A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL DO .RESUMO - O STF declarou inconstitucional a contribuição

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL DO .RESUMO - O STF declarou inconstitucional a...

257

A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIO SOCIAL DO EMPREGADOR RURAL PESSOA FSICA: ANLISE DA jURISPRUDNCIA DO

STF E DO TRF DA 4 REGIO

The Constitutionality Of Tax Imposed Rural Employers Person: Analysis of the jurisprudenceof the Brazilian Supreme Court

and Federal Court of the 4th Region

RAFAEL DE OLIVEIRA FRANZONIProcurador da Fazenda Nacional, lotado na Procuradoria-Seccional de Maring/PR,

Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Maring - UEM, Ps-graduado em Direito Tributrio pela Universidade do Sul de Santa Catarina UNISUL.

SUMRIO: Introduo; 1 A evoluo legislativa da contribuio incidente sobre a atividade rural; 1.1 A instituio do Fundo de Assistncia ao Trabalhador Rural Funrural; 1.2 O novo Funrural; 2 O caso Mataboi RE 363.852; 3 A constitucionalidade da alterao promovida pela Lei n 10.256/2001; 3.1 Limites da inconstitucionalidade pronunciada nos RREE 363.852/MG e 596.177/RS; 3.2 Insero legislativa sem acrscimo de texto; 4 Concluso; Referncias bibliogrficas.

RESUMO - O STF declarou inconstitucional a contribuio social do empregador rural pessoa fsica, nos moldes em que previstos no art. 25 da Lei n 8.212/91, alterado pelas Leis ns 8.540/1992 e 9.528/1997, ao principal fundamento de que se instituiu nova fonte de custeio da Previdncia Social por legislao ordinria. A Emenda Constitucional n 20/1998 e a Lei n 10.256/2001 vieram a corrigir o vcio, legitimando a exao, ainda que no se tenha alterado a redao dos incisos I e II do art. 25 da Lei n 8.212/91. No h falar em ausncia do binmio fato gerador/base de clculo e alquota se interpretarmos a norma sob a tica da alterao legislativa sem acrscimo de texto, tcnica semelhante, porm sem sentido oposto, a da declarao de inconstitucionalidade sem reduo de texto, prestigiando, assim, o princpio da constitucionalidade das leis.

PALAVRAS-CHAVE - Direito Constitucional e Tributrio. Contribuio do Empregador Rural Pessoa Fsica. Funrural.

Revista da PGFN

258

AbStRACt - The Supreme Court of Brazil declared unconstitutional the tax imposed rural employers person, governed by Act 8.212/1991, article 25, amended by Acts 8.540/1992 and 9.528/1997, because instituted a new source of funding Social Security by ordinary legislation. The Constitutional Amendment 20/1998 and Act 10.256/2001 came to correct the defect, legitimizing the tax. Its out of question that the privation of binomial taxable event/basis for the calculation and rate if we interpret the rule in light of the legislative amendment without additional text, which technique is similar, but in an opposite direction, to the declaration of unconstitutionality without modifying the text, prestige, thus, the principle of constitutionality of laws.

KEYWORDS - Constitucional e Tax Rights. Rural Employers Person. Funrural.

IntRODUO

At pouco mais da metade do sculo passado, a legislao brasileira fazia distino entre os trabalhadores urbanos e rurais. Aos primeiros era assegurada maior gama de direitos sociais, a includo um regime previdencirio mais generoso.

Tal fato talvez se explique porque a renda nas cidades sempre foi maior e de mais fcil fiscalizao, a ensejar um maior aporte de recursos aos cofres pblicos capaz de financiar, em contrapartida, um sistema de seguridade social mais musculoso, embora no sem problemas.

Esse quadro comeou a se alterar na segunda metade do sculo, quando o Estado, ainda que timidamente, voltou seus olhos para o campo no intuito de melhorar as condies de vida daquela populao, oferecendo-lhe alguns servios de ndole social. E para financi-los foi instituda uma contribuio social correspondente.

A igualdade, todavia, somente foi conquistada com a promulgao da Constituio de 1988, chamada cidad, quando se assegurou uniformidade e equivalncia dos benefcios e servios s populaes urbanas e rurais.

A conquista rural, todavia, veio acompanhada de obrigaes tributrias que a custeariam, cobradas do empregador rural pessoal fsica (exao mais conhecida como FUNRURAL ou Novo FUNRURAL), as quais agora so objeto de enormes discusses judiciais. A maior delas ficou conhecida como caso Mataboi (Recurso Extraordinrio n 363.852/MG), julgamento em que o Supremo Tribunal Federal invalidou a exao em causa e cujo precedente foi repetido sob a sistemtica da repercusso geral (Recurso Extraordinrio n 596.177/RS). E mais recentemente deu azo tambm Arguio de Inconstitucionalidade na AC n 2008.70.16.000444-6/PR, julgada procedente pelo Tribunal Regional Federal da 4 Regio.

Rafael de Oliveira Franzoni

259

Referidos pronunciamentos judiciais so o objeto da presente anlise.

1 A EVOLUO LEgISLAtIVA DA COntRIbUIO InCIDEntE SObRE A AtIVIDADE RURAL

A fim de possibilitar uma adequada anlise acerca da cobrana do tributo incidente sobre a atividade rural, impe-se elaborar uma breve digresso sobre a evoluo legislativa da matria.

1.1 A InStItUIO DO FUnDO DE ASSIStnCIA AO tRAbALHADOR RURAL FUnRURAL

A Lei n 2.613, de 23 de setembro de 1955, autorizou a Unio a criar uma Fundao denominada Servio Social Rural. Esta entidade nasceu em forma de autarquia, com personalidade jurdica e patrimnio prprios, subordinada ao Ministrio da Agricultura e tinha por fim: (i) a prestao de servios sociais no meio rural, visando a melhoria das condies de vida da sua populao, especialmente no que concerne alimentao, ao vesturio, habitao, sade, educao, assistncia sanitria, ao incentivo atividade produtora e a quaisquer empreendimentos de molde a valorizar o ruralista e a fix-lo terra; (ii) promover a aprendizagem e o aperfeioamento das tcnicas de trabalho adequadas ao meio rural; (iii) fomentar no meio rural a economia das pequenas propriedades e as atividades domsticas, (iv) incentivar a criao de comunidades, cooperativas ou associaes rurais; (v) realizar inquritos e estudos para conhecimento e divulgao das necessidades sociais e econmicas do homem do campo; e (vi) fornecer relaes estatsticas sobre a remunerao paga aos trabalhadores do campo.

Para fazer frente s finalidades legais da nova fundao, a lei previu trs espcies de contribuies. A primeira, prevista no art. 6, incidia sobre a soma paga mensalmente pelas pessoas naturais ou jurdicas que exerciam as atividades industriais ali relacionadas aos seus empregados alquota de 3% (trs por cento). A segunda, nada mais era do que um acrscimo de 0,3% (trs dcimos por cento) anterior exao, mas dessa feita devida por todos os empregadores aos institutos e caixas de aposentadoria e penses ( 4). E a ltima incidia alquota de 1% (um por cento) do montante da remunerao mensal paga aos seus empregados pelas demais empresas de atividades rurais (art. 7).

Mais adiante, a Lei n 4.863, de 29 de novembro de 1965, majorou a 0,4% (quatro dcimos por cento) a alquota prevista no 4 do art. 6 da Lei n 2.613/1955, percentual este mantido pelo Decreto-Lei n 1.146, de 31 de dezembro de 1970.

Revista da PGFN

260

Passo seguinte, veio a lume a Lei Complementar n 11, de 25 de maio de 1971, para instituir o Programa de Assistncia ao Trabalhador Rural (PRORURAL), com o objetivo de prestar ao rurcola os seguintes benefcios: aposentadoria por velhice, aposentadoria por invalidez, penso, auxlio-funeral, servio de sade e servio social. Para executar este programa, instituiu-se o Fundo de Assistncia ao Trabalhador Rural FUNRURAL, ao qual foi atribuda personalidade jurdica de natureza autrquica, diretamente subordinado ao Ministrio do Trabalho e Previdncia Social.

Para custear estes novos benefcios, de feio nitidamente previdenciria, a nova lei complementar estabeleceu de trs contribuies distintas (art. 15), quais sejam: (i) contribuio de 2% (dois por cento) sobre a comercializao da produo rural, devida pelo produtor ao FUNRURAL; (ii) contribuio de 2,4% (dois e quatro dcimos por cento) incidente sobre a quantia paga pelos empregadores aos seus empregados, tambm destinada ao FUNRURAL1; e (iii) contribuio de 0,2 % (dois dcimos por cento) incidente sobre a quantia paga pelos empregadores aos seus empregados, esta destinada ao Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria INCRA.

Assim, este regramento, que fazia distino entre os trabalhadores urbanos e rurais, perdurou at a promulgao da nova Constituio da Repblica Federativa do Brasil em 5 de outubro de 1988.

A nova ordem constitucional teve o mrito de estabelecer a igualdade normativa entre os trabalhadores urbanos e rurais, assegurando a ambas as classes todos direitos sociais previstos no art. 7, alm de adotar como princpio da Seguridade Social a uniformidade e equivalncia dos benefcios e servios s populaes urbanas e rurais (art. 194, II).

Imbuda, pois, deste novo mandamento constitucional, a Lei n 7.787, de 30 de junho de1989, suprimiu a contribuio destinada ao FUNRURAL, anteriormente prevista no art. 15 da Lei Complementar n 11/1971, e prescreveu que a contribuio devida pelos empregadores rurais seria a mesma dos empregadores urbanos, conforme disps em seu art. 3, abaixo transcrito:

Art. 3 A contribuio das empresas em geral e das entidades ou rgos a ela equiparados, destinada Previdncia Social, incidente sobre a folha de salrios, ser:

I - de 20% sobre o total das remuneraes pagas ou creditadas, a qualquer ttulo, no decorrer do ms, aos segurados empregados, avulsos, autnomos e administradores;

1 Esta contribuio a mesma prevista no art. 6, 4, da Lei n 2.613/55, majorada pela Lei n 4.863/65 e mantida pelo Decreto-Lei n 1.146/70, que antes incidia alquota de 0,4% (quatro dcimos por cento).

Rafael de Oliveira Franzoni

261

II - de 2% sobre o total das remuneraes pagas ou creditadas, no decorrer do ms, aos segurados empregados e avulsos, para o financiamento da complementao das prestaes por acidente do trabalho.

1 A alquota de