais de uma vez. Contudo, se tal pergunta foi levantada na ltima reunio com Jesus, prevalece a mgoa dolorosa da incapacidade de os discpulos (at o fim) entenderem que seu reino no deste mundo (cp. Joo 18:36) mas do mbito do Esprito, um reino em que se entra mediante o arrependimento e a f. Seria injusto afirmar que os discpulos nada aprenderam com Jesus. Em alguns aspectos, haviam caminhado uma longa jornada (veja a disc. sobre o v. 2; cp. Lucas 24:45). Mas fica bem claro que esses apstolos ainda estavam acorrentados noo popular de um reino de Deus eminentemente poltico, que sua vinda traria a reunio de todas as tribos (veja a disc. sobre 3:21 e as notas sobre a disc. de 26:7), a restaurao da independncia de Israel e o seu triunfo sobre todos os inimigos. Neste campo eles no haviam feito muito progresso, e ainda se prendiam esperana primitiva de vir a ocupar lugares de proeminncia num reino material (Marcos 10:35ss.; Lucas 22:24ss.). Todavia, em vista de suas esperanas, e considerando o contexto geral da ressurreio de Jesus e as declaraes dele concernentes ao Esprito, a pergunta dos apstolos, conquanto errada, era bastante natural. No pensamento judaico, a ressurreio e a vinda do Esprito pertenciam ao novo reino. Na verdade, a profecia de Joel, que Jesus com toda probabilidade os fez lembrar, poderia ter sido a causa da pergunta que agora os apstolos apresentam a Jesus, visto que o profeta falara do derramamento do Esprito de Deus (Joel 2:28ss.), e de Deus restaurando o reino de Israel (Joel 2:18ss.; 3: lss.). A tenso da expectativa expressa-se no tempo presente do verbo

grego. No temos ali "restaurares tu neste tempo", mas "Senhor, neste tempo tu restauras o reino de Israel? " 1:7-8 / No foi esta a primeira vez que os discpulos perguntaram a Jesus o que estava por vir e, como das outras vezes, o Senhor no lhes deu resposta. Em vez disso, Jesus lhes focalizou a ateno nas obrigaes atuais (cp. Joo 21:21s.). O futuro est nas mos de Deus, e no lhes competia saber o que o futuro lhes traria, pelo menos no em mincias (cp. Marcos 13:32). A obrigao dos discpulos era a de serem testemunhas (v. 8). Tal comisso obviamente representou uma referncia especial aos apstolos que autenticariam de modo singular os fatos principais do evangelho a vida, a morte, a ressurreio e a ascenso de Jesus. Neste sentido eles eram os alicerces e pilares da igreja (cp. Mateus 16:18; Glatas 2:9). Mas a igreja edificada sobre tais alicerces se tornaria em si mesma "a coluna e esteio da verdade" (1 Timteo 3:15). aqui que se aplica a referncia secundria das palavras de Jesus. Nem todos so apstolos, mas todos esto comissionados para testemunhar a verdade que estabeleceram. A todos, pois, feita a promessa: recebereis poder, ao descer sobre vs o Esprito Santo (v. 8). As declaraes deste versculo devem ser entendidas como causa e efeito. S pode haver testemunho eficaz onde estiver o Esprito e, onde estiver o Esprito, seguir-se- testemunho eficaz em palavras, em obras (milagres), e na qualidade de vida daqueles que o receberam (veja a disc. acerca de 2:4). A ordem do Senhor tem um escopo universal. Partindo de Jerusalm, os discpulos deveriam sair at os confins da terra (v. 8). Estas palavras contm o corretivo para a pergunta individualista dos apstolos no v. 6, embora se possa duvidar que eles tenham entendido dessa maneira na poca. No mximo talvez entendessem que Jesus lhes estaria ordenando que testemunhassem aos judeus da dispora (veja as notas sobre 2:9ss.) e apenas nesse sentido que pregariam "o arrependimento e a remisso de pecados, a todas as naes" (Lucas 24:47; veja a disc. acerca de Atos 10:10ss.). A idia de incluir os gentios jamais lhes passaria pela cabea, e s foi aceita mais tarde com grande dificuldade. O nacionalismo judaico da igreja primitiva demorou muito a morrer. Todavia, poca em que Lucas estava escrevendo, esse nacionalismo extremado em grande parte j era coisa do passado, e a frase "at os confins da terra" havia assumido sentido mais amplo. Abrangia agora o imprio romano, representado pela prpria Roma e, nessa base, Lucas adotou o programa resumido nesse versculo como estrutura de sua narrativa. 1:9 / Terminados os quarenta dias de instruo, Jesus foi recebido em

cima no cu. O grupo havia tomado o caminho familiar atravs do ribeiro do Cedrom, indo ao monte das Oliveiras (cp. v. 12), e em algum ponto nessa rea a vida terrena de Jesus chegou ao fim. Visto que os judeus pensavam no cu como estando "l em cima" e a terra como sendo "aqui em baixo", o desaparecimento de Jesus a caminho do cu, partindo do mundo visvel para o invisvel, expressa-se num "subir". linguagem que pode no parecer muito apropriada para ns, mas era bastante coerente para os judeus, e encontra-se noutras passagens do Novo Testamento, em conexo com a exaltao de Jesus (cp., p.e., Efsios 1:20; Filipenses 2:9; Hebreus 1:3; 2:9). Esse pensamento exprime-se nas palavras: uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos, visto que na linguagem bblica a nuvem com freqncia smbolo de glria divina (cp. p.e., xodo 16:10; Salmo 104:3). Trata-se de linguagem pitoresca, o evento deve ser retratado mediante imagens; no entanto, Lucas tem certeza de que ocorreu um fato objetivo. Observe a nfase do autor na viso: Jesus foi tomado de diante dos olhos dos apstolos: vendo-o eles... ocultando-o a seus olhos; "e estando eles com os olhos fitos no cu enquanto ele subia" (v. 10). Aqui estava um fato importante, porque aqueles homens deveriam testemunhar a ascenso de Cristo, bem como sua vida, morte e ressurreio. 1:10-11 / A longo prazo a apreciao dos apstolos acerca da ascenso de Jesus deve ter vindo de uma combinao de viso natural e viso sobrenatural (inspirada), esta ltima decorrente do ensino primitivo de Jesus. Todavia, deve ter havido concesso suficiente a seus sentidos fsicos, de modo que ficassem convencidos de que aquela despedida de Jesus fora final do Jesus que haviam conhecido corporalmente. Lucas expressa a experincia dos apstolos em termos dramticos. Ele se refere a dois homens vestidos de branco que de repente junto deles apareceram (v. 10; cp. 10:30; 12:7; Lucas 2:9; 24:4). Eles so apresentados com uma exclamao: "olhai" (que no aparece em ECA, mas tem a inteno de transmitir uma idia de surpresa diante de um fato providencial (cp. esp. 7:56; 8:27, 36; 10:30; 16:1), visto que Lucas deseja que entendamos que os "dois homens" eram anjos (cp. Mateus 28:2s; Joo 20:12). No ficou claro o que Lucas entende por "anjos". possvel que tudo que ele queria transmitir fosse um estarrecedor senso da presena de Deus em tudo que estava acontecendo (veja disc. acerca de 5:19s.; 12:6ss.; cp. 7:30; 8:26; 10:3; 12:23; 27:23, de tal modo que os apstolos se convenceram de que Jesus haveria de voltar da mesma forma como havia partido visivelmente e manifestando a glria de Deus (tudo isso, evidente, havia sido objeto do ensino de Jesus,

cp., p.e., Marcos 13:26; 14:62). Entretanto, algum tempo haveria de decorrer antes de seu retorno. Da a pergunta: por que estais olhando para o cu? (v. 11). Que acatassem as instrues recebidas. No presente, deveriam permanecer em Jerusalm (v. 4), a seguir deveriam sair como testemunhas (v. 8). A nfase aqui, como em geral por todo o Novo Testamento, est nos deveres atuais dos crentes em vez de nas especulaes a respeito da volta de Cristo. Todavia, sabendo que ele haveria de voltar, os apstolos se empenharam em sua tarefa do momento "com grande jbilo" (Lucas 24:52s.). Esta passagem uma das poucas referncias em Atos Parousia (cp. 3:20s.; 10:42; 17:31; 23:6; 24:25; veja tambm as notas sobre 2:17ss. e disc. acerca de 7:55s.).

Notas Adicionais # 71:1 / Tefilo: O nome significa "amigo de Deus" e acabou significando todos os amigos de Deus, isto , os leitores cristos em geral. Outros o consideram um pseudnimo de algum cujo nome no poderia ser revelado. Todavia, no se trata de um nome incomum na poca, no havendo nenhuma razo para pensarmos que Tefilo no tenha sido uma pessoa real, mas personagem fictcia com esse nome. O emprego do ttulo, guisa de pronome de tratamento " excelente Tefilo", comprovao disto (Lucas 1:3) e d a entender, tambm, tratar-se de pessoa de certa importncia. Era ttulo apropriado a um membro das foras eqestres romanas (pertencente, portanto, a uma classe social mdia superior), sendo aplicado noutras passagens de Atos aos procuradores da Judia, visto que muitos destes eram membros das foras militares eqestres (veja 23:26; 24:3; 26:25). Parece que Tefilo era um cristo. Comeou: Alguns autores consideram intil esta palavra, sem sentido, mera redundncia do aramaico. Todavia, neste contexto, o sentido que sugiro aqui parece mais apropriado. A idia de que Atos seria apenas uma continuao da histria de Jesus choca-se contra a teoria proposta por H. Conzelmann, The Theology of Saint Luke, segundo a qual Lucas dividiu a histria em trs perodos, dos quais a histria de Jesus era o "tempo intermedirio", enquanto os eventos relatados em Atos seriam o "perodo da igreja". Na realidade, a obra toda em dois volumes cobre uma nica histria sobre Jesus, a qual, na mente de Lucas, pertencia aos "ltimos dias".

1:3 / o reino de Deus: Para uma compreenso apropriada deste termo, preciso notar que tanto as palavras do grego quanto as do hebraico, ou do aramaico, assim traduzidas significam reinado, em vez de reino, e governo, em vez de domnio. Portanto, em essncia, o reino de Deus "no uma comunidade de cristos e tampouco a vida interna da alma, nem ainda um paraso terrestre que a humanidade est trazendo luz, estando agora em pleno desenvolvimento" (G. Lundstrom, The Kingdom of God in the Teaching of Jesus [O Reino de Deus no Ensino de Jesus]), Edimburgo: Oliver & Boyd, 1963, p. 232, embora possa abranger todas essas noes, mas em vez disso Deus agindo com poder real, exercendo sua soberania e, de modo especial, impondo seu governo, objetivando o destronamento de Satans e a restaurao da humanidade ao relacionamento ntimo com o prprio Senhor Deus. Entretanto, isto se concebeu de vrias maneiras: s vezes, em termos da soberania eterna de Deus e s vezes, em termos de nossa presente experincia com o Senhor, mas principalmente em termos da manifestao futura do reino, sendo seu estabelecimento marcado pela expresso "Dia do Senhor", quando Deus e/ou o Messias apareceria, ocasio em que os mortos haveriam de ressuscitar, iniciando-se um novo tempo (veja as notas sobre 2:17ss.). Por esta poca todos haveriam de conhecer a Deus, do menor ao maior, e todos seriam por ele perdoados (Jeremias 31:34) e o Senhor derramaria de seu Esprito sobre todos (Joel 2:28). Para os contemporneos de Jesus, bem como para todas as geraes que os precederam, o reino de Deus concebido nestes termos no passava de uma esperana muito distante. Imagine-se, pois, o tremendo espanto dos discpulos quando o Senhor lhes anunciou que o reino se tomava realidade (veja, p.e., Marcos 1:22, 27). "O tempo est cumprido", afirmou o Senhor (isto , o tempo to esperado de sua manifestao), "e o reino de Deus est prximo" (Marcos 1:15; cp. p.e., Lucas 17:21). No entanto, se Jesus estava certo (e as evidncias de sua vida, seus milagres, sua ressurreio e o derramamento no Pentecoste nos asseguram que ele estava certo), fica evidente que o reino no chegou da maneira esperada. Por enquanto, o reino haveria de ser uma experincia parcial e pessoal (conquanto muito real) para todos quantos se submeterem ao governo de Deus em Jesus Cristo (cp. 1 Corntios 13:12). Somente quando o Senhor voltar, o reino de Deus ser completamente estabelecido e o governo divino dominar sobre todos (veja as disc. acerca de 3:19-21; 14:22; cp. 1 Corntios 15:24s.). Assim que o Dia do Senhor que, em certo sentido, pode-se afirmar ter chegado quando Jesus veio terra, vem demorando todos esses anos para completar-se at

que Cristo retorne. Grande parte dos textos do Antigo Testamento que descrevem o Dia do Senhor aplica-se, no Novo Testamento, ao "Dia de Cristo", a saber, ao dia em que ele vai voltar. 1 : 4 / Estando comendo com eles: A palavra que originou esta traduo (synalizein) no comum, encontrando-se no Novo Testamento somente aqui e de novo (sujeita a divergncia) no Antigo Testamento (LXX, Salmo 140:5). Deriva-se ou de outra palavra que significa "encontrar-se" (GNB) ou de uma palavra que significa "sal", e, desta, "comer juntos". Prefere-se a ltima derivao, com base em que o autor est recapitulando os acontecimentos de Lucas 24:42ss. 1:7 / os tempos ou as pocas: As duas palavras gregas representadas por estas tradues s vezes so consideradas sinnimas. sempre difcil estabelecer uma distino clara entre uma e outra. Aqui, todavia, tempos (gr. chronous) palavra usada com o sentido de perodos de tempo ou eras da histria do mundo; e pocas (gr. kairous) seriam os momentos crticos dentro dessas eras da histria. 1:8/ Ao descer sobre vs o Esprito Santo: A expresso grega aqui pode ser traduzida de duas maneiras. O caso genitivo do Esprito Santo pode relacionar-se a poder, dando o sentido de "vs recebereis o poder do Esprito Santo que descer sobre vs" (cp. Lucas 4:14; Romanos 15:13, 19), ou pode ser tomado como genitivo absoluto com sentido temporal. NIV preferiu esta ltima alternativa, que a melhor. E sereis minhas testemunhas: Aqui o caso genitivo do pronome pessoal nos apresenta duas possibilidades (alguns textos trazem o caso dativo, que nos daria opes semelhantes). Ou se trata do genitivo objetivo, expressando o pensamento de que o Senhor aquele a respeito de quem eles seriam testemunhas, ou se trata do genitivo possessivo, indicando o relacionamento pessoal dos discpulos com o Senhor eles so testemunhas dele. Ambas as opes so reais, sendo a ambigidade intencional. Em Jerusalm como em toda a Judia e Samaria, e at os confins da terra: o fato que no princpio da histria da igreja o significado total das palavras de Jesus s foi entendido com muita lentido, e que, para muitos desses seguidores, tocar nesse assunto eqivalia a tocar em espinheiro. Mas isto no precisa necessariamente levar-nos a supor que o Senhor jamais lhes deu estis instrues, e que estas lhes teriam chegado posteriormente, por mo de terceiros. A histria de Israel, e na verdade a histria da prpria igreja est cheia de exemplos de como as pessoas no conseguiram atingir os mais nobres ideais de seus lderes.

A forma do enunciado mostra conhecimento ntimo do contexto poltico e social da poca. Quanto a uma definio mais ampla de Judia, veja a disc. acerca de 10:37. Aqui, Judia refere-se quela parte da Palestina habitada pelos judeus> separada de Samaria e da Galilia (cp. 9:31; 11:29; 15:1; 26:20; 28:21), e s vezes exclui-se tambm a Cesaria (cp. 12:19; veja as disc. acerca de 10:1 e 21:10). Politicamente, no entanto, no tempo em que os procuradores governavam de Cesaria essas provncias, a Judia era considerada uma provncia, o que se deduz claramente do texto grego de Lucas, enquanto Jerusalm era sempre considerada pelos rabis como rea separada do resto da provncia, como Lucas tambm indica no apenas aqui, mas noutras passagens de sua obra (cp. 8:1; 10:39; Lucas 5:17; 6:17; veja as notas sobre 2:9ss.). A frase at os confins da terra ocorre na Septuaginta em Isaas 8:9; 48:20; 49 (cp. Atos 13:47, onde Paulo usa Isaas 49:6 com referncia a Barnab e a si Prprio); 62:11; 1 Macabeus 3:9. caso parea uma idia um tanto distorcida sugerir que Lucas entendeu que a pregao de Paulo em Roma foi o cumprimento dessa profecia, digno de nota que nos Salmos de Salomo 8:16, Pornpeu, um cidado romano, se diz que viera "dos confins da terra". 1:11 / Vares galileus: Parece que a grande maioria dos Doze era constituda de galileus, e que Judas Iscariotes talvez tenha sido a nica exceo.

2. Matias Escolhido para Substituir Judas ( Atos 1.12-26)O perodo entre a ascenso e o Pentecoste foi de espera, no porm de inatividade. Para os discpulos foi principalmente um tempo de orao, em que providenciaram a substituio de Judas. Sobre isso, temos o primeiro sermo de Atos. semelhana da maior parte dos sermes deste livro, talvez tenhamos a apenas um sumrio do que Pedro disse. Entretanto, por trs do relato de Lucas podemos captar os dados originais de tudo quanto o apstolo disse. 1:12-14 / Conforme instrues que receberam, os apstolos retraaram seus passos do monte das Oliveiras cidade, para que ali esperassem o dom do Pai (cp. vv. 4, 5). Estavam acomodados no cenculo. Neste lugar teriam certa privacidade que combinava bem com seus

propsitos, visto que a maior parte do tempo eles investiam na orao (cp. Daniel 6:10). A nota do v. 14 pode incluir a freqncia regular ao templo (cp. Lucas 24:53; Atos 2:46; 3:1), visto que neste sentido no havia distino entre eles e seus correligionrios judeus. Os crentes viam-se a si mesmos simplesmente como o judasmo cumprido, o comeo do Israel escatolgico. Prosseguiam na prtica comum dos judeus. Todavia, pelo fato de afirmar-se que homens e mulheres oravam juntos, a referncia aqui principalmente s suas reunies privadas. Se for esse o ca