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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X A MULHER NO ESPAÇO PÚBLICO UMA REFLEXÃO ACERCA DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO CONTEMPORÂNEO E DA (NÃO) PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO Clarice Fernandes Rodrigues Resumo: Diante dos desafios enfrentados pelo planejamento urbano contemporâneo, fica evidente a necessidade de se pensar diferentes formas de planejar a cidade, através de um urbanismo mais inclusivo e perceptivo. O território nacional foi genericamente construído como espaço enquanto valor de troca, em detrimento do espaço enquanto valor de uso, como resultante disso a cidade se torna impessoal, acessada somente sob sua faceta mercadológica, deixando dúvidas quanto a real legitimidade do planejamento que insiste em manter uma lógica racionalista e tecnocrata, com lapsos de participação social, sempre favorável à acumulação do capital. Pouco se fala sobre um planejamento urbano voltado para a perspectiva de gênero, sendo as mulheres historicamente excluídas da produção do espaço urbano, desde o advento das cidades, exclusão essa que se mantém hoje adaptada a uma sociedade patriarcal, hierarquizada e capitalista. Essa exclusão é refletida em espaços de insegurança e vulnerabilidade, que moldam a forma com que as mulheres vivenciam e se apropriam das cidades. O debate em questão é uma forma de afirmar a importância de incorporar, na produção do campo da Arquitetura e do Urbanismo, soluções para as especificidades das vivências de grupos sociais vulnerabilizados, marcando a necessidade de incluir mulheres no planejamento das cidades, como agentes transformadoras e usuárias do espaço urbano. Palavras-chave: gênero, espaço urbano, espaço público, mulher, planejamento urbano Planejamento urbano contemporâneo Ana Fani Alessandri Carlos, inicia seu texto “A lógica do planejamento versus a dialética do mundo”, traçando os três grandes desafios do planejamento urbano contemporâneo. O primeiro seria pensar como para além de problemas imediatos localizados em espaços sociais específicos, planejar tendo em vista o futuro, sobre as estruturas dadas e articulando os impactos territoriais de determinadas ações. Por exemplo: como estabelecer melhorias sanitárias e viárias em um assentamento precário sem implicar ali efeitos especulativos que possam causar evasão dessa população local? Ou, como gerir medidas municipais de grande escala como a construção de um porto, de um condomínio de luxo, ou a abertura de uma cava de mineração, que se produzem reações e impactos diretos em outros municípios?

A MULHER NO ESPAÇO PÚBLICO UMA REFLEXÃO ACERCA … · Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN

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Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

A MULHER NO ESPAO PBLICO UMA REFLEXO ACERCA DO

PROCESSO DE URBANIZAO CONTEMPORNEO E DA (NO)

PARTICIPAO DAS MULHERES NA PRODUO DO ESPAO

Clarice Fernandes Rodrigues

Resumo:

Diante dos desafios enfrentados pelo planejamento urbano contemporneo, fica evidente a

necessidade de se pensar diferentes formas de planejar a cidade, atravs de um urbanismo mais

inclusivo e perceptivo. O territrio nacional foi genericamente construdo como espao enquanto

valor de troca, em detrimento do espao enquanto valor de uso, como resultante disso a cidade se

torna impessoal, acessada somente sob sua faceta mercadolgica, deixando dvidas quanto a real

legitimidade do planejamento que insiste em manter uma lgica racionalista e tecnocrata, com

lapsos de participao social, sempre favorvel acumulao do capital. Pouco se fala sobre um

planejamento urbano voltado para a perspectiva de gnero, sendo as mulheres historicamente

excludas da produo do espao urbano, desde o advento das cidades, excluso essa que se mantm

hoje adaptada a uma sociedade patriarcal, hierarquizada e capitalista. Essa excluso refletida em

espaos de insegurana e vulnerabilidade, que moldam a forma com que as mulheres vivenciam e se

apropriam das cidades. O debate em questo uma forma de afirmar a importncia de incorporar,

na produo do campo da Arquitetura e do Urbanismo, solues para as especificidades das

vivncias de grupos sociais vulnerabilizados, marcando a necessidade de incluir mulheres no

planejamento das cidades, como agentes transformadoras e usurias do espao urbano.

Palavras-chave: gnero, espao urbano, espao pblico, mulher, planejamento urbano

Planejamento urbano contemporneo

Ana Fani Alessandri Carlos, inicia seu texto A lgica do planejamento versus a dialtica do

mundo, traando os trs grandes desafios do planejamento urbano contemporneo.

O primeiro seria pensar como para alm de problemas imediatos localizados em espaos sociais

especficos, planejar tendo em vista o futuro, sobre as estruturas dadas e articulando os impactos

territoriais de determinadas aes. Por exemplo: como estabelecer melhorias sanitrias e virias em

um assentamento precrio sem implicar ali efeitos especulativos que possam causar evaso dessa

populao local? Ou, como gerir medidas municipais de grande escala como a construo de um

porto, de um condomnio de luxo, ou a abertura de uma cava de minerao, que se produzem

reaes e impactos diretos em outros municpios?

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O segundo desafio seria como adequar o planejamento ao que aparece como novo na conjuntura

atual, a latente troca de hegemonia do capital industrial pelo capital financeiro, que intensifica a

cidade como objeto de especulao, espremendo o espao pblico entre rotatrias e

estacionamentos, estabelecendo espaos de convvio dentro de espaos privados, como os

shoppings centers, intensificando a setorizao social da cidade, fazendo da gesto urbana uma

gesto de mercado de finanas urbanas. E, por outro lado, a presena do povo se manifestando nas

ruas, reivindicando a ao do Estado em fazer valer o direito cidade.

O terceiro, seria o exerccio crtico diante o fato de que aps 50 anos de planejamento e ao

estatal as desigualdades sociais permanecem. Fani tece um par de dvidas a respeito deste terceiro

desafio:

[...] Ser que o planejamento tem a potncia, na sociedade capitalista que se fundamenta exatamente

na desigualdade de superar sua prpria condio inicial visto que o planejamento, sua orientao e

realizao como ao e poltica de classe, est na origem das contradies vividas num pas

dependente, como o Brasil? At que ponto no seria possvel pensar exatamente o contrrio; isto , as

contradies vividas so acentuadas pelas aes planificadoras orientadas pelo crescimento visando ao

e reforando o poder de classe? (CARLOS, 2014, p.27)

E pondera:

Na realidade, possvel afirmar que as aes nas ruas e os movimentos sociais colocam em xeque o

planejamento da cidade por meio do questionamento da orientao das polticas espaciais, dirigidas

pelo processo de valorizao do capital em detrimento da realizao da vida. [...] Essa perspectiva nos

desafia a pensar o modo como se atualiza o contedo (e a forma) da alienao no mundo moderno e,

com isso, as condies objetivas e subjetivas nas quais a vida urbana se realiza, apontando as formas

de provao/privatizao. (CARLOS, 2014, p.27)

O capitalismo antes de tudo um fenmeno social, um dispositivo de arranjo social, logo suas

crises so fenmenos igualmente sociais. O tecnocratismo hegemnico na gesto do capital o

maior agravante de seu potencial (e de sua ao) socialmente e ambientalmente inconsequente, que

ao se reproduzir aprofunda-se: extrema concentrao de renda, aumento do desemprego,

deteriorao do emprego formal e fome, por exemplo, so os desdobramentos de uma histria

anunciada. (CARLOS, 2014, p.28)

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O territrio nacional foi genericamente construdo como espao enquanto valor de troca, em

detrimento do espao enquanto valor de uso, como resultante disso a cidade se torna impessoal,

acessada somente sob sua faceta mercadolgica.

A extenso do capitalismo imprime uma nova velocidade s mudanas, apoiada numa aliana entre os

setores econmicos e o Estado, que, por sua vez, assume importncia fundamental para a organizao

de um espao voltado prioritariamente s exigncias da reproduo econmica. Tal amlgama

propicia a construo da infraestrutura fsica, a criao de instrumentos fiscais e a poltica monetria

para que a valorizao do capital (como fonte de crescimento) se realize superando suas prprias

crises da o papel importante do planejamento para o desenvolvimento da economia sob o

fundamento neoliberal. Nesta orientao, a terra e o solo urbano passam a ter um novo significado,

so em si fonte de valorizao orientando as polticas pblicas que afetam diretamente o uso do

espao, e, portanto, sua reproduo. (CARLOS, 2014, p.30)

Dessa forma, as presses do capital na cidade se do de forma genrica, fazendo valer seus valores

mundializados em todos os setores de sua estrutura fragmentria. Essas presses atacam

diretamente a morfologia da cidade, transformando seus espaos, localizando novas centralidades,

gentrificando, localizando os setores sociais e estabelecendo suas identidades: condomnios

fechados, conjuntos do Minha Casa Minha Vida faixa 1, favelas, bairros de classe mdia, etc.;

externo a um eixo de valor de consumo, o espao pblico vai sendo gradativamente sufocado, seja

pela privatizao, seja pelo abandono das gestes urbanas.

[...] As constantes mudanas culminam no eclipse da rua, promovido pelo modelo rodoviarista, na

deteriorao e no empobrecimento dos espaos pblicos e, com eles, do prprio sentido do espao

pblico, degradando ou inviabilizando as relaes entre os cidados. (CARLOS, 2014, p.31)

[...] Nesta perspectiva, o planejamento restabelece a eficincia econmica da cidade no movimento de

acumulao. (CARLOS, 2014, p.35)

[...] A sociedade empobrecida tende a reduzir-se a signos; o corpo ao olhar; o habitante a espectador.

(CARLOS, 2014, p.34)

Essa presso exercida pelo capital sobre a cidade e o cidado, que se refora na constante

substituio do valor de uso pelo valor de troca, se sustenta em uma passividade cuidadosamente

controlada (CARLOS, 2014, p.33), como resultante dessa alienao o cidado passa a observar a

cidade com estranhamento e j no se reconhece plenamente diante do espao mutante.

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Essa conjuntura aponta duas perspectivas de encarar o espao urbano, a do plano da lgica

racionalista, que encara a cidade como mundo inerte sobre a prancheta e opera sobre dados,

estatsticas, projees e simulaes, sem uma realidade pressuposta, sintetizando e codificando o

espao e um espao sem espessura, subordinando as relaes sociais s manipulaes

quantitativas.

[...] Desse modo, ele representa a vitria da ordem calculada na racionalidade lgica sobre as

possibilidades de transformao social numa ao poltica que redefine e cria fronteiras no espao

como desdobramento da propriedade, separando o vivido do concebido que sustenta a ao poltica.

(CARLOS, 2014, p.37)

Outra perspectiva seria a das prticas sociais, a do plano da dialtica, protagonizada pelos

movimentos sociais (e tambm pelas manifestaes) que:

[...] a) eles no aceitam, apenas, o convite do Estado (dos bem intencionados) para participar

residualmente da gesto (e assim manifestando-se institucionalmente de forma consentida), eles

querem decidir sobre a totalidade da gesto. Querem decidir como participar, como orientar a ao

portadora de um projeto, social restituidora de direitos; b) questionam as alianas polticas em jogo

apontando a necessidade de um projeto possvel-impossvel no sentido em que este no se realiza no

aqui e agora (portanto no tempo presente) nem se volta para solucionar urgncias, mas passando por

essas necessidades imediatas, orientam o futuro; c) sua existncia aponta a necessidade de algo mais

amplo e profundo, um projeto cujo contedo aponte para realizao do humano, fundamento da

construo real do direito a cidade numa escala temporal que diz respeito ao futuro, sendo assim um

projeto necessrio para orientar o presente em direo a um futuro outro. A realizao do fim da

alienao requer o fim da cidade tal qual construda ao longo do processo histrico. (CARLOS, 2014,

p.37)

Diante dessas duas perspectivas levantadas por Fani, fica a dvida quanto real legitimidade do

planejamento contemporneo, que insiste em manter uma lgica racionalista, com lapsos de

participao social, sempre em detrimento do crescimento do capital.

necessrio se pensar diferentes formas de planejar a cidade. Jane Jacobs (2009) entra, j em 1967,

com a discusso de um urbanismo mais inclusivo e perceptivo, onde ela defende que preciso

observar a cidade em todos os seus detalhes e procurar trabalhar na escala do pedestre. Jacobs

(2009) defende que o mais importante haver um plano geral com base na realidade social,

ambiental e econmica, mas que preciso ainda haver planos parciais, planos especiais e estudos

detalhados, para que finalmente o projeto seja desenvolvido e executado.

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Esse novo urbanismo inclusivo, deve desenvolver capacidades de e modos diversos, preparados

para atender a todo o espectro social, incluindo os mais frgeis e excludos das atuais formas de

planejamento. Dizer sobre os mais frgeis significa, mais amplamente, as pessoas de classe social

baixa; mais especificamente, as crianas, as pessoas com deficincia, os idosos e sobre tudo as

mulheres, que, como veremos mais adiante, so excludas da produo do espao urbano desde o

advento das cidades. Excluso essa que se mantm at hoje, adaptada a uma sociedade patriarcal,

hierarquizada e capitalista.

A mulher no planejamento da cidade

Os modos de produo do espao urbano, historicamente desconsideram as mulheres. Isso pode ser

facilmente verificado com uma breve retomada histrica do processo de urbanizao da civilizao

humana.

O modelo de urbanizao romano, considerado um dos melhores do mediterrneo (Lpez, 2014),

teve seu conceito de espao pblico e de compartilhamento idealizado e concebido pelo e para o

gnero masculino.

O homem ficaria responsvel pelo sustento de sua famlia, ao mesmo tempo em que, se engajava

politicamente e garantia a segurana do territrio familiar, enquanto a mulher, permaneceria em seu

ambiente domstico, protegida dos possveis perigos que poderiam atingi-la caso desbravasse os

alm-muros deste territrio familiar.

Nas cidades gregas, as relaes sociais aconteciam em espaos identificados em funo do gnero

masculino: o desenrolar das tarefas polticas, a gesto dos negcios, a realizao de ofcios e

desempenhos sacerdotais, s poderiam ser consolidadas em espaos pblicos concedidos aos

homens livres. Inclusive as atividades ldicas, como os espetculos circenses, as corridas de cavalos

e as lutas de gladiadores.

As reas exclusivamente femininas raramente se expressavam nas estruturas da cidade antiga, com

a nica exceo de templos dedicados uma deusa, que recebia algumas mulheres mes durante

alguns dias do ano, quando eram celebradas festas para honrar sua divindade. Mesmo assim, esses

templos femininos se encontravam nas periferias das cidades, enquanto os templos de divindades

masculinas se localizavam no centro.

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Os fruns em praas pblicas, que os gregos denominavam gora, onde os cidados se reuniam em

assembleias deliberarem sobre suas demandas, tambm eram frequentados apenas por homens.

Em torno dessa praa pblica ficavam grandes edifcios destinados aos deuses, de cunho poltico,

judicirio e econmico, onde somente os homens teriam acesso.

A diviso pblico-privada, nesta perspectiva de gnero nos espaos da cidade antiga, pode ser

renomeada pblico-domstica. Enquanto as mulheres permaneciam a maior parte do tempo dentro

de suas casas, os homens estavam autorizados e, nesta perspectiva excludente, aptos a frequentar o

espao exterior ao da residncia.

Dando um salto na histria, pensando sobre esse modelo de urbanizao, pode-se considerar que

apesar de ter sofrido algumas mudanas, a questo da subordinao da mulher e de sua ausncia na

produo do espao urbano continua muito pequena, quando no nula, podendo ser esse o fator

crucial que explica como so diferentes as formas de apropriao do espao urbano entre os homens

e as mulheres.

Mildred Warner, professora de planejamento urbano na Universidade de Cornell nos Estados

Unidos, levanta a questo sobre um planejamento mais inclusivo:

Se perguntar 'uma mulher se sentiria segura andando aqui noite?' e obter uma resposta positiva

provavelmente significa que a maioria das pessoas se sentiria confortvel usando aquele espao.

Mulheres podem ser usadas como um termmetro para a segurana e outras prioridades em

planejamento. (Warner apud Vieira, 2016, p.17)

Estupros, altos ndices de feminicdio, desvalorizao profissional, assdio, objetificao do corpo,

responsabilidade pelo papel reprodutivo e falta de representatividade nas diversas instncias so

apenas algumas das questes que as mulheres enfrentam diariamente, fatores que geram cada vez

mais insegurana e vulnerabilidade e que acabam moldando a forma com que as mulheres

vivenciam e se apropriam da cidade.

Por exemplo, uma mulher nem sempre escolhe um trajeto de deslocamento urbano pela sua

distncia, mas tambm, pela sensao de segurana que esse caminho proporciona. Quando h falta

de iluminao, pouco movimento e falta de visibilidade (pontos cegos), bem provvel que a

mulher mude seu percurso, mesmo que isso signifique andar mais. Nesse sentido, o desenho urbano

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afeta diretamente a vida das mulheres, ao propor, ou no, solues que evitem esse tipo de

configurao espacial segregante.

A mulher acaba moldando seus comportamentos a partir de imposies de um espao produzido

pelos homens e para os homens, dessa forma, importante que o Planejamento Urbano e os projetos

de Espaos Pblicos reconheam essa segregao de gnero e, sempre que possvel norteiem suas

decises de projeto sob a perspectiva feminina tendo como objetivo o acesso de mulheres cidade.

Quando construmos ambientes urbanos a partir de perspectivas privilegiadas ao longo da histria,

violamos a ideia de cidades para todos. Os direitos e necessidades do pblico feminino devem ser

contemplados no planejamento das nossas cidades, e para que isso ocorra, a participao das mulheres

em todas as etapas do processo deve ser ativa. A presena delas na poltica, governanas locais,

associaes de moradores e entre tomadores de deciso fundamental para que suas vozes sejam

ouvidas e suas necessidades representadas. (COURB Brasil, 2016)

No Brasil, essa luta pelo envolvimento da mulher nos espaos e decises pblicas no algo

recente, segundo Lucia Avelar, em seu texto A mulher no espao pblico brasileiro (AVELAR,

sem data), acontece desde as mulheres que reivindicaram e lutaram pelo direito ao voto, concedido,

at ento, exclusivamente aos homens proprietrios de terras e com renda estipulada, luta essa se

estendeu at a dcada de 1930; em seguida, com algumas mulheres que se organizaram em formato

de federao, na dcada de 1950, que ampliaram as reivindicaes por direitos iguais; as mulheres

que se envolveram em movimentos de esquerda, nas ditaduras do continente; os sempre presentes

movimentos de mulheres nas periferias urbanas; e ainda, a abertura de participao e o aumento da

representao dos movimentos feministas.

importante deixar clara a perspectiva feminista tratada aqui, para isso utilizo como referncia

Silvia Federicci em seu ensaio O feminismo e as polticas do comum em uma era de acumulao

primitiva de 2014. Essa perspectiva se refere a um ponto de partida formado pela luta contra a

discriminao sexual e pelas lutas sobre o trabalho reprodutivo1, que (nas palavras de Linebaug2)

1 O trabalho reprodutivo engloba todo o trabalho realizado na esfera privada e familiar, como os cuidados com crianas, adultos dependentes e pessoas doentes. Esse trabalho quase sempre no pago e bastante desvalorizado, sendo geralmente desempenhado pelas mulheres. O trabalho produtivo todo aquele que resulta na produo de bens e servios com valor econmico no mercado, realizado na esfera pblica e profissional. 2 Silvia Federicci usa como referncia A Carta Magna Manifesto de Peter Linebaugh: LINEBAUGH, Peter. The Carta Magna Manifesto: Liberties ands Commons dor All. Berkley: Universiti of California Press, 2007.

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a pedra angular sobre a qual se constri a sociedade, e a partir da qual deve ser analisada toda

organizao social (FEDERICCI, 2014, p.147).

A discusso do feminismo, nesse caso, deve entrar em pelo menos dois mbitos na questo da

produo das cidades: o econmico, uma vez que as mulheres compem o grande corpo produtivo

do capital, sendo maioria, logo, a matriz da fora de trabalho; e na questo das mulheres como

protagonistas da revoluo, da reforma urbana e das transformaes da sociedade, pois para romper

com toda essa lgica do espao preciso romper com o machismo, uma vez que o patriarcado o

que d flego ao sistema capitalista e, consequentemente, ao sucateamento da vida urbana.

As Mulheres e o Comum

Diante da proposta de pensar uma cidade sob a perspectiva de um planejamento feminista, talvez a

noo de comum, proposta por Silvia Federicci, possa nos ajudar a pensar as possibilidades do

feminino na produo de outros arranjos sociais.

Por exemplo, o que constitui o comum? Os exemplos so abundantes. Temos ar, gua e terras comuns,

os bens digitais e servios comuns. Tambm se descrevem com frequncia como comuns os direitos

adquiridos (por exemplo, as penses da previdncia social), do mesmo modo que se renem nessa

denominao os idiomas, as bibliotecas e as produes coletivas de culturas antigas. (FEDERICCI,

2014, p. 147).

O comum o bem (material ou imaterial), o contrrio propriedade privada, no se manifesta

como o espao pblico, que seria o correlato da propriedade privada, mas se manifesta como

contrrio prpria dicotomia pblico-privado. O comum se manifesta em um lugar dicotmico a

esta dicotomia especfica (publico-privado). Da mesma forma, estabelece uma relao que no

encontra correlato nem no estado, nem no capital, estabelecendo assim uma relao dicotmica com

o que seria o Estado-capital. David Harvey em seu livro Cidades Rebeldes: Do direito cidade

revoluo urbana, reitera essa questo, quando disserta sobre o espao pblico estatal: estes

espaos e bens pblicos urbanos sempre foram uma questo de poder de Estado e administrao

pblica, e esses espaos e bens no constituem necessariamente um comum (HARVEY, 2014, p.

143). Na grande maioria das vezes, esses investimentos pblicos esto vinculados a algo que se

assemelha ao comum, mas que tm sua comunalidade encerrada, ou parcialmente encerrada, ao

promover rentismos patrimoniais a proprietrios de terras, financeiristas e empreiteiras (HARVEY,

2014). O comum o contrrio dessa dualidade chamada pblico-privada, ele est em outra

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instncia, um terceiro lugar, um lugar pressuposto, anterior noo de propriedade privada, que

foge dos radares da economia monetria e mercantil (FEDERICCI, 2014).

Comum vem de comunidade, mas importante entender essa comunidade no como uma

realidade fechada em grupos com interesses exclusivos, como aquelas baseadas na religio. A

comunidade citada aqui entendida como um tipo de relao baseada nos princpios de

cooperao e de responsabilidade (FEDERICCI, 2014), entre as pessoas e em relao aos bens

comuns. Um bom exemplo dado por Federicci um movimento que criou hortas urbanas nos

Estados Unidos nas dcadas de 1980 e 1990, graas iniciativa de imigrantes. Essa produo de

consumo para a vizinhana foge dos padres comerciais e desperta sobre o fato de podermos, ns

mesmos, ter controle sobre nossa produo alimentar, alm de estreitar os laos e expandir os

espaos de encontro e socializao entre as pessoas. Estas comunidades se organizam atravs da

produo e reproduo destes comuns urbanos.

Para entrar nessa perspectiva feminista da viso de comum, necessrio reconhecer que as

mulheres sempre foram as principais sujeitas do trabalho reprodutivo, e por isso, estariam mais

comprometidas com a defesa do comum, por dependerem mais dele que os homens, para se

libertarem das amarras do processo de acumulao capitalista.

Federicci cita vrios exemplos de acontecimentos que elas demonstraram estar frente nos

interesses da coletividade e de difundir os laos de apoio mtuo, sendo representantes do combate

ao processo de mercantilizao total da natureza:

As mulheres so as agricultoras de subsistncia do planeta. Na frica, produzem 80% dos alimentos

que a populao consome, apesar dos esforos do Banco Mundial e de outras agncias internacionais

para convenc-las a dedicar seus esforos aos cultivos comerciais (FEDERICCI, 2014, p. 151)

[...] na ndia as mulheres tm lutado para recuperar as matas degradadas e proteger as rvores, unindo

esforos para expulsar os madeireiros e bloquear operaes de minerao e de construo de represas

(FEDERICCI, 2014, p. 152)

Os tontines (como so chamados em algumas regies da frica) so sistemas bancrios

desenvolvidos por mulheres, autnomas e autogestionadas, que sob diferentes denominaes

proporcionam dinheiro a grupos e indivduos que no tm acesso aos bancos, e que funcionam

exclusivamente na base da confiana. (FEDERICCI, 2014, p. 152)

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No Brasil, as mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), ao conquistarem a

direito de manterem-se nas terras ocupadas pelo movimento, organizam a construo das casas de

forma a manter a lgica dos trabalhos compartilhados: lavar e cozinhar juntas. Elas se organizam de

forma a revezarem-se e fazerem turnos com os homens, assim como faziam durante a luta nos

assentamentos. Elas tambm se organizam de forma a cuidarem umas das outras, protegendo-se e

socorrendo as companheiras que tenham sofrido algum tipo de agresso por parte dos homens.

Federicci coloca a mulher como sendo a clula comum da famlia. Essa famlia, que a tempos faz da

mulher uma espcie de prisioneira domstica, vem como uma base das novas formas coletivas

de reproduo, e reitera:

Hoje em dia, tanto para as mulheres como para os homens, crucial dar um passo e reconectar nossa

realidade com essa parte da histria, para desmantelar a arquitetura de gnero em nossas vidas e

reconstruir nossos lares e nossas vidas comuns. (FEDERICCI, 2014, p. 157)

Concluso

A crtica apontada aqui se inicia na estrutura do planejamento contemporneo como um todo,

mostrando falhas de um processo que, alm de tudo, exclui as mulheres. Tal excluso se d na no

visibilidade de aes que j esto presentes a tempos, mas que no so vistas, ouvidas e valorizadas.

Trazer o conceito de comum sob a perspectiva feminista nos faz enxergar algumas dessas aes.

Est profundamente esculpido em nossa conscincia que as mulheres foram designadas como o

comum dos homens, como uma fonte de riqueza e servios colocados sua disposio, do mesmo

modo como os capitalistas se apropriaram da natureza. Mas, citando Dolores Hayden, a reorganizao

do trabalho reprodutivo e, consequentemente, a reorganizao da estrutura domiciliar e do espao

pblico, no uma questo de identidade, uma questo de trabalho e, poderamos acrescentar, uma

questo de poder, segurana e proteo (Hayden, 1986, p. 230). [...] Afirmar que as mulheres devem

tomar as rdeas na coletivizao do trabalho reprodutivo e da estruturao das moradias no significa

naturalizar o trabalho domstico como uma vocao feminina. rejeitar a obliterao das experincias

coletivas, do conhecimento e das lutas que as mulheres acumularam em relao ao trabalho

reprodutivo, e cuja a histria parte essencial de nossa resistncia ao capitalismo. (FEDERICI, 2014,

p.157)

Fica a dvida: como inserir as mulheres no planejamento das cidades de forma que elas tenham a

oportunidade de se tornarem protagonistas do processo, em todas as instncias? Terezinha de

Oliveira Gonzaga (2011) destaca que:

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...o Estado deve incorporar em sua estrutura espaos para materializao dessas polticas pblicas,

criando ou aparelhando melhor organismos especficos que tratem dessas questes, como

coordenadorias da mulher, secretarias, ministrios e programas especficos em todas as secretarias.

(GONZAGA, 2011, p. 56)

Porm, acabamos por cair mais uma vez nas questes relacionadas crise instaurada pelas prticas

do planejamento urbano atual e na necessidade das tais novas formas de planejar. Finalizo o

raciocnio sem uma soluo exata, mas com mais uma dvida: Como efetivar o planejamento de

modo a superar a sua crise interna atravs do feminismo? Seria possvel?

Referncias

AVELAR, Lcia. A mulher no espao pblico brasileiro. Sem data. Disponvel em: Acessado

em 5 Ago 2016.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. A lgica do planejamento versus a dialtica do mundo. In:

LIMONAD, Ester; CASTRO, Edna. Um novo planejamento para um novo Brasil? Rio de Janeiro:

Letra Capital, 2014. pp. 25-39.

COURB Brasil. Mulheres no espao urbano: como fazer cidades melhores para elas? ArchDaily

Brasil, 04 Jul 2016. Disponvel em: Acessado em 5 Ago 2016.

FEDERICI, Silvia. O feminismo e as polticas do comum em uma era de acumulao primitiva..

Feminismo, economia e poltica: debater para a construo da igualdade e autonomia das mulheres /

Renata Moreno (Org.). So Paulo: SOF Sempreviva Organizao Feminista, 2014. pp. 145-158.

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Women in the public space - a reflection on the process of contemporary urbanization and the

(non) participation of women in the production of space

Astract:

In view of the challenges faced by contemporary urban planning, the need to think about different

ways of planning a city, through a more inclusive and perceptive urbanism, is evident. National

territory was generically built as exchange-value space, in detriment of use-value space. As a result,

cities become impersonal, accessed only under its market aspect, leaving doubts in what regards the

legitimacy of such planning, which insists in following a rationalist and technocratic logic, with

lapses of social participation, always in favor of capital accumulation

Urban planning under a gender perspective is rarely discussed - women being historically excluded

from the production of urban space since the advent of cities. Such exclusion continues up to this

very day, adapted to a patriarchal, hierarchical and capitalist societies. This exclusion shows itself

as insecure and vulnerable urban spaces, that shape the way women experience and own cities.

The discussion presented here is wat to state the importance of incorporating solutions for the

specific needs of vulnerable social groups in the field of Architecture and Urbanism, marking the

need to include women as shapers and users of the urban space.

Keywords: gender, urban space, public space, woman, urban planning