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A Conscincia Como Fruto da Evoluo

A Conscincia Como Fruto da Evoluo e do Funcionamento do Sistema Nervoso

Alexandre de Campos, Andra M. G. dos Santos e Gilberto F. Xavier

Departamento de FisiologiaInstituto de Biocincias USP

Percepes, individualidade, linguagem, idias, significado, cultura, escolha, moral e tica, todos existem em decorrncia da evoluo e do funcionamento do sistema nervoso. Teme-se, por vezes, que a concepo da conscincia como resultado de um processo biolgico corresponda a uma "profanao do esprito humano", com conseqente abandono do comportamento moral e tico. Na verdade, ao se investigar a conscincia como fenmeno natural e no mstico, ampliam-se nossas possibilidades de entend-la, com ganhos cientficos, tericos e sociais, alm dos ticos e morais. Discute-se como a evoluo por seleo natural e a organizao biolgica do sistema nervoso permitem explicar as bases da individualidade, da intencionalidade, de representaes simblicas e do significado. Fenmenos observados em pacientes com danos neurolgicos reforam a concepo de funcionamento modular do sistema nervoso; a conscincia no seria uma propriedade exclusiva de um mdulo nico do sistema nervoso, mas fruto do funcionamento sincrnico de diferentes mdulos.

A conscincia fruto da evoluo do sistema nervoso. Portanto, percepes, individualidade, linguagem, idias, significado, cultura, escolha (ou livre arbtrio), moral e tica, todos existem em decorrncia do funcionamento cerebral.

H, por vezes, receio de que a investigao cientfica possa levar a uma "desmistificao" da conscincia humana. De fato, so inmeras, e no triviais, as conseqncias da conceituao da conscincia como fenmeno natural. Uma delas, talvez a mais importante, refere-se percepo que o ser humano tem de si prprio e de seus semelhantes: teme-se que a concepo da conscincia como resultado de um processo biolgico corresponda a uma "profanao do esprito humano", com conseqente abandono do comportamento moral e tico.

A tese a ser defendida neste trabalho que, ao se trazer a conscincia "de volta para a natureza" e ao se investig-la como fenmeno natural e no mstico, ampliam-se nossas possibilidades de entend-la, com ganhos cientficos, tericos e sociais, alm dos ticos e morais. Ser discutido neste trabalho, como a evoluo por seleo natural e a organizao biolgica do sistema nervoso permitem explicar as bases da individualidade, da intencionalidade, de representaes simblicas e do significado. Diversos fenmenos relacionados a conscincia sero ento discutidos luz das descobertas que a cincia vem realizando sobre a organizao modular do funcionamento cerebral. Entre eles, (1) o fenmeno da "viso-s-cegas" ("blindsight"), em que pacientes com leses do crtex estriado negam a percepo de estmulos visuais apresentados em seu campo de viso, ao mesmo tempo em que so capazes de desempenhar aes precisas em relao a esses estmulos, inclusive em relao sua localizao espacial; (2) o fenmeno da dissociao entre memria explcita e memria implcita, em que pacientes com danos no lobo temporal medial negam ter vivenciado uma situao de treino em tarefas motoras, perceptuais e cognitivas, ao mesmo tempo que exibem desempenho normal nessas tarefas; e o fenmeno de pr-ativao ("priming"), que ocorre com pessoas normais e envolve um vis ou facilitao do desempenho em funo da apresentao prvia do material de teste, sem que a pessoa tenha conhecimento consciente do fato; (3) o fenmeno da negligncia unilateral, caracterizado por um notrio prejuzo na percepo de uma das metades do espao egocntrico em decorrncia de leso contralateral, usualmente acompanhada de anosognosia, i.e., o desconhecimento completo da prpria deficincia, independentemente de quo limitante ela seja; e (4) o fenmeno da dissociao decorrente de comissurotomia (ou desconexo dos hemisfrios cerebrais), no qual os pacientes exibem um elaborado processamento de informaes apresentadas a apenas um dos hemisfrios cerebrais, com comportamentos plenamente adequados s situaes apresentadas, acompanhado de uma completa ausncia de percepo consciente, por parte do outro hemisfrio cerebral, sobre esse processamento. Esses exemplos sero tomados como evidncia de que o fenmeno "conscincia" no uma entidade nica, mas sim um conjunto de habilidades mediadas pelo processamento paralelo, porm cooperativo, de informaes em diferentes mdulos do sistema nervoso. No obstante essa organizao modular, o funcionamento cooperativo e integrado dos diferentes mdulos produz uma sensao unificada.

A concepo dualista de conscincia

O obstculo mais difcil de se transpor na investigao cientfica da conscincia, talvez esteja relacionado concepo culturalmente arraigada de que percepes conscientes no podem ser consideradas como fruto do funcionamento do sistema nervoso, sendo a conscincia considerada uma entidade distinta deste e que apenas manifesta-se atravs dessa estrutura.

Parte substancial desse vis dualista deve-se a dogmas que estabelecem uma separao entre o esprito e o corpo.

difcil saber o quanto esses dogmas, associado ao contexto histrico doutrinrio e persecutrio da poca, influenciaram Descartes a defender a noo de que o indivduo constitudo da matria ("res extensa"), tal qual definida pela Fsica, divisvel, com dimenses, peso e "funcionamento mecnico", e da mente ("res cogitans"), indivisvel, sem dimenses, independente de tempo e espao, sendo, portanto, intangvel. Como em seu livro, "O discurso do mtodo" (1637), Descartes concebe a mente como algo especial, cujas caractersticas no possuem espacialidade ou temporalidade nem esto subordinadas s leis fsicas, tem-se interpretado que ela no seria passvel de investigao objetiva.

A influncia dessa doutrina dualista na psicologia se expressa tanto nas concepes psicanalticas de mente, quanto na negao taxativa da possibilidade de compreenso dos processos "mentais" defendida pelo "behaviorismo" que advoga a inacessibilidade desses processos ao questionamento cientfico.

interessante que Descartes, considerado o pai da filosofia moderna e do mtodo cientfico, tenha formulado essa conceituao dualista da relao mente/crebro, promovendo um afastamento dos "fenmenos mentais" da esfera da investigao cientfica. Mais interessante, no entanto, que Descartes considerou a interao entre a res cogitans e a res extensa como necessria; declarou que a interao ocorreria na glndula pineal. Isto , as informaes advindas do mundo exterior chegariam at a glndula pineal e, atravs de mecanismos desconhecidos, seriam transformadas e transmitidas mente para serem interpretadas e elaboradas. Que mtodo teria usado Descartes para obter evidncias a favor dessa obscura formulao? Em seu livro "O erro de Descartes", Antonio Damsio questiona-se: ao afirmar "penso, logo existo", Descartes no estaria reconhecendo a superioridade da razo e do sentimento consciente, sem compromissos no que se refere sua origem, substncia ou permanncia? Isto , no estaria Descartes afirmando que pensar e ter conscincia de pensar que constituem os verdadeiros substratos da existncia?" Damsio (1996) pergunta-se, ainda, se essa famosa frase de Descartes no se constituiu numa estratgia de redao para evitar as fortes presses religiosas da poca. E finaliza referindo-se inscrio escolhida por Descartes para sua lpide : "Aquele que se esconde bem viveu bem", como uma possvel indicao de contestao discreta ao dualismo.

Organizao e evoluo biolgicas

Sistemas biolgicos so o produto de um processo histrico altamente peculiar que envolve evoluo por seleo natural, sendo essa, na verdade, a origem de sua unicidade. Essa idia, baseada na formulao proposta por Charles Darwin, em 1859, se constitui no principal paradigma da biologia (Darwin, 1985).

Do ponto de vista terico, quando um dado ambiente possui simplicidade e regularidade, portanto previsibilidade, a seleo natural pode favorecer a evoluo de um sistema adaptado e otimizado para aquele ambiente. Seria essa afirmao "finalista" e, portanto, a evoluo pr-direcionada? A resposta obviamente no. A regularidade do ambiente oferece diversas oportunidades de seleo para mutaes que levam o organismo a exibir uma resposta antecipatria ao ambiente. Embora possa parecer que o sistema faz uma "previso" de que o ambiente de uma dada maneira, deve-se ter em mente que o processo evolutivo (que o produziu) no pr-determinado; apenas selecionou o organismo mais apto.

Deve-se enfatizar, neste contexto, que a seleo se faz principalmente ao nvel do indivduo e seu comportamento. Embora trazer uma "resposta pronta" (neste caso, um comportamento inato) possa ser adaptativo, isso s possvel, como vimos, em condies particulares. Quando, no entanto, a complexidade de um sistema aumenta e a imprevisibilidade torna-se um problema, um mecanismo diferente - mais flexvel - deve ser selecionado.

Tal sistema deve permitir ao organismo obter o mximo de informaes sobre o ambiente, possibilitando a este solucionar os problemas no momento em que surgem de forma no-antecipatria ou de forma antecipatria quando um padro regular puder ser identificado. H uma certa indeterminao no funcionamento desse tipo de sistema, mas ele altamente adaptativo pois completar seu processo de adaptao quando as reais condies de uso da funo forem encontradas. Nesse sentido altamente adaptativo pois o organismo pode lidar com circunstncias totalmente inesperadas. Este parece ter sido o processo de evoluo tanto do sistema de imunidade como do sistema nervoso (includa a conscincia), i.e., sistemas seletivos capazes de lidar com novidade ao longo da vida do indivduo.

Cabe enfatizar que esses sistemas so fruto de um processo histrico lento e gradual, que ocorre passo-a-passo, na evoluo das espcies (para reviso, ver Dennett, 1995).

Memria, categorizao, escolha e intencionalidade

Ao longo desse processo, teriam surgido organismos capazes de modificar seu comportamento por "tentativa-e-err