A calagem em pastagens cultivadas na Amazônia

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CAPTULO

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CAPTULO 10Carlos Mauricio Soares de Andrade

CALAGEM EM PASTAGENS CULTIVADAS NA AMAZNIAANDRADE, C. M. S. . A calagem em pastagens cultivadas na Amaznia. In: Arajo, E.A.; Lani, J.L.. (Org.). Uso Sustentvel de Ecossistemas de Pastagens Cultivadas na Amaznia Ocidental. Uso Sustentvel de Ecossistemas de Pastagens Cultivadas na Amaznia Ocidental. Rio Branco: SEMA, 2012, v. , p. 119-125.

1. INTRODUOA manuteno da capacidade produtiva de pastagens cultivadas na regio Amaznica tem sido um dos principais desafios das instituies de pesquisa que atuam na regio, face ao elevado grau de degradao apresentado por estas pastagens (DIAS-FILHO, 2007). Entretanto, apesar do papel relevante da fertilidade do solo para manuteno e recuperao destas pastagens, o uso de corretivos e fertilizantes ainda muito baixo na regio. O fator econmico um dos principais responsveis por isso, visto que o preo destes insumos na regio mais alto do que no Centro-Sul do Brasil, ao passo que os preos dos produtos da pecuria (carne e leite), so mais baixos. Outro fator que tem desestimulado pecuaristas a utilizarem estes insumos em pastagens na regio, so as recomendaes de doses elevadas que, em alguns casos, tm produzido resultados insatisfatrios em termos de aumento da produo das pastagens. A calagem uma prtica agronmica muito utilizada na agricultura brasileira, devido elevada acidez da maioria dos solos tropicais. Entretanto, o seu uso em pastagens tropicais ainda causa muita controvrsia (CANTARUTTI et al., 2004; MACEDO, 2004). Aps revisarem a literatura sobre a prtica da calagem em pastagens cultivadas na Amaznia, Veiga & Falesi (1986) concluram que a aplicao de calcrio como corretivo do solo em pastagens era prtica desnecessria, e que as

respostas observadas, em alguns casos, a nveis baixos de calcrio dolomtico, poderiam ser explicadas pelo atendimento das exigncias das plantas em clcio e magnsio. Embora esta reviso tenha sido feita h mais de 20 anos, as concluses dos autores parecem estar em perfeita consonncia com os resultados de pesquisas mais recentes realizadas tanto na Amaznia quanto em outras localidades do Brasil. O presente captulo tem como objetivo discutir as recomendaes de calagem para pastagens cultivadas, com nfase nas condies da regio Amaznica. Para isso, ser inicialmente analisado o processo tradicional de formao de pastagens na Amaznia e suas conseqncias para a fertilidade do solo. Em seguida, ser revisada a literatura sobre a resposta de plantas forrageiras calagem na Amaznia e em outras regies do Brasil, e por fim, ser feita uma comparao das principais recomendaes de calagem para pastagens existentes no Brasil e sua aplicao prtica no Estado do Acre.

2. O PROCESSO DE FORMAO DE PASTAGENS NA AMAZNIAA converso de florestas primrias em pastagens cultivadas na Amaznia ainda realizada com uso do processo tradicional, que envolve a broca (corte da114

vegetao fina) e derrubada das rvores de grande porte com uso de motosserra, seguido da secagem e queima da biomassa vegetal visando limpeza da rea para o plantio, podendo ou no haver retirada seletiva das rvores de valor comercial. O semeio das forrageiras geralmente ocorre um ms aps a queima da biomassa, sendo realizado manualmente ou com uso de avio agrcola. Na agricultura familiar, predomina o sistema em que a floresta convertida inicialmente em roados e, aps um ou mais anos de cultivo, procede-se formao da pastagem com semeio manual das forrageiras aps a colheita da lavoura. Snchez & Salinas (1981) e Serro (1986) analisaram diversos estudos realizados no Trpico mido da Amrica Latina, comparando o processo tradicional com processos mecanizados de preparo de rea, envolvendo o uso de tratores de esteira de grande potncia. Os autores concluram que o processo tradicional melhor do que os processos mecanizados para o futuro uso da rea para fins agropecurios. Embora ambos proporcionem perdas de nutrientes e outras alteraes ambientais, o processo tradicional superior devido importncia da incorporao das cinzas ao solo e, principalmente, aos problemas de compactao e da remoo da camada superficial do solo, comuns nos processos mecanizados. Os ecossistemas naturais de florestas nos trpicos midos so caracterizados por apresentarem grandes quantidades de carbono e nutrientes armazenados na vegetao, geralmente representando uma significativa proporo do estoque de nutrientes do ecossistema, principalmente em solos de menor fertilidade (JUO & MANU, 1996; KAUFFMAN et al., 1995). O destino dos nutrientes contidos na biomassa florestal aps o processo de derrubada e queima da vegetao j est relativamente bem caracterizado. Os estudos mostram que, inicialmente, parte dos nutrientes permanece armazenada na biomassa area no consumida pelo fogo (principalmente troncos e galhos grossos), que normalmente representa de 42% a 65% da biomassa area total da floresta primria. Estes nutrientes so posteriormente liberados lentamente, a partir da decomposio natural da biomassa, ou rapidamente, no caso da rea ser submetida a novas queimadas (KAUFFMAN et al., 1995; GRAA et al., 1999; FEARNSIDE et al., 1999; SAMPAIO et al., 2003). Com relao aos nutrientes contidos na biomassa area efetivamente consumida pela queima da vegetao original, os estudos mostram que parte destes, transferida para a atmosfera na forma gasosa

(volatilizao) ou de partculas, e a outra parte depositada sobre o solo na forma de cinzas e carvo. J o estoque de nutrientes contido na biomassa de razes da vegetao florestal, que geralmente representa um quarto da biomassa total, liberado ao solo a partir da decomposio dessa biomassa (JUO & MANU, 1996; KAUFFMAN et al., 1995; 1998; FEARNSIDE et al., 1999). As perdas resultantes das transformaes dos nutrientes contidos na biomassa area efetivamente queimada so significativas, principalmente para os nutrientes com menor temperatura de volatilizao, como nitrognio e enxofre. Em estudo realizado em florestas primrias do Par e de Rondnia, as perdas de nutrientes para a atmosfera, resultantes da queima, representaram, em mdia, 50% do C, 60% do N, 43% do S, 17% do P e 7% do Ca e do K contidos na biomassa area (KAUFFMAN et al., 1995). Perdas ainda maiores foram registradas por Sampaio et al. (2003), em uma floresta aberta em Rondnia (Tabela 1). As perdas de P, K, Ca e Mg esto associadas, principalmente, ao movimento de partculas durante a queimada e a lixiviao e escoamento superficial aps as primeiras chuvas, com o solo desprotegido. Depois da queimada, uma pequena parte dos nutrientes lanados atmosfera acaba retornando ao solo pela ao da gravidade ou das chuvas. No estudo de Sampaio et al. (2003), as primeiras dez chuvas devolveram ao sistema quase 6% do Ca, 8% do Mg e 11% do K transferidos com o fogo para a atmosfera. Apesar das perdas significativas de nutrientes durante a converso de florestas primrias em pastagens, grande quantidade de nutrientes (principalmente ctions) permanece na rea e incorporada ao solo, geralmente produzindo grandes alteraes nas suas propriedades qumicas. Um dos estudos pioneiros demonstrando as transformaes qumicas que ocorrem no solo aps a converso de florestas primrias em pastagens na regio amaznica foi realizado por Falesi (1976). Nesse estudo (Tabela 2) e em diversos outros realizados posteriormente (e.g. MORAES et al., 1996; MCGRATH et al., 2001; FERNANDES et al., 2002; MLLER et al., 2004), ficou demonstrado que a incorporao dos nutrientes contidos nas cinzas resultantes da queima da biomassa florestal proporciona aumento considervel do pH, das bases trocveis (Ca2+, Mg2+ e K+) e dos teores de P disponvel (fsforo inorgnico facilmente extravel) no solo. Alm disso, o alumnio trocvel do solo praticamente neutralizado, a saturao por alumnio fortemente reduzida e a saturao por bases bastante elevada. A reduo da acidez do solo decorre da115

liberao de nutrientes minerais na forma de xidos e carbonatos, os quais possuem reao alcalina (VIRO, 1974, citado por MLLER et al., 2004). O aumento dos teores de P disponvel no solo imediatamente aps a converso de florestas em pastagens tambm tem sido atribudo ao efeito indireto do aumento do pH do solo, que estimularia a mineralizao (mediada por microrganismos) de fontes orgnicas de P e diminuiria a capacidade de adsoro de P do solo via reduo da solubilidade de Al3+ e Fe3+ (SANCHEZ, 1976). Como resultado desta melhoria das propriedades qumicas do solo, h um favorecimento do crescimento das gramneas semeadas durante a formao das pastagens na regio (Figura 1), sendo esta a razo pela qual a calagem nesta etapa torna-se dispensvel (VEIGA & FALESI, 1986).

embora tenha ocorrido elevao do pH e dos teores de Ca2+ e Mg2+ e reduo do teor de Al3+ do solo com a calagem. Na regio dos Cerrados, Sanzonowicz et al. (1987) realizaram estudo com durao de 10 anos para avaliar o efeito residual da calagem em uma pastagem de B. decumbens estabelecida em Latossolo VermelhoEscuro, distrfico, de textura argilosa, com saturao de alumnio inicial igual a 70%. A aplicao de calcrio (0, 3 e 4,5 t ha-1) no teve efeito significativo sobre a produo de matria seca da gramnea, tanto no primeiro corte, realizado trs meses aps a formao da pastagem, quanto nos demais anos agrcolas em que a pastagem foi avaliada. A exceo foi o terceiro ano agrcola, quando os autores verificaram deficincia de magnsio nas parcelas que no receberam calcrio na o c a s i o d o estabelecimento. A aplicao de 50 kg ha-1 de Mg (MgSO4) em todas as parcelas fez com que no mais se observasse resposta positiva ao calcrio. Em Itabela, sul da Bahia, Cantarutti (1990) avaliou o efeito de cinco doses de calcrio (0 a 3.500 kg ha-1) para o estabelecimento de Brachiaria decumbens e Pueraria phaseoloides em um Ultisol1 arenoso, de baixa fertilidade (Ca2+ 0,9 cmolc/dm3; Mg2+ 0,3 cmolc/dm3; saturao por bases, 14,6%; e por alumnio, 23,1%). No houve resposta de nenhuma das forrageiras s doses de calcrio ut