A metodologia e a epistemologia na sociologia de Durkheim e de

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  • Revista Eletrnica dos Ps-Graduandos em Sociologia Poltica da UFSCVol. 1 n 1 (1), agosto-dezembro/2003, p. 128-148

    www.emtese.ufsc.br

    A metodologia e a epistemologia na sociologia de Durkheim e de Max Weber

    Fbio Luiz Brigo1

    Jos Carlos da Silva2

    1. Apresentao

    mile Durkheim est entre os principais precursores da sociologia. Suas idias so de

    grande valia para a compreenso da realidade do mundo social. Durkheim foi quem

    mais se destacou por ter oferecido sociologia um mtodo de investigao apropriado

    e inequvoco. A sociologia durkheimiana tornou-se, assim, uma disciplina autnoma,

    caracterizada por seu forte rigor cientfico e metodolgico.

    A mesma preocupao, de criar uma cincia autnoma com base emprica do real, foi

    perseguida por Max Weber ao longo de sua vida intelectual. A obra de Weber

    marcada pela anlise terica e emprica dos fatos econmicos, histricos e culturais,

    bem como pelo seu compromisso em fazer cincia, sem cair em pressupostos

    valorativos ou em concepes de mundo. Em alguns casos, a opo pelo ecletismo e

    a sua viso particular sobre o papel da cincia significou entrar em choque frontal

    contra teses acadmicas prevalecentes em sua poca. Alm de ter elaborado trabalhos

    em diversas reas do conhecimento suas idias a respeito da epistemologia e do papel

    da metodologia foram fundamentais para o desenvolvimento das cincias sociais. Seus

    escritos geraram uma vertente metodolgica (interpretativismo) e inspiraram vrias

    correntes do pensamento sociolgico do sculo XX.

    1 Fbio Luiz Brigo Engenheiro Agrnomo. Mestre em Agroecossistemas (CCA/UFSC) e Doutorando doPrograma de PsGraduao em Sociologia Poltica - PPGSP (UFSC). Atualmente bolsista do CNPq.Correio eletrnico: burigo@mbox1.ufsc.br. Endereo: Rua Lauro Linhares, 1921 B/ 103. CEP 88036-002.Florianpolis-SC. Fone 48 2342267.2 Jos Carlos da Silva bacharel e licenciado em Cincias Sociais (UFSC) e Doutorando do Programa dePsGraduao em Sociologia Poltica - PPGSP (UFSC). Correio eletrnico: jcsilvaufsc@ig.com.br.Endereo: Rua Milton Sullivan 91, Carvoeira, CEP 88040 620 Florianpolis-SC. Fone 48 2346547.

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    O esforo maior deste trabalho discutir algumas das contribuies metodolgicas e

    epistemolgicas dos referidos autores, a partir das seguintes indagaes: a) Quais as

    principais contribuies metodolgicas e epistemolgicas, que Durkheim e Weber

    trouxeram construo da sociologia?; b) Existem pontos de convergncia entre a

    sociologia positivista de Durkheim e a sociologia interpretativa de Weber? e; c)

    possvel alcanar a neutralidade cientfica nas cincias sociais?

    2. A busca do mtodo

    Na emergente sociedade capitalista industrial do sculo XIX, as crises econmicas, o

    conflito entre a burguesia e o proletariado, a excluso da terra dos camponeses, o

    surgimento de problemas urbanos e ambientais devido ao rpido crescimento

    populacional, a Comuna de Paris, entre outros acontecimentos, refletiram diretamente

    nas vidas e nas obras de Durkheim e de Weber. Durkheim defendia em seus trabalhos

    que estes problemas no eram de natureza econmica, mas sim da fragilidade moral

    na conduta adequada dos indivduos. Desta maneira, o socilogo francs demonstrava

    estar preocupado em desenvolver uma cincia que ajudasse a encontrar as respostas

    para as patologias sociais. Uma cincia social que pudesse encontrar, atravs de

    investigaes empricas, novas idias morais que tivesse a capacidade de guiar a

    conduta dos indivduos. Durkheim acreditava que o socilogo tinha as mesmas funes

    de um mdico, isto , diagnosticar as causas dos problemas e encontrar os remdios

    para as doenas sociais. Alis, ele deixou transparecer esta semelhana entre socilogo

    e o mdico j em sua primeira obra importante, A Diviso do Trabalho3.

    Dentro da tradio positivista durkheimiana, a sociedade poderia ser compreendida da

    mesma forma que os fenmenos da natureza. Ele acreditava que os fatos sociais

    poderiam ser estudados atravs dos mesmos mtodos cientficos empregados nas

    cincias naturais. Em outras palavras, assim como os fenmenos fsicos podiam ser

    explicados pelas leis naturais, seria plenamente possvel se estabelecer leis que

    explicassem os fenmenos sociais e, conseqentemente, encontrar remdios s

    patologias da sociedade.

    Max Weber, por outro lado, ao conceber a realidade emprica como infinita no

    acreditava que o conhecimento e os fundamentos das cincias sociais e histricas

    3 De acordo com Giddens, Durkheim afirma neste trabalho que as idias advindas do individualismo noso fruto de um estado patolgico da sociedade industrial emergente, mas fruto de um estado normal e

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    deveriam buscar leis universais (mtodo nomottico). Para o autor, a cincia social

    era uma cincia da realidade, ou como ele mesmo afirmava: ...a cincia que tem

    como meta a compreenso interpretativa da ao social de maneira a obter uma

    explicao de suas causas, de seu curso e dos seus efeitos (WEBER, 1987:9).

    Na tica weberiana a ao definida com a conduta humana em que os sujeitos do

    um sentido subjetivo. J a ao social, se manifesta no momento que uma ao

    recebe um sentido, atribudo pelo(s) sujeito(s), em relao a conduta dos outros,

    sendo que a compreenso sociolgica dessa ao resulta de um esforo sistemtico e

    rigoroso para melhor compreender a realidade social, ou seja, do sentido da conduta

    desenvolvida pelo protagonista da ao (FERREIRA, 1995:99)4. O socilogo alemo

    estava preocupado em entender as peculiaridades da realidade da vida, ou seja, a

    vida scio-cultural.

    Diferentemente de Durkheim, Weber no se apoiava nas cincias naturais para

    construir seus mtodos de anlise e nem acreditava ser possvel encontrar leis gerais

    que explicassem a totalidade do mundo social5. Ele no estava, portanto, interessado

    em descobrir regras universais para fenmenos sociais, mas as suas especificidades. A

    cincia social que pretendemos exercitar uma cincia da realidade. Procuramos

    entender na realidade que est ao nosso redor, e na qual encontramos situados quilo

    que ela tem de especfico (WEBER,1991: 29).

    Assim sendo, enquanto pesquisador do emprico, Weber se contrapunha s totalidades,

    dedicando-se ao estudo do conhecimento particular, do especfico. Mas, ao rejeitar as

    pesquisas que se resumiam a uma mera descrio dos fatos, ele caminhava em busca

    de leis causais, que fossem suscetveis de entendimento a partir da racionalidade

    cientfica. A cincia weberiana, diz, a busca do desconhecido, conhecer o que pode

    ser provado. Ele via que os problemas culturais so gerados de forma ininterrupta.

    Conseqentemente, novas formas de compreend-los surgem a cada momento. Esse

    saudvel de mudana social, em que so criadas novas formas de solidariedade social (GIDDENS,1978:4).4Para facilitar essa compreenso, Weber dividia os tipos de ao de quatro formas, a saber: a primeirapode ser em relao a fins racionais; a segunda determinada pela crena; a terceira est vinculada ascaractersticas emocionais do indivduo e; a quarta, aquela determinada tradicionalmente, que podetornar-se costume dada sua tradio (WEBER, 1987: 41).5 Cabe frisar, todavia, que Weber no estabelecia um fosso intransponvel entre os mtodos das cinciasnaturais e das cincias humanas, como pretendiam os neokantianos. Weber acreditava que, dependendodas condies e os objetivos da pesquisa, os dois prismas podiam ser empregados. Durante umainvestigao, o contexto, o tema em estudo e a perspiccia do socilogo que deveria definir a melhorforma de associar os mtodos generalizantes e os individualizantes.

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    processo coloca os fenmenos e os significados das coisas num eterno estado de

    transformao, tornando-os uma fonte inesgotvel para novas abordagens cientficas.

    Note-se que Weber dedicava grande ateno ao sentido/motivo e ao significado da

    ao social. Para ele o sentido a expresso do que pensado e subjetivo ao agente

    (sujeito), seja como uma mdia de aes pensadas num conjunto de casos, seja

    atravs de um tipo ideal. Esse sentido/motivo obtido atravs do resgate da razo e

    das finalidades que os indivduos atribuem as suas atividades e as relaes que

    estabelecem com o(s) outro(s). Seguindo a viso weberiana, Bottomore & Nisbet

    afirmam que, por ser dotado de intelecto, nesses casos o homem no age

    simplesmente sob o efeito de um estmulo mecnico, mas porque quer alguma coisa

    por certas razes. Tm motivos (BOTTOMORE & NISBET, 1980: 228).

    O modelo weberiano descreve a existncia de duas formas de se apreender o

    significado de uma ao social. As duas formas so subdivididas em aes de natureza

    racional e de natureza irracional. A primeira, o significado direto do modo racional se

    d via observao objetiva, como ocorre numa frmula matemtica, em que se

    compreende racionalmente o significado imediatamente aps o contato; j o

    significado direto do modo irracional se manifesta atravs reaes emocionais

    (exclamaes, gestos, etc.).

    A segunda forma de compreender o significado a do tipo explanatrio, em que h

    um motivo, ligando a ao ao significado dado pelo agente. Esse