A Linguagem Harmônica da Bossa-Nova

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A LINGUAGEM HARMNICA DA BOSSA NOVA

FUNDAO EDITORA DA UNESP Presidente do Conselho Curador Jos Carlos Souza Trindade Diretor-Presidente Jos Castilho Marques Neto Editor Executivo Jzio Hernani Bomfim Gutierre Conselho Editorial Acadmico Alberto Ikeda Antonio Carlos Carrera de Souza Antonio de Pdua Pithon Cyrino Benedito Antunes Isabel Maria F. R. Loureiro Lgia M. Vettorato Trevisan Lourdes A. M. dos Santos Pinto Raul Borges Guimares Ruben Aldrovandi Tnia Regina de Luca

A LINGUAGEM HARMNICA DA BOSSA NOVA

JOS ESTEVAM GAVA

2002 Editora UNESP Direitos de publicao reservados : Fundao Editora da UNESP (FEU) Praa da S, 108 01001-900 So Paulo SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 Home page: www.editora.unesp.br E-mail: feu@editora.unesp.br

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Gava, Jos Estevam A linguagem harmnica da Bossa Nova/Jos Estevam Gava. So Paulo: Editora UNESP, 2002. Bibliografia. ISBN 85-7139-398-2 1. Bossa Nova (Msica) Brasil Histria e crtica Linguagem I. Ttulo. 02-2894 ndice para catlogo sistemtico: 1. Bossa Nova: Msica popular: Brasil: Histria e crtica 781.630981 2. Msica

CDD-781.630981

Este livro publicado pelo projeto Edies de Textos de Docentes e Ps-Graduados da UNESP Pr-Reitoria de Ps-Graduao e Pesquisa da UNESP (PROPP) / Fundao Editora da UNESP (FEU)

Editora afiliada:

Para Rgis Duprat e Tnia Regina de Luca

SUMRIO

Apresentao Maria de Lourdes Sekeff Prefcio Rgis Duprat Palavras iniciais e agradecimentos Introduo 1 Percurso musical bossanovista 2 Momento Bossa Nova 3 Atores principais

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4 Harmonia 105 Referncias bibliogrficas 241 Fontes 245

APRESENTAO

Na histria da Msica Popular Brasileira a Bossa Nova assoma como um estilo da mais alta originalidade, como o demonstra Jos Estevam Gava neste seu livro A linguagem harmnica da Bossa Nova, resultado de sua dissertao de mestrado na UNESP. Significando genericamente um jeito novo de fazer alguma coisa, a expresso bossa nova j era utilizada no ambiente dos msicos profissionais desde a dcada de 1940. Na dcada de 1950 a expresso ganharia fora com o movimento de jovens nos bairros da zona Sul do Rio de Janeiro, reunindo-se para fazer uma nova msica, tocando e cantando acompanhados pelo violo. Assim, Gava nos ambienta nessa fascinante temtica, recortando um arco de preocupao esttica que vai da histria e desenvolvimento da Bossa Nova s solues encontradas para o novo jeito de fazer msica. O trabalho finaliza com competente anlise, harmnica e comparada, entre um recortado nmero de msicas, de um lado, da Bossa Nova, e, de outro, da Velha Guarda. Slida fundamentao terica e critrios seguros nos procedimentos investigativos garantem crdito pesquisa.

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Tratando o tema como desenvolvimento histricomusical, Gava informa que o to procurado novo jeito de fazer msica e o novo estilo de cantar, contrastando com a maneira da poca, em realidade foi alm do intimismo e do violo, assimilando, ao lado da explorao de acordes semelhantes aos utilizados pelo jazz, aquele singular acompanhamento rtmico e harmnico desenvolvido por Joo Gilberto que o utilizou, inicialmente, em 1958, no LP de Elisete Cardoso, Cano do amor demais: acentuao no tempo fraco e alterao em acordes de passagem. O resultado viria em seguida: a combinao da voz de Joo Gilberto mais a magia do seu acompanhamento resultaram na surpresa do estranhamento, sendo logo identificados como a forma bossa nova. Da para a frente, Desafinado seria uma espcie de hino do novo estilo, e Samba de uma nota s se constituiria em outra obra de referncia do movimento. Arregimentando sempre mais parceiros e freqentando auditrios universitrios, clubes e emissoras de rdio, a Bossa Nova acabaria por trazer profundas mudanas ao samba urbano do Rio de Janeiro. Logo ela chegaria aos Estados Unidos, por intermdio do prprio Joo Gilberto, em parceria com instrumentistas como Stan Getz. Em novembro de 1962 se realizaria o primeiro Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall, obtendo incrvel repercusso e propiciando incio divulgao internacional do gnero. Era a vitria do estilo que se tornava mundialmente conhecido como Msica Popular Brasileira, diz Gava. Acrescentando posio de pesquisador a de msico e historiador, Jos Estevam Gava acaba por exceder o recorte estabelecido, dando conta de uma histria maior, a histria do pensamento harmnico da Bossa Nova e das caractersticas de um estilo indito. assim que o ltimo captulo do livro adentra nos procedimentos estruturais da Bossa Nova, enriquecido de um nmero definido de anlises harmnicas e comparadas, entre o repertrio bossanovista e o da Velha Guarda, pondo a nu o iderio do novo estilo apresentado aqui como escritura.

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Fiel ao pensamento musical, hbil na descrio do clima, seguro nos procedimentos metodolgico e analtico, o percurso estabelecido pelo pesquisador acaba por nos levar descoberta das coisas que nunca vi, parafraseando Oswald de Andrade. Desnuda esse novo jeito de fazer msica que, como nos mostrado, explora um repertrio intimista; despido de toda nfase tanto no canto quanto no acompanhamento, trabalha harmonias repletas de acordes alterados, saltos meldicos inesperados, freqentes modulaes; econmico na durao de cada msica, lrico, com original abordagem rtmica (acentuao no tempo fraco), tira partido de um novo tratamento dado ao acompanhamento violonstico; faz uso de deslocamentos independentes da melodia, andamento lento, textos coloquiais, refinamentos meldicos e harmnicos; a construo marcada por um tecido musical basicamente tonal, mantendo no seu fundo harmnico as funes tradicionais e produzindo, por vezes, dubiedade; procede a um jogo de harmonias, desenvolvido num intrincado movimento a quatro vozes; utiliza o movimento cromtico e descendente das vozes agudas sugerindo uma ambientao vaga e inusitada, e cromatismos paralelos que geram sonoridades vagas e nuanas delicadas, tudo respondendo pela originalidade de uma linguagem do indito, confirmando o que diria Fernando Pessoa: o que em mim sente est pensando! Competente, seguro, singular como a prpria Bossa Nova, este livro vem alimentar a bibliografia da Msica Popular Brasileira. Vale a pena ser lido. Maria de Lourdes Sekeff Livre-docente e Profa. titular da UNESP

PREFCIO

O movimento que se denominou Bossa Nova BN, no final dos anos 50, e que teve uma importncia decisiva no desenvolvimento ulterior de toda a Msica Popular Brasileira MPB, tem sido estudado, desde a dcada de 1960, especialmente em suas implicaes socioculturais e polticas. Entretanto, a esse enfoque principal no tem correspondido um estudo mais aprofundado da linguagem musical da BN, particularmente na sua estrutura e fisionomia harmnica, tanto vocabular quanto sinttica e no discurso global da sua produo. Ainda mais raros tm sido os estudos sobre a BN em confronto com a chamada Idade de Ouro da msica popular brasileira, como so chamados os anos 30, fase da MPB que tem sido, nos ltimos tempos, fartamente estudada e valorizada pela histria cultural e literria do Brasil; sua rica e diversificada produo vem sendo resgatada e reproduzida em ampla discografia, e seus gneros, compositores e intrpretes tm sido objeto de uma bibliografia j considervel. essa aproximao entre a MPB dos anos 30 e a Bossa Nova que Jos Estevam Gava aborda com originalidade e propriedade, e cujo trabalho acadmico foi gratificante, para mim, orientar. Tendncias ultranacionalistas sempre constituram obstculo para a aceitao e assimilao das inovaes da BN, so-

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bretudo na sua configurao harmnica, no uso de uma harmonia moderna que presumidamente veiculava uma influncia americana espria que s teria contribudo para desnacionalizar a nossa msica popular autntica. Isso ajudou a difundir uma falsa interpretao de que fosse de origem americana a utilizao da harmonia tridica moderna (supertertian harmony) que vulgarizou nas msicas populares as prticas harmnicas francesas da passagem do sculo XIX para o XX, especialmente da obra de Claude Debussy. No importa que a BN a tenha assimilado da vivncia da msica popular norte-americana por parte de vrios de nossos msicos populares, precursores da BN, especialmente no perodo do ps-guerra. As funes tradicionais e a estrutura acrdica so mantidas mas acrescentam-se notas dissonantes, ampliando-se a escuta harmnica e promovendo uma sensao de mudana de harmonia ou de instabilidade tonal, como bem chama a ateno Gava. Alm da harmonia, outros parmetros tm sido considerados. Tambm constituiu um fator destacado no conjunto das inovaes o resgate que Joo Gilberto efetuou do estilo de interpretao musical de um dos grandes cantores da dcada de 1930, que foi Mrio Reis. Nesse estilo ou forma de cantar sem impostao poderamos incluir tambm Lamartine Babo, Slvio Caldas, Francisco Alves do incio da dcada e, por que no, Carmen Miranda (dentre muitos, dois exemplos: Reminiscncia triste, 1937, de Amado Rgis, e Saudade de voc, de Synval Silva, do mesmo ano). Cabe citar, tambm, a ginga (bossa) do canto da Pequena Notvel, como a chamava Csar Ladeira, nos registros originais de Gente bamba e Imperador do samba. Todos esses exemplos, assim como Carlos Galhardo, Orlando Silva e muitos outros, j constituem as primeiras manifestaes, nos anos 30, de uma atitude interpretativa que acabou por caracterizar emblematicamente a BN. A confeio no-metafrica das suas letras tambm tem sido invocada como caracterstica da Bossa Nova. Se remontarmos, porm, aos anos 40, ainda nessa vertente encontraremos exemplos tpicos que remetem dcada de 1930 com

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tendncias semelhantes, dentre as quais a valsa de Lamartine Babo Eu sonhei que tu estavas to linda, de 1941, cuja letra carre