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A DISTRIBUICAO DOS BENEFICIOS DA ESTABILIDADE DOS · PDF file 1 A DISTRIBUIÇÃO DOS BENEFÍCIOS DA ESTABILIDADE DOS PREÇOS AGRÍCOLAS ENTRE ESTRATOS DE RENDA Silva, César R. L

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A DISTRIBUIO DOS BENEFCIOS DA ESTABILIDADE DOS PREOS

AGRCOLAS ENTRE ESTRATOS DE RENDA

Silva, Csar R. L. da (Instituto de Economia Agrcola, Brasil)

1. Introduo

Na literatura h um razovel reconhecimento das vantagens da estabilizao dos

preos agrcolas na alocao de recursos. Mesmo os que identificam distores na

implementao de polticas com esse objetivo, como LIPSEY & STEINER (1966)

reconhecem a importncia do papel do estado. J do ponto de vista distributivo, a

controvrsia grande quanto s vantagens e desvantagens da interveno do governo

objetivando estabilizar preos agrcolas.

Iniciando um longa tradio de anlise que considera funes de oferta e

demanda lineares e distrbios aleatrio aditivos (deslocamentos paralelos ), WAUGH

(1944) demonstra que o consumidor se beneficia num regime de preos flutuantes, se a

alternativa for a estabilizao pelas mdias aritmticas. Em seu trabalho assume

variaes estocsticas da oferta, frente demanda estvel. Posteriormente OI (1961)

argumenta que a instabilidade uma virtude, e que, com variaes originadas da

demanda, os produtores operando em concorrncia perfeita tambm ganham com o

mercado funcionando livremente.

MASSEL (1969) integra as duas anlises numa nica estrutura, ou seja,

considera flutuaes da oferta e demanda. Sua principal concluso que, se a utilidade

marginal da moeda for constante frente variao do preo do produto agrcola

analisado, e a demanda for negativamente inclinada, os beneficirios da estabilizao

so definidos pela origem da instabilidade. Se for provocada por mudanas na

demanda, os consumidores ganham com a estabilizao, se a variabilidade dos preos

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for provocada por mudanas aleatrias na oferta, os produtores aumentam seu excedente

com a interveno pblica no mercado.

SAMUELSON (1972) entra no debate criticando WAUGH (1944) e OI (1961)

ao demonstrar que seus resultados no podem ser examinados ao mesmo tempo. Para

defender a estabilizao de preos agrcolas, generaliza o modelo de MASSEL (1969)

introduzindo variaes simultneas da oferta e demanda.

Trabalhos mais recentes, como o de TURNOVSKY (1976), admitem funes de

oferta e demanda no lineares e distrbios estocsticos multiplicativos, concluindo que a

distribuio dos benefcios entre consumidores e produtores no depende da fonte da

instabilidade, mas da elasticidades das curvas de oferta e demanda. Se a demanda for

elstica e a oferta inelstica, os produtores se beneficiam da estabilidade, e perdem no

caso inverso. JUST; HUETH & SCHIMITZ (1982) abordaram esse problema numa

economia fechada em que a demanda no linear e a oferta, linear, varia

aleatoriamente. Nesse caso, dependendo do grau de no-linearidade da demanda, o

efeito da estabilizao pode ser negativo para os produtores. Note-se que esse resultado

contraria o obtido por MASSEL (1969).

Os modelos de avaliao dos efeitos distributivos da estabilizao de preos at

agora comentadas foram pensados para economias estveis, nas quais havia visveis

diferenas entre o comportamento dos preos agrcolas e dos preos dos outros setores,

notadamente o industrial. Pode-se dizer, ento, nesse caso, que a variabilidade dos

preos agrcolas um problema localizado.

O que acontece com os preos agrcolas em economias cronicamente

inflacionrias, como era o caso de algumas economias latino-americanas at o final dos

anos 80, e da brasileira, em particular, at meados de 1994, quando foi implementado o

plano Real?

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O objetivo desse artigo responder essa pergunta, da seguinte forma: testar a

hiptese de que a reduo da variabilidade dos preos agrcolas promovida pela

estabilizao econmica verificada no Brasil a partir de julho de 1994, quando entrou

em vigor o Plano Real, beneficiou os consumidores. Essa hiptese vai ser testada em

duas etapas:

a . estudo da varincia dos preos de bens agrcolas pagos pelos consumidores

antes e depois do Plano Real;

b . estimativa dos efeitos distributivos da estabilizao dos preos agrcolas

entre os consumidores.

O artigo assim organizado: depois dessa introduo h um breve discusso das

relaes entre agricultura e inflao. Em seguida, apresentada a metodologia e os

dados. Os resultados e consideraes finais ocupam os dois ltimos itens.

2. Agricultura e inflao

Do ponto de vista terico, os modelos de inspirao estruturalista so os que

explicitamente relacionam inflao com preos agrcolas. Na explicao estruturalista

clssica a inflao decorrente do desenvolvimento desigual dos setores econmicos

agricultura e atividades urbanas. Durante o processo de industrializao o crescimento

insuficiente da produo agrcola, que no acompanharia a produo industrial,

pressionaria os preos de matrias primas, e especialmente dos alimentos, reduzindo o

salrio real dos trabalhadores urbanos. Quando estes obtivessem reajustes nominais de

salrios para compensar, mesmo que parcialmente, as perdas sofridas, os custos da

economia se elevariam, com o conseqente aumento do nvel geral de preos. Nesse

tipo de modelo o setor agrcola considerado competitivo, enquanto o industrial

oligopolizado operando com ganhos de produtividade. A mudana de preos relativos

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num estrutura de mercado em que h preos nominais rgidos s produziria aumentos

significativos e permanentes no nvel geral de preos na presena de um sistema

monetrio que no permitisse o controle dos meios de pagamento e atendesse a

demanda de moeda. Em outros termos, nos modelos estruturalistas a oferta de moeda

endgena 1.

Em ambientes cronicamente inflacionrios, sendo a elevao de preos causada

pela agricultura, como querem os estruturalistas, ou pela indisciplina monetria do

governo, como pensam, de modo geral, os monetaristas, nota-se que preos industriais

e preos agrcolas tm dinmicas distintas. SAYAD (1979) apresenta um modelo de

inflao para o Brasil, a partir de hipteses estruturalistas, e observa que, inicialmente,

os preos agrcolas tem uma variabilidade maior do que os preos industriais. A

concluso mais importante do modelo, ao examinar dados de 1948 a 1976, que a

relao de trocas preos agrcolas/preos industriais tem um comportamento cclico

associado s variaes da renda nominal: quando esta cresce, a relao de trocas

favorvel agricultura, e vice-versa. Esses resultados, conforme o autor, podem ser

interpretados de duas maneiras. A primeira diz que quando a renda nominal se eleva os

preos agrcolas respondem mais prontamente que os industriais, justamente pela

competitividade do setor, vis a vis o regime oligopolizado da indstria. De acordo com a

segunda interpretao o aumento dos preos agrcolas exgeno, resultado de choques

de oferta, como ms safras, e que o governo amplia a oferta de moeda, sancionando esse

aumento. De qualquer forma, fica clara a relao entre preos agrcolas e renda nominal.

Em outro trabalho, SAYAD (1981) estuda como o setor de comercializao de

produtos agrcolas pode afetar os ndices gerais de preos atravs do aumento de suas

margens e do aumento ou diminuio da variabilidade dos preos pagos pelos

1 Uma formalizao interessante da inflao latino-americana com feio estruturalista pode ser vista

em OLIVEIRA (1964).

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consumidores. Uma importante concluso do trabalho que o aumento da variabilidade

dos preos agrcolas, mesmo sem tendncia, pode aumentar a inflao. No que se refere

ao papel das margens, o autor aponta o papel estabilizador dos preos no nvel do

consumidor do setor de comercializao, mesmo que s custas da renda agrcola. De

forma geral, o poder dos comerciantes parece ser elevado, pois podem afetar a inflao

ao influir na varincia dos preos agrcolas praticados no varejo, e mesmo elevando as

margens de comercializao.

Esses estudos sugerem que h uma estreita relao entre a inflao brasileira e os

preos agrcolas, e que a variabilidade destes maior que a dos preos dos outros

setores da economia. Pode-se supor, portanto, que um plano de estabilizao bem

sucedido tem impactos substanciais sobre o comportamento dos preos agrcolas,

especialmente no sentido de reduzir sua instabilidade 2. Essa hiptese parece ainda mais

provvel se for levado em conta que h muito tempo o Brasil no tem uma poltica de

sustentao dos preos agrcolas eficaz 3., e que a razovel estabilidade dos preos

agrcolas do perodo recente parece ser um subproduto de um plano mais amplo de

estabilizao econmica o Plano Real 4.

3. Metodologia e dados utilizados

3.1 Varincia dos preos pagos pelos consumidores

Pode-se dizer que as flutuaes dos preos correntes so influenciadas por duas

causas: uma causa monetria, 1y , produzida pelas flutuaes no poder de compra da

2 CARVALHO & SILVA (1994) mostraram que os planos de estabilizao brasileiros, mesmo

apresentando resultados de curta durao, tiveram impactos significativos nos preos agrcolas. 3 CARVALHO (1994) conclui que a Poltica de Garantia de Preos Mnimos brasileira pouco

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