A FILOSOFIA DE PEIRCE ENQUANTO .a filosofia de Apel aproximou-se perigosamente de um retorno à filosofia

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  • A FILOSOFIA DE PEIRCE ENQUANTO FUNDAMENTO DA TICA

    DO DISCURSO EM HABERMAS

  • Coleo Ensaios FilosFicos

    Epicuro e as bases do epicurismo, Miguel Spinelli tica e poltica em Aristteles: Physis, Ethos, Nomos, Solange Vergnires Filosofia de Peirce enquanto fundamento da tica do Discurso em Habermas (A), Jos Luiz Zenette Ksmos Noets: a arquitetura metafsica de Charles S. Peirce, Ivo Assad Ibri Metafsica e assombro: curso de ontologia, Mrcio Bolda da Silva Nietzsche: a fbula ocidental e os cenrios filosficos, Yolanda Gloria Gamboa Muoz Repblica de Plato (A): um guia de leitura, Luke Purshouse

  • JOS LUIZ ZANETTE

    A FILOSOFIA DE PEIRCE ENQUANTO FUNDAMENTO DA TICA

    DO DISCURSO EM HABERMAS

  • Direo editorial: Claudiano Avelino dos SantosCapa: Marcelo CampanhImagem da capa: iStockEditorao, impresso e acabamento: PAULUS

    1 edio, 2017

    PAULUS 2017

    Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 So Paulo (Brasil)Tel.: (11) 5087-3700 Fax: (11) 5579-3627paulus.com.br editorial@paulus.com.br

    ISBN 978-85-349-4648-3

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    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmabra Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    Zanette. Jos Luiz A filosofia de Peirce enquanto fundamento da tica do Discurso em Habermas / Jos Luiz Zanette. So Paulo: Paulus, 2017. Coleo Ensaios filosficos.

    Bibliografia.ISBN 978-85-349-4648-3

    1. tica 2. Filosofia 3. Falibilismo 4. Habermas, Jurgen, 1928- 5. Peirce, Charles Sanders, 1839-1914 6. Pragmatismo I. Ttulo.

    17-08688 CDD-100

    ndice para catlogo sistemtico: 1. Filosofia 100

  • PREFCIO

    Esse livro tem um especial e primrio mrito. Ele vem cum-prir a misso nada trivial de sumarizar os itinerrios dos pensa-mentos filosficos de Peirce e Habermas, autores que demandam contnua pesquisa em mbito mundial e sobre os quais, deve-se ressaltar, existem interpretaes acentuadamente divergentes.

    Cumpre relembrar que a obra de Peirce majoritariamen-te constituda por manuscritos no publicados, totalizando algo como noventa e trs mil pginas. Nela, sua filosofia se desenha luz de uma metafsica evolucionista, por ele predicada de cient-fica, que agudiza, em sua maturidade, um realismo de gentica escolstica. No obstante a obra peirciana no se centre em uma filosofia moral, seu sistema terico tridico e a face ontolgica de seu pragmatismo oriunda do entrelaamento de suas categorias proporcionam o desenvolvimento de uma eticidade que tem em comum com a tradio aristotlica e kantiana o direcionamento dos valores morais para a ideia geral de bem, em detrimento de fins voltados para o meramente particular. Influenciado por Schiller e Schelling, os fins ltimos da conduta devem se lastrear no que Peirce denomina o Admirvel, um summum bonum cuja face prtica venha a se desenhar por meio de uma razoabilidade concreta.

    Como bem assinala o presente trabalho, foi Apel quem primeiramente notou que a filosofia tridica de Peirce supera-ra as questes das interminveis discusses entre explicao e compreenso, sobre o evolucionismo mecanicista e sobre o alto Idealismo alemo do final do sculo XIX. Na leitura de Zanette,

  • Apel supe que o todo da teoria dos signos de Peirce permitiria o resgate da esperana de uma tica racional ao modo da pragm-tica kantiana, agora integrando os sentimentos e transformando a razo transcendental kantiana em uma razo situada.

    Habermas, nascido em 1929, ainda vivo na data em que o presente livro publicado, foi, como se sabe, integrante e reno-vador da Escola da Frankfurt. Extremamente prolfico, escreveu dezenas de livros em que aborda quase todas as questes filos-ficas de fundo. Zanette assinala que Habermas observara que a Escola de Frankfurt, em suas crticas civilizao, demandava uma razo abrangente, realizando uma crtica da razo pela pr-pria razo. Em busca de uma filosofia prpria, Habermas cria uma doutrina a respeito da ideia de interesses, malgrado lacunar conforme considera em sua autocrtica, passando sua obra a evo-luir para uma teoria da ao comunicativa.

    J poca da nova abordagem do famoso livro Conheci-mento e Interesse, destaca Zanette que Habermas, embora ainda com a recepo e influncia da interpretao de Apel sobre a obra de Peirce, iniciava a introduo de elementos da filosofia peirciana em sua prpria reflexo.

    Na abordagem da saga do pensamento habermasiano, Za-nette evidencia que o autor alemo realizou vrias adequaes em seu trabalho, para alm de meros retoques como as chamou, consolidando alteraes substanciais quanto crena no alcance da racionalidade e na modalidade e perspectiva de universaliza-o de seus principais mbiles.

    Notadamente, como enfatiza o autor, ao valorizar o falibi-lismo de extrao peirciana e, portanto, de fundo ontolgico, substancialmente distinto do mtodo falsificacionista de Popper, Habermas vem a adotar um realismo antictico e indeterminista para questes cientficas e um construtivismo moral quanto s questes de justificao das correes normativas.

    A anlise de Zanette sustenta que a posio de maturida-de de Habermas, com a sua nova pragmtica formal ao modo kantiano, distinta de uma estrita demanda de situao ideal de fala, incorpora mais elementos e, gradualmente, prope se apro-ximar da filosofia de maturidade de Peirce. Essa tentativa de

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    aproximao se configura, no ver do autor, pela insistncia de Habermas na aceitabilidade racional das proposies morais, de uma pragmtica formal procedural, deontolgica e tambm cog-nitiva, base para a manuteno da aceitabilidade racional sem amparo em um realismo moral determinista, mas em contnuo fluxo construtivista.

    Zanette, todavia, evidencia ser possvel verificar que tal in-corporao de elementos fundantes da filosofia de Peirce assu-mida por Habermas de maneira, no mnimo, ambgua. Em sua pragmtica formal, portanto procedural, inclui-se o deontolgico e o cognitivo, de um modo dado que se pretenda no transcen-dental. Por outro lado, de modo contraditrio, Habermas atribui ao procedural do Pragmaticismo, em seu rumo na direo ao consenso da comunidade dos envolvidos, um carter transcen-dental. Essa importante reflexo crtica sobre a linhagem terica madura da obra habermasiana encontra-se devidamente temati-zada no livro.

    No obstante esse aspecto crtico apontado pelo autor sobre Habermas, pode-se afirmar que o filsofo alemo se esfora para manter o fundo realista da obra de Peirce, procurando superar o equvoco de Apel que pressupe um fundamento transcendental da Semitica, de certa forma descredenciando a gentica filos-fica exercida pela Fenomenologia peirciana na inspirao expe-riencial e formao categorial da teoria dos signos.

    Contudo, semelhana dos clssicos exemplos de W. James e J. Dewey, Habermas no mergulha com a devida profundida-de na filosofia de Peirce como um sistema, tarefa que se deve reconhecer bastante difcil pela forma como a obra peirciana se oferece ao estudioso, majoritariamente no publicada e ainda em etapa de organizao cronolgica pelo Peirce Edition Project da universidade de Indiana nos EUA. Uma interpretao justa da filosofia de Peirce, ao menos quanto a seu forte realismo-idea-lismo e seu indeterminismo tanto epistemolgico quanto onto-lgico, deve conduzir os estudiosos de sua obra a evitarem qual-quer forma de apropriao ilcita de doutrinas que, em verdade, encontram-se entrelaadas logicamente dentro de seu sistema terico. No consta que Habermas nem tampouco Apel tenham

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    legitimado suas interpretaes da obra peirciana por esse vis. A tica, que junto com a Esttica e a prpria Semitica formam o trio possivelmente mais complexo da filosofia de Peirce, envol-vendo, por um lado, a compreenso de como a Fenomenologia e uma teoria das formas possveis, a Matemtica, o subsidiam, e, de outro, uma reflexo que no pode se furtar em pensar uma ontologia que, a despeito de ser fundada nesse trio, no deixa de lhe sugerir uma retro anlise retrodutiva.

    Um bom exemplo, pode-se dizer, da densidade terica tpica da tica peirciana, desenha-se no descredenciamento da figura do sujeito como detentor do sentido, face a uma leitura integrada da Semitica com o Pragmatismo conducente a adotar valores lastreados no eixo filosfico realista e no antropocntrico que permeia a filosofia madura de Peirce.

    certo que o leitor ir encontrar nessa obra uma anlise cuidadosa da obra de Habermas somada difcil tarefa de apontar possveis razes de seu pensamento na filosofia de Peirce. A verossimilhana dessa tarefa fica, no presente livro, garantida pelo raro e profundo conhecimento que o autor tem da obra de ambos os pensadores, o que garante recompensar o trabalho de sua leitura com o devido refinamento de anlise filosfica que procura ser jus densidade prpria das questes aqui suscitadas.

    Ivo A. IbriSo Paulo, setembro de 2017

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    INTRODUO

    Habermas percorre um longo caminho at a conformao atual das teorias que fundamentam a sua tica do Discurso, compondo uma filosofia que foi evoluindo luz dos debates e das crticas que ele considerou como passveis de reflexes. Nes-sa construo1, tenta abandonar o modelo implcito dos pensa-dores da Escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer, que criticava fortemente a razo iluminista ainda que tal crtica s pudesse ser efetuada pela prpria razo. Aps empreender, na maturidade, juntamente com Karl-Otto-Apel, uma nova direo para a filosofia, a tica do Discurso, Habermas julgou necess-rio, conforme as suas palavras, complementar e retocar a sua teoria da verdade sem que se alterasse toda a sua filosofia2. Esta obra intenta mostrar que, ao refutar a situao ideal de fala, po-sio que j havia assumido antes de Verdade e Justificao3, Habermas enfrenta novamente as grandes questes f