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  • A importao de nforas de preparados pscicolas em Olisipo (Sculos II-I a.C.).

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    A IMPORTAO DE NFORAS DE PREPARADOS PSCICOLAS EM OLISIPO (SCULOS II-I A.C.).

    J. PIMENTA IPPAR

    1.- Introduo.

    O papel do rio Tejo como importante via de comunicao para o interior do territrio, levou a que desde cedo, o porto de Olisipo se afirmasse como um dos mais importantes portos de toda a fachada atlntica, ponto de contacto entre dois mundos, o Mediterrnico e o Atlntico.

    O estudo das ocupaes antigas de Lisboa depara-se com um conjunto de problemticas muito especficas que importa ter presentes num estudo desta natureza. O facto de estarmos a lidar com uma cidade viva com uma longa diacronia de ocupao e com uma larga tradio histrica de actividade ssmica, limita em parte a nossa percepo, visto o constante renovar e reinventar do tecido urbano causar lacunas e hiatos na estratigrafia que nem sempre so fceis de explicar.

    Ainda que recentes intervenes permitam supor que a ocupao humana possa remontar Idade do Bronze, os dados disponveis permitem sublinhar que durante a Idade do Ferro que o stio extensamente ocupado.

    Esta primeira fase de ocupao do morro e colina do Castelo (sculos VIII-V a.C.) apresenta evidentes contactos com o mundo fencio ocidental, bem patentes no seu esplio cermico onde se destaca os recipientes cobertos com engobe vermelho, os pythoi decorados com bandas, as nforas, as urnas de tipo Cruz del Negro e as cermicas cinzentas finas (Arruda, 2002).

    No que diz respeito rea ocupada os dados de que dispomos e a disperso das intervenes j realizadas deixam antever uma superfcie de grandes dimenses, que j levou a que fosse sugerido que em termos de rea ocupada Olisipo corresponde ao maior povoado orientalizante do territrio Portugus (Arruda, 2002, 129).

    Apesar dos dados serem mais numerosos para esta primeira fase, a ocupao da segunda metade do primeiro milnio a.C. encontra-se bem evidenciada. A continuidade de importao de produtos alimentares em nforas de clara provenincia meridional a par da presena de cermicas gregas de verniz negro e figuras vermelhas, permitem salientar o papel do povoado da foz do Tejo ao longo deste perodo (Pimenta, Calado e Leito, 2005).

    Os primeiros contactos com o mundo Itlico parecem ter ocorrido na segunda metade do sculo II a.C. no mbito do processo de conquista e consolidao do poder de Roma no extremo ocidente peninsular. Atravs de Estrabo (III, 3.1),

    sabemos que Olisipo foi fortificada em 138 a.C. , pelo novo governador da provncia romana da Ulterior, o procnsul Dcimo Jnio Bruto.

    Este general, utilizou o vale do Tejo como eixo principal da sua campanha militar ao noroeste peninsular, tendo usado a cidade de Mron, como base de operaes e Olisipo, junto foz como cidade de retaguarda, desempenhando o papel de domnio da entrada do rio, mantendo livre a navegao e assegurando o abastecimento aos exrcitos em campanha.

    Os resultados das recentes intervenes realizadas na colina do Castelo permitem sublinhar a importncia da sua dinmica econmica durante esta fase, e do seu profundo impacto no desenvolvimento subsequente do ncleo urbano (Pimenta, 2005).

    Os dados das fontes clssicas voltam a ser escassos para o papel do vale do Tejo durante este perodo, sendo importante reter a passagem de C. Julio Csar, como pretor da provncia da Ulterior (61-60 a.C.). Ainda que no exista qualquer referncia ao papel de Olisipo nesta campanha, a referncia utilizao de meios navais e a opo de Scallabis como base de operaes, denominada Praesidium Iulium, levam-nos a salientar o impacto que esta expedio dever ter tido no centro porturio da foz do Tejo.

    Segundo Plnio-o-Velho (Plin. 4, 117) sabemos que Olisipo ter recebido o estatuto de municpio romano (municipium Civium Romanorum) e com ele o cognomentum Felicitas Iulia, possivelmente entre 31 e 27 a.C. (Faria, 1999, 37).

    Figura 1. Localizao de Lisboa na pennsula Ibrica e vale do Tejo.

    Actas del Congreso Internacional CETARIAE. Salsas y salazones de pesca-do en Occidente durante la Antigedad, Universidad de Cdiz, Noviembre de 2005, B.A.R. int. ser. Xxxx, Oxford 2006, 221-233

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    Da cidade de poca alto imperial restam abundantes vestgios epigrficos (Silva, 1944), arquitectnicos (Mantas, 1990; Silva, 1999), assim como esplios arqueolgicos muito diversificados comprovativos do seu dinamismo econmico e da importncia da sua vida municipal.

    O desenvolvimento das intervenes na parte baixa da cidade tm vindo a multiplicar as descobertas de unidades industriais de conservas de peixe, consolidando a ideia do papel preponderante que a foz do Tejo, assume a partir de meados do sculo I d.C. nesta actividade econmica (Bugalho, 2001).

    2.- Contextos enquadramento das intervenes.

    2.1.- A acrpole.

    As pesquisas que desde meados de 1996 tm vindo a ser efectuadas na antiga alcova de Lisboa, tem permitido comprovar a importncia do morro do castelo na gnese do primitivo aglomerado pr-romano e do seu subsequente desenvolvimento ao longo de cerca de trs mil anos (Gomes et alli, 2003). Esta longa diacronia de ocupao que se materializa em grandes e complexas potncias estratigrficas permite aferir uma srie de leituras da evoluo do povoado da colina do Castelo, sendo de particular interesse para o presente trabalho os dados relativos poca romana republicana.

    Em todas as leituras estratigrficas efectuadas em diversas zonas do Castelo, foi possvel definir de uma forma clara unidades estratigrficas documentando os primeiros momentos de contacto com o mundo Itlico. O estudo desses contextos, permitiu definir uma nica fase de ocupao para esta poca, centrada no terceiro quarto do sculo II a.C. (150-125 a.C.). Mais precisamente entre 140-130 a.C., tendo em conta a homogeneidade das diversas importaes identificadas e a sua comparao com os resultados aferidos em contextos similares em estaes com cronologias bem definidas (Pimenta, 2005).

    Sintetizando os dados dos diversos contextos que j tivemos oportunidade de apresentar detalhadamente, importa determo-nos nas caractersticas gerais das importaes que definem esta fase e que permitem individualiz-la: o predomnio da cermica campaniense A sobre as restantes cermicas de verniz negro, a presena de kalathoi ibricos, a associao entre nforas greco-itlicas tardias e as primeiras Dressel 1, nforas de Brindisi, nforas do Tipo 9.1.1.1., Tipo 4.2.2.5., Subgrupo 12. 1.1.0. e T. 7.4.3.3. de Ramon Torres (1995), imitaes hispnicas dos modelos Greco-itlicos e nforas olecolas tripolitanas antigas.

    Os dados relativos a esta fase da vida do povoado ganham outra relevncia se tivermos em conta, a ausncia de nveis republicanos posteriores aos finais do sculo II a.C. em todas as leituras estratigrficas efectuadas na antiga alcova medieval. Apenas numa interveno na rea mais alta do morro do Castelo, foi possvel identificar, embora em nveis de aterro posteriores, uma srie de materiais que permitem

    alicerar uma continuidade pelo menos em algumas reas da alcova at meados do sculo I a.C.

    Essa leitura associada inexistncia de nveis de poca romana Imperial excepo de os alicerces de um grande edifcio pblico que tivemos oportunidade de descobrir recentemente (Gaspar et alli, 2004), levou-nos a propor a existncia de uma alterao do eixo urbano da cidade em meados do sculo I a.C. Tendo o planalto do Castelo perdido a sua funo urbana j secular em deprimento da encosta da sua colina e do vale da Baixa, onde se desenvolve o Municipium Civium Romanorum de Felicitas Iulia Olisipo (Pimenta, 2005).

    Figura 2. Planta do centro histrico de Lisboa com a localizao das intervenes mencionadas no texto: 1- Castelo de So Jorge; 2- FRESS; 3- Teatro Romano; 4- Claustro da S; 5- Casa dos Bicos; 6- Sommer; 7- So Joo da Praa.

    2.2.- A colina.

    Apesar de as intervenes se terem multiplicado nos ltimos anos no centro histrico da cidade os dados relativos poca romana republicana so escassos. A instalao nesta rea das grandes termas da cidade romana, do Teatro, do Frum e do grande esforo construtivo para a instalao de um urbanismo que domasse a encosta, tiveram um profundo impacto nos nveis precedentes.

    Importa ter presente este prembulo visto a maioria dos dados de que dispomos para este perodo na colina resultarem de materiais exumados em contexto de deposio secundria. A sua reviso e estudo detalhado ainda est por fazer, no entanto, uma primeira leitura que pude desenvolver do volumoso esplio de duas das mais importantes

  • A importao de nforas de preparados pscicolas em Olisipo (Sculos II-I a.C.).

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    escavaes a realizadas permite avanar com algumas hipteses de trabalho.

    No Teatro Romano de Lisboa os resultados das escavaes antigas permitiram recolher um conjunto de nforas de poca romana republicana (Diogo e Trindade, 1999 e Diogo, 2000) a que se vm aduzir os numerosos exemplares da interveno em curso1. Embora os elementos que comeam a ser disponveis para esta rea comecem a ser assaz relevantes, e representativos das importaes da cidade durante o sculo II/I a.C. esses materiais resultam de depsitos e aterros de cronologia posterior construo do Teatro. Saliente-se, visto o mbito do presente trabalho, a presena de abundantes nforas de preparados de peixe de provenincia sul peninsular.

    As escavaes que desde o incio dos anos noventa vm sendo desenvolvidas no claustro da S Catedral de Lisboa (Amaro, 1993; Matos, 1994), permitiram a par de importantes vestgios do urbanismo da cidade romana, exumar quantidades significativas de campanienses e nforas de poca romana republicana2. No entanto, na sua maioria esses materiais foram exumados num aterro de poca medieval para a construo do Claustro da Catedral no sculo XIV, no permitindo esclarecer o seu real significado.

    Durante o vero de 2