A enfermeira a minissaia e a Madre Superiora:uma crônica ...· A enfermeira a minissaia e a Madre

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Text of A enfermeira a minissaia e a Madre Superiora:uma crônica ...· A enfermeira a minissaia e a Madre

  • A enfermeira a minissaia e a Madre Superiora:uma crnica de Belo Horizonte

    Ana Luisa Moreira Silva, Sarah Campos Cardoso,

    Sarah Saggioro de Carvalho, Letcia Alves Martins,

    Alexandre Guilherme de Miranda Azevedo Menezes e

    Ethel Mizrahy Cuperschmid1

    Resumo

    O presente artigo um estudo de caso ocorrido em um dos hospitais da UFMG. A documentao

    encontra-se no Centro de Memria da Medicina e ter os nomes dos envolvidos preservados. Trata-

    se de um processo administrativo movido por uma funcionria do Hospital que foi agredida e

    humilhada por sua superior, uma irm de caridade. O interessante desse processo so as entrelinhas

    dos depoimentos quenos permitem evidenciar luta de poder entre funcionrios laicos e religiosos,

    alm de preconceitos sociais e raciais. O que mais assustador que este fato ocorreu no final da

    dcada de 1960, anos considerados mais significativos no que tange a mudanas sociais, liberdade

    de expresso e comportamento.

    Palavras-Chave: Trabalho, Gnero, Preconceito, relaes de poder, estudo de caso.

    rea Temtica: Histria Econmica e Demografia Histrica

    1 Centro de Memria da Medicina da UFMG. Faculdade de Medicina UFMG.

  • Introduo

    Na organizao dos documentos do Hospital Universitrio, pesquisadores se depararam com pasta

    contendo um processo na Justia do Trabalho. Esta documentao encontra-se no Centro de

    Memria da Medicina e foi escolhida para estudo de caso por ser surpreendente e reveladora das

    relaes de trabalho e fora dentro da equipe de atendentes do hospital.

    O Fato

    EBC, mulher, solteira, negra, 18 anos. Trabalhava na instituio desde que havia sido l internada

    para tratamento de sade. Conforme o Inqurito:

    A Reclamante, aps um perodo de 8 (oito) meses para tratamento de sade

    no Hospital supracitado, foi convidada, no dia 20 de outubro de 1966, para

    ali residir e em troca, prestar servios na seo de Pediatria.

    O inqurito deixa claro que EBC trabalhava em troca de comida e cama. Mesmo aps o

    estabelecimento de contrato de trabalho, fato ocorrido apenas em 1 de abril de 1968, prossegue o

    Inqurito:

    (...) a Reclamante prestou servio, com a maior dedicao possvel, sem

    folgas semanais e gozo de frias, inclusive em horrio noturno, sem nada a

    receber alm de habitao e alimentao.

    Somente em fevereiro de 1969, quase 4 anos aps ter entrado em servio (escravo?) assinou seu

    contrato de trabalho. No ms seguinte, EBC comeou a receber seu salrio, correspondente a um

    salrio mnimo. Entretanto, os descontos chegavam a 60%, a ttulo de habitao e alimentao.

    Naquele perodo, conforme a lei, este desconto no poderia ultrapassar 53%.

    De fato, nos papis do processo, h anotaes manuscritas, a lpis, da Irm ASL com a lista de

    despesas de EBC:

    1) 1 ano de admisso no Ginsio Cruz Vermelha, livros, roupas, etc. 3 a 6

    7 as 22.

    Registro de Empregados-

    INSTITUTO BORGES DA COSTA

  • 2 Dentista tratamento grande (Dr. HGRC) pago pela Irm.

    3)Companhia s crianas, em cuja enfermaria dormia.

    4)Curso de Corte e Costura Academia N.S. das Graas.

    difcil entender o item 3. Se EBC trabalhava na pediatria do hospital, dormia l, e ainda cuidava

    das crianas, ela ainda tinha que pagar para isso?

    De acordo com EBC, ela foi contratada para exercer atividades de servente,

    muito embora desempenhasse tarefas equivalentes as de Auxiliar de

    Enfermagem, uma vez que ministrava medicamentos, fazia curativos,

    cuidava da higiene pessoal e alimentao de crianas internadas para

    tratamento mdico.

    Trabalhava de maneira profissional, era educada e prestativa. Conforme seu prprio depoimento:

    Sempre foi empregada dedicada, executando suas tarefas dentro dos padres

    exigidos pela Reclamada, em conformidade com seus conhecimentos e

    capacidade.

    Quanto ao horrio das atividades no Hospital, aps a assinatura do contrato de trabalho,EBC

    passou a registrar entrada e sada em relgio de ponto, as 6 (seis) e 14

    (quatorze) horas respectivamente, sem intervalo estabelecido para almoo e

    ainda continuando o desempenho de suas tarefas por outros perodos no

    registrados, indo alm de 19 horas.

    Carto de Ponto de EBC.

    noite EBC cursava o ginasial (equivalente hoje ao ensino fundamental)na escola da Cruz

    Vermelha. Aps as aulas voltava para a enfermaria peditrica, onde dormia, e atendia as crianas

    neste perodo.

    Em 14 de setembro EBC foi informada de que suas atividades no eram mais de interesse do

    Hospital e assinou documento de Aviso Prvio.

    Aps o ocorrido, EBC procurou a Justia do Trabalho para requerer o recebimento de parcelas,

    depsitos do FGTS e custas do processo e recolhimento da Previdncia Social. Para fins processuais

    foi necessrio o recolhimento de provas, depoimentos e documentos. Na pasta encontram-se ficha

    de Registro de Empregados, Cartes de Ponto, Papis da Justia e do Acerto de Contas.

  • O Processo

    A Junta de Conciliao e Julgamento da Justia do Trabalho marcou data da audincia e as

    testemunhas foram chamadas para relatar os fatos.

    A prpria interessada relatou sua verso dos acontecimentos. EBC narra que foi trabalhar no

    Hospital por convite da Irm ASL e que estava sob sua responsabilidade, pois era menor de idade.

    Ficou trabalhando na Enfermaria Peditrica. Enquanto l trabalhava e residia, comeou a estudar na

    Cruz Vermelha, para fazer o Ginsio, em companhia de uma religiosa. A Congregao religiosa

    pagou as mensalidades durante 3 meses e, posteriormente, elas foram pagas por seu irmo.

    Depois de includa na folha de pagamento do Hospital, EBC declarou que este dinheiro ficava em

    poder da Madre, que tambm descontou despesas de ensino e costuras. Mesmo no recebendo nada

    de outubro de 1966 a fevereiro de 1968, EBC continuou sem receber o salrio uma vez que a Madre

    retinha todo seu pagamento. Alm de controlar seu salrio, a Madre queria controlar tambm sua

    vida privada: no podia namorar e nem usar minissaia nas suas folgas. Veja depoimento de EBC:

    Em julho comeou a namorar o Enfermeiro IMC com o que no concordou

    a Irm ASL falando que o mesmo no era um rapaz ideal, e recebi da Irm

    ASL severas admoestaes quando sem lhe comunicar sa a passeio casa

    da minha tia EM Rua L 364 em companhia do mesmo.

    Vrias vezes a Irm ASL chamou-me a ateno sobre o uso de minissaia e

    continuou (sic) usando os vestidos da mesma forma que usava antes, pois

    no concordava em us-los abaixo dos joelhos como a Irm queria.

    Informa que durante o perodo que trabalhou com a Irm ASL o nico atrito

    que lembra ter havido com ela foi o seu namoro com o Enfermeiro IMC.

    Logo que terminou este namoro voltou a viver em paz com a Irm.

    Quanto a procedimentos de cuidados de enfermagem, EBC relata que ao chegar da aula, noturna:

    Quando no estava na Enfermaria e principalmente no horrio de 19 as 22

    horas (perodo de aulas) e, ao chegar por vrias vezes encontrei crianas

    sujase a esta hora ia dar banho nas mesmas e vrias vezes encontrei crianas

    mortas, quando as arrumava e as levava para o necrotrio.

    Seu horrio de servio, portanto, ia alm daquele que ela registrava nos cartes de ponto.

    Seu depoimento prossegue afirmando que era funcionria exemplar e de confiana das Irms. S ela

    dormia na Enfermaria, numa cama de criana totalmente desconfortvel e inadequada para ela.

    Assim EBC acabava exercendo vrios papis como de cuidar tanto dos enfermos como da

    Enfermaria no perodo noturno:

    Acumulava na enfermaria as funes de servente e enfermeira, pois durante

    todo este tempo era eu quem ministrava os medicamentos noite e no a

    enfermeira de planto, porque a Irm ASL no concordava que elas

    entrassem porque tinha medo que sumissem coisas da enfermaria tais como

    travesseiros, colchas, lenis, etc.

    Por ser de confiana, muitas vezes tinha de se calar frente os malfeitos das Irms. Assim, obedecia

    sordens superiores mesmo diante de atitudes que no concordava:

    Certa vez Dr. O, ao chegar na enfermaria, encontrou uma criana chorando

    e perguntou qual era o motivo, o que ento lhe respondi que a Irm

  • ASLcolocou de castigo durante duas horas por ter jogado bola no corredor.

    Colocando ainda de castigo no dia seguinte uma outra criana durante uma

    hora por ter quebrado a tampa do filtro.

    Essas afirmaes so corroboradas pelo depoimento de vrias outras testemunhas como podemos

    ver a seguir.

    A funcionria DGB, confirma que a Irm ASL tambm castigava as crianas enfermas:

    esta batia nas crianas e colocava-as de castigo inclusive minha protegida

    RMM de 4 (quatro) anos de idade que foi espancada vrias vezes porque

    fazia XIXI na cama.

    O depoimento de JHC, outro funcionrio do Hospital tambm vem confirmar o uso da violncia

    contra as crianas internadas na enfermaria:

    Informa ainda que a EBC guardava segredos das coisas que se passavam na

    Enfermaria e para provar isto, quando estava internado na Enfermaria de

    Crianas o meu sobrinho MH de seis (6) anos de idade, quando foi colocado

    de castigo pela Irm ASL na Enfermaria de Homens onde a criana dormiu

    durante uma noite.

    De outra feita ao chegar para assumir o servio de manh e ao me dirigir

    para a Enfermaria de Crianas para visitar o meu sobrinho, coisa que fazia

    sempre, notei marcas nos braos do menino. Dirigi-me EBC e perguntei o