+A america latina no seculo XXI geopolitica critica dos estados e movimentos sociais

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    INTRODUO

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    A AMRICA LATINA NO SCULO XXI:geopoltica crtica dos Estados e os movimentos sociais, do

    conhecimento e da representao1

    A pergunta sobre o que significa ser latino-americano est mudando desde comeos do scu-lo XXI. Se desvanecem respostas que antes con-venciam e surgem dvidas sobre a utilidade defirmar compromissos continentais. Aumentaramas vozes que intervm neste debate [] Ao mesmotempo, os Estados nacionais [] so diminudospela globalizao. As incertezas e regresses eco-nmicas e polticas de fins do sculo XX deixarampara trs muitas expectativas. Aqueles que aposta-ram somente nos Estados nacionais, no mercado,ou nos meios massivos, como caminho para o de-senvolvimento e a integrao da Amrica Latina,aprenderam que nenhum desses referentes o quefoi. Com essas palavras, Garca Canclini (2002,p.18) comeava a estabelecer diversas dvidas em

    seu ensaio Latinoamericanos buscando lugar eneste siglo, em torno da viabilidade da Amrica La-tina num mundo globalizado. Ainda nesse ensaio,o autor aborda os elementos que globalizam a re-gio e aqueles que aprofundam seus prprios tra-os mais tarde retornarei sobre a questo , mas significativa a pergunta-motivo que se faz: Quemquer ser latino-americano? Garca Canclini rela-tivamente cauteloso com respeito resposta, masnos recorda que o relato da Amrica Latina deveser polifnico. No sei se este dossi responde aessa exigncia, provavelmente no, mas tentaproblematizar algumas das vises comuns sobre aAmrica Latina e reunir vozes e prticas habitual-mente silenciadas.

    * * *

    Em primeiro lugar vou expor a perspectivageral do dossi. Nesse sentido, necessrio afir-mar que ela no a dos estudos de rea (areastudies), nascidos nos Estados Unidos (e em ou-tros pases ocidentais), aps a Segunda GuerraMundial. Os estudos nessa perspectiva esto mar-

    * Professor Titular de Cincia Poltica e de Administraona Faculdade de Cincia Poltica e Sociologia daUniversidad Complutense de Madrid.Campus de Somosaguas, 28223. Madrid - Espaa.hcairoca@cps.ucm.es

    1 Agradeo o convite (e a pacincia) das editoras da revistaCaderno CRH, Profas. Anete B.L. Ivo e Elsa S. Kraychetepara organizar este dossi temtico. Do mesmo modo,agradeo a todos os colegas que colaboraram no dossi; eem particular a Carlos Milani, co-urdidor de tramas aca-dmicas e, neste caso, grande incentivador, e a BrenoBringel, decisivo na chegada a bom porto de tudo.

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    cados, desde o incio, por um eurocentrismo (ouocidentocentrismo) muito forte, que conduz aestudar a regio sempre em termos comparativoscom um Ocidente desenvolvido, democrtico e maisavanado. Configuram, assim, uma geografia bin-ria, tpica da viso de mundo moderna, que come-a a se desenvolver no Renascimento europeu e,posteriormente, estende-se a todo o mundo. Esse um dos elementos fundamentais da colonialidadedo saber.2

    E, mesmo que os estudos de rea sejam deci-didamente interdisciplinares incluindo a sociolo-gia, a geografia, a histria, a economia ou a cinciapoltica, entre outras disciplinas reconhecidas e,nesse sentido, abram caminhos para a superaodas limitaes prprias dos enfoques tradicionaisem cincias sociais, sua perspectiva imperial(Mignolo, 2007). Para que se renovem, necessriodescoloniz-los, ou seja, superar o mencionadoeurocentrismo ou o ocidentocentrismo.

    A geopoltica crtica que se desenvolveu nosltimos anos pode ser til nessa tarefa, j que per-mite abordar o estudo das regies do planeta deuma forma diferente da dos estudos de rea. Elaest ligada aos trabalhos pioneiros de John Agnew(2003), Simon Dalby (1990) e Garoid Tuathail(1996). Sua idia fundamental reconceituar ageopoltica como discurso que contribui para aconstruo cultural do mapa geopoltico global.Como discurso, caberia diferenciar umageopoltica prtica de uma geopoltica formal.A primeira seria uma atividade estatal, um exerc-cio no qual o mundo espacializado em regiescom atributos ou caractersticas diversas por parteda burocracia encarregada da poltica exterior dosEstados (principalmente diplomatas e militares),enquanto que a segunda seria constituda de teori-as, modelos e estratgias elaboradas pelos inte-lectuais da segurana (acadmicos, pesquisado-res de think-tanks), para guiar e justificar as aesda geopoltica prtica. Outros autores (Dodds, 2007;

    Sharp, 2000) introduziram, mais tarde, o conceitode geopoltica popular, referente cultura po-pular, aos argumentos geopolticos elaborados nosmeios de comunicao, no cinema, na novela, quecontribuem decisivamente para a produo e cir-culao do sentido comum geopoltico, dos pres-supostos geopolticos assumidos pelos cidados eque permitem, em boa medida, fazer inteligvel ageopoltica prtica e a formal.

    Uma das caractersticas fundamentais dageopoltica crtica a considerao de que a refle-xo espacial sobre as relaes de poder no se podelimitar como ocorria na geopoltica tradicional s existentes entre os Estados. Seriam esquecidos,ento, os inumerveis fluxos que ocorrem mar-gem, e ela operaria de forma reducionista, limitan-do-se ao poltico e ao estatal. Em conseqn-cia, faz-se necessrio desenvolver tambm o quePaul Routledge (1998) denomina anti-geopoltica,ou seja, considerar as prticas espaciais e repre-sentaes do espao dos movimentos sociais, dasorganizaes populares e de intelectuais dissiden-tes que resistem, de diversas maneiras, geopolticados Estados. Desse modo, ainda que a geopolticacrtica enfatize a macro-escala de anlise, no aban-dona outras escalas, como era o caso da tradicio-nal, para no cair num determinismo geogrfico.

    * * *

    Se a geopoltica crtica se centra no discurso, necessrio tambm refletir sobre algumas ques-tes fundamentais e elucid-las, como, por exem-plo, sua relao com os aspectos materiais e simb-licos que configuram uma regio como a AmricaLatina. O discurso geopoltico foi utilizado parareferir-se aos enunciados sobre a disposio geogr-fica da poltica exterior dos Estados, e, inclusive,em algumas ocasies, se inclui na definio tam-bm o conjunto de procedimentos que geram e or-ganizam esse discurso nas elites governamentaisdos Estados ou seja, tanto os enunciadosgeopolticos como sua enunciao. Uma definioprecisa foi a elaborada por Agnew e Corbridge, con-siderando que o discurso geopoltico se refere

    2 Para o debate sobre a colonialidade do poder e do saber noBrasil, ver o texto de Lander (2005), apresentado porCarlos Walter Porto-Gonalves.

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    forma na qual a geografia da economia polticainternacional foi escrita e lida nas prticas daspolticas econmicas e exteriores [dos Estados]ao longo de diferentes perodos de ordensgeopolticas. Escrita est relacionado formaem que as representaes geogrficas so incor-poradas nas prticas das elites polticas. Lidaest relacionado s formas em que essas repre-sentaes so comunicadas (1995, p. 46).

    Em outras palavras, poder-se-ia dizer que anoo de discurso geopoltico se refere forma comoos intelectuais de Estado (intellectuals of statecraft) esse grupo heterogneo, tanto de tericos uni-versitrios ou de institutos de pesquisa como depraticantes, militares ou diplomatas espacializama poltica mundial.

    Definir assim o discurso geopoltico permitefugir de uma dupla simplificao: a idealista, cujosenfoques textualistas tentam explicar as prticassociais como epifenmenos da linguagem, e adeterminista, que reduz o discurso a uma mera ide-ologia ou a um conjunto de idias determinadaspelas prticas sociais (freqentemente econmicas),ou que so funcionais para sua representao. Nes-se sentido, o discurso geopoltico se fundamentariana relao dialtica entre as representaes do es-pao e as prticas espaciais, como afirmavaLefebvre (1974). As prticas espaciais se referem alugares especficos e a conjuntos espaciais inter-re-lacionados e organizados para a produo econ-mica e a reproduo social em uma dada formaosocial. As representaes do espao implicam sig-nos, cdigos e entendimentos que so necessri-os para fazer inteligveis as prticas espaciais.

    O conceito, tambm lefebvriano, de espaosde representao til para se entenderem as rela-es entre os discursos geopolticos e os processosde identificao social e, em particular, os elementosque favorecem sua hegemonia, bem como as resis-tncias que os minam, uma vez que tais espaos apre-sentam simbolismos complexos, unidos parte sub-terrnea da vida social, e inspiram mudanas narepresentao do espao, com o objetivo de transfor-mar as prticas espaciais. Uma representao do es-pao somente ser dominante, em longo prazo, seimbricada adequadamente com as prticas espaciaisdominantes, embora, em seu prprio desenvolvimen-

    to, sejam geradas as resistncias, os espaos de re-presentao, que podem transformar tais prticas.

    A noo de discurso de Michel Foucault,tal e como desenvolvida em dois de seus traba-lhos sobre a genealogia de discursos especficos,como so o clnico (1963) e o sexual (1976), tam-bm incluiria tanto a linguagem como suamaterialidade nas instituies e nas prticas soci-ais. O poder dos discursos, de fato, derivaria desua insti