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Revista de C. Humanas, Vol. 9, N 1, p. 55-66, Jan./Jun. 2009 55

A GEOGRAFIA FSICA NO IBGE 1938-1998

RESUMO: Este artigo tem como principal intuito analisar historicamente um segmento especfico da pesquisa geogrfica: a que trabalha com os fatores de natureza fsica que envolve outros campos e reas da cincia, tais como a Geomorfologia, a Geologia, a Pedologia, a Climatologia, a Hidrologia, a Ocea-nografia e a Biogeografia, compondo aquilo que chamado genericamente de Geografia Fsica. Para tanto, esta anlise

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PALAVRAS-CHAVE: Geografia Fsica. IBGE. Evoluo histrica.

Roberto Schmidt de Almeida1

1Pesquisador titular em Geografia do Grupo de Memria Institucional do IBGE Centro de Documentao e Disseminao de Informaes (CDDI), Mestre e Doutor em Geografia (UFRJ).

foi realizada tomando como referncia institucional o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica IBGE, criado em 1938, responsvel em suas origens pelo reconhecimento fsico do territrio nacio-nal. Ao longo dos tempos, o IBGE passou por uma srie de modificaes estruturais que foram moldando o Instituto em suas caractersticas, interesses e especificida-des atuais como centro de referncia nos estudos de carter geogrfico.

1. INTRODUO

O principal objetivo deste texto analisar historicamente o segmento da pesquisa geogrfica que trabalha com os fatores de natureza fsica que envolvem outras reas da cincia (Geomorfologia/Geologia, Pedologia/Edafologia, Climatologia, Hidrologia, Oceanografia, Biogeografia), compondo o que chamamos genericamente de Geografia Fsica. Toma-se como referncia institucional uma agncia do governo federal brasileiro, criada em 1938 (Almeida, 2000) que, dentro de suas inmeras atribuies legais, era encarregada do reconhecimento fsico do territrio nacional: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), por meio de sua estrutura de servios geogrficos (Divises e Departamentos), inicialmente gerenciado pelo Conselho Nacional de Geografia (CNG) e posteriormente pela Diretoria de Geo-cincias (DGC).

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Levando-se em considerao que os estudos geogrficos esto divididos em duas grandes reas de atuao (Fsica e Humana), estaremos considerando, como prticas profissionais, as diferentes abordagens de trabalho nas reas de pesquisa geogrfica, que os gegrafos do IBGE adotaram ao longo do perodo de sua existncia. Para isso, necessrio entender que a grande divisria que separa as prticas profissionais dos gegrafos fsicos dos que trabalham com Geografia humana/econmica , evidentemente, um fator inibidor no dilogo profissional, por mais que se pregue o contrrio.

Os processos de aprendizado na universidade, j nos primeiros anos, tendem a dicotomizar essas duas reas, inclusive com abordagens distintas quanto ao conhecimento matemtico e estatstico, que sempre foram mais cobrados nos segmentos da Geografia Fsica do que na Humana.

A exceo ocorreu durante a dcada de 70 no contexto dos mtodos quantitativos, mas que no chegou sequer a modificar a tendncia conhecida, pois as experincias com a quantificao nos anos 70 exigiam equipamento caro e mo de obra especializada, alm de uma grande dose de boa vontade por parte dos professores e dos alunos, j que ainda era difcil perceber que aqueles mtodos poderiam trazer grandes modificaes no conhecimento geogrfico fora do campo do planejamento governamental. Atualmente, com a difuso dos computadores pessoais, cada vez mais baratos e poderosos, aliada disseminao da computao em rede (redes locais ou pela Internet), o uso de softwares que aliam estatstica e informaes georeferenciadas tornou-se corriqueiro nos bons cursos de graduao de Geografia.

No contexto do IBGE em suas primeiras dcadas de atividade, talvez por conta da forte influncia do gegrafo francs Francis Ruellan (1894-1975), que era geomorflogo, mas que tinha por sua formao e tambm pela imposio de seu contrato de professor na Universidade do Brasil e de consultor tcnico do IBGE entre 1940 e 1956, lecionar e transmitir qualquer campo do saber geogrfico para seus alunos e para os tcnicos do Conselho Nacional de Geografia (CNG), essa dicotomia no se fez sentir com intensidade, mas ainda assim era possvel perceber que os melhores alunos tendiam a se especializar em Geomorfologia. Heldio Lenz, Pedro Geiger, Miguel Alves de Lima, Alfredo Porto Domingues, Lcio de Castro Soares foram alguns deles e apenas Pedro Geiger migrou para os estudos econmicos e sociais nos anos 50.

Outro ponto importante a considerar eram as atividades tpicas de planejamento, que o IBGE sempre teve a seu encargo, como no caso da regiona-lizao brasileira, conjunto de estudos que normalmente envolvem as duas reas, necessitando da experincia de um pesquisador ecltico que conhea perfeitamente os grandes traos fsicos e humanos de uma regio para poder realizar o trabalho de recorte regional.

possvel argumentar que, por sua misso institucional, o IBGE e seus profissionais de Geografia sempre tenderam mais ao ecletismo do que especia-lizao. Da o grande poder da rea de regionalizao, quando confrontada com

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os especialistas dos campos sistemticos, principalmente nas primeiras dcadas de atividade. A fora dos estudos sistemticos na rea de Geografia somente toma fora com Michel Rochefort (1928- ), nos anos 60, no campo da Geografia urbana, embo-ra os ensinamentos de Leo Waibel (1888-1951) nos anos 50 em Geografia agrria tambm j orientassem os gegrafos regionais nessa direo, mas preciso assinalar que os grandes estudos orientados por Waibel neste campo, ainda possuam uma forte conotao regional, principalmente os vinculados ao estudo do habitat rural.

Foram, fundamentalmente, os processos de industrializao e urbaniza-o no sudeste brasileiro, nos anos 60 em diante, que criaram as grandes arenas de pesquisas dos gegrafos especialistas em humana/econmica do IBGE.

2. OS CAMPOS DE DOMNIO DA GEOGRAFIA FSICA NO IBGE

Do conjunto de estudos que enfocaram o meio fsico, escolhemos analisar os trs segmentos mais importantes que propiciaram a gerao de muitos trabalhos e garantiram o desenvolvimento profissional de alguns gegrafos, como tambm de profissionais de outras especialidades, principalmente gelogos, bilogos e en-genheiros agrnomos.

Estes segmentos so:A Geomorfologia, rea da Geografia que trabalha com os processos for-

madores do modelado terrestre e que estrutura as principais tipologias relativas ao relevo do territrio.

A Climatologia, campo que espacializa o conjunto de informaes que a Meteorologia nos mostra quotidianamente e que apresenta quadros de referncia sobre temperatura, presso do ar, regime de ventos, precipitaes etc., tanto sob a forma de mapeamento, quanto sob a de textos explicativos dos processos de mdio e longo prazo que garantem uma dada classificao climtica mais geral.

A Biogeografia, segmento de estudos que trata da espacializao da cober-tura vegetal e da ocorrncia de animais, que, em combinao com especializaes como Botnica e Zoologia, explica uma grande parte do que se convencionou chamar de Meio Ambiente. Atualmente, verifica-se uma grande sinergia com a Ecologia, que estuda em detalhes as relaes entre os seres vivos num dado segmento espacial.

Este conjunto de saberes foi, nas primeiras dcadas de atuao do IBGE, altamente prestigiado, tendo como iniciadores, profissionais como Emmanuel De Martonne com seu clssico Problemas Morfolgicos do Brasil Tropical Atlntico (1943), Alberto Ribeiro Lamego, autor da coleo O Homem e ... (Lamego, 1945, 1946, 1948, 1963), alm de mestres estrangeiros que foram os principais formadores da primeira gerao de profissionais como o francs Francis Ruellan na Geomorfologia e o canadense Pierre Dansereau (1919- ) na Biogeografia.

Ruellan, alm de produzir artigos que se tornaram clssicos (Ruellan, 1944 a, b, 1949), formou profissionais como Alfredo Porto Domingues, que dominou com maestria os conhecimentos integrados entre Geologia, Biologia e Climatologia, tornando-se um dos mais completos gegrafos fsicos da casa. Seus trabalhos na

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Enciclopdia dos Municpios Brasileiros e sua srie de artigos sobre as caractersticas geolgicas e morfolgicas do estado da Bahia esto entre os clssicos do assunto (Domingues, 1947 a, b;1948). Antnio Teixeira Guerra, um dos supervisores ge-ogrficos da Enciclopdia dos Municpios Brasileiros, foi considerado um dos mais produtivos gegrafos do IBGE com 30 artigos na RBG, 45 no Boletim Geogrfico, 12 artigos em publicaes avulsas, como os Cursos de Frias para Professores e autor do Dicionrio Geolgico-Geomorfolgico, obra editada nos anos 60 e reeditada em 1999 por seu filho, tambm geomorflogo, que tambm trabalhou no IBGE na dcada de 70 e que atualmente leciona na UFRJ (Guerra, 1966). Amlia Alba Nogueira, autora de todos os captulos de Geomorfologia da coleo Geografia do Brasil de 1977 2 e Gelson Rangel Lima, que chefiou o Setor de Geomorfologia do Degeo na dcada de 70.

So tambm da dcada de 70 a coletnea de comentrios sobre 201 fotos do relevo brasileiro organizado por Celeste Rodrigues Maio (1973), reeditada em 1980, e o compndio Fundamentos de Geomorfologia, da professora da Faculdade de Rio Claro (atual Unesp) Margarida Maria Penteado (1974). Ambas as obras fo-ram os principais instrumentos de estudo dos alunos de Geomorfologia de muitas universidades brasileiras.

No campo da Biogeografia, o primeiro trabalho classificatrio da vegeta-o brasileira foi elaborado por Lindalvo Bezerra dos Santos no Boletim Geogrfico como contribuio didtica, considerado a primeira tipologia apoiada nos aspectos fisionmicos das formaes vegetais brasileiras (SANTOS, 1943).

Na segunda metade da dcada de 40, a permanncia no