50816510 LUCIANO de Samosata Dialogos Dos Deuses

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LUCIANO de Samsata DILOGOS DOS DEUSES Trad. Doutora Reina Marisol Troca Pereira (Professora Auxiliar, Universidade da Beira Interior, Departamento de Letras)

Dilogos dos Deuses

INTRODUO Luciano (c.120 - c.200) foi um escritor de lngua grega, da Idade da Prata, natural de Samsata, na Sria. De famlia humilde, cedo se iniciou nas artes de moldagem e estaturia, mas sem sucesso. Hbil escritor, distinguiu-se sobretudo na stira, versando mltiplos temas em diversos domnios, tais como na mitologia e na filosofia. Segui-se a vultos to famosos como Menipo, Porfrio, Libnio. Vivia-se uma poca na qual a mitologia tradicional no reunia cultos fervorosos e extremistas, face influncia crescente de prticas religiosas Orientais. Servindo-se de uma exposio dialogada, o que tornava a mensagem de leitura mais apelativa, Luciano coloca variadas personagens, sobretudo deuses, em discurso directo, avanando assim at ao limite da crtica religiosa. Os Dilogos dos Deuses compreendem 26 pequenas conversas, geralmente com dois interlocutores, s quais poderiam acrescentar-se, numa perfeita unidade temtica e estrutural, os 15 Dilogos Marinhos, protagonizados por divindades do universo aqutico. As histrias evidenciadas demonstram continuidade face s verses seguidas na produo literria anterior. Com manifesta comicidade, estes dilogos evidenciam faltas, inseguranas, sentimentos de revolta e de insegurana dos deuses, aproximando-os, nesse sentido, de uma esfera mais humana, no obstante a sua inegvel superioridade. Os dilogos so independentes entre si, embora alguns dem seguimento a factos ou a episdios anteriormente aludidos. No que respeita s personagens, algumas possuem vrias intervenes, como Zeus, Apolo, Afrodite, Hera, entre outras, o que confere alguma unidade e coeso obra. O estilo fluente e o carcter bem humorado revelam grandes potencialidades inclusivamente para um aproveitamento teatral.

1 De Prometeu e Zeus1

(Prometeu encontra-se amarrado ao monte Cucaso e suplica a Zeus que o liberte do seu suplcio.)

PROMETEU (Com ar sofredor) Liberta-me, Zeus, pois j aguentei sofrimentos terrveis!

ZEUS (Com ar de admirao e superioridade) Que te liberte, dizes tu, a ti, que devias estar preso grilhes ainda mais fortes; ter o Cucaso inteiro sobre a cabea e no apenas o fgado a ser devorado por dezasseis abutres, mas tambm os olhos a serem-te vazados, como paga por nos teres forjado essas criaturas os homens, roubado o fogo e criado as mulheres?! E o que dizer ento daquilo que me enganaste na partilha da carne, ao servires-me ossos revestidos de gordura, enquanto guardavas a melhor parte para ti?!

PROMETEU De certo j sofri um castigo suficiente, ao ter estado amarrado durante todo este tempo, cravado ao Cucaso e a alimentar, com o meu fgado, uma guia, a pior de todas as aves.

ZEUS No nem uma pequena parte do que devias sofrer.

PROMETEU J que no vais libertar-me sem algo em troca, ento, Zeus, revelar-te-ei uma coisa muito importante.

ZEUS1

Prometeu era filho do Tit Jpeto e neto de Urano e de Geia, o que o tornava primo de Zeus, o senhor dos deuses e dos homens. Moldou os homens a partir do barro e desde ento tentou benefici-los. Contase que a certa altura ludibriou Zeus: aproveitando a celebrao de sacrifcios em Mecone, pegou num boi e dividiu-o em dois montes, aparentemente iguais - num colocou a carne e as entranhas do animal, cobertas com a sua pele e, noutro, apenas os ossos revestidos com gordura. De seguida, dirigiu-se a Zeus, para que este escolhesse uma das pores e deixasse a restante para os humanos. Zeus decidiu-se pelo lote que continha os ossos. Sentindo-se logrado, Zeus, senhor dos raios e dos troves, retirou o fogo aos homens. Prometeu, todavia, conseguiu roub-lo e devolv-lo aos mortais. Furioso, desta feita Zeus enviou Pandora, a primeira mulher, como castigo para os humanos. No que respeita a Prometeu, agrilhoou-o ao monte Cucaso, e condenou-o a um suplcio - o de ter o seu fgado devorado diariamente por uma guia, a ave de Zeus.

(Desconfiado) Ests a tentar enganar-me, Prometeu.

PROMETEU E o que que eu ganharia com isso? De certeza que no vais esquecer-te de onde fica o Cucaso, nem hs-de ficar sem grilhes, se eu for apanhado a tramar alguma.

ZEUS Em primeiro lugar, diz-me l qual a recompensa de monta que tens para me dar em troca.

PROMETEU Se eu conseguir dizer para onde que tencionas ir agora, acreditars em mim e nas minhas profecias acerca do futuro?

ZEUS E porque no?!

PROMETEU Vais encontrar-te com Ttis e unir-te a ela.

ZEUS Adivinhaste perfeitamente. Mas e ento, o que que tem isso? Parece-me que ir concretizar-se o que ests a dizer.

PROMETEU (Com ar de preocupao) Zeus, no mantenhas relaes com a Nereida! Pois se ela engravidar de ti, esse filho far-te- o mesmo que tu ...

ZEUS (Lembrando-se de como destronou o seu pai, assusta-se2) Ests a dizer que eu hei-de ser derrubado do poder?

2

Crono, o pai de Zeus, temendo vir a ser destronado por um dos seus filhos, devorava-os assim que nasciam. Contudo, Reia substituiu um dos recm-nascidos (Zeus) por uma pedra envolta em panos, que Crono prontamente devorou. Escondido at uma idade mais madura, Zeus resolveu dar a beber ao seu pai uma substncia que Mtis (a Prudncia) lhe entregara. O lquido provocou o vmito de todos os filhos que Crono engolira at ento. Unindo-se aos irmos, Zeus consegue ento destronar o pai, substituindo o seu reinado pelo dos Olmpicos. 3

PROMETEU Que isso no acontea, Zeus, todavia a unio com ela constitui uma ameaa.

ZEUS (Aliviado) Pois ento, adeusinho Ttis! Quanto a ti, Hefesto que te liberte como paga por esta informao.

2 De Eros e Zeus3

EROS (Em atitude de suplicante) Ora, se cometi alguma falta, perdoa-me, Zeus! que no passo de uma criana pequena, ainda inconsequente!

ZEUS (Sorrindo, com ar de troa) Tu, Eros, uma criancinha, tu que s muito mais velho do que Jpeto4?! S porque no tens barba crescida nem cabelos brancos, julgas que podes passar por criana, sendo tu um velho astuto?

EROS E que mal que te fez este velho, como tu dizes, a ponto de tu o quereres prender?

ZEUS (Visivelmente irritado) maldito, v l se foi pouco aquilo que me arranjaste! Andas a gozar-me de uma tal maneira, que no h nada em que tu no me tenhas feito transformar: stiro, touro, ouro, cisne, guia! E no entanto nunca fizeste com que algum se apaixonasse por mim, nem nunca fui considerado atraente por nenhuma mulher, por causa de ti! Antes pelo contrrio, tenho de recorrer a sortilgios para com elas e ainda utilizar disfarces. Consequentemente, elas apaixonam-se pelo touro ou pelo cisne, mas se me vem em pessoa, morrem de medo.

3

Eros distinguiu-se como deus do Amor. Zeus era tambm notrio pelos seus diversos relacionamentos amorosos, no obstante o seu casamento com Hera. 4 Jpeto era um dos Tits. A referncia corresponde a um provrbio, equivalente, por exemplo, a mais velho do que os dinossauros. 4

EROS (Tentando justificar-se) Justamente! Zeus, ento elas, sendo mortais, no conseguem suportar contemplao da tua imagem5.

ZEUS Ento e como que Branco e Jacinto amam Apolo6?

EROS Ah, mas Dafne7 fugiu dele, apesar da sua longa cabeleira e do seu ar jovial. Se pretendes ser desejado, no agites a gide, nem lances o raio. Apresenta-te sim o mais atraente possvel, escovando os caracis de ambos os lados e apanhando-os com um diadema. Veste-te de prpura e cala umas sandlias, movimenta-te ao ritmo do som da flauta e de tamboris e vers como te seguiro em maior nmero do que as Mnades8 de Dionsio.

ZEUS (Irritado com os conselhos de Eros, afastando-o) Livra!... Nunca aceitaria um tal subterfgio para conseguir tornar-me desejvel!

EROS (Encolhendo os ombros) Ento, Zeus, no penses em amar! Pois assim mais fcil.

ZEUS (Desesperado, agarrando Eros) No! Amar, sim, mas consegui-lo sem tanto esforo! S nessas condies que vou largar-te!

3 De Zeus e Hermes95 6

Na Antiguidade existia a ideia de que a vista de um deus era difcil de suportar. Os relacionamentos de teor homossexual no constituam propriamente uma excepo nem provocavam o assombro nas civilizaes da Antiguidade. Branco e Jacinto eram dois jovens, que cativaram os amores do garboso deus Apolo. 7 Amada por Apolo, Dafne (em Grego, loureiro) sempre tentou evitar o deus. Temendo ser alcanada por ele, pediu para ser transformada em loureiro. 8 Estas mulheres, imbudas do esprito dionisaco, formavam um cortejo, seguindo nuas ou seminuas e danando ao som de flautas e tamboris. 9 O dilogo ocorre entre Zeus, legtimo esposo de Hera e Hefesto, o mensageiro dos deuses, a propsito de uma das muitas infidelidades do deus supremo. Desta feita, Zeus tomou-se de amores por uma bela jovem de Argos, filha de naco, de nome o. O relacionamento, todavia, no passou totalmente 5

ZEUS (Com ar casual) Conheces a formosa filha de naco, Hermes?

HERMES Sim, se que ests a referir-te a o.

ZEUS Ela agora j no uma rapariga, mas sim uma vitela.

HERMES (Admirado) Que prodgio! Ento ela mudou de forma?

ZEUS Foi Hera, que tomada pela inveja, a metamorfoseou. E fez ainda algo mais de extraordinrio e de terrvel contra essa desgraada. Colocou junto dela um pastor chamado Argos, com muitos olhos, que apascenta a vitela e que nunca dorme.

HERMES E o que que agora pode fazer-se?

ZEUS Vai at Nemeia pois a que Argos pastoreia mata-o, leva o para o Egipto, pelo mar, e transforma-a em sis. E que ela se torne numa divindade dessa regio, que faa subir o Nilo, que envie os ventos e proteja os marinheiros.

4

despercebido enciumada esposa de Zeus, Hera. Para evitar possveis desacatos, Zeus transformou o numa vitela e mantinha os seus encontros com a jovem, assumindo a forma de um touro. Ainda assim, movida pela desconfiana, Hera c