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a descida de Sant'Anna aos infernos da modernidade.pdf

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6778

ii

iii

Agradeo imensamente aos professores

doutores do Curso de Ps-Graduao em

Letras da UFPR: Anamaria Filizola, Lus

Gonales Bueno de Camargo, Marcelo

Sandman, Marta Morais da Costa e Paulo

Astor Soethe.

Agradeo, especialmente, ao professor doutor

dison Jos da Costa. A realizao deste

trabalho somente foi possvel com o seu apoio

e Orientao dedicada.

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viii

ABSTRACT This work is on purpose to analyse the series of poems endowed with baseboard notes in the volume, entitled Poesia sobre poesia (1975) by the professor, poet and Brazilian critic, Affonso Romano de Sant'Anna. It is essentially aimed to establish the hybrid relationship between the speech of the poetic text and the paratext generic name created by French theorist, Grard Genette, to classify the body of outlying elements, which is accompanied the text as, for instance, the titles, the synopses, the forewords and obviously the baseboard notes. The exam of the Affonso Romano de Sant'Annas work, centrally the exam of his cross-reference compositions with his character of accounted success with the Brazilian avant-gardes of mid twentieth century evidences the author's strategic turning in direction to a poetic project that understands how being more personal and humanist. The study verifies that this capture of consciousness is rendered in the poetry plan through an exhaustive inventory of the modernity and avant-gardes so in the first chapter, he summarises the revision of the principal lines that are being pointed by the critic as the characteristic art from the end of the nineteenth century to the half of the twentieth century. In a second apprenticeship he discourses, on the functions, the reach and paratext use when it is faced as a valid poetic resource in the narrative prose and in the dramatic text, and now in the poetry. He, therefore, discusses the paratext norm in the tradition editorial, in his conventions, particularly in practice of the modern authors and more specifically focuses the phenomenon of the paratext textualisation in the literature history. Finally, under this analytic perspective, the authoritative notes of the end of page is evaluated in the formal structure of Poesia sobre poesia, whose verses refer to the paratextual prose and whose notes, for his/her time, pass to interfere in the reception of the poems. Consequently the reader is compelled to create a compound system of relationships that mimic the possible maze of the modern art, mimicry that is also present in the visual aspect of the poems. Form and content, so to speak, text and paratext, are interlaced to contemplate the contradictions and the several theories which try to explain the modernity. The work, yet, tries to show in which way the exegetical compositions of Poesia sobre poesia express the existential inferno and the conflict that settles down in this work between the heteronymous of the professor-poet and the poet-professor, placed front to the dysfunction problem and the lyrical identity search in the modern world. He also tries to understand the way for which the poet offers an alternative and personal answer to the modernity challenges, discursive answer necessarily, in a clear reaction to the normative of the concretista avant-garde, with the one starting from this book, Affonso Romano de Sant'Anna breaks programmatically. In conclusion, the study intends to demonstrate of what way Poesia sobre poesia founds lyric and essay, poetry and critic, taking advantage of the baseboard notes as poetic resource that, in last analysis, textualises the paratext. Key-words: Affonso Romano de Sant'Anna; Paratext; Modernity; Contemporary Brazilian poetry.

1

(9:

Em 1975, o poeta, ensasta e professor mineiro Affonso Romano de SantAnna

publicou uma obra de feitura singular. O mais importante livro de poesia1 do ano,

documento de uma poca2, lio de poesia3 foram algumas das expresses com que parte

da crtica especializada da poca recebeu o texto. O volume em questo, intitulado Poesia

sobre poesia, faz um inventrio crtico no conjunto de valores estticos e existenciais reunidos

sob a denominao genrica de modernidade, cujo influxo renovador alterou o conceito da

literatura e da poesia no mundo ocidental na primeira metade do sculo vinte.

Poesia sobre poesia sintetiza um corrosivo caldo de questionamentos cuja finalidade

dissolver o ndulo normativo que as teorizaes sobre a arte, uma das caractersticas mais

pronunciadas da modernidade, haviam logrado introduzir na veia potica do autor. A teoria e

a prxis de vrias geraes de escritores, artistas e poetas, formados sob o peso avassalador

dessa herana so, temtica e poeticamente, trazidas discusso pela lrica de SantAnna. O

poeta, insurgindo-se contra os cdigos das vanguardas, em especial o concretismo brasileiro,

encontra na prpria contestao terica e na metalinguagem o antdoto para a sua

perplexidade.

Para fazer frente ao desafio de refletir sobre poesia a partir da prpria poesia,

propsito anunciado desde o ttulo, SantAnna recorre ao artifcio de inserir centenas de notas

de rodap (Anexo 1) em seu trabalho. A incluso de notas de rodap em vrios poemas, ao

estilo de T. S. Eliot em The waste land, aparentemente, visa a servir o leitor de alguma coisa a

mais que um simples guia de leitura na intricada rede de referncias intertextuais do livro. As

crticas nos jornais da poca, naturalmente, puseram reparo na suplementao das notas

remissivas; porm, pouco foi dito do efeito que produziam no discurso do poeta, exceto,

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#talvez, pela crtica de Consuelo Albergaria no Estado de Minas de 7 de janeiro de 1976, que

reconhece nesses rodaps uma espcie de corpus paralelo, na medida em que oferecia ao

leitor o gozo extra de cotejar seus conhecimentos, algo estetizante, verdade, mas que

essencialmente produziria uma leitura no-linear dos poemas. O que chama a ateno neste

comentrio precisamente sua percepo da ocorrncia de um movimento contrapontstico

em torno do eixo que coordena o discurso do texto potico e o discurso do texto crtico das

notas exegticas.

Pensar que funo tais notas de Poesia sobre poesia desempenham no torneio de

respostas que a literatura brasileira do sculo vinte deu aos mencionados desafios da

modernidade se constitui, por definio, em um dos objetivos deste trabalho. Entender

profundamente as conseqncias do emprego que SantAnna faz desta tcnica so um dado

crucial, em nosso ponto de vista, para a compreenso do livro de 1975. O leitor diante desses

poemas hbridos de versos e notas se coloca o dilema de escolher entre prestar ateno ou

ignorar o texto perifrico. A curiosidade do leitor posta prova passo a passo por meio de

ostensivas chamadas numricas inseridas no interior dos versos e, ao cabo, impe-se a questo

de se saber at que ponto essas escolhas interferem no alcance de sua recepo da obra.

Entender os motivos por que Affonso Romano de SantAnna decidiu acrescentar

comentrios ora secos, ora poticos, s vezes sarcsticos, a vrias composies de Poesia

sobre poesia faz parte do quebra-cabea atravs do qual se tenta deslindar o legado da

modernidade que o tambm poeta e professor Cludio Murilo Leal, em crtica publicada no

Jornal do Brasil de 20 de dezembro de 1975, por ocasio do lanamento do livro, explicaria

nestes termos:

O poeta de hoje, sem voz prpria, transformou-se no eco de milhares de versos e informaes, numa verdadeira caixa de ressonncia de um passado e de um presente literrio e cultural que mais esterilizam do que apontam o caminho da poesia, se que este caminho existe objetivamente. O impasse da poesia de hoje fruto da conscincia que tudo j foi feito, e no resta uma s palavra a ser acrescentada, tomando-se como nica sada o inventrio, que nada tem de inveno, mas muito de rol de experincias acabadas, catlogo de endereos j conhecidos, mapas de veios esgotados4.

Poesia sobre poesia seria um livro compndio sobre a problemtica da lrica

moderna e seus poemas dariam o testemunho de toda uma poca em que poetas, artistas,

escritores e tericos de literatura tentando entender seu papel na nova organizao capitalista

,'

)foram colocados frente a frente com o desafio de encontrar justificativas para a supervivncia

de seu modo de vida nas engrenagens sociais da burguesia e dos meios de produo de massa.

Por isso, durante dcadas teorizaram. As notas exegticas de Poesia sobre poesia parecem

justificar a idia de uma lrica-de-inventrio destinada a ser quase uma pardia da morbidez

ou ecolalia resultante do esgotamento do j feito e repisado: se o fazer potico no prescinde

de manifestos e cartas de escriturao por que deixar de anex-las ao prprio corpo dos

poemas? A forma encontrada para o livro de 1975, desse modo, permite enunciar uma

hiptese: ao escrever poemas com rodaps, SantAnna talvez esteja diluindo uma coisa na

outra e alterando a funo das notas em seu trabalho. Da, questes como esta: o sujeito lrico

tambm se expressa nas notas e o crtico fala nos poemas? At que ponto o verso est

permeado da influncia remissiva e vice-versa?

Poesia sobre poesia, desse modo, reflete a busca de identidade de um poeta e a crise

da linguagem que lanou os criadores modernos desde o incio do sculo vinte numa atividade

transgressora de renovao artstica. Mais tarde esta atividade seria potencializada pelos

movimentos de vanguarda, como o futurismo, o dadasmo e o surrealismo, entre outros, e no

Brasil se pautaria pelo rompimento com os cnones normativos do passado a partir da Semana

de Arte Moderna de 1922. Posteriormente, as vanguardas brasileiras, especialmente os

concretistas, nas dcadas de 1950 e 60, respondendo s demandas da nova sociedade

tecnolgica, pretenderam dar o golpe de misericrdia tanto no antigo quanto no novo cnone

anunciando unilateralmente a abolio do verso. sob o peso dogmtico das teorias literrias,

da massificao da sociedade moderna, da fragmentao da linguagem e da perda de prestgio

do poeta que Poesia sobre poesia surge para falar de sua perplexidade diante do esvaziamento

da palavra lrica.

O livro de ensaios O desemprego do poeta, de 1962, a primeira tentativa de

Affonso Romano de SantAnna compreender esse quadro. A crise da poesia

contempornea, teorizava, est essencialmente fundada na funo da poesia5. A expresso

lrica deixara de ser funcional na medida em que estava sendo suplantada por meios mais

eficazes de comunicao. O papel milenar do poeta como vidente, sbio, legislador,

historiador e, ultimamente, heri romntico foi assumido pelos artistas de rdio, pelo cinema,

pelos mitos do futebol e profissionais do jornalismo. O poeta estava no olho da rua6.

/!

,

Um dos eixos temticos de Poesia sobre poesia, treze anos depois das reflexes de O

desemprego do poeta, viria a ser precisamente a angstia que essa disfuno social da lrica

teria acarretado ao poeta mineiro. Sintomaticamente, um de seus poemas chama-se Poesia

indicial: o (des)emprego do poeta. Acuado pela aflio da ausncia de trnsito social da

poesia, perscrutando a nova sensibilidade da civilizao moderna, e enredado pela teia de

complicados modelos tericos que buscavam compensar racionalmente a perda do prestgio

da poesia, Affonso Romano de SantAnna sentiu-se constrangido a compor um balano de

suas relaes com a modernidade em geral e, no crculo domstico, com as vanguardas dos

anos de 1950 e 60. Apesar do tom pessimista do ensaio sobre o desemprego do poeta e das

cornetas apocalpticas que soam ao longo do texto, o autor encerra sua anlise com um acorde

de cristalina esperana. A poesia, neste processo demissionrio, teria se tornado muito mais

poesia, limpou-se de aderncias, da impureza funo para ser.7 Por um lado a

poesia fracassara como funcionalidade coletiva, mas, por outro, alcanara uma vitria sobre si

mesma e era um campo novo de pesquisa da linguagem e da essncia do homem.

A teoria se traduz na prtica no primeiro livro de poemas de SantAnna, Canto e

palavra, de 1965, obra que sugere a possibilidade de existir na literatura brasileira lugar para

o humanismo, no seu sentido metafsico, que se recusa a cindir-se entre a pulso vital que

sujeita o poeta experincia no mundo e a traduo desta vivncia na forma da mensagem

potica. A palavra devia encontrar um meio de filtrar a vida, o canto, na forma objetiva do

poema, a despeito de sua especificidade de artefato lingstico, como queriam as vanguardas,

que existe independente de qualquer expresso biogrfica. Embora sob o impacto das teorias

do concretismo, que via no poema um objeto, Canto e palavra se aproxima com fina ironia

dos novos modos de ser da lrica. Tal aproximao se d mediada pela concretude do corpo

em si mesmo realizado como o objeto mais arcaico do conhecimento: Vamos, corpo,

inteire-se, / relate-me o que s8. A lgica simples: sem corpo no h vida, sem vida no

existe poesia.

Em Canto e palavra, primeiro existe a conscincia do prprio corpo, depois a

experincia do corpo do outro: Eu sei quando te amo: / quando com teu corpo eu me

confundo9. A pesquisa da concretude nos poemas de 1965 se estende depois para a

corporalizao de outros objetos como o edifcio, a casa, a sala, a mesa, o telefone, o relgio...

9 1!

/e para a objetivao do prprio cdigo lingstico: A palavra / o corpo / onde ostento / o

que secreto10. O movimento do poeta de se avizinhar, como no pndulo, do corpo visto como

um objeto, contm a sinergia suficiente para o lanar onde o corpo tambm a sntese

primria do canto e da palavra.: O corpo / meu mito / predileto, / a palavra que mais uso / e

objeto / mais completo11. O afastamento do poeta do modo de ser da teoria concreta e o

aprofundamento da pesquisa sobre a dicotomia canto-e-palavra atingiriam anos depois em

Poesia sobre poesia outro estgio de discusso em que o problema se concentra no desnvel

epistemolgico entre a teoria e a prxis potica.

Alm desses dois livros, O desemprego do poeta e Canto e palavra, o autor de

Poesia sobre poesia publicou em 1972, como resultado de sua tese de doutorado pela

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro Drummond, o gauche no tempo,

referncia obrigatria obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade12. A idia da

subsistncia de um projeto de longo curso, pautado pela dramatizao do temporal do poeta

de A mquina do mundo, uma premissa com a qual o prprio SantAnna trabalharia ao

longo de sua trajetria de poeta. O conjunto da obra de Drummond, segundo o ensaio de

SantAna, encontra-se organizada por meio de um logos projetado num continuum a figura

do poeta gauche, prottipo do mundo moderno13, que desce aos infernos do tempo para

construir entre runas, obra aps obra, a sua prpria identidade no mundo moderno. Tambm

SantAnna, em Poesia sobre poesia, fragmentado, desce aos infernos da modernidade na

tentativa de renascer das cinzas de sua identidade partida. Esta relao entre mestre e

discpulo no parece inteiramente fortuita. O escritor e crtico de literatura Wilson Martins

chegou a afirmar que SantAnna poderia ser o grande poeta brasileiro que obscuramente

espervamos para a sucesso de Carlos Drummond de Andrade14. Sucesso diversa do

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.sentido monrquico de rei morto, rei posto15, conforme a interpretao que o prprio

SantAnna daria, mais tarde, s palavras do crtico, mas sucesso no sentido de continuidade

de uma linhagem na qual o autor de Claro enigma pontifica como um autor com rara

vocao clssica16, disfarado das mscaras de Jos, Carlos e Carlito, entre outras.

Considere-se, nesse passo, que a possibilidade de se vir a encontrar mais de uma persona em

Poesia sobre poesia tampouco deve ser descartada, a nosso ver, porquanto, Affonso Romano

de SantAnna se desdobra seguramente em pelo menos duas hipstases heteronmicas: o

professor-crtico e o poeta ou, em outros termos, o acadmico, com sua herana terica, e o

poeta com sua vivncia lrica.

As crticas Poesia sobre poesia no momento em que foram publicadas apenas

tocaram, mesmo que s vezes com grande intuio, a superfcie do projectum literrio que o

livro, como um divisor de guas, parecia refletir. Remy Gorga, na revista Veja de janeiro de

1976, comentando o livro, chega a mencionar a bem-sucedida realizao de seu objetivo-

projeto17 de inventariar e investir contra as vanguardas para recair, sarcasticamente, feliz

nos sonetos. Marclio Farias, em crtica no Jornal de Braslia, identifica em Poesia sobre

poesia o mergulho no j pensado e no que falta pensar18, isto , antevises do processo

histrico da literatura. Em sua crtica no Estado de Minas, Consuelo Albergaria, por seu

turno, reconhece no trabalho do poeta mineiro uma nova proposta19 em que autor e texto

se apresentam como um laboratrio de auto-conhecimento [sic] e pesquisa. Deixam os

comentaristas do volume, pela natural falta de maior perspectiva histrica, de precisar o

alcance do projeto de reviso da arte da primeira metade do sculo passado a que o poeta

estava dando continuidade. Jlio Castaon Guimares, por exemplo, em sua resenha na

Tribuna da Imprensa de dezembro de 1975, menciona de passagem que a reflexo de

SantAnna incide tambm sobre o trajeto (...) do prprio poeta20 e Cludio Murilo Leal, no

Jornal do Brasil do mesmo ms e ano observa que s o futuro dir o resultado 21 da luta de

SantAnna entre a inocncia e a conscincia.

/ !

9

Talvez tenha chegado a hora de se tentar preencher esta lacuna. O conjunto de

poesias e notas do livro de 1975 ainda est carecendo, a nosso ver, de um estudo

pormenorizado. A reabilitao de Poesia sobre poesia como um documento de poca e uma

obra de experimentao lrica, que, ademais, foi um grande acerto de contas do poeta consigo

mesmo, com as vanguardas, e com a modernidade em geral, talvez ajude a compreender

melhor o que foram os anos de criatividade, manifestos e exclusivismos que caracterizaram a

poesia brasileira de meados do sculo passado. No texto Poeta do nosso tempo, comentando

Poesia sobre poesia, o crtico de literatura Wilson Martins observa: Affonso Romano de

SantAnna j viveu e escreveu suficientemente para desiludir-se das sucessivas vanguardas

literrias e da sua implcita demagogia autoritria22. Entender esta obra difcil, escrita talvez

no crepsculo do Modernismo, ajuda a tambm entender os extremismos desse tempo e

explica, em parte, o grande gesto de despedida do poeta: Adeus irmos, adeus! Estou

tomando o caminho da floresta23.

Poesia sobre poesia sinaliza para um caminho de completa autonomia na lrica

affonsina: o projeto da intransfervel busca pessoal, vale dizer solitria, de uma poesia sem

exclusivismos estticos. Obra de fatura labirntica, primeira vista, distancia-se da soluo

semitica que as vanguardas brasileiras encontraram para o problema da poesia no mundo

contemporneo. Cifra-se por uma diferente resposta de experimentao lrica em que o verso

valorizado, ao passo que, paradoxalmente, a prosa crtica se oferece apreciao do leitor

nos seus rodaps. A estrutura heterclita das composies exegticas e a rara articulao de

seus discursos insinuam que se pode estar diante de um exerccio lingstico que o poeta

reconheceu como a sua semana de arte moderna particular24. Os vnculos sentimentais e

tericos com as vanguardas brasileiras, especialmente o concretismo, foram rompidos

oficialmente com a publicao de Poesia sobre poesia e, at os dias de hoje, SantAnna

mantm com aqueles poetas uma controvrsia histrica.

Affonso Romano de SantAnna, alis, acompanhou de perto, ativamente, as vrias

fases dos movimentos renovadores da esttica na poesia brasileira desde meados dos anos de

1950. Integrante de movimentos estudantis, ajudou a viabilizar em 1963 a Semana Nacional

de Poesia de Vanguarda de Belo Horizonte na UFMG. Neste mesmo ano fundou o Centro de

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Cultura Popular da Unio Nacional dos Estudantes, a Une, na capital mineira. Transfere-se

em seguida para Los Angeles, nos Estados Unidos, onde fica de 1965 a 67, leciona literatura

brasileira na Universidade da Califrnia (UCLA) e, depois, em 1968, aceita o convite para

participar durante nove meses do Writing Program, o Programa Internacional de Escritores

em Iowa. Os primeiros poemas de Poesia sobre poesia comearam a ser esboados nos

Estados Unidos.

Os anos de 1960 foram um tempo de maturao e reflexo para o poeta e professor

SantAnna. Na dcada seguinte, anos de intensa atividade acadmica, de volta ao Brasil,

passou a dar aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no ano de 1973 foi

convidado a dirigir o Departamento de Letras da Pontifcia Universidade Catlica (PUC/RJ).

Neste mesmo ano trouxe ao Rio o filsofo francs Michel Foucault, assumiu o cargo de editor

do Jornal de Poesia do Jornal do Brasil e, no mesmo ano, organizou os encontros Exposia I e

II, no Rio de Janeiro e Curitiba, evento que reuniu, somente no Rio de Janeiro, mais de 600

poetas e artistas de variadas tendncias, entre eles Joo Cabral de Melo Neto. Quando Poesia

sobre poesia saa do prelo, em 1975, Affonso Romano de SantAnna, com a idade de 38 anos,

j era um intelectual respeitado na cena cultural brasileira. Muito jovem, desde meados da

dcada de 1950, convivera com os movimentos que haviam transformado a poesia nacional

numa ponta avanada do experimentalismo com a linguagem. Dialogara com o concretismo, o

neoconcretismo, o grupo Prxis, havia colaborado com as revistas de vanguarda Tendncia,

Violo de Rua I, II e III, e tinha sido includo entre 1960 e 1968 em vrias antologias de

poetas brasileiros.

Essa intensa atividade cultural aconteceu durante o perodo mais duro do regime

militar brasileiro, os anos de chumbo do governo Mdici, perodo marcado pela

exacerbao da censura aos meios de comunicao e pela represso poltica institucionalizada

do DOI-CODI Departamento de Operaes e Informaes e Comando de Operaes de

Defesa Interna. O Estado brasileiro governava por instrumentos de exceo como o AI-5 e

seus argumentos eram a intolerncia, a tortura e o exlio de inimigos polticos, de intelectuais

e artistas. No pau oco do milagre econmico se ocultava o endividamento externo. Vivia-se

o clima da propaganda poltica totalitria Brasil, ame-o ou deixe-o. Foi nesse clima de

autoritarismo e exceo, guerra fria e polarizaes que surgiu uma obra que, por sua conta,

tambm questionava os exclusivismos estticos Poesia sobre poesia.

1

A fase de engajamento social da poesia de Affonso Romano de SantAnna nos

anos posteriores de distenso do regime, como se sabe, ganhou bastante visibilidade. Poemas

como Que pas este?, do livro homnimo de 1980, foram publicados nas pginas polticas

de jornais de circulao nacional e o volume de poesias Poltica e paixo (1984) colocava o

dedo na ferida de temas que ainda eram tabus na cena brasileira, como a questo dos

desaparecidos polticos e o episdio do atentado bomba no estacionamento do Riocentro

durante um show de msica popular. Como cronista, SantAnna substituiu, em 1984, a Carlos

Drummond de Andrade em sua coluna no JB e atualmente publica suas crnicas

semanalmente nos jornais O Globo, Estado de Minas e Correio Braziliense. Exerceu, como

executivo, durante seis anos, o cargo de presidente da Biblioteca Nacional (1990-96), onde

instituiu o prestigiado Programa de Promoo da Leitura Proler, o Sistema Nacional de

Bibliotecas e criou a revista multinacional Poesia sempre.

Os 40 anos de produo de prosa e poesia, comemorados por SantAnna em 2005, e

os 30 anos de publicao de Poesia sobre poesia, completados tambm em 2005, marcam

uma trajetria de quase meia centena de livros de poemas25, ensaios e crnicas, alm de

antologias de versos e de prosa publicados em parceria com outros autores. Uma de suas

obras crticas mais recentes, Desconstruir Duchamp: arte na hora da reviso, publicada em

2003, reedita o lado polmico do mineiro com uma srie de textos fulminantes sobre a funo

das artes plsticas nas ltimas dcadas. O autor prope no livro uma reviso de valores nas

artes visuais, sem medo de enfrentar alguns cones que esto no altar da modernidade e da

ps-modernidade26.

Por isso consideramos relevante aferir at que ponto Poesia sobre poesia importa

para demarcar a tendncia do autor, como poeta e intelectual, em direo a uma poltica de

reviso das respostas de seu tempo a uma nova sensibilidade moderna. Da a premncia de

realizar, entre outros motivos, um corte histrico neste tomo crucial no projeto potico e

crtico de SantAnna. Temos conscincia de que nosso estudo no exaure o problema:

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$Revelar um aspecto da obra de um autor amide significa ignorar ou deixar na sombra vrios

outros 27. Em compensao, tem-se, por outro modo, a concentrao e o aprofundamento

necessrios para que se realize uma correta etiologia das origens do pensamento no-

expositivo do poeta mineiro a partir dessa obra crucial em sua trajetria de escritor, obra,

alis, que nunca renegou de estar num constante processo de reconstruo. o que demonstra

o fragmento de um dos poemas de seu prximo livro, Sobre os rios da Babilnia, ainda no

prelo, intitulado Pasrgada:

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[email protected]

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Escrito sob as impresses de uma viagem ao Ir, no Oriente Mdio, em 2004, o

trecho do poema citado, revisitando concreta e simbolicamente a Pasrgada do outro poema

de Manuel Bandeira, sintetiza o lirismo desassombrado de um percurso que nasceu nas runas

de uma obra dilacerada como Poesia sobre poesia e foi sendo reconstrudo pelo poeta sobre

os escombros do passado. A conjugao dos verbos no pretrito imperfeito buscasse,

fracassasse, edificasse anda pesadamente sobre os versos, como sugerindo o esmagamento

da poesia, e penetra com sua dubiedade o itinerrio percorrido pelo poeta at a leveza do

no-lugar da poesia.

Para dar conta da viso de mundo que prevalece em Poesia sobre poesia

demarcamos em trs partes nosso trabalho. O primeiro segmento se destina a revisar

sumariamente as principais caractersticas do processo scio-cultural conhecido vagamente

pela termo modernidade; o segundo segmento prope, para posterior aproveitamento

instrumental na anlise da linguagem potica de Poesia sobre poesia, uma reflexo sobre a

noo genettiana de paratexto; e por ltimo, o terceiro segmento retira motivao e apoio do

material trabalhado nos captulos anteriores para empreender a anlise do livro.

No primeiro captulo sobre a problemtica da modernidade na literatura e poesia

universal e brasileira recorremos a vrios trabalhos. Em sntese, consultamos o ensaio da

professora Ana Balakian, O simbolismo, com a finalidade de entender as mudanas na

literatura do sculo dezenove, incluindo a os poetas franceses como Baudelaire, Rimbaud,

Verlaine e Mallarm, e depois servimo-nos de uma srie de autores nacionais e estrangeiros

que se dedicaram ao estudo das transformaes que alteraram a noo de literatura no sculo

vinte. Entre eles citamos o texto de Walter Benjamn, A modernidade e os modernos, e o

ensaio coletivo organizado por Malcolm Bradbury e James McFarlane intitulado

Modernismo: guia geral 1890-1930. Entre os estudos clssicos sobre a modernidade

escolhemos a obra de Hugo Friedrich, Estrutura da lrica moderna e O castelo de Axel de

Edmund Wilson. Os estudos dos tericos Antoine Compagnon, especialmente Os cinco

paradoxos da modernidade, e Terry Eagleton, Teoria da literatura, tambm foram de grande

valia para o levantamento da problemtica da literatura e da arte moderna.

Encontramos elementos histricos importantes para o aprofundamento do tema em

Vanguarda europia e modernismo brasileiro, de Gilberto Mendona Teles, tambm em

Histria da literatura ocidental de Otto Maria Carpeaux, e igualmente em Histria da

inteligncia brasileira de Wilson Martins. Para aprofundar certos vieses da arte moderna,

#como a metalinguagem e a conscincia crtica, procuramos apoio em autores como Affonso

vila, O modernismo; Joo Alexandre Barbosa, A metfora crtica; Denise Guimares, A

poesia crtico-inventiva; Samira Chalhub, A meta-linguagem; e Roman Jakobson, Lingstica

e comunicao. Consultamos ainda Histria das literaturas de vanguardas, de Guillermo de

Torre, e os trabalhos dos irmos Campos, Augusto e Haroldo, e Dcio Pignatari, para

consolidar informaes acerca da atividade das vanguardas. Trabalhos tericos como Tudo

que slido desmancha no ar: a aventura da modernidade, do escritor americano Marshall

Berman, e Altas literaturas, de Leyla Perrone-Moiss, foram igualmente teis para a

compreenso do problema da modernidade no sculo passado.

No segundo captulo, para encontrar fundamentao terica a uma anlise das notas

que se encontram na mencionada obra de Affonso Romano de SantAnna, recorremos

basicamente a Paratexts: thresholds of interpretation, traduo para o ingls de Seuils, obra

do terico francs Grard Genette, tendo em vista que at o presente no existe traduo para

o idioma portugus. O texto de Genette trata de descrever certas categorias acessrias do

discurso que acompanha o texto publicado em livro: nomes ou pseudnimos dos autores,

ttulos, dedicatrias, epgrafes, notas, prefcios, sumrios, apndices, posfcios e outras

convenes editoriais que veiculam uma gama variada de informaes localizadas nas capas,

orelhas, pginas introdutrias e na periferia do prprio texto. Para este conjunto de elementos

com o papel de mediao entre o leitor e o texto, Genette cunhou um neologismo

paratexte: paratext: paratexto. Os paratextos podem ser autorais, aqueles de responsabilidade

do autor, ou editoriais.

A primeira vez que me deparei com o conceito de paratexto, ainda no curso de

especializao Leitura de mltiplas linguagens da Pontifcia Universidade Catlica do Paran,

aconteceu durante a leitura das conferncias Seis passeios pelos bosques da fico de

Umberto Eco. O terico italiano, analisando o Gordon Pym de Edgar Allan Poe, refere-se

palavra e a explica nos seguintes termos em nota de rodap: Segundo Grard Genette, Seuils

(Paris : Seuil, 1978), o paratexto consiste em toda a srie de mensagens que acompanham e

ajudam a explicar determinado texto mensagens como anncios, sobrecapa, ttulo,

subttulos, introduo, resenhas, e assim por diante29. A natureza dbia do tema, a variedade

de discursos furtivos que propicia, quando confrontado com a prtica dos autores, despertou

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)vivamente meu interesse pela matria. Naquela ocasio desenvolvi um trabalho monogrfico

com vrios estudos de caso. Parte deles foi aproveitada nesta dissertao. Para ir adiante,

stricto sensu, faltava-me apenas uma obra de peso e esta me foi apresentada pelo professor

dison Jos da Costa, orientador do mestrado junto ao curso de Letras da Universidade

Federal do Paran: era Poesia sobre poesia de Affonso Romano de SantAnna e suas notas de

fim de pgina. Notas so paratextos. O caso se tornou mais atrativo, apesar do hermetismo

aparente do texto, na medida em que a incidncia de notas no gnero lrico algo raro e, por

isso, preciso dizer ainda que nem todos os poemas de Poesia sobre poesia so poemas com

paratextos, mas sua presena to forte no conjunto do livro que opera um contgio nos

poemas desprovidos de notas, como se o leitor ficasse sobressaltado com sua ausncia.

A partir de uma anlise cuidadosa, ficou bvio que um dilogo, que parecia

importante, permeava os poemas e as notas exegticas de Poesia sobre poesia. Somente

depois de vrias pesquisas foi possvel perceber que seria exeqvel conduzir uma leitura, no

terceiro captulo deste trabalho, que levasse em conta a interdependncia sistmica dos versos

com suas notas. Ao que tudo indicava, a presena de paratextos na periferia de tantas

composies pertencia a uma estratgia mais complexa que meramente a de ajudar a

explicar o texto. Havia um carter de episteme na ocorrncia das notas. Elas estavam

inseridas em um contexto de enfrentamento e quebra dos cdigos vanguardistas, por assim

dizer, e realavam a escolha de uma poesia discursiva na contramo dos manifestos

concretistas. Porm, observvamos que no se trataria to somente de uma ruptura esttica,

embora esta fosse um componente implcito, tratava-se tambm da escolha de um campo tico

que se impunha atravs do conflito existencial do terico e do poeta que conviviam na

personalidade do autor. Estas personas lricas, onde se diluem traos biogrficos, ao tempo

em que se penitenciam, promovem um ajuste de contas com a modernidade e com o

autoritarismo exclusivista de seus manifestos. Parece compreensvel que as notas, com seu

valor de ensaio, tenham jogado um papel to importante na realizao do livro. Mas no s

isso. Fomos levados a crer que a conjuno de texto e paratexto, em Poesia sobre poesia,

talvez produzisse um objeto hbrido na mente do leitor que se perderia caso na leitura ele

exclusse um dos plos. De tal sorte, na experincia da recepo, o paratexto poderia se

textualizar.

At agora existem duas verses para Poesia sobre poesia: a primeira de 1975, da

Imago, e a segunda publicada em 2004 pela editora LP&M juntamente com as Poesias

,reunidas de Affonso Romano de SantAnna. Tendo em conta algumas falhas, como troca de

nmeros remissivos e a supresso tipogrfica de notas no poema A educao do poeta e de

outros hebreus na corte de Nabucodonosor, optamos por trabalhar com a edio mais

recente, revista e revisada. Alm disso, o poeta decidiu incorporar a maior parte de um

conjunto de poemas publicados inicialmente em antologias, jornais e revistas, e depois

reunidos com o ttulo de Poesia (inter)calada na primeira edio, de forma definitiva

estrutura de Poesia sobre poesia, que desse modo tambm passou a ter uma edio ampliada

nas Poesias reunidas .

A primeira edio do livro de SantAnna, que se encontra fora de catlogo, reunia

trs volumes: a parte 1, intitulada propriamente Poesia sobre poesia; a parte 2, Poesia

(inter)calada; e a parte 3, Canto e palavra, esta uma reedio do livro que inaugurara a

atividade de SantAnna como autor de poesias publicado em livro. Na edio de 2004, como

referido, Poesia (inter)calada, foi incorporada com cinco cortes ao corpo de Poesia sobre

poesia que, assim, passou a ter no uma mas duas sees Poesia (inter)calada, com nove

poemas, e O homem e a letra, com os mesmos treze poemas da primeira edio. Total: vinte

e dois poemas.

As composies que foram eliminadas de Poesia (inter)calada so as mais antigas,

aquelas produzidas entre 1959 e 1965, a saber: Poema para Medgar Evers, Poema

acumulativo, A pesca, Pedra-poema pedreira do Paraibuna e O muro, a flor, as bestas

e a cano. Permaneceram os poemas escritos entre 1966 e 1968: Empire State Building,

Poema Del mio Che, Colocao de bombas e pronomes, Notcias montadas na TV,

Depoimento, Poema estatstico, Aritmtica, Four letters words e For the time

being. So poemas que revelam uma orientao bem mais poltica e social, com foco na

geopoltica da guerra fria, onde as idias de luta, runa e represso j esto presentes. Existem,

entre estes poemas, algumas experincias que lembram o concretismo. Esse conjunto de

poemas parece servir de ponte entre o primeiro livro de SantAnna, Canto e palavra, mais

intimista, e Poesia sobre poesia, quando o acerto de contas com as vanguardas e consigo

mesmo explode com virulncia.

Os textos bsicos sobre os quais foram concentrados os principais esforos de anlise

de Poesia sobre poesia esto segmentados na seo O homem e a letra, segunda e mais

importante parte da obra, e so os poemas com notas exegticas. A perspectiva de uma

abordagem que levasse em conta os elementos paratextuais parece colocar sob nova luz a

/recepo do texto e de suas relaes com a poesia e com as teorizaes que marcaram a arte

na modernidade. Os outros poemas do livro tambm representam importante papel no

conjunto e no so deixados de lado, mas o corpus efetivamente selecionado para este

trabalho consiste nos cinco poemas com notas de rodap na seqncia em que aparecem na

edio da Poesia reunida do autor e so os seguintes: O homem e a letra; A morte cclica

da poesia, o mito do eterno retorno e outros problemas multinacionais; Poema didtico em

trs nveis; O poeta se confessa enfastiado de sua profisso; e O leitor e a letra. O poema

A educao do poeta e de outros hebreus na corte de Nabucodonosor, embora se apresente

sem as notas convencionais, para todos os efeitos considerado dentro da srie paratextual,

por razes que se justificam na medida em que existe uma notao, em texto potico, que se

configura no interior da composio e vai sendo ditada por uma das vozes do poema.

Consiste, pois, numa pea-chave, onde o poeta realiza uma aparente fuso entre a poesia e o

que seria uma exegese. Os poemas sem as notas exegticas so os seguintes: Sou um dos

999.999 poetas do pas; A letra e o tempo; O poeta realiza a teoria e a prtica do soneto;

Depois de ter experimentado todas as formas poticas; Teorrias; Poema conceitual:

teoria e prtica; e Poesia indicial: o (des)emprego do poeta.

Os poemas de Poesia sobre poesia so um divisor de guas na potica de Affonso

Romano de SantAnna. Determinam a tomada de conscincia do poeta em relao ao seu

projeto lrico pessoal. Definem um status de autonomia na cena literria brasileira.

Materializam sua trajetria na busca pelo equilbrio entre o canto e a palavra, j esboada

no livro anterior, e depois atualizada pelo confronto do terico e do poeta atravs da prosa e

dos versos de Poesia sobre poesia. Juntamente com A grande fala do ndio guarani, o terceiro

livro de poemas do autor, formam o ponto de mutao de uma pesquisa em torno da herana

potica moderna a partir, neste ltimo caso, da perspectiva da cultura do dominado. Em

Poesia sobre poesia, o poeta se coloca a cada verso, e, por conseqncia, ao leitor, o

shakespeareano impasse, encontrado muito antes, no ensaio O desemprego do poeta30, do ser

ou no ser da poesia moderna.

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Captulo I

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A partir de Baudelaire, a poesia se configura, na opinio dos especialistas, como um

construto lingstico. Escrever passa a ser uma operao de clculo e de rigor formal. Ao que

parece, em certas instncias, como quer Balakian, a lrica se converte numa atividade

declaradamente intelectual51. Baudelaire nunca teria se rendido, em sua poesia, mera

confisso do ego. A temtica de sua lrica, nesse sentido, se aparta do romantismo. Os

fundamentos da potica moderna, segundo vrios autores, poderiam ser reduzidos a uma

sntese seminal: Baudelaire. Depois dele, no se espera mais do leitor, hypocrite lecteur52,

uma passividade comprometida com o passado.

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O resultado dessa viso crtica consistiu no spleen, no tdio impotente do artista diante

da realidade, no sentimento de ennui que atravessando o tempo chegar a repercutir na lrica

brasileira de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Joo Cabral de Melo Neto e

Affonso Romano de SantAnna.

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#23435

H uma condio visionria, simblica, hermtica, na poesia dos primeiros modernos

da segunda metade do sculo dezenove. Rimbaud e Mallarm contriburam enormemente para

este marco. Os surrealistas, herdeiros de Rimbaud, sustentaram nas primeiras dcadas do

sculo vinte que a arte tambm devia se unir pesquisa cientfica para investigar os

fenmenos do inconsciente. O algico e o lgico, segundo esta concepo, estariam

associados na mesma experincia esttica.

Esta dicotomia, aparentemente irreconcilivel, entre a festa do intelecto de Valry e a

derrocada do intelecto de Breton, seria minimizada por Friedrich110, para quem tais

contradies so apenas aparentes. Razo e pathos reconciliados, segundo este autor, seriam

uma rota de fuga insuportvel mediocridade mundana. Essa via de mo dupla,

paradoxalmente, traduz-se numa vocao crtica mais permevel ao novo e que, sob diversas

influncias, encontra na realidade outros nveis de interpretao. mesmo plausvel que

ambas as foras a pr-lgica e a lgica sempre tenham coexistido de forma diluda na

cultura ocidental. Faltava apenas verbalizar seus influxos. Portanto, poderamos considerar

que a conscincia moderna, sob alguns aspectos, ps-lgica, isto , capaz de se reconhecer

tanto no clculo quanto nos impulsos primitivos que se movem nos nveis inconscientes da

mente. Como veremos no terceiro captulo deste trabalho, o embate entre razo e intuio ser

um dos eixos em que se desenvolvem os poemas de Affonso Romano de SantAnna em

Poesia sobre poesia.

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O elemento mediador entre o racional e o arcaico, entre o crtico e o mgico, para

Friedrich, a fantasia, pela qual o poeta deforma a realidade numa percepo onrica,

decompondo e recompondo o mundo, durante essa operao, a seu bel prazer. Essa mescla j

pode ser detectada nos parasos artificiais de Baudelaire. O poeta francs escreveu

longamente sobre os estados alterados de conscincia provocados pelo haxixe. Freud, pouco

depois, fez pesquisas com cocana. Mais tarde, nos anos de 1960, o escritor Aldous Huxley

escreveu um livro chamado As portas da percepo, entre outros, documentando seus

experimentos com o cido lisrgico, o LSD, e, ainda nos anos 60 e 70, Carlos Castaneda

ganhou notoriedade mundial descrevendo prticas xamnicas com os alucingenos

encontrados no peiote (lophophora williamsii) e na erva do diabo (datura inoxia).

O poeta teve liberdade para ser um arquiteto dos prprios sonhos, porm, o cdigo

ordinrio da lngua no se aplicava mais, pois as palavras dessa nova esttica deixavam de ter

referncia fora do poema. Uma lrica de tal feio guarda semelhanas com os sonhos, onde o

tempo e espao deixam de ter sentido e em que o grotesco e o sublime se tocam sem causar

espanto. As figuras de linguagem e as metforas ganharam as cores do imaginrio de cada

poeta em particular.

As vrias modernidades que atravessaram o sculo vinte, apesar de tantas

contradies, entre razo e emoo, parecem beber em fontes mais ou menos comuns, tais

como: a necessidade crescente de ruptura; desejo de esvaziar as representaes da realidade,

material ou cultural; a tendncia para a abstrao; e a busca obsessiva de um estilo que seja

inconfundvel, ainda que impessoal. O eu-lrico separa-se do eu emprico e a voz no poema

no necessariamente a voz do autor. O poema busca a novidade, veste um figurino prprio,

chama a ateno para seu aspecto formal e amplia seu raio de ao na folha em branco a

comear pelo uso semitico dos espaos que separam os versos entre si. O poema, mais

visual, muda a relao do leitor com a palavra escrita. As letras ganham peso no sentido que

se d palavra: os tipos no papel tm peso sgnico. Os sinais diacrticos e a presena ou

ausncia de pontuao revelam ou ocultam intenes. A nova versificao transgride o

cnone, a rima e a mtrica: a linha pode ser longa como a extenso da folha, o verso pode ser

curto como uma exclamao, pode ainda ser livre ou branco. H muitos ritmos. A sintaxe ora

suprime o substantivo, ora o verbo, e at as preposies. No h obrigatoriedade de preciso

lgica, sinttica nem semntica.

)

Entretanto preciso ter em conta que a forma, mesmo sendo engenhosa ou indita,

no o que necessariamente determina o perfil da poesia moderna. O poeta Carlos

Drummond de Andrade, por exemplo, fez sonetos. Mas algo insidioso neles trai a matriz

clssica:

Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difcil de ler.111

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