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Jos Renato NALlNI'

O Brasil, pas de complexidades e de parado-xos, terreno frtil para constatar o descaso que anatureza merece. No convvio simultneo e numnico espao fsico de Ilhas pr-medievais, medie-vais, modernas e ps-modernas, encontram-se ma-nifestaes da tecnologia as mais avanadas e deprticas as mais primitivas.

Dentre estas, destaca-se, pela resistncia comque ainda defendida, a nefasta queima da palhade cana-de-acar imediatamente anterior colhei-ta. O tema recrudesceu com o milagre do etano/, queparece haver predestinado o Pas a ser o fornecedorda energia limpa ao resto do mundo, onde os efei-tos catastrficos da insanidade no trato danaturezaj se fazem sentir com intensidade maior.

A promessa de substancial incremento na de-manda do lcool para servir como combustvelpresumivelmente correto' animou o reduto gover-namental mais prximo ao controle da balana co-merciai a estimular o setor sucro-alcooleiro a inves-tir pesadamente no cultivo da cana e na instalacode novas usinas. A necessidade de rpidos resuta-dos e a busca frentica do lucro atropelam as preo-cupaes ambientais, as quais demonstram ntidoretrocesso no Pas, aps as bombsticas declaraesda Eco-92.

A necessidade de sustentao de uma polticaeconmico-financeira que transmita aos brasileirosa certeza de estabilidade e crescimento arredam osriscos ecolgicos da monocultura e conseqente

Desembargador do Tribuna! deJusta de So Paulo, com assento

na la Cmara de Direito Pblico, Cmara Especial do Meio

Ambiente. Membro eleito do rgo Especial desde 30/6/2006.Autor da obra tica Ambienta/(wo3).

'No totalmente exato que o lcool seja o combustvel ecologi-camente correto. O cotejo do custo-benefcio poder com pro-var que h subprodutos indesejveis na sua fabricao, anlisehoje obscurecida ante a perspectiva - mediatista e reducionista- de ingresso de dinheiro resultante de sua exportao.

A Luta do Direito contra as Queimadas

__________ . .. . .Jurisprudncia / /urisprudence

SUMRIO: Introduo. 1 As queimadas e a sade.2 A Legislao da queima da palha de cana-de-a-cal'. 3 A queimada e o Tribunal de Justia de SoPaulo. 3.1 Argumentos favorveis competnciamunicipal. 3.2 O papel dos princpios na interpreta-o judicial. Concluso. Referncias bibliogrficas.

RESUMO: A queima da palha de cana-de-acar mtodo utilizado no Brasil desde o sculo XVI e,no obstante a comprovao de nefastas conse-qncias para o meio ambiente e para a sade dapopulao afetada, continua a ser praticada. Pres-so do setor sucro-alcooleiro e lenincia estatalpermitem prorrogao reiterada dos prazos paraa cessao da prtica. O Judicirio reflete o artifi-cioso antagonismo entre progresso/desenvolvi-mento e tutela ambiental nas oscilaes de julga-mentos em que otema chega aos tribunais. O TJSPtende a vedar a prtica ao reconhecer ao Munic-pio, hoje entidade da Federao, competncia paralegislar e impor proibio s queimadas em seuterritrio.

PALAVRAS-CHAVE: Meio ambiente. Queimada.Queimada da palha de cana-de-acar. Mtodoarcaico ainda praticado antes da colheita.Vulnerao de direito ambiental.

IntroduoAdentrou-se ao sculo XXI, era de cumprimen-

to das promessas de melhor qualidade de vida. Apsos avanos tecnolgicos, seria de se esperar umambiente saudvel, plena conscincia de que o glo-bo frgil e, no entanto, sua explorao desenfrea-da o conduziu exausto. Sinais eloqentes do can-sao da Terra foram emitidos. A humanidade teimaem no entend-los. Pobres e ricos, governos e par-ticulares, eruditos e rsticos. Todos continuam adevastar a terra.

)ustitia, So raulo,_64 (197), iul./d~~~ __3.9-9.!_. _ _______1u_r_is-,-p_ru_d_n~!~l /uri~pr_u_de_n_c_e .298------._---_._.-._-,empobrecimento da biodiversidade. No se confereadequada importncia grave ameaa da reduodo territrio agrcola destinado produo de ali-mentos nem da formao de grandes latifndios,com a expulso de pequenos lavradores para os cen-tros urbanos j saturados. Menos ainda, calcula-se opassivo resultante da utilizao do fogo comofacilitador da colheita. Fatura a ser suportada portoda a comunidade, seja diretamente - nas regiesexpostas a tais prticas - seja indiretamente - nossistemas de sade mantidos pelo Errio e com a par-ticipao de todos os brasileiros.

1 As queimadas e a sadeNingum ousa defender que a queima da pa-

lha de cana-de-acar seja benfica sade. J sesustentou ser ela o modelo ideal para a colheita, poislibera o trabalhador rural de alguns riscos, dentre osquais o de encontrar animais peonhentos na plan-tao. No se questionou o efeito devastador no solo,na biodiversidade e a eliminao de toda espcie devida, no apenas aquela dos animais consideradospeonhentos.

Existe uma evidente desproporo entre o in-teresse do capital em financiar pesquisas na rea dasa de, tendentes comprovao de que os efeitosda queimada so danosos e o de incentivar estudosque levem a concluso contrria. Por isso no seremabundantes os dados estatsticos evidenciadores dadanosidade do uso do fogo. Mesmo assim, os pes-quisadores Marcos A. Arbex, Gyorgy M. Bbhm, PauloH. N. Saldiva e Gleice M. S. Conceio elaboraramum estudo para avaliar a relao entre as queimadasem plantaes de cana-de-acar e o nmero de vi-sitas a hospitais em Araraquara/SP.' O estudoepidemiolgico observaconal considerou o pero-do de 1 de junho a 31 de agosto de 1995, no Munic-pio paulista ento com 173.000 habitantes e rodea-do de vastos canaviais.

A concluso dos estudiosos

2 o estudo foi publicado sob o ttulo Assessmentofthe Effects ofSugar Cane P!antation Buming on Daily Counts of Inha!ationTherapy, nolouma!oftheAir& Waste ManagementAssociation,Oct. 2000, p.l. 745/1. 749 v. 50.

[...] demonstra uma relao significativa en-tre a quantidade de partculas de fumaa co-letada numa cidade circundada por plantaesde cana-de-acar que so queimadas antesda colheita e o nmero de pacientes que ne-cessitam detratamento por inalao para per-turbaes respiratrias agudas. (ARBEX et aI.,Pl748)

Observaram os pesquisadores que a prticada queimada cultural, antropognica, remonta -no Brasil- ao sculo XVI. Eacrescentam que

[...] a associao entre a poluio atmosfricae efeitos adversos sade universalmenteconhecida. A fumaa originada de incndiosflorestais pode ser uma grave ameaa sadeem grandes reas do mundo, como aconteceuem setembro de 1997 na Indonsia e partes dosudeste asitico. A morbidade e a mortalida-de ligadas poluio atmosfrica urbana fo-ram relatadas em muitas oportunidades [...]mas esta a primeira vez que tal efeito ob-servado como conseqncia de um processoagrcola rudimentar, indicando claramenteque a queima das plantaes de cana-de-a-car tem que ser detida.

Posteriormente, o grupo de estudos deEpidemiologia Ambiental da Faculdade de Medici-na da Universidade de So Paulo, em parceria comoutras entidades, realizou trabalho anlogo. Nessapesquisa, analisou-se o impacto das emisses dasqueimadas da cana-de-acar no sistema respirat-rio de crianas e idosos (CANADO et aI., 2006, v.114, n. 51, p. 7251729). na cidade de Piracicaba/SP. Aconcluso foi idntica: houve significativo aumen-to nas internaes hospitalares de crianas e idososno perodo das queimadas. A necessidade de reco-lhimento aos nosocmios foi de duas a trs vezesdo maior na poca das queimadas do que em outrosperodos. Da a concluso da pesquisa:

[...] os resultados mostram o impacto adversodas emisses das queimadas de cana-de-a-car na sade da populao, reforando a ne~

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