of 12/12
1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X A CATEGORIA DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS INDÍGENAS: GÊNERO EM AÇÃO? Maria Christina Barra 1 Resumo: A proposta deste trabalho é pensar a trajetória de construção da categoria das parteiras tradicionais indígenas a partir das transformações decorrentes das ações das políticas públicas de saúde. Mais especificamente, o presente trabalho busca abordar os deslocamentos possíveis no modo de viver das populações indígenas ao enquadrar as diversas ações sobre corpo e as diferentes formas de transformação corpora l na categoria do “conhecimento tradicional indígena”. As relações de gênero perpassam esta trajetória desde a fluidez de um modo de viver às formas de produção deste conhecimento. O conhecimento tradicional é das parteiras que nem sempre são mulheres, mas é também do rezador e do pajé que são em sua maioria homens, mas são também mulheres. Abarca as ações de plantas, animais e diversos seres que habitam os diferentes mundos indígenas, além de uma série de condutas e práticas que tomam a forma de texto escrito e de desenhos no registro do saber das parteiras tradicionais indígenas. São elas, nem sempre mulheres, mas agrupadas como tal, as fazedoras e produtoras de um conhecimento cabível aos olhos das políticas públicas de saúde. Fica a questão de como se dá então, a transformação de um saber sensível construído nas ações cotidianas de diferentes agentes sociais e reinventado a partir de diferentes modos de criatividade, na homogeneização não só do conhecimento tradicional, mas também de uma categoria de gênero em ação. Palavras-chave: parteira tradicional indígena, conhecimento tradicional, relações de gênero. Muitos dos relatos das mulheres indígenas que se dizem parteiras referem-se ao cuidado das mulheres mais velhas que acompanham as mais jovens no momento do parto. Contam que aprenderam com as mães, tias ou avós, as mulheres mais velhas da comunidade e os primeiros partos que acompanharam foram de suas filhas, noras, sobrinhas e netas. “Fiquei curiando. Minha mãe me chamou quando uma mulher ganhou nenê”, ou “o primeiro parto que fiz foi aos 20 anos. Foi da minha sobrinha. Aprendi acompanhando minha mãe e minha tia”. São essas mesmas mulheres que apresentam reflexões sobre a categoria da parteira tradicional indígena: “eu tenho dúvida deste negócio de parteira, como eu disse, eu tinha uma colega, a gente mesmo é que fazia os partos”, ao mesmo tempo em que falam com muita clareza das transformações que vem com as ações de saúde: “Não existia o sofrimento, aquela dificuldade. O homem mesmo ajudava. Então não acontecia nada. O parto era tudo normal. Então as enfermeiras passavam a ensinar que tem perigo, que ninguém sabe o que vai acontecer”. Assim, o que me pergunto e me proponho a conhecer um pouco mais é o que é esse negócio de parteira”. Como se dá este saber sobre o próprio corpo que se mostra na forma do ato de partejar por vezes oculto numa cadência cotidiana de um modo de viver e por vezes destacado como “conhecimento tradicional indígena”, um saber legítimo pertencente a um grupo de mulheres 1 Doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

A CATEGORIA DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS INDÍGENAS: … · 1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017,

  • View
    213

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of A CATEGORIA DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS INDÍGENAS: … · 1 Seminário Internacional Fazendo...

  • 1

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    A CATEGORIA DAS PARTEIRAS TRADICIONAIS INDGENAS:

    GNERO EM AO?

    Maria Christina Barra 1

    Resumo: A proposta deste trabalho pensar a trajetria de construo da categoria das parteiras tradicionais indgenas a

    partir das transformaes decorrentes das aes das polticas pblicas de sade. Mais especificamente, o presente

    trabalho busca abordar os deslocamentos possveis no modo de viver das populaes indgenas ao enquadrar as diversas

    aes sobre corpo e as diferentes formas de transformao corporal na categoria do conhecimento tradicional

    indgena. As relaes de gnero perpassam esta trajetria desde a fluidez de um modo de viver s formas de produo

    deste conhecimento. O conhecimento tradicional das parteiras que nem sempre so mulheres, mas tambm do

    rezador e do paj que so em sua maioria homens, mas so tambm mulheres. Abarca as aes de plantas, animais e

    diversos seres que habitam os diferentes mundos indgenas, alm de uma srie de condutas e prticas que tomam a

    forma de texto escrito e de desenhos no registro do saber das parteiras tradicionais indgenas. So elas, nem sempre

    mulheres, mas agrupadas como tal, as fazedoras e produtoras de um conhecimento cabvel aos olhos das polticas

    pblicas de sade. Fica a questo de como se d ento, a transformao de um saber sensvel construdo nas aes

    cotidianas de diferentes agentes sociais e reinventado a partir de diferentes modos de criatividade, na homogeneizao

    no s do conhecimento tradicional, mas tambm de uma categoria de gnero em ao.

    Palavras-chave: parteira tradicional indgena, conhecimento tradicional, relaes de gnero.

    Muitos dos relatos das mulheres indgenas que se dizem parteiras referem-se ao cuidado das

    mulheres mais velhas que acompanham as mais jovens no momento do parto. Contam que

    aprenderam com as mes, tias ou avs, as mulheres mais velhas da comunidade e os primeiros

    partos que acompanharam foram de suas filhas, noras, sobrinhas e netas. Fiquei curiando. Minha

    me me chamou quando uma mulher ganhou nen, ou o primeiro parto que fiz foi aos 20 anos.

    Foi da minha sobrinha. Aprendi acompanhando minha me e minha tia. So essas mesmas

    mulheres que apresentam reflexes sobre a categoria da parteira tradicional indgena: eu tenho

    dvida deste negcio de parteira, como eu disse, eu tinha uma colega, a gente mesmo que fazia os

    partos, ao mesmo tempo em que falam com muita clareza das transformaes que vem com as

    aes de sade:

    No existia o sofrimento, aquela dificuldade. O homem mesmo ajudava. Ento no

    acontecia nada. O parto era tudo normal. Ento as enfermeiras passavam a ensinar que tem

    perigo, que ningum sabe o que vai acontecer.

    Assim, o que me pergunto e me proponho a conhecer um pouco mais o que esse

    negcio de parteira. Como se d este saber sobre o prprio corpo que se mostra na forma do ato de

    partejar por vezes oculto numa cadncia cotidiana de um modo de viver e por vezes destacado como

    conhecimento tradicional indgena, um saber legtimo pertencente a um grupo de mulheres

    1 Doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

  • 2

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    especfico, as parteiras? As parteiras nem sempre so mulheres, so tambm homens, os pais,

    os avs, os maridos. O que ento, o conhecimento tradicional das parteiras indgenas que nem

    sempre so mulheres, e que tambm o conhecimento do rezador e do paj? Sozinha mesma, eu j

    fiz uns 10 partos. O pai da criana ajuda. Quando a passagem da criana t ruim, o paj ou rezador

    reza e quando a passagem abre, a criana nasce. Como se d ento a transformao desse saber

    sensvel construdo nas aes de diferentes agentes sociais em conhecimento tradicional

    indgena?

    No h dvida que esse negcio de parteira tradicional indgena um movimento

    necessrio frente s aes de sade. So elas, nem sempre mulheres, mas agrupadas como tal, as

    fazedoras e produtoras de um conhecimento cabvel aos olhos das polticas pblicas de sade na

    ateno ao parto e nascimento. As parteiras parecem ser ento, a possibilidade poltica do

    conhecimento tradicional indgena, das prticas prprias de cuidado e de um modo especfico de

    viver. Em outras palavras, passam a ser uma agncia poltica de suas culturas 2 como possvel

    perceber na fala de uma delas:

    Querendo que os no-ndios reconheam que ns temos uma raiz, um saber, um

    conhecimento. Tem muita remoo das mulheres indgenas e quando chega uma indgena

    no hospital, os profissionais logo perguntam: ser que no tem parteira? Ou vocs no

    tem mais cultura 3?

    Assim, para os olhos da sade, quando esto l na terra indgena, a cultura no importa,

    melhor remover. Mas quando esto na cidade, cad sua cultura, era melhor ter ficado por l. A

    proposta deste trabalho ver ento, quais so as aes e os caminhos percorridos pelas populaes

    indgenas para terem cultura aos olhos das aes de sade. Mais especificamente, ver como os

    indgenas, sejam eles homens ou mulheres, se afetam nestes caminhos a partir de esquemas

    interiorizados que organizam a percepo e a ao das pessoas (Cunha, 2009, p.313). Da cultura

    cultura. A categoria da parteira tradicional indgena parece ser ento, uma forma de ter cultura

    aos olhos das aes de sade. Assim, proponho pensar esse negcio de parteira como um

    2 Refiro-me distino do uso da palavra cultura sem aspas e com aspas proposto por Manuela Carneiro da Cunha (2009) a partir de uma categoria analtica da antropologia e seu aspecto fluido e dinmico que passou a ser usada pelos

    outros de forma objetificada ou essencializada (SOUZA, 2010, p.97). 3 As falas apresentadas at ento so falas das mulheres parteiras no curso de capacitao de parteiras em Boa Vista, pelo Projeto Parteiras Tradicionais nos SUS: Aes para promoo e o fortalecimento da articulao entre o trabalho

    das parteiras tradicionais e a ateno ao parto e nascimento domiciliar em Roraima. Este curso intitulado Encontro de

    Parteiras Tradicionais Indgenas foi realizado pelo Grupo Curumim em parceria com a Secretaria Estadual de Sade do

    estado de Roraima, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Distrito Sanitrio Especial Indgena (DSEI) Leste de

    Roraima com o apoio da Organizao Pan-Americana de Sade (OPAN), Organizao Mundial de Sade (OMS) e a

    Rede Cegonha do Ministrio da Sade. O DSEI Leste de Roraima responsvel pela ateno sade dos povos

    indgenas Wapixana, Ingarik, Wai-wai, Macuxi, Patamona, Sapar e Taurepang.

    (http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/secretaria-sesai/mais-sobre-sesai/9540-

    destaques, Acesso em 25/09/2014).

    http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/secretaria-sesai/mais-sobre-sesai/9540-destaqueshttp://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/secretarias/secretaria-sesai/mais-sobre-sesai/9540-destaques
  • 3

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    movimento mais do que necessrio na luta das mulheres indgenas4. Mas pensar tambm, como

    esse negcio de parteira, ao enquadrar diversas aes de diferentes agentes sociais e vrias formas

    de transformao corporal na categoria do conhecimento tradicional indgena, vai moldando, ao

    longo do tempo, novas formas de percepo e de ao.

    Para tal apresentarei experincias que falam na forma da escrita e da imagem sobre o

    conhecimento tradicional indgena voltado para as questes da sade. So relatos indgenas

    retirados de referncias bibliogrficas, filmes e outras fontes afins temtica apresentada at ento.

    Assim como no negcio das parteiras, no h dvida do quo necessrio esse movimento de

    produo escrita e de registro de imagens do que se diz hoje conhecimento tradicional indgena.

    So vrias as vozes indgenas que tm tomado a forma da pele de imagem 5 do conhecimento

    tradicional indgena. Para muitos, essas peles de imagem ou peles de papel (Kopenawa,

    Albert, 2010, p.76) so para os brancos. Para que eles possam conhecer as imagens dos indgenas.

    Mas para tantos outros, essas peles de imagem e de papel no so s para os brancos, so tambm

    para os jovens indgenas. Para que eles possam conhecer o saber dos antigos. Para que eles possam

    entender como que a gente vivia antes do contato e como a gente vem vivendo depois do

    contato (Mateus, 2012, introduo), e para ver realizado o desejo de que seus filhos observem,

    contem, escrevam, aprendam; e do passado no se esqueam (Huni Kuimbu, 2013, p.17 e p.29).

    Um misto de tradio e resistncia (Flria e Fernandes, 2008, p.10) em formas de permanncia e

    de fixao dessas vozes como documento: quando a palavra se fixa, ela toma uma fora poltica

    diferente (ibidem).

    O livro Una Hiwea, o Livro Vivo, dos Huni Kuin, organizado por Agostinho Manduca

    Mateus Ika Muru (2012), na voz do prprio autor, um documento da identidade e do

    conhecimento do nosso povo antepassado. O livro foi escrito porque o povo ia perdendo tudo,

    porque muito dos nossos parentes do Brasil no esto conhecendo a realidade que nossa cultura.

    O livro precisou ser escrito para falar de onde vieram as doenas, por que nasceu a morte e por que

    os antigos se transformaram em ervas. Por isso o livro um Livro Vivo, porque a natureza est

    viva, porque as ervas que se transformaram esto vivas e os pesquisadores esto vivos. Alm das

    4 Ver Carta das Mulheres reunidas na 1 Conferncia Livre de Sade das Mulheres Indgenas realizada no

    Acampamento Terra Livre (ATL) em Braslia no ms de abril de 2017. http://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/pesquisa/carta-das-mulheres-reunidas-na-1o-conferencia-livre-

    de-saude-das-mulheres-indigenas. Acesso em 14/05/2017. 5 5 Davi Kopenawa usa as expresses peles de imagens e peles de papel para falar da diferena entre o pensamento Yanomami e o pensamento do branco: Porm, no precisamos como os brancos de peles de imagens para impedi-las

    de fugir da nossa mente. No temos que desenh-las como fazem com as suas. (KOPENAWA, ALBERT, 2014, p.75)

    http://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/pesquisa/carta-das-mulheres-reunidas-na-1o-conferencia-livre-de-saude-das-mulheres-indigenashttp://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/pesquisa/carta-das-mulheres-reunidas-na-1o-conferencia-livre-de-saude-das-mulheres-indigenas
  • 4

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    palavras desenhadas, o Livro Vivo composto tambm de um filme para apresentao no s da

    histria escrita, mas tambm da imagem, para ver (Mateus, 2012, introduo).

    As palavras de um xam yanomami, Davi Kopenawa, no livro A queda do cu, escrito por

    ele e Bruce Albert (2015), so tambm antigas e muitas, pois vm de seus antepassados. Foram

    desenhadas em traados de escritas apenas para falar aos brancos, pois so gravadas em seus

    corpos, guardadas bem no fundo e por isso no se distanciam deles. Por isso nossa memria

    longa e forte (ibidem, p.75) E tem tambm as antigas palavras dos espritos xapiri, que voltam a

    ser novas sempre que eles vm de novo danar para um jovem xam. As palavras so assim

    aprendidas e apreendidas por uma experincia corporal, no fixando os olhos em peles de papel,

    mas vendo

    as coisas da floresta de verdade, bebendo o sopro da vida dos meus antigos com o p de

    ykoana que me deram. Foi desse modo que me transmitiram tambm o sopro dos espritos

    que agora multiplicam minhas palavras e estendem meu pensamento em todas as direes

    (KOPENAWA, 2015, p.76).

    Mas para falar da sade, outras palavras yanomami precisaram ser fixadas em peles de

    papel como forma de fortalecer os conhecimentos tradicionais e dialogar com outros

    conhecimentos indgenas e no indgenas. O conhecimento sobre os remdios tradicionais foi

    apontado pelas lideranas yanomami como tema prioritrio a ser pesquisado e fortalecido. Da

    surgiu a proposta de retomada do levantamento sobre as plantas medicinais yanomami realizado

    entre 1992 e 1994, a pedido do projeto de sade da Comisso Pr-Yanomami (CCPY)6 para o

    aprimorar o atendimento sade por meio da valorizao da medicina tradicional. Ao longo dos

    anos de 2012 e 2013, jovens pesquisadores indgenas7 entrevistaram trs homens de idade e grandes

    conhecedores da floresta8, e o conjunto de dados desta pesquisa foi organizado e publicado na

    forma de um manual voltado para o uso cotidiano dos Yanomami (2014). O cuidado das mulheres

    mais velhas aparece novamente nesta pele de papel sobre as plantas medicinais Yanomami. As

    palavras do ancio Justino ao falar sobre os remdios da floresta remetem s mulheres velhas dos

    nossos antigos:

    Quando as mulheres velhas dos nossos antigos eram numerosas, elas nos tratavam com

    estes remdios, quando os Omoari, seres malficos da seca, no paravam de nos comer.

    6 Entre 1994 a 1999, a CCPY desenvolveu um programa de atendimento sade do povo yanomami atravs de um

    convnio com a Fundao Nacional de Sade (FUNASA) (HWRIMAMOTIMATHP ONI, Manual dos remdios

    tradicionais yanomami, 2014). 7 Nove jovens pesquisadores formados pelo projeto de educao interculturalparticiparam das oficinas de pesquisa na

    comunidade Watoriki, sob a coordenao de Morzaniel Iramari Yanomami da Hutukara Associao Yanomami (HAY)

    (HWRIMAMOTIMATHP ONI, Manual dos remdios tradicionais yanomami, 2014). 8 Justino, Lucas e Antnio (HWRIMAMOTIMATHP ONI, Manual dos remdios tradicionais yanomami, 2014).

  • 5

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    Elas nos davam banhos, elas tratavam as mos quentes dos espritos (YANOMAMI, 2014,

    p.15).

    As palavras do ancio Justino vo dizendo tambm e de diversas formas ao longo do texto

    como isso acabou ou foi acabando cada vez mais no decorrer dos diferentes momentos de contato

    com o mundo do branco. Agora ficamos empobrecidos uma fala repetida a cada feitiaria de

    epidemia relatada por ele, quando morriam as mulheres mais idosas ou as mulheres mais jovens

    que tinham visto suas mes curarem. As pessoas viam suas mes as crianas, as filhas imitam do

    mesmo jeito, no ? - viam coletar folhas para curar e curavam por sua vez seguindo seus passos

    (ibidem, p.19). Mas as pessoas agora no foram criadas assim, por isso no sabem.

    Outra pele de papel inventada para falar da sade o livro Hitupmax: Curar (2008) dos

    Maxakali. Esta pele de papel um dos modos como os Maxakali pensaram e realizaram um

    fazer-se visvel aos olhos dos agentes de sade brancos, para mostrar aos brancos que eles tm

    cultura: este livro foi feito para mostrar a cultura Maxakali e para que toda equipe que trabalha

    com sade indgena conhea nossa tradio (2008, p 12). O livro da sade dos Maxacali comea

    pelo parto: Comecemos pelo comeo: o parto. (ndios Maxakali, 2008, p.57). Falar do parto

    indgena hoje falar de tudo o que o circunda. falar da menina, da mulher, do menino, do homem,

    do pai, da me, da av, das parteiras, do rezador, do paj, das plantas, dos bichos, dos antigos, dos

    antepassados, dos espritos, ou seja, dos diversos seres que habitam os diferentes mundos indgenas.

    Mas falar tambm do homem branco, da relao com a sade do branco e dos deslocamentos

    possveis no modo de viver indgena a partir desta relao. O momento do parto, alm de ser o

    comeo proposto por eles, tambm hoje a imagem concreta de um saber no s sobre o prprio

    corpo, mas sobre um coletivo de aes que constroem diariamente um modo de viver distinto. Em

    alguns casos especficos, como na fala de Suely Maxakali as mulheres iam para o hospital, e

    tinham dificuldade, porque no entendiam, n?, o hospital nunca entendeu a nossa sade

    diferenciada 9 este modo de viver vem sendo desmanchado pelas aes de sade. Situaes

    corriqueiras e repetitivas traduzem de uma maneira muito simples e triste, a dificuldade dos agentes

    de sade brancos em entender e trabalhar com as populaes indgenas:

    Quando ganha nenm tambm no coa com a mo, tem que ser um pedao de madeira

    pequenininho para poder coar e no hospital no tinha, n? A, a gente precisou que uma

    pessoa l da CASAI (Casa de Sade do ndio), a Cntia, desse uma entrevista. Ela falou

    um pouco porque teve uma vez que levaram uma ndia em Governador Valadares que

    9 Fala proferida no seminrio: Curas, Cuidados e Polticas de Sade Indgena realizado em maio de 2016 na linha de Habilitao das Cincias da Vida e da Natureza no Programa de Formao Intercultural para Formao Indgena FIEI

    da Faculdade de Educao FAE da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG

    https://www.youtube.com/watch?v=Z1sL466BbLc Acesso em 20/05/2017.

    https://www.youtube.com/watch?v=Z1sL466BbLc
  • 6

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    ganhou nenm no hospital. A ndia chorou bastante e quando foi ver, ela tava querendo

    um pedacinho de madeira para coar. A a Cintia deu e ela parou de chorar.

    A comeamos a colocar o resguardo nosso tambm, porque o resguardo nosso diferente

    e quando levava as mulheres para o hospital e l no hospital ofereciam carne, ns as

    mulheres no comamos. Passava fome porque difcil para ns10.

    Diante do nmero cada vez mais elevado de encaminhamento das mulheres indgenas de

    algumas populaes para o hospital dos municpios de referncia no momento do parto, situaes

    como estas, em sua simplicidade e repetio, vo construindo uma nova realidade do parir indgena.

    A voz maxakali vem explicitar um descontentamento com essa nova realidade e ao mesmo tempo

    apresentar o seu modo de viver na linguagem do branco, neste caso, o livro ou pele de papel,

    como uma forma de se reinventar neste novo contexto de relao. Coisas simples como um pedao

    de madeira para coar ou um pedao de carne no fazem parte do traado do branco. Embora

    simples essas coisas, em sua ausncia ou presena, produzem efeitos no modo de viver indgena. O

    traado de escrita maxakali fala no s do modo de parir indgena, mas tambm e com muita

    clareza, dos efeitos do modo de ao do branco no parir indgena:

    Ento, neste livro da sade, a gente precisa colocar tudo, aquilo que a gente no quer e no

    aceita. Por isso minha me diz que no pode, que precisa esperar. Porque o mdico recebe

    outras mulheres, brancas, e a ndia fica ocupando o lugar. A eles no tem pacincia e

    querem fazer cesria nas meninas. Mas, para Tikmn, se for assim, pode deixar que ns

    preferimos ganhar nenm na nossa aldeia mesmo. Porque os Tikmn no morreram

    antigamente, quando ganhavam nenm na aldeia mesmo, ento no morrem mais no

    (MAXAKALI, 2008, p.88).

    Esses pequenos trechos das vozes maxakali, huni kuin e yanomami apresentados at ento

    so exemplos de como coisas, condutas e prticas do modo de viver indgena passam a serem

    chamadas tambm de conhecimento (Leach, Davis, 2012, p.209). A categoria conhecimento faz

    com que coisas distintas paream diferentes tipos da mesma coisa, conhecimento indgena e

    conhecimento do branco, ou diferentes maneiras de se fazer uma mesma coisa (Leach, 2012,

    p.266), no caso em questo, a ao das parteiras indgenas, dos agentes indgenas de sade e dos

    agentes de sade brancos. Institui-se assim, uma equivalncia de base medida e avaliada a partir de

    efeitos de eficcia independentes das condies que os produzem (ibidem) sobre o mundo natural

    de um corpo humano. O problema que sob a base comum de equivalncia conhecimento, o do

    branco se mostra sempre mais eficaz aos olhos das polticas pblicas de sade. E o pensamento

    dos brancos outro (Kopenawa, Albert, 2015, p.75). Nas aes de sade, esse pensamento do

    branco no passa pela experincia sensvel, no passa pelo choque com o outro (Krenak, 2015, p.

    193). Ele se constri na contemplao sem descanso das peles de papel em que desenharam suas

    10 Falas de Suely Maxakali no mesmo seminrio citado acima.

  • 7

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    prprias palavras (Kopenawa, Albert, 2015, p.76). preciso, pois sentar em roda 11 para saber o

    que a fala maxakali Porque os Tikmn no morreram antigamente, quando ganhavam nenm na

    aldeia mesmo, ento no morrem mais no (2008, p.88) quer dizer. Ou o que a voz de Alton

    Krenak diz com choque com a terra, choque com o outro e j nos adianta a diferena dos

    modos de viver e de aprender:

    Ento a terra d um imenso manual de vida para os meninos ainda mais no comecinho da

    vida. Esse choque com a terra, com a natureza de alguma maneira uma antecipao desses

    adultos, dessas futuras geraes de adultos, que eu fico pensando que sero diferentes dos

    antigos seres humanos que ns aprendemos a amar, que aprendemos a escutar as histrias.

    Eles corriam mais riscos, morriam mais. Eles no eram to garantidos. Voc no tinha

    certeza nenhuma se o seu pai ficaria vivo at ver voc grande. Se o seu av estaria l,

    velhinho. Agora ns estamos vivendo o mundo das certezas. Todo mundo pe tudo no

    seguro e fica essa perspectiva totalmente neutra, sem choque com a vida, com a terra

    (KRENAK, 2015, p.193).

    O modo de viver indgena precisa ento se transformar na categoria do conhecimento

    tradicional para se fazer visvel no s aos brancos, mas tambm aos mais jovens frente s

    transformaes no contexto de relao com o mundo do branco. Ele toma a forma, em parte, do

    traado de escrita das peles de papel. Mas, mesmo que a escrita seja uma experincia de

    transformao metamrfica e que d s foras transformadoras um modo particular de existncia

    (Stengers, 2012, p.10), ela por si s parece no bastar. O saber sensvel no cabe apenas nos

    traados de palavras. Assim como o Livro Vivo dos Huni Kuin, que alm da histria escrita,

    apresenta tambm a imagem para ver, os Maxakali produziram, alm do livro Hitupmax:

    Curar (2008), a pele de imagem YiaxKaax Fim do Resguardo, um filme de Isael Maxakali.

    As prprias peles de papel no so feitas apenas de traados de palavras, elas so tatuadas com

    imagens, em desenhos feitos por eles, Maxakali, Huni Kuin e Yanomami e em fotos das plantas no

    Manual dos remdios tradicionais Yanomami. A fala pela imagem, nos desenhos tatuados nas

    peles de papel ou nos filmes produzidos por eles, permite uma maior aproximao desta forma

    de saber, deste modo de conhecer. Um tanto do que no cabe nos traados de palavras pode ser

    comunicado ento, atravs das imagens.

    A imagem filmada tambm, segundo o realizador indgena Alberto Alvares Guarani, uma

    forma de reforar no apenas a oralidade, mas a personalidade e de mostrar como a histria

    11 Expresso utilizada na apresentao do livro do evento Tradio e Resistncia: encontro de povos indgenas realizado

    pelo Sesc So Paulo entre junho e julho de 2004, em So Paulo integrando o Frum de Cultura Mundial (FLRIA E

    FERNANDES, 2008). A expresso sentar em roda refere-se a um espao de escuta e de novas relaes de troca entre

    as diversas culturas indgenas e entre elas e a cultura do branco.

  • 8

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    contada 12. Para ele, a imagem um documento vivo que vale como um documento escrito, s

    que na verdade apenas gravado e quando gravada, ela fica guardada na memria, fica registrada

    assim na memria para fortalecer a nossa prpria identidade mesmo. E completa:

    O registro, a imagem, hoje ela fundamental para ns guarani porque nem todo mundo

    hoje em dia, os mais jovens sentam na beira de uma fogueira, ou na hora de tomar

    chimarro para escutar uma histria. Ento atravs do filme, os professores vm

    trabalhando de novo dentro da sala de aula, usam para refletir mesmo como ouvir de novo

    sem estar presente assim na casa de rezas.

    Essas palavras so sobre o filme Para Ret de Patrcia Ferreira, realizadora indgena mbya-

    guarani13. Destaco aqui este filme por ele trazer questes, que a princpio podem no parecer

    pertinentes temtica deste trabalho, mas que permeiam em grande parte, as falas dos indgenas nas

    referncias citadas acima e um tanto as minhas prprias impresses e percepes sobre as aes das

    parteiras. O filme fala do conflito de geraes de mulheres mbya-guarani e vem sendo usado por

    eles mesmos para refletir como ouvir de novo na sala de aula uma histria, um conselho sem

    estar presente na casa de rezas. Nas palavras da realizadora indgena de cinema:

    Eu queria entender melhor como mulher, e o foco era entender um pouco a mulher guarani

    e mostrar para os de fora como a vivncia e mostrar um pouco como que gera um conflito

    entre me e filha, av e neta. E eu ouvia muito assim: vocs jovens no fazem mais essas

    coisas que a gente fazia! Ento isso uma coisa que sempre acaba se entrelaando e chega

    na discusso, eu com meu ponto de vista como jovem e ela com seu ponto vista como uma

    pessoa mais velha.

    So esses pontos de vista destacados acima que proponho para pensar a ao das parteiras

    indgenas: como mulher, como uma pessoa mais velha e como jovem. O ponto de vista

    como mulher destacado para falar das parteiras tradicionais indgenas como uma categoria de

    gnero, apesar de parecer no haver uma delimitao to precisa na atuao de parteiras ou

    parteiros, mesmo sendo mulheres, a maioria. Pode ser ento, que essa categoria de gnero,

    parteiras, venha um tanto emprestada do mundo do branco, mas pode ser tambm que,

    emprestada assim do mundo do branco, se encaixe com preciso na fora que a mulher tem na

    comunidade e no cuidado das mulheres mais velhas repetidas vezes mencionado nas falas dos

    12 Fala de Alberto Alvares Guarani no Seminrio Mulheres Indgenas: Luta, Resistncia e Cultura realizado em maio de

    2017 pelo Programa de Formao Intercultural para Formao Indgena FIEI da Faculdade de Educao FAE da

    Universidade Federal de Minas Gerais UFMG https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8 Acesso em

    25/05/2017. 13 Filme (em processo de finalizao) exibido Seminrio Mulheres Indgenas: Luta, Resistncia e Cultura realizado em maio de 2017 pelo Programa de Formao Intercultural para Formao Indgena FIEI da Faculdade de Educao

    FAE da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8 Acesso

    em 25/05/2017.

    https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8
  • 9

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    indgenas. O filme, ao apresentar as mulheres guarani em diferentes geraes, traz uma reflexo

    neste sentido que ampliada pela fala da realizadora sobre a diferena por ser mulher:

    Para a gente no existe a diferena por ser mulher e eu no sou mais algum por ser

    homem ou por ser mulher. Eu acho que eu sinto isso quando estou dentro da minha aldeia e

    geralmente as mulheres guarani no falam muito, acho que isso para mim cultural. A

    gente gosta muito de ouvir, a gente deixa algum falar e a gente ouve e quando para a

    gente falar, a gente fala, mas tipo a gente no fica interrompendo o tempo todo para poder

    falar o que a gente acha que tem que falar. Eu queria mostrar essas coisas que esto

    escondidas dentro da aldeia pelas mulheres porque antes deste filme eu ouvia muito as

    perguntas, por que as mulheres no vem aqui, por que as mulheres no fazem filme, por

    que as mulheres no so caciques, mas em todas as decises importantes na aldeia, todas as

    mulheres participam14.

    Talvez seja dessa fora da mulher e dessas coisas que ficam ou ficavam escondidas dentro

    da aldeia que brota a imagem das parteiras, mulheres que precisam se mostrar para cuidar, no

    necessariamente de outras mulheres, mas sim, de modos especficos de viver. E tem esse modo

    especfico da escuta de um corpo e de uma observao silenciosa que constri uma relao

    diferenciada com o tempo claramente visvel na ao das parteiras e nas imagens deste filme.

    Segundo Patrcia, ela buscou mostrar como que a gente vive com o tempo, para gente plantar

    certas coisas, tem a poca certa e que at para a gente falar, tem o tempo certo e como tudo isso

    parece errado na viso dos no indgenas porque tudo tem que ser apressado para poder produzir

    alguma coisa. A meu ver, o saber das parteiras indgenas parece ser tecido neste tempo, em corpos

    que se afetam num tempo outro, de escuta e de silncio e que construdo no choque com o

    outro, no choque com a terra e com a participao de muitos. O saber das parteiras se faz ento,

    do ponto de vista como mulher desta observao para coletar folhas para curar e para curar

    seguindo os passos de uma pessoa mais velha e deste silncio necessrio para saber o que vai

    dizer. Por outro lado, feito tambm de palavras. Do ponto de vista como uma pessoa mais

    velha, que conhece e que sabe, esse saber passa a reunir em sua imagem, o conhecimento

    tradicional a ser repassado para os mais jovens: os conselhos, a educao. Os conselhos parecem

    agir no corpo atravs de imagens, das imagens que surgem das histrias contadas. A histria

    contada internaliza, fica na mente, e os conselhos atravs dessa histria ficam muito internalizado

    na cabea da criana. No caso do filme em questo, era a histria do menino mimado que virava

    ona e que a av ao educar sua neta, contava para ela: ento fica que a histria que envolve essa

    criana que vira ona uma forma de dar conselho, educar a criana nesse momento, contando essa

    histria. A realizadora do filme enfatiza o fato dessas transformaes serem reais para eles:

    quando se fala da transformao, para gente isso real, muito real. Mas ao mesmo tempo,

    14 https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8

    https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8
  • 10

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    reconhece que: at ns os mais jovens, duvidamos, mas isso real para as pessoas que viram isso.

    O ponto de vista mais jovem apresenta ento, uma questo: os mais jovens, hoje em dia, no

    acreditam mais, ento isso tem a funo de levar de novo essa informao para os mais jovens no

    cinema.

    As peles de papel e as peles de imagem vm ento, chamar os mais jovens que no

    acreditam mais e comunicar aos brancos, que tambm no acreditam na medicina tradicional

    indgena. O chamado para que os mais jovens escutem as histrias, mesmo que no seja na casa

    de rezas, mas ainda assim na sala de aula. Falam ao mesmo tempo em que pedem uma escuta.

    Buscam uma fora poltica ao reivindicar outro olhar da sade sobre seus corpos, sobre os

    diferentes modos de viver. Chamam os mais jovens para perpetuar esses diferentes modos de viver.

    Mas o que acontece ento, com esses corpos que j no acreditam mais e com o coletivo de um

    povo quando o todo contnuo e fluido de relaes e aes passa a se fixar nas categorias do

    conhecimento tradicional indgena e das parteiras tradicionais indgenas? Quando a fala e a

    memria perdem lugar para as peles de papel ou para as peles de imagem? Quando o

    aprendizado pelas palavras dos antigos e pela observao se transforma em escrita ou em imagem?

    Quando a fluidez de um modo sensvel e vivido passa a se fixar em imagens e palavras? Quando o

    silncio e a curiosidade da observao se preenchem de palavras explicativas? Quando um corpo

    que se afeta pela confiana passa a se afetar pelo medo?

    Fica fcil para ns, herdeiros da caa s bruxas 15 (Stengers, 2012, p.6), falar de tudo isso

    como se bastasse apenas o olhar para os diferentes modos de se reinventar. So sem dvida alguma

    cheios de criatividade. Mas no basta diz-los criativos se no aprendemos a sentir em nossas

    prprias narinas o cheiro da fumaa e a reconhecer o orgulho branco e moderno do nosso poder

    crtico de sempre saber mais, e o poder que este meio tem de contaminar (Stengers, 2012, p.6).

    Prefiro ento entender esse negcio de parteira e tudo mais que o acompanha como um

    movimento de reclaim 16 as prticas de si, as prticas sociais, as prticas polticas de luta

    (Stengers, 2017). So corpos diferentes, vestidos embora nus porque abertos a vrios tipos de foras

    15 Expresso utilizada por Isabelle Stengers ao falar do orgulho moderno da capacidade de interpretar tanto a bruxaria

    como a caa s bruxas em termos de construes, crenas sociais, lingsticas, culturais ou polticas e que deixa

    passar despercebido que somos herdeiros de uma operao de erradicao cultural e social precursora do que foi

    cometido em nome da razo e da civilizao (STENGERS, 2012, traduo Jamile Pinheiro Dias, caderno de leituras

    n 62, Cho da Feira, 2017). 16 Optei por deixar a palavra em ingls reclaim por ser um termo difcil de traduzir, que pode ser ao mesmo tempo

    curar, se reapropriar, tornar novamente habitvel (STENGERS, 2017, traduo Raquel Camargo

    revistamaquiavel.com.br). O aspecto polissmico do verbo tambm destacado pela tradutora do texto Reclaim

    Anismism (STENGERS, 2012), Jamile Pinheiro Dias, que optou pelo termo reativar a fim de abarcar o potencial

    teraputico e poltico da proposta do texto (NT, STENGERS, 2017).

  • 11

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    e relaes e que buscam ento, habitar novos espaos, a princpio, emprestados, mas reinventados

    cotidianamente diante da necessidade de lutar e da necessidade de curar, de modo a evitar que nos

    assemelhemos queles contra os quais temos de lutar (Stengers, 2012, p.8).

    Referncias

    CUNHA, Manoela Carneiro da. Cultura com aspas e outros ensaios. So Paulo: Cosac & Naify,

    2009.

    HUNI KUIN HIWEPAUNIBUKI:A histria dos Caxinaus por eles mesmos / organizado por Eliane

    Camargo; Diego Villar; Texerino Captain; Alberto Toribio, Huni Kuinbu - So Paulo: edies Sesc

    So Paulo, 2013.

    HWRIMAMOTIMA TH P ONI Manual dos remdios tradicionais Yanomami / organizao

    Morzaniel Iramami Yanomami... [et al] traduo Bruce Albert So Paulo: Instituto

    Socioambiental; Boa Vista, RR; Hutukara Associao Yanomami, 2014.

    INDIOS MAXAKALI Hitupmax: curar / Rafael Maxakali.. [et al.] Belo Horizonte: Faculdade

    de Letras da UFMG; Cip Voador, 2008.

    KOPENAWA, Davi, ALBERT, Bruce. A queda do cu: Palavras de um xam yanomami.

    Traduo: Beatriz Perrone Moiss. 1 Ed.- So Paulo: Companhia das Letras, 2015.

    KRENAK, Alton. Ailton Krenak / organizao Srgio Cohn. 1. ed. Rio de Janeiro: Azougue,

    2015.264 p. (Encontros; 50).

    LEACH, James. Leaving the Magic Out: Knowledge and effect in Different Places. Anthropological

    Forum, Vol.22, n 3, November 2012, 251-270.

    http://www.jamesleach.net/downloads/Leaving%20the%20Magic%20Out%20published.pdf Acesso

    em 28/06/2017.

    LEACH, James, DAVIS, Richard. Recognising and Translating Knowledge: Navigating the

    Political, Epistemological, Legal and Ontological. Anthropological Forum, Vol.22, n 3, November

    2012, 209-223.

    http://www.jamesleach.net/downloads/Program%20%20Recognising%20and%20Translating%20K

    nowledge.pdf Acesso em 28/06/2017.

    MATEUS, Agostinho Manduca. Huna Hiwea, O livro Vivo /Agostinho Manduca Mateus,

    organizador. Belo Horizonte: Literaterras/ Faculdade de Letras UFMG, 2012.

    QUEIROZ, Ruben C.. Cineastas indgenas e Pensamento Selvagem. Revista Devires, Belo

    Horizonte, V.5, N.2, P. 98-125, JUL/DEZ, 2008.

    http://www.fafich.ufmg.br/devires/index.php/Devires/article/view/308/169 Acesso em 25/05/2017.

    SOUZA, Marcela C. A vida material das coisas intangveis. In Edilene Coffaci de Lima, Marcela

    Coelho de Souza, organizadoras. Conhecimento e cultura: prticas de transformao no mundo

    indgena. Braslia, Athalaia, 2010, P. 97-118.

    http://www.jamesleach.net/downloads/Leaving%20the%20Magic%20Out%20published.pdfhttp://www.jamesleach.net/downloads/Program%20%20Recognising%20and%20Translating%20Knowledge.pdfhttp://www.jamesleach.net/downloads/Program%20%20Recognising%20and%20Translating%20Knowledge.pdfhttp://www.fafich.ufmg.br/devires/index.php/Devires/article/view/308/169
  • 12

    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    STENGERS, Isabelle. Reclaimaing Animism. e-flux journal.#36 july 2012. http://www.e-

    flux.com/journal/36/61245/reclaiming-animism/ Acesso em 28/06/2017.

    Reativar o Animismo, traduo Jamile Pinheiro Dias, caderno de leituras n 62, Cho da Feira,

    2017. http://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf Acesso em

    _____________. Quando a vida se torna resistncia. traduo Raquel Camargo, revista Maquiavel,

    2017. https://revistamaquiavel.com.br/trad-isabelle-stengers-quando-a-vida-se-torna-

    resist%C3%AAncia-6c61138e0f75 Acesso em 28/06/2017.

    YiaxKaax Fim do Resguardo, de Isael Maxakali. Assistido no link:

    https://www.youtube.com/watch?v=2deDUj-sgWk Acesso em 10/05/2017.

    Para Ret de Patrcia Ferreira (filme em processo de finalizao). Assistido no Seminrio Mulheres

    Indgenas: Luta, Resistncia e Cultura realizado em maio de 2017 pelo Programa de Formao

    Intercultural para Formao Indgena FIEI da Faculdade de Educao FAE da Universidade

    Federal de Minas Gerais UFMG https://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8 Acesso em

    20/05/2017.

    Seminrio: Curas, Cuidados e Polticas de Sade Indgena realizado em maio de 2016 na linha de

    Habilitao das Cincias da Vida e da Natureza no Programa de Formao Intercultural para

    Formao Indgena FIEI da Faculdade de Educao FAE da Universidade Federal de Minas

    Gerais UFMG https://www.youtube.com/watch?v=Z1sL466BbLc Acesso em 20/05/2017.

    Title: The category of Indigenous traditional midwives: gender in action?

    Astract: The proposal of this work is to think about the indigenous traditional midwives category

    construction in face of the actions of health public politics. Specifically, this work aims to address

    possible displacements in the indigenous people way of living since different actions and body

    transformations are seen as the category of indigenous traditional knowledge. The gender

    relations go through this trajectory from a flowing way of living to the production of this

    knowledge. The traditional knowledge is related to indigenous midwives who, not always, are

    women, but it is also related to prayers and shamans who are in the most men, but sometimes are

    also women. The traditional Knowledge says about different actions of plants, animals, and other

    beings of the indigenous world, besides a vast array of practices, process and techniques that take

    form in text and drawing registers of the indigenous midwives knowledge. The indigenous

    midwives are the makers and the producers of a knowledge which could be considered by the

    healthy public politics. Thinking all this through, the question is how a sensible knowing

    constructed by the daily actions of different social agents and reinvented from different modes of

    creativity is transformed, not only in a homogeneous traditional knowledge, but also in a gender

    category in action.

    Keywords: indigenous traditional midwives, traditional knowledge, gender relation

    http://www.e-flux.com/journal/36/61245/reclaiming-animism/http://www.e-flux.com/journal/36/61245/reclaiming-animism/http://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdfhttps://revistamaquiavel.com.br/trad-isabelle-stengers-quando-a-vida-se-torna-resist%C3%AAncia-6c61138e0f75https://revistamaquiavel.com.br/trad-isabelle-stengers-quando-a-vida-se-torna-resist%C3%AAncia-6c61138e0f75https://www.youtube.com/watch?v=2deDUj-sgWkhttps://www.youube.com/watch?v=Ma8khw6GUe8https://www.youtube.com/watch?v=Z1sL466BbLc