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  • A mediatizao dos riscos:o caso dos riscos ambientais

    Paulo SerraUniversidade da Beira Interior

    ndice

    1. Riscos ambientais e comunicao de risco 1

    2. Origens e funes da mediatizao dos riscos ambientais 3

    3. Tendncias dos media na comunicao dos riscos ambientais 4

    4. Estudo emprico 54.1. Metodologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57subsection.4.2

    4.2.1. Frequncias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74.2.2. Relaes entre categorias . . . . . . . . . . . . . . . . 104.2.3. Relevncia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

    5. Discusso e concluses 12

    6. Referncias bibliogrficas 136.1. Grficos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

    1. Riscos ambientais e comunicao de risco

    De acordo com a definio da United States Environmental ProtectionAgency (EPA), risco ambiental a possibilidade de que a sade humana ou oambiente sofram danos em resultado da presena de perigos ambientais (EPA,2009); e, acrescenta uma outra definio, esses riscos ambientais podem serproduzidos pelo homem ou derivados de causas naturais (Abkowitz, 2002:1). Os riscos ambientais ligam-se, assim, de forma directa, sade ambiental,entendida como o aspecto da sade pblica que se preocupa com todos os

  • 2 Paulo Serra

    factores, circunstncias e condies no ambiente ou proximidades dos sereshumanos que podem exercer uma influncia na sua sade e bem-estar (Last,1987: 131).

    Apesar de toda a literatura mais ou menos recente sobre os riscos, osriscos ambientais no so um exclusivo das sociedades contemporneas. Noentanto, nestas sociedades que eles assumem caractersticas decisivas da,precisamente, a designao sociedade de risco (Beck, 1992) para caracteri-zar tais sociedades.

    Como mostrou Foucault (1984), os riscos ambientais dos sculos XVIII/-XIX apresentam as seguintes caractersticas essenciais: i) Esto confinados noespao (a urbe, o bairro, o lar), no tempo (a estao do ano, o surto, a epidemia)e na classe social (os pobres, os indigentes, os trabalhadores); ii) Centram-sena questo da higiene; iii) Tm nos mdicos os seus peritos principais.

    Por comparao, os riscos ambientais das sociedades contemporneas:

    i) So omnipresentes, de longo prazo e de alcance global;

    ii) So difusos, em muitos casos invisveis e de efeitos incalculveis;

    iii) O seu estudo e gesto envolve peritos de mltiplas reas. Ao que sepode acrescentar, ainda, que tais riscos so, na sua maior parte, produzi-dos pelo homem, pela tecnocincia e a indstria. O conceito de ambi-ente, entendido por contraposio de espao localizado, tempo-ralizado d precisamente conta desta diferente natureza dos riscos nassociedades contemporneas. Exemplos paradigmticos e conhecidos damaterializao deste tipo de riscos so acidentes ambientais como os deSeveso (Itlia, 1976), Three Mile Island (EUA, 1979), Chernobyl (Ucr-nia, 1986) ou do Prestige (Galiza, 2002).

    Foram essencialmente os riscos ambientais das sociedades contemporneas,os terrveis acidentes a que deram lugar e a forma como estes foram mediati-zados que fizeram surgir a necessidade de uma comunicao de risco.1

    Sendo multiforme,2 a comunicao de risco pode ser classificada pelomenos quanto s seguintes dimenses (Serra, 2007):

    1 De acordo com a definio do National Research Council (1989: 21), A comunicaode risco um processo interactivo de troca de informao e opinio entre indivduos, grupos einstituies. Envolve mltiplas mensagens acerca da natureza do risco e outras mensagens, noestritamente acerca de riscos, que exprimem preocupaes, opinies ou reaces a mensagensde risco ou a disposies legais ou institucionais para a gesto do risco.

    2 A comunicao de risco inclui mensagens movendo-se em vrias direces no apenasdos peritos para os no peritos (leigos) mas tambm dos no peritos para outros no peritos, dosno peritos para os peritos e, especialmente, as mensagens de participao poltica dos cidadospara os decisores pblicos. (National Research Council, 1989: 22)

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  • A mediatizao dos riscos: o caso dos riscos ambientaiss 3

    Motivao: temtica (explcita) X no temtica (implcita);

    Tempo: normal (preveno) X de crise (emergncia);

    Cdigo: verbal (palavras) X no verbal (signos no verbais);

    Meio de comunicao: mediatizada X interpessoal;

    Fonte: institucional X alternativa.

    Tendo em conta estas distines, no presente texto aborda-se, no essen-cial, a comunicao de risco temtica, normal e mediatizada, e simultane-amente verbal/no-verbal, institucional/alternativa concretamente a formacomo, ao longo de duas semanas, dois jornais portugueses ditos de refer-ncia, o Pblico e o Dirio de Notcias (DN), abordaram os temas e riscosambientais.

    2. Origens e funes da mediatizao dos riscos ambi-entais

    Nos EUA e Inglaterra, o ambiente emerge como notcia (meditica) nofinal dos anos 60 e princpios dos anos 70, passando as questes ambientais aser vistas pelos jornalistas como uma categoria de notcias com direito prprio.Segue-se um perodo, at meados dos anos 80, em que dado especial relevo aacontecimentos especficos ligados ao ambiente. S depois surge o ambientecomo um problema global. (Hannigan, 2002: 62-3)

    No que se refere a Portugal, entre finais dos anos 50 e 1974 o ambienteno existe nos media como tema e problema, sendo o discurso predominan-temente positivo (ou neutro) (Schmidt, 2002: 57-8). nos anos 1991-95 quese d a ecloso meditica do ambiente em Portugal, com o aumento de not-cias e a proliferao e politizao dos problemas o que se dever, em grandeparte, ao aparecimento de rdios locais, novos jornais e televises privadas, em1992-93 (Schmidt, 2003: 427).

    Em matria de comunicao de riscos, em geral, e de riscos ambientais,em particular, os media desempenham pelo menos trs funes fundamentais:

    1. Agendamento (agenda-setting) e enquadramento (framing): de acordocom a formulao (revista) que McCombs e Shaw fazem destas teorias(2000: 134), podemos afirmar que tambm em matria de riscos ambi-entais os media no s nos dizem sobre o que que podemos pensar,como tambm nos dizem como pensar sobre isso; portanto, consequente-mente, o que pensar.

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    2. Intermediao: os media estabelecem a ligao entre os poderes institu-dos, polticos, econmicos e cientficos, e os cidados e isso em ambosos sentidos.3 No primeiro dos sentidos dos poderes para os cidados ,os media funcionam sobretudo como tradutores da complexidade dasquestes e das suas implicaes numa linguagem acessvel e compreen-svel ao grande pblico. No segundo dos sentidos dos cidados paraos poderes , os media servem, aos segundos, de espelho (Luhmann)das preocupaes e inquietaes dos primeiros.

    3. Legitimao da tomada de decises: os media funcionam como umfrum em que as questes relativas aos riscos ambientais so analisadase discutidas nas suas mltiplas vertentes, tal como so analisadas e dis-cutidas as vrias hipteses de soluo em presena e isso at um pontoem que se torna possvel (considerar) uma deciso, se no informada,pelo menos mais ou menos consensual.4

    3. Tendncias dos media na comunicao dos riscos am-bientais

    Como mostrou Hannigan (2002: 64-68), cujas teses essenciais aqui re-sumiremos, os media tendem a efectuar a comunicao dos riscos ambientaisde acordo com as cinco tendncias/enquadramentos seguintes:

    i) Noticiam o ambiente em termos de acontecimentos, sejam eles marcos(o Dia da Terra, A Cimeira do Rio, etc., envolvendo eventualmente a pre-sena de celebridades), catstrofes (mars negras, acidentes nucleares,etc.), ou eventos poltico-administrativos (audincias parlamentares, jul-gamentos, relatrios ambientais, etc.). Mesmo os processos aqueci-mento global, poluio, etc. tendem a ser transformados em acontec-imentos pelos jornalistas. Se este enquadramento tem a vantagem dechamar (melhor) a ateno do pblico para os problemas ambientais, ele

    3 Eles [os media] ocupam uma posio de charneira entre os poderes polticos, econmicose cientficos [. . . ], e os cidados em geral para os quais, alm de arautos das suas preocu-paes, [. . . ] funcionam como veculos tradutores da complexidade dos problemas, e tambmcomo transmissores da cultura cientifica e ambiental. (Schmidt, 2002, p. 53)

    4 [. . . ] a emergncia de instituies discursivas responde a uma necessidade funcionalnas sociedades modernas, nomeadamente a de permitir decises colectivas num mundo em quej no so possveis respostas claras e tecnicamente convincentes. Para alm disso, a com-plexidade das questes contemporneas requer o envolvimento de tantas perspectivas quantopossvel, simultaneamente por razes de eficincia e legitimao. (Eder, 2000: 239)

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    tem a desvantagem de apontar para as causas imediatas e os respon-sveis individuais desses problemas, e no para a suas causas medi-atas, de longo prazo, e de natureza econmica, poltica e cultural. Umexemplo concreto deste desvio foi o do acidente do Exxon Valdez, de1989, que foi relatado pelos media em termos de um alegado problemade alcoolismo do comandante do navio.

    ii) Baseiam frequentemente os seus trabalhos nas fontes oficiais, nomea-damente as ligadas a governos, instituies pblicas e empresas - o que,mais cedo ou mais tarde, pode colocar-lhes problemas de credibilidade.Com efeito, e como mostram alguns dados do International Social Sur-vey Programme, Portugal, 2000, relativamente confiana dos cidadosportugueses na informao sobre as causas da poluio, o conjunto deAbsoluta confiana+Bastante confiana destes em relao s diversasfontes , por ordem decrescente, o seguinte (resultados em %, para 1000inquiridos): Centros de investigao /universidades; 57,6; Grupos am-bientalistas: 49,3; Rdio/TV: 37,4; Servios governamentais: 28,8; Jor-nais: 28,7; Empresas e indstria: 10,2 (Lima et al.