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A Balada Do Cárcere de Reading - 2 Traduções

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Poema de Oscar Wilde

Text of A Balada Do Cárcere de Reading - 2 Traduções

A Balada do Crcere de Reading

A Balada do Crcere de Reading Traduo de Paulo Vizioli

I

O casaco escarlate no usou, pois tinhaDe sangue e vinho o jeito;E sangue e vinho em suas mos havia quandoPrisioneiro foi feito,Deitado junto mulher morta que ele amavaE matara em seu leito.

Ao caminhar em meio aos Julgadores, roupaCinza e gasta vestia;Tinha um bon de crquete, e seu passo lpidoE alegre parecia;Mas nunca em minha vida vi algum olharTo angustiado o dia.

Eu nunca vi algum na vida que tivesseTanta Angstia no olhar,Ao contemplar a tenda azul que os prisioneirosDe cu usam chamar,E as nuvens deriva, que iam com as velasCor de prata pelo ar.

Num pavilho ao lado, andei com outras almasTambm a padecer,Imaginando se seu erro fora graveOu um erro qualquer,Quando algum sussurrou baixinho atrs de mim:- O homem tem que pender.?

Cristo! As prprias paredes da priso eu viGirando a meu redorE o cu sobre a cabea transformou-se em elmoDe um ao abrasador;E, embora eu fosse alma a sofrer, j nem sequerSentia a minha dor.

Sabia qual o pensamento perseguidoQue lhe estugava o andar,E por que demonstrava, ao ver radiante o dia,Tanta angstia no olhar;O homem matara a coisa amada, e ora deviaCom a morte pagar.

Apesar disso - escutem bem - todos os homensMatam a coisa amada;Com galanteio alguns o fazem, enquanto outrosCom face amargurada;Os covardes o fazem com um beijo,Os bravos, com a espada!

Um assassina o seu amor na juventude,Outro, quando ancio;Com as mos da Luxria este estrangula, aqueleEmpresta do Ouro a mo;Os mais gentis usam a faca, porque friosOs mortos logo esto.

Este ama pouco tempo, aquele ama demais;H comprar, e h vender;Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiroOutros no do sequer.Todo homem mata a coisa amada! - Nem por issoTodo homem vai morrer.

No vai morrer um dia a morte de vergonhaNum escuro traspasso;Nem h de Ter um pano a lhe cobrir o rosto,E no pescoo um lao;Nem atravs do cho vai atirar os psPara o vazio do espao.

No vai sentar-se, noite e dia no silncio,Com uma guarda tesaQue h de vigi-lo quando tenta o prantoE quando tenta a reza;Sempre a vigi-lo, para que no roubeDa priso sua presa.

No vai na aurora despertar com vultos hrridosCruzando o seu umbral:O tiritante Capelo todo de branco,O Xerife espectral,E o Diretor, de negro luzidio, e a caraDo Juzo Final.

Nem vai vestir, com pressa comovente, as roupasDe almas condenadas,Enquanto um mdico boal exulta, e anotaSuas tores crispadas,Manuseando o relgio com um tique-taqueDe horrveis marteladas.

Nem, a arear-lhe a garganta, vai sentir aflitoA sede que antecedeO carrasco, enluvado como um jardineiro,Que vem junto paredeE ata-o com trs correias, para que a gargantaNo sinta mais a sede.

Nem curvar a cabea para ouvir o OfcioFnebre ser lido;Nem, enquanto o terror lhe diz dentro do peitoNo ter ele morrido,Com seu caixo h de cruzar, ao se moverPara o estrado temido.

Nem atravs de um teto vtreo vai fitarO espao azul... l atrs;Nem com lbios de argila um dia vai rezarPara implorar a paz;Nem, por fim, vai sentir em sua face trmulaO beijo de Caifs.

II

Nosso guardio passeou no ptio seis semanasO cinza ainda vestia.Com seu bon de crquete e seu passo lpidoQue alegre parecia;Mas nunca em minha vida vi algum olharTo angustiado o dia.

Eu nunca vi algum na vida que tivesseTanta angstia no olhar,Ao contemplar a tenda azul que os prisioneirosDe cu usam chamar,E as nuvens divagantes arrastando velosEnredados pelo ar.

No contorcia as mos, como o imbecil que tentaNutrir, com cego af,No antro do negro Desespero, essa enjeitadaQue a Esperana v;Ele apenas se punha a contemplar o sol,Sorvendo o ar da manh.

No contorcia as mos, e nunca, fraco ou frouxo,Chorava em seu alinho,Mas o ar, como se fosse andino saudvel,Sorvia ali, sozinho;E, com a boca aberta, ele sorvia o solComo se fosse vinho!

E, no outro pavilho, eu e as demais almasTambm a padecer,Tendo esquecido se nosso erro fora graveOu um erro qualquer,Olhvamos entanto, com obtuso espanto,Aquele que ia pender.

E estranho era notar, passando, como lpidoE alegre parecia;E estranho era observar o modo como olhavaTo angustiado o dia;E estranho era pensar como era grande a dvidaQue ele pagar devia.

O olmo e o carvalho tm folhagens agradveis,Primaveril tributo;J a forca, onde a serpente finca embaixo o dente, uma rvore de luto,E, verde ou ressequida, l se perde a vidaBem antes que d fruto.

O mundano procura algum lugar na alturaComo o maior trofu;Mas quem vai ao encalo do alto cadafalsoE da corda do ru,Para enxergar por uma gola de assassinoA ltima vez o cu?

Se brilham vida e amor ao som de violinos doce e bom danar;Danar seguindo a pauta do alade ou flauta ameno e singular;No doce, ao revs, quando com geis psSe dana encima do ar!

Com mrbida suspeita, em curiosa espreita,O olhamos dia a dia,Cada um tambm assim a imaginar seu fim,Por que ningum sabiaQual rubro inferno horrvel sua no visvelAlma atormentaria.

No mais, por fim, o morto caminhava em meioAos Julgadores seus,E eu sabia que estava na terrvel jaulaCom o banco dos rus,E que seu rosto eu nunca mais veria nesteDoce mundo de Deus.

Fomos dois barcos condenados na tormenta,Cruzando um do outro a via;No fizemos sinal e no dissemos nada...Nada a dizer havia,Pois nosso encontro no se deu na noite santa,Mas no infamante dia.

Sendo dois rprobos, por muros de prisoVimo-nos, pois, rodeados;Este mundo expulsara a ns de seu regao,E Deus, de seus cuidados;Na armadilha de ferro sempre espera do ErroNs fomos apanhados.

III

No ptio o cho duro, alto o infiltrado muroAos que devem pagar;E era ali nesse limbo, sob um cu de chumbo,Que ele vinha por ar,A cada lado um Carcereiro, por temorDe que fosse expirar.

Ou noite e dia se sentava em sua angstia,Com uma guarda tesaSempre a vigi-lo - vendo-o erguer-se para o pranto,Curvar-se para a reza;Sempre ali a vigi-lo, para que o patbuloNo roubasse da presa.

Era o Regulamento, para o Diretor,Sabidamente o forte;Proclamava o Doutor que um fato cientfico,E nada mais, a morte;Dois folhetos por dia o Capelo deixava,Um piedoso suporte.

E cachimbo e cerveja, ao dia duas vezes,Tinha ele em tempo certo;Jamais oferecia esconderijo ao medoSeu esprito aberto;E muita vez dizia da sua alegriaPor ter o algoz to perto.

E carcereiro nenhum indagava porqueTinha esse estranho gosto:O homem, a quem a sina sem merc destinaNo crcere tal posto,Precisa colocar nos lbios um cadeadoE mascarar o rosto.

Seno vai comover-se, e tentar ajudarquele que o consterna;E o que pode a Piedade em Antro de Assassinos,Presa mesma caverna?Que palavra encontrar que possa confortarA pobre alma fraterna?

Cabisbaixos gingamos em torno ao pavilho,Os Bufes em parada!Pouco importava a ns, pois ramos a atroz,Satnica Brigada:E a cabea raspada e ps de chumbo fazemAlegre mascarada.

E a Brigada rasgava a corda de alcatroCom as unhas sangrantes;Ela escovava o cho, esfregava o porto,E as grandes cintilantes;E lavava o assoalho, em alas no trabalho,Com baldes reboantes.

E inda as pedras quebrava, os sacos remendava,Coa broca erguia o p;As latas estrugia, os cnticos gania,Suava junto m;Porm, no peito de cada homem se escondia,Mudo, um Terror sem d.

E mudo, todo dia, em onda ele surgia -Onda de ervas coberta;Ningum lembrava a dura sorte que amarguraA gente tola e a esperta,At passarmos ns, voltando do trabalho,Por uma cova aberta.

Era amarelo esgar a boca a bocejarE algo vivo a querer;Para o sedento asfalto a lama suplicavaO sangue, seu prazer;E soubemos nessa hora que antes de outra auroraAlgum ia pender.

Reentramos com calma, remoendo n'almaA Morte, o Medo e o Nada;Co' uma sacola o algoz foi-se a arrastar os psNa sombria morada;E cada homem tremia ao rastejar de volta tumba numerada.

Invadiam noite o corredor vazioContornos de Temor,Que erravam no desterro dessa rua de ferroCom passos sem rumor,E vinham, entre as barras que s estrelas velam,Brancas faces compor.

Ele jazia como algum que jaz e sonhaEm doce campo aberto;Os carcereiros observavam-no a dormir,Sem compreender, por certo,Como podia dormir tal sono de abandonoEstando o algoz to perto.

Os sonhos, porm, somem quando chora um homemQue nunca chorou antes:E assim, sem fim vigiamos ns - ns, os velhacos,Os tolos, os meliantes;E a nossas mentes veio, a rastejar, alheioTerror com mos crispantes.

Ai! Que tremenda coisa a remoer a culpaQue dos outros por direito!T o cabo envenenado a espada do PecadoCravou-se em nosso peito,E foi chumbo fundido o pranto ali vertidoPelo que fora feito.

Com sapatos de feltro os guardas se esgueiravamNas portas com cadeado;O seu olhar de espanto via em cada cantoUm vulto recurvado;E no sabiam por que se ajoelhava a orarQuem nunca havia orado.

A noite toda oramos, loucos pranteadoresDo morto a nosso encargo!As plumas no caixo eram as que agitavaA meia-noite ao largo;E ao sabor do Remorso era o sabor da esponjaCom o seu vinho amargo.

Cantou o galo cinza, e ento o galo rubro,Mas nunca vinha o dia:Com formas tortas, de tocaia em nossos cantos,O Terror prosseguia;Turbavam nossa paz todas as almas msQue erram na hora tardia.

Em vo veloz, iam por ns tal como um bandoQue em meio neve passa;Com torneio e toro, seu fino rigodoDa lua faz chalaa,Nesse encontro espectral de andamento formalE repulsiva graa.

Com trejeitos se vo as sombras, mo com mo,Formando uma cadeia;Sua lenta ciranda era uma sarabandaEm fantasmal colmeia,Desenhando - os grotescos - doidos arabescos,Como o vento na areia!

Fazendo piruetas como marionetes,Saltitavam absortos;Mas com flautas de Horror erguiam seus clamorHediondos e retortos...Seu canto era alongado, seu canto era gritado,C