A INFLUÊNCIA DOS DISCURSOS MIDIÁTICOS NA .... sempre tem como objetivo final acarretar um certo

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  • A INFLUNCIA DOS DISCURSOS MIDITICOS NA CONSTRUO DA IMAGEM DO LDER

    Palavras podem ser como minsculas doses de arsnico:

    so engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas;

    passando um tempo, o efeito do veneno se faz notar.

    Victor Klemperer, LTI

    Luciana Gomes da Silva (NEAD/PG-UEMS)

    Marlon Leal Rodrigues (NEAD/UEMS)

    Resumo: Em maro de 2009, o recm-eleito presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, acusou o ento

    lder venezuelano, Hugo Chavz, de exportar terrorismo para o resto do mundo e apoiar as Foras Armadas

    Revolucionarias da Colmbia (FARC). Na mesma semana, o ex-governante utilizou o programa Fala,

    Presidente!, transmitido em toda Venezuela, para se defender. Em poucos minutos o enunciado Hugo Chavz

    chama Obama de pobre ignorante, proferido por Chavz durante um discurso, repercutia na imprensa mundial.

    Desta forma, o presente artigo tem como objetivo analisar este enunciado e investigar de que forma o discurso

    miditico interfere no discurso do lder poltico, e se os veculos de comunicao tm poder de influncia sob

    sua liderana. O trabalho fundamenta-se nas teorias da Anlise do Discurso de linha francesa, assim busca-se

    compreender de que forma a mdia influencia o pblico acerca da popularidade de um lder e como a notcia

    afeta sua liderana, alm disso, pretende-se investigar como a imprensa utiliza determinadas informaes ou

    escolhem, especificamente, alguns personagens para sustentar seus prprios discursos e, assim, propagar suas

    ideologias. Tendo em vista que, socialmente, a acusao de apoio ao terrorismo pode causar um efeito de

    sentido maior que qualificar determinado indivduo de pobre ignorante, mesmo um presidente.

    Palavras-chave: Discurso Poltico; Discurso Miditico; Chavismo; Mdia.

    Introduo

    Durante o programa Fala, Presidente!, transmitido na Venezuela, do dia 22 de maro de 2009, o ento

    lder do pas, Hugo Chavz, rebateu as crticas do recm-eleito presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,

    de que exportava terrorismo para o resto do mundo e apoiava as Foras Armadas Revolucionarias da Colmbia

  • (FARC). Em um dos trechos do longo discurso, o ex-governante usa a expresso pobre ignorante para se

    referir a Obama e dizer que estava equivocado e, at mesmo, desinformado acerca do cenrio geopoltico

    internacional. Em poucos minutos o enunciado Hugo Chavz chama Obama de pobre ignorante, repercutia

    na imprensa mundial.

    Desenvolvido com base na teoria da Anlise do Discurso de Linha Francesa, este artigo apoia-se nos

    conceitos de Michel Pcheux e Eni Orlandi para analisar as construes ideolgicas presentes no enunciado e

    como exerce influencia no pblico. Pois, ao editar vdeos, imagens e textos os veculos de comunicao podem

    alterar o sentido de determinado enunciado atribuindo-lhe efeito de sentido distinto do encontrado no discurso

    original. Isso pode ser intencional ou no, porm pode ter consequncias para o personagem da matria. No

    caso de um lder poltico, a notcia pode afetar sua popularidade negativamente ou positivamente.

    Desta forma, o presente artigo tem como objetivo analisar o enunciado Hugo Chavz chama Obama de

    pobre ignorante e de que forma o discurso miditico interfere no discurso do lder poltico, e se os veculos de

    comunicao tm poder de influncia sob sua liderana. Alm disso, pretende-se investigar como a imprensa

    utiliza determinadas informaes ou escolhem, especificamente, alguns personagens para sustentar seus

    prprios discursos e, assim, propagar suas ideologias. Tendo em vista que, socialmente, a acusao de apoio

    ao terrorismo pode causar um efeito de sentido maior que qualificar determinado indivduo de pobre

    ignorante, mesmo um presidente.

    O discurso e a construo do lder

    O discurso o instrumento da prtica poltica (PCHEUX, 2010, p. 24). Em outras palavras o poltico

    est em quaisquer discursos1. Segundo Pcheux, o discurso no se trata apenas da mera transmisso de

    conhecimento; at porque as palavras j chegam para os sujeitos carregadas de significados. Sendo assim, o

    sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia (ORLANDI, 2013, p. 20).

    1 Eni Orlandi fala sobre anlise do discurso e linguagem em entrevista no Globo Universidade.

  • Desta forma, a figura do lder se constri e se manifesta no discurso, cuja etimologia da palavra remete

    a curso, percurso, movimento. Assim, o discurso a palavra em movimento, prtica da linguagem (ORLANDI,

    2013, p. 15).

    No caso da linguagem poltica, sempre tem como objetivo final acarretar um certo tipo de

    comportamento da parte daquele a quem se est dirigindo (PCHEUX, 2009, p. 260). atravs da

    discursividade que o lder poltico transmite suas ideologias e os ideais de seu partido. Deste modo, sua

    liderana surge como produto dessa construo. Segundo Orlandi:

    A discursividade (...) caracteriza-se pelo fato de que os sujeitos, em suas posies, e

    os sentidos, constituem-se pela sua insero em diferentes formaes discursivas.

    Estas se definem como aquilo que o sujeito pode e deve dizer numa situao dada em

    uma conjuntura dada, e refletem, no discurso, as formaes ideolgicas. (2012, p. 153)

    De fato, os discursos marcam a imagem do poltico e diz ao pblico como a sua forma de fazer

    poltica e quais causas defende, com a finalidade de conquistar adeptos e, consequentemente, futuros eleitores,

    pois o funcionamento da linguagem so processos de identificao do sujeito, de argumentao, de

    subjetivao, de construo da realidade, por isso discurso se define como efeito entre locutores (ORLANDI,

    2013, p. 21-23).

    Porm, com a interveno de outros atores polticos, como o caso da mdia, o discurso pode receber

    influncia de pontos de vista, bem como de opinies. Ao editar vdeos, imagens e textos os veculos de

    comunicao podem alterar o sentido de determinado enunciado atribuindo-lhe efeito de sentido distinto do

    encontrado no discurso original.

    Segundo Pcheux (2006, p. 53) no existe a possibilidade de haver uma descrio pura de um

    acontecimento sem que haja interpretao. Todo enunciado intrinsecamente suscetvel de tornar-se outro,

    diferente de si mesmo, se desloca discursivamente de seu sentido original para derivar para um outro. Sob a

    tica desta afirmao, o pblico ao invs de acreditar que a imprensa pode ser fonte de informao deve

    considerar que sua funo de, apenas, divulgar pontos de vista sobre determinado fato ou acontecimento.

    Para melhor entendimento desta perspectiva, faz-se necessrio retomar dois conceitos fundamentais da

    Anlise do Discurso de linha francesa: Parfrase e Polissemia, os quais Orlandi define como:

  • Os processos parafrsticos so aqueles pelos quais em todo o dizer h algo que se mantm,

    isto , o dizvel, a memria. A parfrase representa assim o retorno aos mesmos espaos do

    dizer. Produzem-se diferentes formulaes do mesmo dizer sedimentado (...). (...) na

    polissemia o que temos o deslocamento, ruptura de processos de significao. Ela joga com

    o equvoco. (2013, p. 36)

    Desta forma, pode-se concluir que, todo acontecimento poltico noticiado uma interpretao j que o

    fato passa por um procedimento de edio, no caso de vdeos e imagens, e por uma reescritura, no caso de

    textos. Em ambos os processos, o jornalista inscreve sua memria e sua formao ideolgica na matria

    jornalstica. Posteriormente, ao fazer a edio final da matria o editor-chefe far o mesmo, e quando esta

    informao chega ao pblico este far sua interpretao. Para Pcheux, a interpretao um gesto, ou seja,

    um ato no nvel simblico (PCHEUX apud ORLANDI 1998).

    Para o filosofo, os termos mudam de sentido conforme as posies sustentadas pelos sujeitos que os

    empregam, deste modo, adquirem sentido em referncia s suas prprias formaes ideolgicas. o que

    Pechux define como formao discursiva,

    Chamaremos, ento, formao discursiva aquilo que, numa formao ideolgica dada,

    isto , a partir de uma posio dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da

    luta de classes, determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma

    arenga, de um sermo, de um panfleto, de uma exposio, de um programa, etc) (2009,

    p.161).

    O conceito de Pcheux pode esclarecer a unanime de interpretao do pblico ao se deparar com

    determinadas matrias jornalsticas. Ao acreditar no mito da imparcialidade da imprensa, o pblico se mantm

    preso a determinada opinio e alheio a questionamentos.

    Habermas (1984, p. 217) afirma que, a imprensa passa a ser manipulvel medida que se torna

    comercial, na segunda metade do sculo XIX. Quando a venda da parte redacional do jornal passa a se

    correlacionar com a venda da parte de anncios, assim, a imprensa deixa de ser uma instituio de pessoas

    privadas enquanto pblico para torna-se instituio de determinados membros do pblico enquanto pessoas

    privadas, ficando a merc de interesses privados.

  • Durante sua evoluo, a imprensa passou de pequenas empresas artesanais, orientadas pela

    maximizao dos lucros (o interesse do editor era puramente comercial), cuja atividade se limitava

    essencialmente organizao da circulao das notcias para uma imprensa de opinio (HABERMAS, 1984,

    p. 214). Para entender como ocorreu esta mudana tem-se uma passagem de Bcher citado por Habermas:

    Os jornais passaram de meras instituies publicadoras de notcias para, alm disso, serem

    porta-vozes e condutores da