A Interpreta§£o B­blica Na Igreja 2

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  • 7/24/2019 A Interpretao Bblica Na Igreja 2

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    A INTERPRETAO BBLICA NA IGREJA

    INTRODUO

    A interpretao dos textos bblicos continua a suscitar em nossos dias umvivo interesse e provoca importantes discusses. Elas adquiriram dimenses

    novas nestes ltimos anos. Dado importncia fundamental da blia paraa f! crist" para a vida da #$re%a e para as relaes dos cristos com os &!isdas outras reli$ies" a 'ontifcia (omisso blica foi solicitada a sepronunciar a esse respeito.

    A. Problemtica atual

    ) problema da interpretao da blia no ! uma inveno moderna comoal$umas ve*es se quer fa*er crer. A blia mesma atesta que suainterpretao apresenta di&culdades. Ao lado de textos lmpidos" elacomporta passa$ens obscuras. +endo certos or,culos de -eremias" Daniel seinterro$ava lon$amente sobre o sentido deles Dn/"01. 2e$undo os Atos dos

    Ap3stolos" um etope do primeiro s!culo encontrava4se na mesma situaoa prop3sito de uma passa$em do livro de #saas #s 56"7481 e recon9ecia ternecessidade de um int!rprete At8"6:4651. A se$unda carta de 'edrodeclara que ; nen9uma profecia da Escritura resulta de uma interpretaoparticular < 0 Pd="0:1 e ela observa" de outro lado" que as cartas doap3stolo 'aulo cont>m ; al$uns pontos difceis de entender" que osi$norantes e vacilantes torcem" como fa*em com as demais Escrituras" parasua pr3pria perdio < 0 Pd6"=?1.

    ) problema !" portanto" anti$o mas ele se acentuou com o desenrolar dotempo@ doravante" para encontrar os fatos e palavras de que fala a blia" os

    leitores devem voltar a quase vinte ou trinta s!culos atr,s" o que no deixade levantar di&culdades. De outro lado" as questes de interpretaotornaram4se mais complexas nos tempos modernos devido aos pro$ressosfeitos pelas ci>ncias 9umanas. !todos cient&cos foram aperfeioados noestudo do textos da anti$uidade. Em que proporo esses m!todos podemser considerados apropriados interpretao da 2a$rada EscrituraB A estaquesto a prud>ncia pastoral da #$re%a durante muita tempo respondeu demaneira muito reticente" pois muitas ve*es o m!todos" apesar de seuselementos positivos" encontravam4se li$a dos a opes opostas f! crist.as uma evoluo positiva se produ*iu" marcada por uma s!rie dedocumentos pontifcios" desde encclica Providentissimus Deusde +eo C###

    =8 novembro =8/6 at! a encclicaDivino afante Spiritude 'io C## 6:setembro =/61" e ela foi con&rmada pela declarao Sancta MaterEcclesie0= abril =/?1 da 'ontifcia (omisso blica e sobretudo pele(onstituio Do$m,ticaDei Verbumdo (oncilio aticano ## =8 novembro=/?51.

    A ecundidadedesta atitude construtiva manifestou4se de uma maneiraine$,vel. )s estudos bblicos tiveram um pro$resso not,vel na #$re%acat3lica e o valor cient&co deles foi cada ve* mais recon9ecido no mundodos estudiosos e entre os &!is. ) di,lo$o ecum>nico foi consideravelmentefacilitado. A inFu>ncia da blia sobre a teolo$ia se aprofundou e contribuiu

    renovao teol3$ica. ) interesse pela blia aumentou entre os cat3licos efavoreceu o pro$resso da vida crist. Godos aqueles que adquiriram uma

    http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_30091943_divino-afflante-spiritu_po.htmlhttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.htmlhttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.htmlhttp://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_30091943_divino-afflante-spiritu_po.html
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    formao s!ria nesse campo estimam doravante impossvel retornar a umestado de interpretao pr!4crtica" pois o %ul$am" com ra*o" claramenteinsu&ciente.

    as" ao mesmo tempo em que o m!todo cient&co mais divul$ado H om!todo ; 9ist3rico4crtico < H ! praticado correntemente em exe$ese"inclusive na exe$ese cat3lica" ele mesmo encontra4se em discusso@ de umlado" no pr3prio mundo cient&co" pela apario de outros m!todos eaborda$ens" e" de outro lado" pelas crticas de numerosos cristos que o

    %ul$am de&ciente do ponto de vista da f!. 'articularmente atento" como seunome o indica" evoluo 9ist3rica dos textos ou das tradies atrav!s dotempo H ou diacroniaH o m!todo 9ist3rico4crtico encontra4se atualmenteem concorr>ncia" em al$uns ambientes" com m!todos que insistem nacompreenso sincrnicados textos" tratando4se da ln$ua" da composio"da trama narrativa ou do esforo de persuaso deles. Al!m disso" o cuidadoque os m!todos diacrInicos t>m em reconstituir o passado" para muitos !substitudo pela tend>ncia de interro$ar os textos colocando4os emperspectivas do tempo presente" se%a de ordem &los3&ca" psicanaltica"sociol3$ica" poltica" etc. Esse pluralismo de m!todos e aborda$ens !apreciado por al$uns como um indcio de rique*a" mas a outros ele d, aimpresso de uma $rande confuso.

    Jeal ou aparente" essa confuso tra* novos ar$umentos aos advers,rios daexe$ese cient&ca. ) conFito das interpretaes manifesta" se$undo eles"que no se $an9a nada submetendo os textos bblicos s exi$>ncias dosm!todos cient&cos" mas" ao contr,rio" perde4se bastante. Eles sublin9amque a exe$ese cient&ca obt!m como resultado o provocar perplexidade edvida sobre inumer,veis pontos que" at! ento" eram admitidos

    paci&camenteK que ele fora al$uns exe$etas a tomar posies contr,rias f! da #$re%a sobre questes de $rande importncia" como a concepovir$inal de -esus e seus mila$res" e at! mesmo sua ressurreio e suadivindade.

    esmo quando no &nali*a em tais ne$aes" a exe$ese cient&ca secaracteri*a" se$undo eles" pela sua esterilidade no que concerne opro$resso da vida crist. Ao inv!s de permitir um acesso mais f,cil e maisse$uro s fontes vivas da 'alavra de Deus" ela fa* da blia um livrofec9ado" cu%a interpretao sempre problem,tica exi$e t!cnicas re&nadasfa*endo dela um domnio reservado a al$uns especialistas. A estes" al$uns

    aplicam a frase do Evan$el9o@ ; Gomastes a c9ave da ci>nciaL 3s mesmosno entrastes e impedistes os que queriam entrarL < Lc=="50K cf Mt06"=61.

    Em consequ>ncia" ao paciente labor do exe$eta cient&co estima4senecess,rio substituir aborda$ens mais simples" como uma ou outra pr,ticade leitura sincrInica que se considera como su&ciente" ou mesmo"renunciando a todo estudo" preconi*a4se uma leitura da blia dita ;espiritual

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    . O objetivo deste documento

    N, de se considerar seriamente" portanto" os diversos aspectos da situaoatual em mat!ria de interpretao bblica" de esta atento s crticas" squeixas e s aspiraes que se exprimem a esse respeito" de apreciar aspossibilidades abertas pelos novos m!todos e aborda$ens e de procurar"en&m" precisar a orientao que mel9or corresponde misso do exe$etana #$re%a cat3lica.

    Esta ! a &nalidade deste documento. A 'ontifcia (omisso blica dese%aindicar os camin9os que conv!m tomar para c9e$ar a uma interpretao dablia que se%a to &el quanto possvel a seu car,ter ao mesmo tempo9umano e divino. Ela no pretende tomar aqui posio sobre todas asquestes que so feitas a respeito da blia" como por exemplo" a teolo$iada inspirao. ) que ela quer ! examinar os m!todos suscetveis decontriburem com e&c,cia a valori*ar todas as rique*as contidas nos textosbblicos" a &m de que a 'alavra de Deus possa tornar4se sempre mais o

    alimento espiritual dos membros de seu povo" a fonte para eles de uma vidade f!" de esperana e de amor" assim como uma lu* para toda a9umanidade cf Dei Verbum" 0=1.

    'ara alcanar este &m" o presente documento@

    =. far, uma breve descrio dos diversos m!todos e aborda$ens" =1indicando suas possibilidades e seus limitesK

    0. examinar, al$umas questes de 9ermen>uticaK

    6. propor, uma reFexo sobre as dimenses caractersticas da interpretaocat3lica da blia e sobre suas relaes com as outras disciplinas teol3$icasK

    . considerar," en&m" o lu$ar que ocupa a interpretao da blia na vida da#$re%a.

    I. MTODOS E ABORDAGENS PARA A INTERPRETAO

    A. Mtodo histrico-crtico

    ) m!todo 9ist3rico4crtico ! o m!todo indispens,vel para o estudo cient&codo sentido dos textos anti$os. (omo a 2anta Escritura" enquanto ; 'alavra

    de Deus em lin$ua$em 9umana

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    Gestamento s3 pIde se desenvolver como disciplina cient&ca a partir de=8::" depois que se desli$ou do e!tus receptus" os prim3rdios da crticaliter,ria remontam ao s!culo C##" com a obra de Jic9ard 2imon" quec9amou a ateno sobre as repeties" as diver$>ncias no contedo e asdiferenas de estilo observ,veis no 'entat>uco" constataes di&cilmente

    concili,veis com a atribuio de todo o texto a um autor nico" ois!s. Mos!culo C###" -ean Astruc contentou4se ainda em dar como explicao queois!s tin9a se servido de v,rias fontes sobretudo de duas fontesprincipais1 para compor o +ivro do O>nesis" mas" em se$uida" a crticacontesta cada ve* mais resolutamente a atribuio da composio do'entat>uco a ois!s. A crtica liter,ria identi&cou4se muito tempo com umesforo para discernir diversas fontes nos textos. P assim que sedesenvolveu" no s!culo C#C" a 9ip3tese dos ; documentos ncia da 9ist3ria comparada dasreli$ies" tal como ela se praticava ento" ou partindo de concepes&los3&cas" emitiam contra a blia %ul$amentos ne$ativos.

    Nermann OunSel fe* o m!todo sair do $ueto da crtica liter,ria entendidadesta maneira. 2e bem ten9a continuado a considerar os livros do'entat>uco como compilaes" ele aplicou sua ateno textura particular

    das diferentes partes. Ele procurou de&nir o $>nero de cada uma porexemplo" ; le$enda < ou ; 9ino

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    redao n