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  • volume 4, 2009 2

    A Histria da Cincia e a Experimentao na Constituio do Conhecimento Escolar: A Qumica e as Especiarias

    Ronaldo da Silva Rodrigues e Roberto Ribeiro da Silva

  • UNIVERSIDADE DE BRASLIA Decanato de Pesquisa e Ps-Graduao

    Instituto de Fsica Instituto de Qumica

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ENSINO DE CINCIAS MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DE CINCIAS

    A HISTRIA DA CINCIA E A EXPERIMENTAO NA

    CONSTITUIO DO CONHECIMENTO ESCOLAR:

    A QUMICA E AS ESPECIARIAS

    RONALDO DA SILVA RODRIGUES

    Proposta de Ao Profissional resultante

    da Dissertao realizada sob orientao

    do Prof. Dr. Roberto Ribeiro da Silva e

    apresentada banca examinadora como

    requisito parcial obteno do Ttulo de

    Mestre em Ensino de Cincias rea

    de Concentrao Ensino de Qumica,

    pelo Programa de Ps-Graduao em

    Ensino de Cincias da Universidade de

    Braslia.

    Braslia DF Fevereiro

    2009

  • 2

    SUMRIO

    1. Apresentao da proposta de ao profissional............................... 03

    2. A Histria da Cincia e a experimentao na constituio do

    conhecimento escolar: a Qumica das especiarias........................... 04

    3. A Histria sob o olhar da Qumica As especiarias e sua importncia

    na alimentao humana.................................................................... 08

    4. Os sentidos e as especiarias............................................................ 26

    5. A origem metablica das substancia que do destaque s

    especiarias........................................................................................ 30

    6. Sugesto de atividades..................................................................... 37

    7. Fichas dos seminrios por ordem de apresentao.......................... 42

    8. Roteiros dos experimentos................................................................ 48

    9. Textos complementares.................................................................... 58

    Referncias...................................................................................... .... 62

  • 3

    1 . APRESENTAO DA PROPOSTA DE AO PROFISSIONAL

    Prezado educador: a nossa proposta de ao profissional consiste em um

    mdulo de ensino que aspira compor os diversos recursos que podem ser utilizados

    na prtica docente. Apesar de ter sido pensado e construdo para aulas de Qumica

    do Ensino Mdio, este material pode ser utilizado por professores de outras

    disciplinas, cujo contedo, faa alguma referncia ao tema alimentao.

    Com o intuito de partir das informaes mais gerais sobre o tema alimentos

    para as mais especficas (fazendo uso, para se chegar a estas ltimas, da lupa

    disponibilizada pela Qumica), dividimos este mdulo em diversas sees. A primeira

    delas trata das razes que nortearam este trabalho. Nas sees seguintes podemos

    encontrar uma sucesso de textos que procuram explicitar a influncia da

    alimentao na constituio das sociedades humanas bem como a leitura que a

    Qumica pode fazer deste assunto. Em seguida, sugerimos uma seqncia de

    atividades que podem ser desenvolvidas com os estudantes durante o bimestre

    letivo.

    Assim, desejamos uma boa leitura e esperamos que possam ser encontradas,

    neste trabalho, muitas outras formas de aproveitamento.

  • 4

    2 . A HISTRIA DA CINCIA E A EXPERIMENTAO NA

    CONSTITUIO DO CONHECIMENTO ESCOLAR:

    A QUMICA E AS ESPECIARIAS

    Os inmeros materiais orgnicos existentes apresentam, em sua composio,

    substncias cujos constituintes podem ilustrar adequadamente as chamadas

    funes orgnicas.

    Esse mdulo de ensino se prope a compartilhar os significados relacionados

    caracterizao, diferenciao, nomenclatura, propriedades fsicas (ponto de fuso,

    ponto de ebulio, e solubilidade), acidez e basicidade das substncias que

    apresentam as funes lcoois, fenis, aldedos, cetonas, teres, cidos

    carboxlicos, steres, aminas e amidas em sua estrutura molecular. Objetiva ainda,

    oferecer condies para que seja reconhecida a importncia de algumas reaes

    qumicas envolvendo substncias que apresentam tais funes. Para tanto, espera-

    se que essa proposta possa superar os inconvenientes presentes no ensino destes

    contedos, caracterizados pela predominncia de aspectos relativos

    nomenclatura, representao e identificao associados invariavelmente

    memorizao de termos que se perdem com o passar do tempo.

    Nesse projeto, ser utilizado ento, um evento histrico - a importncia das

    especiarias na alimentao - como motivao inicial. A inteno de fazer com que

    os educandos se sintam estimulados a investigar as substncias responsveis pelas

    propriedades organolpticas de algumas especiarias previamente escolhidas pelo

    professor, e a estrutura do constituinte dessas substncias, bem como o uso dessas

    mercadorias incluindo, neste contexto, as questes econmicas e culturais. Alm

    disso, pretende-se proporcionar aos estudantes a oportunidade de buscarem

    identificar especiarias genuinamente brasileiras e seus compostos mais importantes

    sob o mesmo ponto de vista desenvolvido inicialmente pelo professor.

    Esse trabalho foi desenvolvido a partir da concepo de que a escola um

    dos principais ambientes onde o conhecimento cotidiano transmitido e, ao mesmo

    tempo, rebatido pelo confronto com o conhecimento cientfico. Esse processo, por

    sua vez, gera um outro tipo de conhecimento, o escolar, configurando assim uma

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    problemtica caracterizada pela busca da compreenso da interao entre esses

    trs tipos de saberes que se defrontam continuamente no mbito escolar.

    Na viso analtico-histrica do filsofo Gaston Bachelard, a cincia se

    desenvolve a partir de uma relao social entre indivduos que compartilham um

    saber que se prope a ter status de verdade. Essa verdade dependente de uma

    estrutura terica que a sustente. Assim, o conhecimento cientfico evolui na medida

    em que indivduos da comunidade cientfica, refletindo sobre o passado, avaliam sua

    condio no presente retificando-se os erros. A cincia Qumica avanou ao romper

    com verdades transitrias e ao criar um grupo social capaz de desenvolver novos

    trabalhos com uma nova verdade (sustentada por uma teoria). Essa caracterstica

    do trabalho cientfico no pode ser desprezada pelos educadores em Cincia, pois

    ajuda a desmitific-la ao tornar explcita uma de suas limitaes.

    O conhecimento cotidiano, por sua vez, corresponde a um conjunto de

    saberes e experincias que nos identificam com os outros integrantes da

    comunidade onde vivemos. Sua importncia reside no fato de ser indispensvel uma

    dose de automao em certas atividades que desempenhamos em nosso dia-a-dia

    para que possamos sobreviver. Nessa condio, o indivduo disponibiliza toda sua

    capacidade intelectual, sentimentos, concepes, habilidades, apresentando-se por

    inteiro, mas sem potencializar nenhum desses aspectos o que implica, tambm, em

    no se aprofundar em nenhuma experincia vivida. Podemos identificar no

    conhecimento cotidiano o senso comum, que aponta para a universalidade e

    uniformidade, e os saberes populares que apontam para a especificidade e para a

    diversidade. Exemplos de conhecimentos populares so os referentes ao uso de

    ervas medicinais, construo de moradias com os materiais disponveis e

    acessveis, aos alimentos mais comuns em determinada regio, aos utenslios

    produzidos atravs do artesanato e tambm s diferentes manifestaes artsticas

    que invariavelmente podem caracterizar uma identidade cultural.

    O conhecimento cientfico se desenvolve ao romper com o conhecimento

    cotidiano, dintingindo-se por gerar saberes pertencentes a uma instncia prpria,

    sendo, portanto, invivel sua transio para outras instncias por simples

    reelaborao. Ao contrrio das opinies (resultado de observaes justapostas e do

    empirismo das primeiras impresses), caracterstica prpria do conhecimento

    cotidiano, o conhecimento cientfico se projeta na perspectiva epistemolgica da

    retificao de seus erros primeiros. Enquanto que uma fonte de saber se contenta

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    com uma verdade permanente (opinio) a outra busca uma verdade provisria, isto

    , a provisoriedade uma caracterstica do saber cientfico.

    A escola pode se configurar como um foco de resistncia aceitao

    incondicional ao que socialmente imposto como verdade. Talvez faa parte da

    essncia do conhecimento escolar paramentar as conscincias de instrumentos

    crticos, j desenvolvidos pela cincia, capazes de fazer os indivduos emergirem

    das amarras do conhecimento cotidiano e das ciladas do discurso cientificista. E

    isso, certamente, no corresponde simples aprendizagem dos conhecimentos

    gerados pelas diferentes reas das cincias, mas tambm da forma como essas

    reas geraram esses conhecimentos.

    Assim, podemos dizer que aprender cincia no deve corresponder

    necessariamente a fazer cincia, tanto no aspecto terico-conceitual (pensar como

    o cientista, etc.) quanto nas prticas (experimentao), e que no se pode garantir

    que aquele conhecimento desenvolvido na academia seja internalizado na sua

    ntegra pelo estudante ou sequer trabalhado dessa forma pelo professor.

    Neste aspecto Alves-Filho (2000) destaca o que Chevalard considera como

    transposio didtica, ou seja, uma ferramenta necessria para promover o

    processo atravs do qual o saber prod

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