A estratégia do confronto: a Frente de Mobilização .RESUMO A bibliografia e a pesquisa universitária

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RESUMO

A bibliografia e a pesquisa universitriah muito tempo revelaram a participa-o de grupos conservadores e direitis-tas na conspirao e na execuo do gol-pe militar de 1964. No entanto, temaainda pouco freqentado na bibliogra-fia o papel representado pelas esquer-das naquele processo. A imagem firma-da a de que a radicalizao poltica, queculminou no golpe civil-militar, foi pa-trocinada to-somente por elementosconservadores e reacionrios, enquantoas esquerdas apenas defendiam as refor-mas e a democracia. Assim, ao longo daditadura militar, surgiram diversas ver-ses que se esforaram para explicar osmotivos do golpe, mas sem considerar aparticipao das esquerdas no processode polarizao poltica. O artigo recupe-ra as estratgias de diversos grupos es-querdistas que atuaram no governo deJoo Goulart.Palavras-chave: Frente de MobilizaoPopular; Governo Goulart; Golpe civil-militar de 1964.

ABSTRACT

For a long time, the academic researchhas shown the participation of conser-vative groups and right-wingers in themilitary putsch in 1964. However, littleresearch has been done about the roleplayed by left-wing supporters in thisprocess.The consolidated idea states thatonly right-wingers supported the poli-tical radicalism, which resulted in the ci-vil and military coup, while the left-win-gers fought for political reforms anddemocracy. As so, along the dictatorship,many versions emerged to explain theputschs reasons, but none of them con-sidered the left-wingers participation inthe political process of polarization. Thearticle focuses on the political strategiesfrom left-wing groups, which took partin Joo Goularts government.Keywords: Frente de Mobilizao Popu-lar; Goularts government; Civil and mi-litary putsch, 1964.

Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 24, n 47, p.181-212 - 2004

A estratgia do confronto: a Frente de Mobilizao Popular1

Jorge FerreiraUFF

UM GOLPE DE ESTADO E SUAS INTERPRETAES

A bibliografia e a pesquisa universitria h muito tempo revelaram a par-ticipao de grupos conservadores e direitistas na conspirao e na execuodo golpe militar que derrubou o regime democrtico instaurado com a Cons-tituinte de 1946. Os depoimentos de personalidades que viveram aquele pro-cesso reiteram a atuao de militares e civis golpistas nos eventos que resulta-ram na deposio do presidente Joo Goulart. Trata-se de algo consensual: asdireitas mobilizaram-se no sentido de conspirar contra a democracia e, napassagem de maro para abril de 1964, implantaram uma ditadura.

No entanto, tema ainda pouco freqentado na bibliografia o papel re-presentado pelas esquerdas naquele processo. A imagem firmada a de que aradicalizao poltica, que culminou no golpe civil-militar, foi patrocinadato-somente por elementos conservadores e reacionrios, tendo como van-guarda o complexo IPES-IBADE, enquanto as esquerdas apenas defendiamas reformas e a democracia. Via de regra, as esquerdas surgem como vtimasde um movimento duplamente perverso: por um lado, estiveram em grandedesvantagem por acreditarem nas instituies democrticas, enquanto as di-reitas utilizavam o recurso da conspirao para atentar contra o regime; poroutro lado, quando poderiam ter a oportunidade de reagir e derrotar os con-servadores, o presidente Joo Goulart decidiu no resistir. Portanto, criou-sea imagem da dupla traio: a dos golpistas de direita e a do prprio presiden-te da Repblica.

Assim, ao longo da ditadura militar surgiram diversas verses que se es-foraram para explicar os motivos do golpe de 1964, mas sem considerar aparticipao ativa dos grupos esquerdistas no processo de radicalizao queresultou no colapso da democracia.

A primeira delas, a mais consumida, alude ao colapso do populismo noBrasil. Em livro que se tornou clssico, Octvio Ianni aponta para a contra-dio entre o que chama de padro agrrio-exportador, o modelo de desen-volvimento nacionalista e o associativo com empresas estrangeiras.2 Trata-sede uma explicao estrutural que alcanou grande sucesso, sobretudo entrealguns crculos marxistas. Argelina Figueiredo, por exemplo, cita autores queaproximaram excessivamente estgios de industrializao com regimes auto-ritrios. o caso de Guilherme ODonnel e, sobretudo, de Fernando Henri-que Cardoso. Nesse tipo de anlise, o processo de acumulao de capital ne-cessitava de governos autoritrios que reprimissem as demandas populares.Para Argelina Figueiredo, nessa interpretao o determinismo econmico

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evidente. As anlises presumem uma coincidncia perfeita entre requisitosestruturais e aes individuais ou grupais, sem especificar o mecanismo atra-vs do qual a necessidade se realiza na ao.3 Surgem, desse modo, estrutu-ras econmicas independentes das prprias sociedades que as produziram,guiando e determinando as escolhas, as iniciativas e a maneira de pensar dosindivduos. O determinismo econmico elimina os atores coletivos e seus con-flitos. O enfoque estruturalista, embora travestido de marxismo, desconside-ra o acirramento da luta de classes durante o governo Goulart e torna irrele-vante o prprio golpe militar. Teria havido, simplesmente, crise do padrode acumulao, ou do populismo. Por esse enfoque, no houve a participa-o das esquerdas. Mas tambm as direitas no participaram. O golpe teriasido fabricado pelas estruturas.

Outra interpretao importante, e muito disseminada, mas que omite aatuao das esquerdas, a que alude Grande Conspirao. Trata-se da alian-a formada entre grupos conservadores e direitistas brasileiros com setoresempresariais e governamentais dos Estados Unidos. Assim, a conspirao dossetores reacionrios internos e externos explicaria o sucesso do golpe mi-litar. Adotada sobretudo pelos prprios trabalhistas, a interpretao tambmminimiza a participao das esquerdas e dos conflitos sociais para explicar acrise de 1964, denunciando a aliana das direitas do pas com a CIA e o De-partamento de Estado norte-americano. A motivao maior para a destitui-o de Joo Goulart e a implantao da ditadura dos generais estaria no es-trangeiro e nas elites nacionais alienadas por ele. A culpa, portanto, doOutro. Ora, desde 1954 grupos conservadores brasileiros tentaram golpearas instituies: em agosto daquele ano, em novembro de 1955, em duas ten-tativas no governo de Juscelino e em uma decisiva em agosto de 1961. Noconseguiram. No encontraram apoio da sociedade. Em outras palavras, nobasta conspirar, mesmo que com o apoio de potncias estrangeiras. precisoencontrar uma ampla base social para levar a conspirao adiante. Foi o queocorreu em maro de 1964.

H ainda as interpretaes que preferem personalizar grandes processos,reduzindo a Histria simples vontade, ou falta dela, dos grandes homens.Nessa interpretao, as verses formuladas aps o golpe militar, sobretudopela ortodoxia marxista-leninista, passaram a definir o presidente Joo Gou-lart como um lder burgus de massa, um poltico dbio pela sua origem so-cial e, por tudo isso, um traidor da classe. Para outros, sejam de esquerda, dedireita ou liberais, tratava-se de um populista. Assim, todos se unem em umaexplicao simplista e teoricamente inaceitvel: graas incompetncia de

A estratgia do confronto: a Frente de Mobilizao Popular

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um nico indivduo, implantou-se uma ditadura que mudou a face do pas.Novamente as esquerdas no tiveram participao nos eventos que culmina-ram no colapso da democracia.

Nas interpretaes mais conhecidas, a atuao das esquerdas no proces-so que culminou no golpe militar minimizada, ou omitida, diante das ine-lutveis estruturas econmicas, da fora avassaladora dos grupos conspirado-res ou da incompetncia de um nico homem. As estratgias dos partidos emovimentos de esquerda, como a poltica de confronto com os conservado-res e as mobilizaes pelas reformas na lei ou na marra, entre outras esco-lhas marcadas pelo radicalismo e pela confiana excessiva, embora sem basesreais, de suas foras, desaparecem, surgindo, na segunda metade dos anos 60,verses que omitiram as suas atuaes polticas no governo Jango e que, nomesmo movimento, as transformaram em vtimas.

Neste artigo, quero recuperar as estratgias polticas de diversos gruposde esquerda que atuaram no governo de Joo Goulart. Em processo de radi-calizao crescente, as esquerdas, unidas na Frente de Mobilizao Popular,participaram ativamente das lutas polticas que resultaram no golpe civil-mi-litar na virada de 31 de maro para 1 de abril de 1964.

MAPEANDO AS ESQUERDAS

Logo ao assumir o governo, Goulart se viu frente s demandas histricasdas esquerdas e, na verdade, pregadas ao longo dos anos por ele mesmo: asreformas de base. Para os grupos nacionalistas e de esquerda, tratava-se deum conjunto de medidas que visava alterar as estruturas econmicas, sociaise polticas do pas, permitindo o desenvolvimento econmico autnomo e oestabelecimento da justia social. Entre as principais reformas constavam abancria, a fiscal, a administrativa, a urbana, a agrria e a universitria, almda extenso do voto aos analfabetos e oficiais no-graduados das Foras Ar-madas e a legalizao do PCB. O controle do capital estrangeiro e o monop-lio estatal de setores estratgicos da economia tambm faziam parte do pro-grama reformista dos nacionalistas. Embora heterogneas e nem sempreunidas, as esquerdas formaram, logo no incio do governo Goulart, o que Ar-gelina Figueiredo chamou de coalizo radical pr-reformas.4 Eram elas asLigas Camponesas, o Partido Comunista Brasileiro PCB, o bloco parla-mentar autodenominado Frente Parlamentar Nacionalista, o movimento sin-dical representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores CGT, organi-

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zaes de subalternos das Foras Armadas, como sargentos da Aeronutica edo Exrcito e marinheiros e fuzileiros da Marinha, os estudantes por meio daUnio Nacio