A CIDADE SEM OLHOS: UM ESTUDO SOBRE PERCEPÇÃO ?· thinking about the design process, under the flowchart-tactile…

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    ISSN 2179-7374

    Volume 21 Nmero 03

    Dezembro de 2017

    Pgs. 136 - 154

    A CIDADE SEM OLHOS: UM ESTUDO SOBRE PERCEPO SENSORIAL TTIL COMO INSTRUMENTO DE LEITURA DE PROJETOS

    THE CITY WITHOUT EYES: A STUDY ABOUT TACTILE SENSORIAL PERCEPTION AS A TOOL OF PROJECTS READING.

    Carlos Alberto Cenci Junior1

    Nbia Bernardi2

    Resumo

    Como projetar um ambiente de qualidade, explorando de modo favorvel a percepo sensorial de quem no v o mundo com os olhos? Tendo conhecimento da relevncia de instrumentos tteis como auxlio para orientao de pessoas com deficincia visual, este artigo apresenta uma reflexo sobre uma forma alternativa de pensar o processo de projeto sob o vis do fluxograma-ttil e expe uma experincia de aplicao de uma metodologia, relacionada ao tema, em um trabalho final de graduao em arquitetura e urbanismo.

    Palavras-chave: orientabilidade; diagrama; fluxograma ttil; processo de projeto;

    Abstract

    How can we design an environment exploring the sensorial perception of those who dont see the world with their own eyes? This paper presents a reflection about an alternative way of thinking about the design process, under the flowchart-tactile bias, and presents an experience of application of a methodology, related to the subject, in a final undergraduate thesis in architecture.

    Keywords: wayfinding; diagram; tactile flowchart; design process;

    1 Mestrando, Programa de Ps-graduao em Arquitetura, Tecnologia e Cidade UNICAMP, cenciarq@gmail.com

    2 Professora Doutora, Departamento Arquitetura e Construo - FEC UNICAMP, nubiab@g.unicamp.br

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    1. Introduo

    Em processos de projetos arquitetnicos direcionados s pessoas com deficincia visual, esbarra-se em um complexo desafio: Como projetar um ambiente de qualidade, explorando de modo favorvel a percepo sensorial de quem no v o mundo com os olhos? Quando um profissional est projetando um edifcio para uma pessoa com deficincia visual (DV), muitas vezes acaba por descartar problemas implcitos, ou tcitos, inerentes ao tipo de cognio especfica a esse perfil de usurio. Cognio pode ser entendida segundo Florio (2011) como um "processo ou faculdade de adquirir conhecimento que implica em processar informaes atravs da percepo e do raciocnio". Tratando-se de orientao espacial humana, objeto de estudo deste artigo, pode-se dizer que o processo serial de coleta de informaes por meio da sensorialidade do corpo essencial para mudar o estado de conhecimento do indivduo.

    O conhecimento novo adquirido pelos sentidos permite criar um mapeamento mental de localizao e assim permitir o deslocamento. Em um projeto focado em orientao espacial, voltado para DV, h dificuldade de expressar todos as necessidades tcitas3 de um indivduo - que um tipo de conhecimento fundamental para essas estratgias de projeto. de extrema importncia que arquitetos consigam ser capazes de desenvolver o conhecimento tcito de seus clientes, assim como o conhecimento explcito. No Japo, Nonaka e Takeuchi (1997) apresentaram seu trabalho mostrando a relao entre as dimenses ontolgico-epistemolgicas da criao de conhecimento e do dilogo ininterrupto entre conhecimento tcito e explcito (VASCONCELOS, 2007).

    Os autores japoneses ainda explicam atravs de seu consagrado mtodo denominado SECI que a formao do conhecimento ocorre no momento em que inicia um processo de socializao e passa por uma converso, formando uma espiral e dividem esse processo em quatro etapas: socializao, externalizao, internalizao e combinao.

    O filsofo Michael Polany (1999) em seu livro Dictonary of Phylosofy of Mind define este termo tcito como aquilo que o indivduo adquiriu ao longo da vida, pela experincia. Geralmente difcil de ser formalizado ou explicado ao outro, pois subjetivo e inerente s habilidades de uma pessoa. Considerando que o conhecimento tcito, principalmente no que se refere na questo da orientabilidade espacial mais difcil de verbalizar, necessrio que a linguagem arquitetnica permeie a linguagem de leitura e escrita de uma pessoa que no enxerga. Ou seja, os signos de informao e interpretao precisam ser reavaliados para este caso.

    Para dar suporte a afirmao anterior necessrio entender primeiro o contexto de linguagem usado como plano de fundo. Segundo Charles Sanders Peirce, linguagem um instrumento que nos permite pensar e comunicar o pensamento, estabelecer dilogos com nossos semelhantes e dar sentido realidade que nos cerca. Toda linguagem um sistema de signos, e signo algo que est no lugar de outra sob algum aspecto (PEIRCE,2005). Consequentemente, por ser um conjunto de signos, para que a linguagem se estabelea, ela precisa possuir um repertrio (significante e significado) , ou seja, uma relao de signos que a compe.

    Permite-se ainda sobre o assunto citar um direcionamento obra de Merleau-Ponty (1999) sobre dimenso fenomenolgica da relao homem-espao, na qual a idia de uma arquitetura multi-sensorial subsidiada pela relao homeosttica do corpo com o espao, sob a sequncia cdigo, texto e contexto em um processo constante, no podendo existir

    3 Entende-se como informao tcita aquela que internalizada.

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    corpo separado do espao.

    Essa abordagem da linguagem tambm presente na interpretao de Gombrich dizendo que as chances de uma leitura correta da linguagem so determinadas por trs variveis: o cdigo, o texto e o contexto (GOMBRICH, 1982). O papel do arquiteto est em perceber que um ambiente a projetar, para o pblico em questo, precisa ser percebido pelo repertrio de signos de um deficiente visual, que por sua vez constri esse repertrio a partir de informaes (cdigo) sensoriais alm da viso (contexto).

    Considera-se que utilizar ferramentas tteis associados a orientabilidade, como fluxogramas, podem ser uma forma mais imersiva e eficaz de troca de informaes tcitas entre arquiteto e cliente com DV, mais especificamente ainda se for usada para troca de informaes de orientabilidade espacial ou mapeamento de posies. Este o principal argumento que este artigo pretende discutir.

    Diante deste contexto, o artigo apresenta no somente uma reflexo sobre uma forma alternativa de pensar o processo de projeto sob o vis do fluxograma-ttil como tambm expe uma experincia de aplicao de uma metodologia, relacionada ao tema, em um trabalho final de graduao em arquitetura.

    2. Diagramas e Fluxogramas

    Na arquitetura contempornea, o projeto resultado de um processo criativo, conduzido pelas necessidades sociais e culturais (Verssimo & Bittar, 1999, p. 9), exerccio no qual o arquiteto precisa realizar uma sntese entre seu repertrio pessoal, sua tcnica e as informaes captadas dos clientes. Cabe ao profissional de arquitetura ter sensibilidade suficiente para ler as necessidades especficas do cliente e introduzi-las ao projeto.

    "Para a obteno do uso satisfatrio do ambiente, a participao dos usurios (muitas vezes com diferentes necessidades) no espao projetado adquire um papel fundamental. Esta participao pode acontecer atravs das possibilidades que o prprio projeto arquitetnico oferece, fazendo com que o indivduo seja atuante no espao em que vive (KOWALTOWSKI; BERNARDI; MARTIN, 2015).

    O jornalista/crtico de arquitetura Igor Fracalossi (2012) destaca em seu artigo denominado Campo Expandido da Arquitetura / Anthony Vidler que apesar do tema do diagrama ser sistematicamente estudado e discutido nos tempos atuais, o tema somente veio a surgir na crtica de arquitetura em 1996 por Toyo Ito. Quando discutindo a arquitetura de Kazuyo Sejima ele escreveu:

    "Voc (Sejima) v um edifcio como essencialmente o equivalente do tipo de diagrama espacial usado para descrever as atividades dirias para que o edifcio se destina de forma abstrata. Pelo menos, parece que seu objetivo chegar o mais prximo possvel desta condio" (ITTO, 1996).

    Segundo Fracalossi (2012), para uma arquitetura como tal, Ito cunhou o termo arquitetura-diagrama. Desde ento, a coisa pegou fogo em torno desta pequena, aparentemente insignificante palavra. Anthony Vidler (2000) possui diversos trabalhos que abordam o tema do diagrama, e alm do que explicitado no texto de Fracalossi, ele discute no Diagrams of Diagrams: Architectural Abstraction and Modern Representation as implicaes e evoluo do diagrama na arquitetura.

    Neste texto acadmico h uma sequncia descritiva que aponta a mudana do diagrama desde tempos antigos at os novos meios como softwares e animao 3D. Este autor

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    ressalta que apesar de projetos serem criados no desenho a mo, muitas vezes os arquitetos contemporneos investem esforos na representao de topografia, mapas, estudos de massa, maquetes e processos usando tecnologias digitais. Vidler passa a discutir como as tcnicas digitais mudaram a forma de como a arquitetura passou a ser concebida e como os diagramas so elaborados. Este autor afirma tambm que antes mesmo da teorizao acadmica dos assuntos, os arquitetos j eram exmios utilizadores dos diagramas por causa da relao entre a linguagem de representao dos projetos arquitectnicos com a representao do processo de projeto.

    Em complemento a idia do texto, temos a seguinte declarao sobre o pensamento de Vidl

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