A Anarquia nas Teorias das Relações Internacionais ... – ALUNO 38 354... · For this purpose –

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  • A Anarquia nas Teorias das Relaes Internacionais: Hegemonia de Paradigmas ou Necessidade Conceptual?

    Rui Fernando Pires Henrique Santos

    Outubro de 2017

    Dissertao de Mestrado em Cincia Poltica e Relaes InternacionaisEspecializao em Relaes Internacionais

  • i

    Dissertao apresentada para cumprimento dos requisitos necessrios obteno

    do grau de Mestre em Cincia Poltica e Relaes Internacionais rea de

    especializao em Relaes Internacionais, realizada sob a orientao cientfica da

    Professora Doutora Ana Santos Pinto.

  • ii

    Aos meus pais, Maria Jlia e Alberto Helder

  • iii

    AGRADECIMENTOS

    A realizao de uma longa caminhada, comea com o primeiro passo. A frase, talvez

    apcrifa e atribuda ao lendrio Lao Ts estatui de forma soberana o percurso

    acadmico ora findado.

    Esta tese constitui-se como o resultado das dvidas, questes e provocaes que o estudo

    das Relaes Internacionais me evoca.

    E isso, devo-o ao corpo docente da FCSH que julgo inigualvel na sua capacidade de

    ensino. A eles, enquanto comunidade acadmica heterodoxa, o meu primeiro

    agradecimento.

    Professora Ana Santos Pinto, minha orientadora (embora prefira o epteto de

    supervisora), o meu reconhecimento de verdadeiro exemplo de docncia. A reunio

    nica de um conjunto exemplar de qualidades conhecimento, frontalidade e uma

    dedicao ao ensino invulgar s suplantada pela sua capacidade e tolerncia em

    trabalhar com um impertinente realista empedernido.

    famlia presente e em memria. Aos amigos e amigas indispensveis e inestimveis, de

    ontem e de hoje, dos mais diversos percursos pessoais, profissionais e acadmicos. Ao

    Dr. Lus Prats, a quem estarei eternamente grato. Ao P. e P.

    A todos os livros que me faltam ler.

  • iv

    A ANARQUIA NAS TEORIAS DAS RELAES INTERNACIONAIS: HEGEMONIA DE PARADIGMAS OU NECESSIDADE CONCEPTUAL?

    Rui Fernando Pires Henrique Santos

    [RESUMO]

    PALAVRAS-CHAVE: Anarquia; Hegemonia; Paradigma; Teorias das Relaes Internacionais Esta tese visa interrogar o conceito-chave das Teorias sistmicas das Relaes Internacionais, a Anarquia. Numa disciplina cientfica recente e eivada de ontologias e epistemologias dspares, a mencionada conceptualizao anrquica tem-se sabido impor e resistir ao tempo e a vrias investidas tericas. Foi o Realismo Estrutural (ou neo-realismo) de Kenneth Waltz e o seu Theory of International Politics (1979) que permitiu trazer uma determinada configurao Anrquica para o mago das Relaes Internacionais. As sistematizaes tericas Realista, Liberal e Construtivista (nas suas mltiplas abordagens) partilham esta mesma assuno, baseada no pressuposto da inexistncia de uma autoridade superior ao Estado. A Anarquia assume-se como uma necessidade conceptual paradigmtica e naturalizada. Utilizando uma gama de ferramentas tericas crticas suportadas pela anlise da Hegemonia Gramsciana e neo-gramsciana bem como na ligao da trade conhecimento-poder-linguagem que existe em Foucault e na escola da Anlise Crtica de Discurso visamos argumentar que a Anarquia se estatuiu com formato de Hegemonia ideacional no edifcio disciplinar das Relaes Internacionais. Apresentamos para o efeito como complemento ao enquadramento terico uma pesquisa quantitativa que valida a proeminncia de autores e textos geograficamente ocidentais, epistemologicamente racionalistas, editados em lngua inglesa e posteriores marca do volume Waltziano (1979) que funciona como paradigma indispensvel. Esta tipologia de autores e textos, reflectindo ademais posicionamentos e influncias acadmicas e cientficas, potencia uma caracterizao hegemnica, apta a estabelecer, mesmo que de forma tcita e difusa, regras de acesso e regimes de verdade em torno do principio basilar desta disciplina, a Anarquia.

  • v

    THE ANARCHY IN THE THEORIES OF INTERNATIONAL RELATIONS: HEGEMONY OF

    PARADIGMS OR CONCEPTUAL NEED?

    Rui Fernando Pires Henrique Santos

    [ABSTRACT]

    KEYWORDS: Anarchy; Hegemony; Paradigm; Theories of International Relations This dissertation aims to interrogate the key concept of the systemic Theories of International Relations, Anarchy. In a recent scientific discipline based on disparate ontologies and epistemologies, the aforementioned anarchic conceptualization has been able to impose and resist time and several theoretical assumptions. It was Kenneth Waltz's Structural Realism (or neo-realism) and his "Theory of International Politics" (1979), which allowed for a "determined" Anarchic configuration of international relations. The theoretical, Realistic, Liberal and Constructivist systematizations (in their multiple approaches) share this same assumption, based on the presupposition that there is no authority superior to the State. Anarchy is assumed to be a paradigmatic and "naturalized" conceptual need. Using a range of critical theoretical tools - supported by the analysis of the Gramscian Hegemony and the linkage of the knowledge-power-language triad that exists in Foucault and the "school" of Critical Discourse Analysis - we aim to argue that Anarchy was modeled as Hegemony in the disciplinary building of International Relations. For this purpose and as a complement to our theoretical framework - we present a quantitative research that validates the prominence of writers and works geographically "western", epistemologically rationalist, published in English and subsequent to Waltzian volume (1979), which functions as an indispensable paradigm. This "typology" of authors and texts, reflecting in addition academic and scientific positions and influences, fosters a hegemonic characterization, capable of establishing, even tacitly and diffusely, "rules of access" and "regimes of truth" around the principle of this discipline, Anarchy.

  • vi

  • vii

    NDICE

    INTRODUO... 1

    I CAPTULO A ANARQUIA. 7

    1. A ANARQUIA NA DISCIPLINA DAS RELAES INTERNACIONAIS..... 7

    1.1 Historiografia das Relaes Internacionais.. 8

    1.2 Teorias sistmicas.. 13

    1.3 Realismo.... 13

    1.4 Liberalismo 17

    1.5 Construtivismo.. 20

    2. A(S) ANARQUIA (S)... 26

    2.1 A Anarquia Neo-realista 27

    2.2 A Anarquia Neo-liberal. 30

    2.3 A Anarquia Construtivista..33

    3. CONTESTAES TERICAS AO PARADIGMA ANRQUICO... 37

    3.1 Teoria Crtica. 38

    3.2 Ps-Modernismo44

    3.3 Ps-Colonialismo...49

    3.4 Alternativas em Geografias variveis?...........................................................52

    II CAPTULO OS PARADIGMAS CIENTFICOS... 56

    4. Kuhn, Popper e Lakatos e as Relaes Internacionais... 56

    III CAPTULO A HEGEMONIA.... 69

    5. A Hegemonia Gramsciana. 69

    5.1 A Hegemonia Neo-Gramsciana. 76

    5.2 O Poder no Conhecimento e na Linguagem.. 81

    5.2.1 Foucault. 81

    5.2.2 Anlise Crtica de Discurso... 85

    5.2.3 A Hegemonia da Lngua Inglesa... 92

  • viii

    IV CAPTULO O CONTRIBUTO EMPRICO E A PESQUISA

    QUANTITATIVA. 94

    6.1 Metodologia.. 94

    6.2 O Software Publish or Perish...... 95

    6.3 Consideraes tcnicas. 96

    6.4 Consideraes ticas. 97

    6.5 Parametrizao e Resultados da pesquisa.. 99

    6.6 Pesquisas adicionais.....104

    CONCLUSO..113

    FONTES E BIBLIOGRAFIA.....119

    ANEXOS...135

    A Como replicar pesquisa no software Publish or Perish. 135

    B Quadro dos resultados obtidos ....140

  • 1

    Gentlemen, you can't fight in here! This is the War Room!

    Presidente dos EUA Merkin Muffley (Peter Sellers) in Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb

    Realizado por Stanley Kubrick (1964)

    INTRODUO

    A Anarquia uma das mais vagas e ambguas palavras da linguagem (Lewis,

    1832 apud Milner, 1991: 67).

    No campo cientfico das Relaes Internacionais este o conceito que funda e

    influencia os trs paradigmas principais de teorizao: Realismo, Liberalismo e

    Construtivismo.

    Embora com diferentes significados, nexos de causalidade, comportamentos e

    consequncias, a Anarquia constitui-se na razo de ser da Guerra e da Paz no Sistema

    Internacional.

    Etimologicamente, a palavra Anarquia deriva de uma dupla raz do grego antigo:

    archon, que significa governante, e o prefixo an que indica sem, sendo assim

    definida como viver ou estar sem governo1.

    Tal conceptualizao pode ser j encontrada longe do seu nascimento vocabular

    em vrios autores modernos que referem uma edificao anrquica domstica onde a

    mesma no pressupe ausncia de ordenao tout court, antes lei e liberdade sem poder

    (Kant et al. (1996) [1798]: 248), que discorre sobre as formas de governo e que

    encontraremos a posteriori nas tipologias de anarquias Wendtianas) ou a tentativa

    da sociedade procurar voluntariamente a ordem sem soberano (Proudhon et al. (1994)

    [1840]: 209).

    1 No Novo Diccionrio da Lngua Portuguesa (1913) de Cndido Figueiredo, fillogo e escritor

    portugus: (Gr. anarkhia) Falta de govrno, de chefe. Negao do princpio de autoridade. Desordem;

    Confuso. Em: anarquia, in Figueiredo, C. (1913) Novo Diccionrio da Lngua Portuguesa. Dicionrio

    Aberto. Disponvel em: http://www.dicionario-aberto.net/dict.pdf [Consultado a 1 Nov. 2016]. Segundo o dicionrio online Priberam: (grego anarkha, -as, falta de chefe) Sistema baseado na negao

    de autoridade; Desordem ou confuso, motivada por falta de direco; Sociedade constituda sem governo.

    Em: "anarquia", in Dicionrio Priberam da Lngua Portuguesa, 200