A MULTA JUDICIAL (ASTREINTE) E O CPC/2015 ?· do direito francês, não tem por finalidade o enriquecimento…

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  • 2017

    Coleo Eduardo Espnola

    Rafael Caselli Pereira

    A MULTA JUDICIAL (ASTREINTE) E O CPC/2015

    Viso terica, prtica e jurisprudencial

  • CAPTULO I

    ASTREINTES: CONCEITO, NATUREZA JURDICA E PREVISO LEGAL

    1.1 CONCEITO DE ASTREINTE

    Sobre as obrigaes de fazer e no fazer, Humberto Theodoro Jnior ensina que as obrigaes so prestaes s quais o devedor se vincula a cumpri-las em favor do credor, sejam positivas (um fazer), caracterizadas por uma ao (construir uma casa ou demolir um prdio, por exemplo), ou negativas, quando cumpridas atravs de uma absteno da prtica do ato (um non facere), citando como exemplos a no construo de um muro ou a no realizao de um espetculo. So fungveis, caso possam ser cumpridas indistintamente pelo devedor ou qualquer pessoa; ou infungveis, se apenas cumpridas pessoalmente pelo devedor (obrigaes personalssimas), como a pintura de um quadro por uma grande artista. 1

    Para Barbosa Moreira, na execuo forada, busca-se mediante atos executivos, um resultado proporcional ao que, efetivamente, seria alcanado se o devedor cumprisse voluntariamente a obrigao. 2

    Um dos maiores processualistas da escola italiana, Giuseppe Chiovenda, apresenta a distino entre os meios executivos de coao (aqui includa, a astreinte) e de sub-rogao, em sua obra Instituies de Direito Processual Civil, ao referir que dizem-se meios de coao os com que os rgos juris-dicionais tendem a fazer conseguir para o credor o bem a que tem direito com participao do obrigado e, pois, se destinam a influir sobre a vontade do obrigado que se determine a prestar o que deve. Tais so: as multas; o arresto pessoal; os sequestros com funo coercitiva. 3

    1. THEODORO JNIOR. Humberto. Curso de direito processual civil: processo de execuo e cumpri-mento de sentena, processo cautelar e tutela de urgncia. 43. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 19.

    2. MOREIRA, Joaquim Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposio sistemtica do procedimento. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 218.

    3. CHIOVENDA, Giuseppe. Instituies de direito processual civil. Campinas: Bookseller, 1998, p. 349-50.

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    J em relao aos meios de sub-rogao, apresenta-os como aqueles com que os rgos jurisdicionais objetivam, por sua conta, fazer conseguir para o credor o bem a que tem direito, independentemente de participao e, portanto, da vontade do obrigado. Tais: a apreenso direta das coisas determinadas que o credor tenha direito; a apreenso das coisas mveis ou imveis do devedor para convert-las em dinheiro, com o fim de satisfazer os crditos; a realizao direta da atividade devida pelo devedor, se fungvel; o emprego da fora para impedir que o devedor realize uma atividade, em contraste com a obrigao de no fazer 4.

    No h nas astreintes a presena da sub-rogao estatal, que configura a essncia da execuo forada5. Mostra-se complexa a conceituao de um instituto jurdico to rico em detalhes e controvertido na doutrina.

    Sobre o carter eminentemente intimidatrio inicial da multa cominat-ria, Roger Perrot ensina que o juiz avalia discricionariamente a importncia da astreinte, com o nico e exclusivo fim de intimidar o devedor. Assim, mesmo a cifra fixada em funo de consideraes bastante inusuais, como, por exemplo, a resistncia que aparenta querer opor o devedor e, sobretudo, o montante de seus bens. evidente, por exemplo, que a importncia da astreinte ser mais elevada se o devedor um rico industrial do que um modesto operrio. E no o caso de pasmar-se porque, no momento, est-se apenas no estado de ameaa intimidatria, e no naquele de condenao.6 Em sua clssica obra Processo de Execuo, de 1956, Enrico Tullio Liebman conceitua astreintes como a condenao pecuniria proferida em razo de tanto por dia de atraso (ou por qualquer unidade de tempo, conforme as circunstncias), destinada a obter do devedor o cumprimento de obrigao de fazer, pela ameaa de uma pena susceptvel de aumentar indefinidamente.7

    Nas palavras do ilustre Marcelo Lima Guerra, a astreinte , na verdade, uma condenao acessria porque destinada a assegurar o cumprimento especfico de outra condenao, dita principal.8

    No podemos deixar de referir o debate existente acerca da origem terminolgica do instituto, o qual teria sido originado da expresso latina ad-stringere.9 Em linhas gerais, a palavra astreinte significa coao, coero,

    4. Ibid., p. 349-50.

    5. REIS, Jos Alberto dos. Processo de execuo. Coimbra: Coimbra, 1943, p. 426.

    6. PERROT, Roger. La coercizione per dissuazione nel diritto francese. Rivista di Diritto Processuale, Padova, Cedam, jul./set. 1996, p. 666-667.

    7. LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execuo. So Paulo: Saraiva & Cia Livraria Acadmica: 1946, p. 337.

    8. GUERRA, Marcelo Lima. Execuo indireta. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 115.

    9. TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de no fazer: CPC, art. 461, CDC, art. 84. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 50.

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    compulso, provindo de estringere10, como refere Edson Prata. Ainda, sobre a palavra que deu origem as astreintes, Marilza Neves Gebrim11, ensina que astreinte deriva do latim astringere, de ad stringere, que significa apertar, compelir, pressionar: da o termo francs astreinte e o vernculo estringente.

    A multa por tempo de atraso, tambm chamada astreinte, originada do direito francs, no tem por finalidade o enriquecimento do credor, mas agravar a presso psicolgica incidente sobre a vontade do sujeito, mostrando-lhe o dilema entre cumprir voluntariamente o comando con-tido no direito e sofrer os males que ela representa, como destaca o jurista Cndido Rangel Dinamarco.12 Conforme concluso de Jos Miguel Garcia Medina, as astreintes surgidas no direito francs significaram, de certo modo, uma reao radical regra nemo potest cogiad factum. Embora se trate de medida coercitiva de carter patrimonial, a sua criao pela ju-risprudncia francesa revela a insatisfao oriunda daquele outro sistema, que impede o uso de qualquer medida coercitiva contra o devedor, e que chegava a considerar a obrigao de faz-la como uma obrigao natural ou facultativa 13.

    Sobre o conceito de astreintes, Carlos Alberto lvaro de Oliveira ensina que nada mais so do que tcnicas de induo ao cumprimento do decidido, podendo ser fixadas de ofcio (artigos 461, 4.; 461 - A, 3.; 621, pargrafo nico, e 645 do CPC)14, condio esta que restou mantida pelo art. 537, do CPC/2015.

    O processualista baiano Fredie Diddier Jnior apresenta alguns exem-plos de situaes em que as astreintes seriam aplicveis pelo juiz, sendo: Para fins de (i) obste a divulgao de matria jornalstica na imprensa falada ou escrita, nos casos em que a veiculao da matria configurar ato ilcito ou puder causar dano a algum; (ii) imponha a veiculao de anncio em jornal ou outdoor, no sentido de que uma determinada empresa est descumprindo ordem sua; (iii) determine a interdio de estabelecimento comercial, por no atendimento s normas de segurana do trabalho ou por causar danos ao meio ambiente; (iv) determine a retirada das prateleiras de produtos expostos ao consumidor em desconformidade com as regras

    10. PRATA, Edson. Direito processual civil. Uberaba: Vitria, 1980, p. 22.

    11. GEBRIM, Marilza Neves. Astreintes. Revista da Escola Superior da Magistratura do Distrito Federal, Braslia, dez. 1996, p. 69.

    12. DINAMARCO, Cndido Rangel. Execuo e processo executivo. 8. ed. So Paulo: Malheiros, 2002, p. 110.

    13. MEDINA, Jos Miguel Garcia. Execuo civil: teoria geral e princpios fundamentais. 2. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 444-445.

    14. OLIVEIRA, Carlos Alberto lvaro de. Teoria e prtica da tutela jurisdicional. Rio de Janeiro: Forense: 2008, p. 114-115.

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    de informao publicitria ou se segurana e conservao, alm de outras medidas possveis15.

    Ao analisar o instituto da astreinte, sob a perspectiva instrumental de resultado, Ada Pellegrini Grinover leciona que: As astreintes ainda guardam o seu carter instrumental tcnico, como uma tutela diferenciada. Esta referida medida aponta-se no ordenamento como uma tcnica diferenciada de tutela em obrigaes de fazer, no fazer e pagar quantia, um instrumento apto ao deferimento daquele tipo de prestao jurisdicional, que por sua natureza, no guarda fora suficiente para o cumprimento voluntrio devedor, sem que incida uma medida indireta, de natureza coercitiva, sobre o processo principal16.

    As astreintes no se confundem com a multa do nico do art. 14 do CPC/73. Eis que as primeiras miram o futuro, querendo promover a efeti-vidade dos direitos, e no o passado, em que algum haja cometido alguma infrao merecedora de repulsa17. So variados os critrios que as diferen-ciam: quanto finalidade (punitiva), natureza (administrativa), beneficirio (Estado), forma de fixao (valor fixo, no superior a 20%) e incidncia18.

    Prestam-se, pois, para induzir ou obrigar algum a cumprir determi-nada norma ou uma conduta. No dizer de Maria Helena Diniz, a astreinte , pois, a multa destinada a forar o devedor indiretamente a fazer o que no deve, e no a reparar dano decorrente de inadimplemento19. Promove-se, com ela, um esforo do juzo e da ordem pblica, e no respeito pelo prprio Poder Judicirio.

    A multa peridica, seja ela imposta na tutela antecipatria ou na sen-tena20, o resultado da efetividade do processo consistente no encontro do resultado devido ao autor, em consonncia com as normas de direito substancial, no mais curto espao de tempo e com o mnimo de esforo possvel21, destaca o sbio professor Luiz Guilherme Marinoni. Para Hum-berto Theodoro Jnior: A mais enrgica medida para agir sobre o nimo do

    15. DIDIER JNIOR, Fredie et al. Curso de direito processual civil: execuo. Salvador: Juspodivm, 2009, p. 434.

    16. GRINOVER, Ada Pellegrini. Tutela jurisdicional nas obrigaes de fazer e no fazer. Revista de Pro-cesso, So Paulo, ano 20, n. 79, p. 65-76, jul./set. 1995, p. 68.

    17. DINAMARCO, Cndido Rangel. Instituies de direito processual civil: execuo forada. 2. ed. So Paulo: Malheiros, 2005, p. 471.

    18. DIDIER JNIOR, Fredie et al. Curso de direito processual civil: execuo. Salvador: Juspodivm, 2009, p. 459.

    19. DINIZ, Maria Helena. Dicionrio jurdico. So Paulo: Saraiva, 1998, p. 301.

    20. MARINONI, Luiz Guilherme. Tutela especfica: arts. 461, CPC e 84, CDC. 2. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2001a, p. 105-106.

    21. Ibid., p. 33.

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    devedor , sem dvida, a sano pecuniria, a multa. Esta pode ser cominada, tanto no caso das obrigaes infungveis como das obrigaes fungveis, com uma diferena, porm: a) se tratar de obrigao infungvel, no substituir a prestao devida, porque a astreinte no tem carter indenizatrio. No cumprida obrigao personalssima, mesmo com a imposio de multa diria, o devedor, afinal, ficar sujeito ao pagamento, tanto da multa como das perdas e danos; b) se o caso for de obrigao fungvel, a multa conti-nuar mantendo seu carter de medida coercitiva, isto , um meio de forar a realizao da prestao pelo prprio devedor, mas no excluir a aplicao dos atos executivos que, afinal, proporcionaro ao credor a exata prestao a que tem direito, com ou sem a colaborao pessoal do inadimplente.22

    Longe de apontar com exclusividade que as astreintes se configuram como medida coercitiva mais importante no ordenamento jurdico, para efeitos de cumprimento da tutela especfica em obrigaes de fazer e no fazer, cedio que considerada como a medida coercitiva indireta mais utilizada para efeito de cumprimento da obrigao principal especfica23, destaca Fredie Didier Jnior.

    multa, nesta funo constritiva do psiquismo, d-se o nome de astreintes24. No esclio de Alexandre Freitas Cmara, a astreinte pode ser caracterizada como uma multa peridica, imposta pelo juiz em funo da demora no cumprimento da obrigao de fazer ou no fazer, com o princi-pal objetivo de pressionar psicologicamente o devedor a cumprir com a sua prestao25. Numa palavra: o juiz forado a multar para conseguir um meio de desempenhar a sua funo jurisdicional26, ensina Amlcar de Castro. Na mais importante obra sobre o tema aqui estudado, Guilherme Rizzo Amaral conclui que astreintes se constitui tcnica de tutela coercitiva e acessria, que visa a pressionar o ru, para que este cumpra mandamento judicial, sendo a presso exercida atravs de ameaa a seu patrimnio, consubstanciada em multa peridica a incidir em caso de descumprimento27.

    22. THEODORO JNIOR, Humberto. Tutela especfica das obrigaes de fazer e no fazer. Revista de Processo, So Paulo, ano 27, n. 105, p. 9-33, jan./mar. 2002, p. 24.

    23. DIDIER JNIOR, Fredie et al. Curso de direito processual civil: execuo. Salvador: Juspodivm, 2009, p. 456.

    24. CASTRO, Amlcar de. Comentrios ao cdigo de processo civil. 2. ed. So Paulo: Revista dos Tribu-nais, 1977, p. 186.

    25. CMARA, Alexandre Freitas. Lies de direito processual civil. 18 ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010, p. 256.

    26. CASTRO, Amlcar de. Comentrios do cdigo de processo civil: arts. 566 a 747. 2. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1977, p. 250.

    27. AMARAL, Guilherme Rizzo. As astreintes e o processo civil brasileiro: multa do art. 461 do CPC e outras. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 101.

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    Aps analisar inmeros conceitos acerca do instituto das astreintes, podemos conceitu-la como sendo a medida coercitiva protagonista do CPC/2015, de carter acessrio e com a finalidade de assegurar a efetivi-dade da tutela especfica, na medida em que municia o magistrado28, com um meio executivo idneo a atuar sobre a vontade psicolgica do devedor, em detrimento do direito do credor e da autoridade do prprio Poder Ju-dicirio. Sua incidncia pode se dar por qualquer medida de tempo (ano, ms, quinzena, semana, dia, hora, minuto, segundo) ou por quantidade de eventos em que a medida restou descumprida, dependendo da finalidade e do objeto a ser tutelado, sendo devida desde o dia em que se configurar o descumprimento e incidir enquanto a deciso no for cumprida.

    No momento de sua fixao, deve-se conceder tempo razovel para o cumprimento (o que dever ser analisado a partir da complexidade do caso concreto, atravs das regras de experincia comum), devendo o valor ser suficiente e compatvel com a obrigao, levando-se em conta a capacidade financeira do ofensor, bem como a gravidade da consequncia, em caso de descumprimento. A multa cominatria revestida de natureza heterognea (hbrida), preponderantemente processual, sendo meio coercitivo indireto a garantir o direito das partes de obter, num prazo razovel, a satisfao do direito material, obtido atravs da soluo integral do mrito.

    1.2 NATUREZA JURDICA

    Somente aps a compreenso da natureza jurdica das astreintes, que se poder alcanar concluses acerca de seu cabimento, incidncia, exigibilidade e eficcia. Conforme ensina Luiz Guilherme Marinoni: A multa, em sua essncia, tem natureza nitidamente coercitiva, porque se constitui em forma de presso sobre a vontade do demandado, destinada a convenc-lo a adimplir a ordem do juiz. Enquanto instrumento que atua sobre a vontade, inegvel sua natureza coercitiva. Porm, quando no surte os efeitos que dela se esperam, converte-se

    28. Apesar do caput do art. 537 afirmar que a multa poder ser aplicada, leia-se dever, uma vez que devemos interpretar o novo cdigo de forma sistmica. Assim, para garantia da tutela jurisdi-cional tempestiva e efetiva (art. 4. CPC/2015), dever o magistrado, desde logo, fixar a multa na fase de conhecimento, na tutela provisria, na sentena, ou ainda, na execuo, evitando novas manifestaes pelo credor da obrigao, corriqueiramente prejudicado pelo tempo morto do processo. Sobre o conceito de tempo morto do processo, Giseli Mascarelli Salgado define como sendo o tempo em que o processo judicirio est em andamento, sem estar correndo o prazo dos atos processuais. O tempo morto aquele em que no h efetivamente atos processuais que levem ao fim do processo, garantindo a paz social com a resoluo dos conflitos. No perodo que denominamos tempo morto, o processo judicirio est na mo da burocracia estatal judiciria, para que esse volte novamente a ser movimentado pelas partes ou terceiros. Disponvel em: . Acesso em: 24 mar. 2016.

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    automaticamente em desvantagem patrimonial que recai sobre o inadimplente. Isto significa que a multa, de ameaa ou coero, pode transformar-se em mera sano pecuniria, que deve ser suportada pelo demandado, mas a sem qualquer carter de garantia da efetividade da ordem do juiz29.

    Portanto, a natureza jurdica da astreinte consiste em seu carter coerci-tivo, intimidatrio, acessrio e patrimonial. Sobre o tema, o professor Cssio Scarpinella Bueno distingue, com clareza, a natureza jurdica, a finalidade e a independncia dos institutos das astreintes, e das perdas e danos, ao lecionar que a multa no tem carter compensatrio, indenizatrio ou sancionatrio. Muito diferentemente, sua natureza jurdica repousa no carter intimidatrio, para conseguir do prprio ru (executado) o especfico comportamento (ou absteno) pretendido pelo autor (exequente) e determinado pelo magistrado. , pois, medida coercitiva (cominatria). A multa deve agir no nimo do obrigado e influenci-lo a fazer ou a no fazer a obrigao que assumiu.30

    Ao enumerar as diversas caractersticas do instituto, Marcelo Lima Guerra salienta que a aplicao acessria ao processo principal ou com caracterstica reparatria, torna-se ponto incontroverso a ideia de que a multa cominatria medida coercitiva apta a fazer com que o devedor - em determinado processo principal - cumpra com o seu dever, emanado de deciso judicial competente em obrigao de fazer e no fazer. No tendo para tanto, cunho reparatrio, diante de algum prejuzo resultante do inadimplemento no processo31.

    Conforme leciona Guilherme Rizzo Amaral: A natureza jurisdicional e coercitiva, no devendo ser confundida a outras medidas espalhadas pelo cdigo, de ordem administrativa ou de cunho reparatrio. As astreintes so uma tcnica processual, tcnica de tutela, que permite a materializao da tutela jurisdicional pretendida pelo autor32. J para Jos Eduardo Carreira Alvim, a astreinte possui uma funo punitiva ou sancionatria, com efi-ccia moralizadora, servindo de instrumento de proteo da dignidade da justia. resultado mais de um atraso no cumprimento de um mandamento judicial do que de um atraso no cumprimento de uma obrigao, operando--se, portanto, como uma punio, um castigo em razo da desobedincia33.

    29. MARINONI, Luiz Guilherme. Tutela contra o ilcito: inibitria e de remoo - art. 497, pargrafo nico, CPC/2015. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 239.

    30. BUENO, Cssio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: tutela jurisdicional executiva. 2. ed. So Paulo: Saraiva, 2009, p. 44.

    31. GUERRA, Marcelo Lima. Execuo indireta. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 115.

    32. AMARAL, Guilherme Rizzo. As astreintes e o processo civil brasileiro: multa do art. 461 do CPC e outras. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 33.

    33. ALVIM, Jos Eduardo Carreira. Tutela especfica das obrigaes de fazer e no fazer na reforma processual. Belo Horizonte: Del Rey, 1997, p. 114.

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    O carter coercitivo da multa pode ser observado em razo de que a mesma se d independente das perdas e danos, cuja anlise ser aprofundada no terceiro captulo. O carter coercitivo apontado por Joaquim Felipe Spa-doni, porque se manifesta como um meio de presso psicolgica incidente sob a vontade da parte, de forma a atemorizar a pessoa para que cumpra com a prestao determinada, nela configurada como obrigao principal, sob pena de incidncia da ameaa prescrita pela norma34.

    Nota-se, assim, que a mesma decorre do descumprimento de uma obrigao principal a ser cumprida. Desse modo, no h como negar seu carter acessrio, ainda que possua a finalidade de forar o cumprimento da obrigao.

    H prvia existncia de um vnculo jurdico, que confere ao credor (sujeito ativo), o direito de exigir do devedor (sujeito passivo) o cumpri-mento de determinada prestao, em razo da desobedincia ao comando judicial designado. Trata-se de uma nova relao judicial, derivada de uma situao jurdica anterior, de natureza pessoal (no oitavo captulo, trataremos da controvrsia jurisprudencial, existente na vigncia do CPC/73, acerca da possibilidade de intimao pessoal da parte ou de seu procurador e o entendimento advindo com o CPC/2015) e processual, de crdito e dbito, que possui carter transitrio (extinguindo-se pelo cumprimento e/ou pa-gamento), cujo objetivo insiste numa prestao economicamente afervel.

    Enquanto o processo de conhecimento visa, em substncia, forma-o, na sentena definitiva da regra jurdica concreta, que deve disciplinar a situao litigiosa, outra a finalidade do processo de execuo, a saber, atuar praticamente naquela norma jurdica concreta35.

    Com efeito, diferentemente da busca e apreenso, remoo de coisas, interdio de estabelecimentos, a astreinte no repercute efeitos diretos na vida real, equivalentes ao bem da vida, objeto da obrigao descumprida, nem tampouco proporciona o adimplemento direto da prestao; ela, ao contrrio, acha-se inarredavelmente ligada mora do devedor, visando atuar no sentido psicolgico de que o obrigado cumpra espontaneamente o preceito, constituindo medida coercitiva e inibitria.

    Guilherme Rizzo Amaral, ao comentar a razo para a autorizao da concesso das astreintes de ofcio, explica que alm da expressa previso legal, o fato de a multa, como ademais as medidas coercitivas em geral, fazer parte do poder de imperium do juiz, da fora que inerente ativi-

    34. SPADONI, Joaquim Felipe. A multa na atuao das ordens judiciais. In: SHIMURA, Srgio; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. (Coord.). Processo de execuo. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 487.

    35. MOREIRA, Jos Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposio sistemtica do proce-dimento. 23. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 185.

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    dade jurisdicional, no podendo ser limitada pelas partes. A tutela deve ser pleiteada pelo autor, mas este no pode interferir na tcnica de tutela, que ser escolhida pelo rgo jurisdicional36.

    1.3 PREVISO LEGAL

    Na prtica, o CPC/39 previa a ao cominatria, para fins de atendimen-to das obrigaes de fazer ou no fazer, ao dispor que, assim como leciona Enrico Tullio Liebman: A execuo ter incio pela citao do executado para cumprir a condenao no prazo determinado na sentena ou fixado pelo juiz. Se o executado no cumprir a obrigao, poder o exequente prosseguir a execuo para o pagamento da multa, se convencionada, ou das perdas e danos. Mas o exequente pode tambm preferir que a obra ou servio seja feito por terceiro custa do executado: dever neste caso requerer que o servio ou obra seja avaliado e arrematado em hasta pblica37.

    Coube ao Cdigo de Processo Civil de 193938, estabelecer procedimento especfico para a execuo das obrigaes de fazer e no fazer. Na hiptese de obrigao fungvel, o credor poderia optar pela execuo atravs de ter-ceiro (art. 1.000) ou pela converso da obrigao em perdas e danos (arts. 999 e 1.004). No caso da obrigao ser infungvel, aplicava-se o disposto no art. 1.005: Se o ato s puder ser executado pelo devedor, o juiz ordenar, a requerimento do exequente, que o devedor o execute, dentro do prazo que o fixar, sob cominao pecuniria, que no exceda o valor da prestao. A multa cominatria tinha lugar somente nas obrigaes infungveis e resultava do contrato ou de sentena proferida atravs do procedimento cominatrio, previsto nos arts. 302 at 310 de nosso CPC/39, destinados a disciplinar um leque de pretenses, desde a do fiador, para exigir que o afianado satisfa-a a obrigao ou o exonere da fiana a do locador, para que o locatrio consinta nas reparaes urgentes de que necessite o prdio.

    Alm da ao cominatria para prestao de fato ou absteno de ato (art. 302-310), tambm se conferiu tratamento diferenciado para o interdito proibitrio (art. 377-380)39, recorda Eduardo Talamini.

    36. AMARAL, Guilherme Rizzo. As astreintes e o processo civil brasileiro: multa do art. 461 do CPC e outras. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 138.

    37. LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execuo. So Paulo: Saraiva & Cia Livraria Acadmica: 1946, p. 340.

    38. Sobre o esforo histrico do processo no Brasil, abordando desde as ordenaes Afonsinas, Manue-linas e Filipinas at o CPC/2015, sugere-se a leitura da obra de: JOBIM, Marco Flix. Teoria, histria e processo: com referncias ao CPC/2015. 1. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2016.

    39. TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e no fazer: CPC. art. 461, CDC, art. 84. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 112.

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