Click here to load reader

A AGENDA VERMELHA - fnac- ... folheio a minha agenda. Tornou-se uma espécie de mapa da minha vida e quero falar-te um pouco sobre ela. Para que tu, que serás a única a lembrar-se

  • View
    1

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of A AGENDA VERMELHA - fnac- ... folheio a minha agenda. Tornou-se uma espécie de mapa da minha...

  • SOFIA LUNDBERG

    A AGENDA VERMELHA

    Tradução do inglês por Elsa T. S. Vieira

    Oo

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_2P.indd 3 18/07/2019 13:26

  • 5

    Para Doris, o anjo mais belo do Céu. Deste-me ar para respirar e asas para voar.

    E para Oskar, o meu tesouro mais precioso.

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_1P.indd 5 29/06/2019 15:29

  • 7

    1

    O saleiro. A caixinha dos comprimidos. A taça com rebuça- dos para a garganta. O monitor de tensão arterial no estojo de plástico oval. A lupa com a alça de renda vermelha, tirada de uma cortina de Natal, presa com três nós grossos. O telemóvel com as teclas extra grandes. A velha agenda de cabedal vermelho, com os cantos dobrados a deixar ver o papel amarelecido no interior. Ela arruma tudo cuidadosamente, no meio da mesa da cozinha. Todos os objetos têm de estar muito bem alinhados. Não pode haver rugas na toalha engomada de linho azul-claro.

    Um momento de calma enquanto olha para a rua e para o tempo desagradável que faz lá fora. Pessoas que caminham cheias de pressa, umas com chapéus de chuva, outras sem eles. As árvores despidas. O alcatrão enlameado, a água a escorrer por entre a lama.

    Vê um esquilo a correr pelo ramo de uma árvore e uma cen- telha de felicidade ilumina-lhe o olhar. Inclina-se para a frente e segue com atenção os movimentos do pequeno animal. A cauda felpuda abana de um lado para o outro, enquanto o esquilo saltita agilmente de ramo em ramo. Depois, salta para a estrada e desa- parece, em busca de novas aventuras.

    Deve ser quase hora de almoço, pensa ela, levando a mão à barriga. Pega na lupa e segura-a com a mão trémula sobre o reló- gio de ouro. Mesmo assim, os números são demasiado pequenos

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_1P.indd 7 29/06/2019 15:29

  • 8

    e acaba por desistir. Cruza as mãos no colo com tranquilidade e fecha os olhos por um instante, à espera do som familiar da porta da rua.

    – Está a dormir, Doris? A voz demasiado alta desperta-a abruptamente do seu sono.

    Sente uma mão no ombro e, ensonada, tenta sorrir e acenar com a cabeça à jovem funcionária que se inclina sobre ela.

    – Acho que passei pelas brasas. – As palavras ficam-lhe presas na garganta e pigarreia.

    – Beba um bocadinho de água. – A jovem traz-lhe um copo e Doris bebe uns goles.

    – Obrigada… Desculpe, esqueci-me do seu nome. – É nova- mente uma rapariga nova. A  anterior foi-se embora, regressou aos estudos.

    – Sou eu, Doris, a Ulrika. Como se sente hoje?  – pergunta sem esperar por resposta.

    Porque, na realidade, Doris não lhe responde. Em silêncio, observa os movimentos apressados de Ulrika

    na cozinha. Vê-a ir buscar a pimenta e arrumar o saleiro na des- pensa, deixando atrás de si uma toalha cheia de rugas.

    – Não pode abusar do sal, já a avisei  – ralha Ulrika com a caixa de comida na mão e um olhar severo. Doris assente com um aceno e suspira. Ulrika retira a película transparente da caixa e despeja molho, batatas, peixe e ervilhas, tudo misturado, para um prato de loiça castanho. Coloca o prato no micro-ondas e programa-o para dois minutos. O aparelho começa a trabalhar com um leve zumbido e o cheiro a peixe espalha-se lentamente pelo apartamento. Enquanto espera, Ulrika vai mexendo nas coi- sas de Doris: arruma os jornais e a correspondência num monte descuidado, tira a loiça da máquina.

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_1P.indd 8 29/06/2019 15:29

  • 9

    – Está frio lá fora? – Doris olha para a chuva do outro lado da janela. Não se lembra da última vez que pôs os pés fora de casa. Era verão. Ou talvez primavera.

    – Muito!… Brr! O inverno está quase a chegar. Hoje, as gotas de chuva parecem gelo. Felizmente tenho o carro e não preciso de andar muito. Encontrei lugar para estacionar mesmo em frente à sua porta. É muito mais fácil estacionar nos subúrbios, onde eu moro. Aqui, na cidade, é terrível, mas às vezes temos sorte. – As palavras dão lugar a um cantarolar entre dentes. Uma canção pop que Doris reconhece da rádio. Ulrika percorre a casa como um turbilhão. Limpa o pó no quarto. Doris ouve-a andar de um lado para o outro e espera que ela não derrube a jarra pintada à mão de que gosta tanto.

    Quando Ulrika volta, traz um vestido no braço. É cor de vinho, de lã, o que tem pompons nas mangas e um fio solto na bainha. Doris tentou puxar o fio da última vez que o vestiu, mas a dor nas costas não a deixa chegar com a mão abaixo dos joelhos. Estica o braço para tentar apanhá-lo agora, mas a sua mão encontra apenas ar quando Ulrika se vira de repente e pousa o vestido sobre as cos- tas de uma cadeira. Depois, aproxima-se e começa a desapertar a camisa de dormir de Doris. Despe-lhe cuidadosamente as mangas e Doris geme baixinho quando uma pontada de dor se estende das costas até aos ombros. Está sempre lá, a dor, dia e noite. Um lem- brete do corpo envelhecido.

    – Agora tem de se levantar. Eu ajudo-a. Vou contar até três, está bem? – Ulrika segura-a pela cintura, ajuda-a a levantar-se e despe- -lhe a camisa de dormir. Doris fica ali, de pé, no meio da cozinha, à luz fria do dia, apenas em roupa interior. Esta também tem de ser mudada. Doris cobre-se com um braço quando a cuidadora lhe desaperta o soutien. Os seios tombam, flácidos, sobre a barriga.

    – Oh, pobrezinha, está cheia de frio! Venha, vamos lá levá-la para a casa de banho.

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_2P.indd 9 18/07/2019 13:26

  • 10

    Ulrika pega-lhe na mão e Doris segue-a com passos cautelo- sos e hesitantes. Sente os seios a baloiçar e segura-os com o braço. A casa de banho está mais quente do que o resto da casa, graças ao aquecimento escondido sob os azulejos do chão, e Doris des- calça os chinelos para sentir o calor nas solas dos pés.

    – Muito bem, vamos lá vestir-lhe o vestido. Braços para cima. Ela faz o que lhe é pedido, mas só consegue levantar os braços

    até à altura do peito. Ulrika debate-se com o tecido e lá consegue enfiar-lhe o vestido pela cabeça. Quando Doris ergue os olhos para ela, sorri.

    – Cucu! Que cor tão bonita, fica-lhe muito bem. Quer pôr um bocadinho de batom? Talvez um pouco de blush nas bochechas?

    A maquilhagem está arrumada numa mesinha ao lado do la- vatório. Ulrika pega no batom, mas Doris abana a cabeça e vira- -lhe costas.

    – Quanto tempo falta para a comida estar pronta? – pergunta, ao regressar à cozinha.

    – A comida! Ai, que parva que eu sou, esqueci-me completa- mente! Agora tenho de a aquecer outra vez.

    Ulrika corre para o micro-ondas, abre a porta, volta a fechá- -la, programa-o para um minuto e pressiona o botão. Deita um pouco de sumo de arandos vermelhos num copo e coloca o prato na mesa. Doris torce o nariz quando vê a comida pouco apeti- tosa, mas como tem fome, leva uma garfada à boca.

    Ulrika senta-se em frente dela. Segura uma chávena. É aquela com as rosas pintadas à mão. A que Doris nunca usa, com medo de a partir.

    – O café vale mesmo ouro no nosso dia a dia. – Ulrika sorri. – Não acha?

    Doris acena afirmativamente, sem tirar os olhos da chávena. Não a deixes cair.

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_1P.indd 10 29/06/2019 15:29

  • 11

    – Está satisfeita?  – pergunta Ulrika depois de algum tempo em silêncio. Doris faz que sim com a cabeça e Ulrika levanta-se para arrumar a loiça. Regressa com outra chávena de café fume- gante. Uma chávena azul-escura, de cerâmica de Höganäs.

    – Aqui tem. Agora podemos descansar um bocadinho, que me diz?

    Ulrika sorri e senta-se outra vez. – Este tempo, é só chuva, chuva e mais chuva. Parece que

    nunca mais para de chover. Doris abre a boca para responder, mas Ulrika continua. – Não me lembro se mandei meias a mais para a creche. Os

    miúdos vão ficar todos encharcados, de certeza. Bom, imagino que deve haver por lá meias perdidas. Senão, quando os for buscar, vão estar descalços e rabugentos. Sempre esta preocupação com as crianças. Imagino que deve saber como é. Quantos filhos tem?

    Doris abana a cabeça. – Oh, não tem filhos? Pobrezinha, então nunca tem visitas?

    Nunca foi casada? A insistência da cuidadora surpreende-a. Estas jovens mulhe-

    res não costumam fazer-lhe este tipo de perguntas, pelo menos não tão diretas.

    – Mas tem amigos, com certeza? Que a vêm ver de vez em quando? Pelo menos, essa agenda parece estar bem preenchida. – E aponta para a agenda em cima da mesa.

    Doris não responde. Olha para a fotografia de Jenny. Está no corredor, mas Ulrika nem reparou nela. Jenny, que está tão distante e, ao mesmo tempo, tão perto, sempre nos seus pensamentos.

    – Bom – continua Ulrika –, tenho de ir andando. Conversa- mos mais para a próxima.

    Coloca as chávenas na máquina da loiça, incluindo a que é pintada à mão. Depois, limpa mais uma vez o balcão com o pano da loiça, liga a máquina e, quando Doris dá por isso, já saiu. Pela

    AGVERM_20180522_TEXTO_F01_20_1P.indd 11 29/06/2019 15:29

  • 12

    janela, vê Ulrika enfiar o casaco e entrar num pequeno carro ver- melho com o logótipo da instituição local na porta. Com passos arrastados, Doris dirige-se à máquina da loiça e interrompe o ciclo de lavagem. Tira a chávena pintada à mão, passa-a cuidado- samente por água e escond

Search related