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  • FACULDADE DE CINCIAS ECONMICASDEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAES INTERNACIONAIS

    Texto para Discusso N 10/2013

    Glucia Campregher e Lucas Schnhofen Longoni

    Novembro 2013

    A natureza humana do comportamento individualnos primrdios do pensamento econmico: uma

    comparao entre Hume, Smith e Bentham

  • Projeto PastasProjetado e elaborado pela Grfica UFRGS

    Capa: Lucianna Pisani e Natalia Vittola

    Ncleo de Publicaes da Faculdade de Cincias EconmicasTel.: (51) 3308 3513

    E-mail: tdeconomia@ufrgs.brCoord. Ncleo de Publicaes: Ricardo Dathein

    Acompanhamento editorial: Isabel Cristina Pereira dos SantosEditorao: Priscila Evangelista

    Reviso: Carolina dos Santos Carboni

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    Responsvel: Biblioteca Gldis W. do Amaral, Faculdade de Cincias Econmicas da UFRGS

    Campregher GluciaC199n A natureza humana do comportamento individual nos primrdios do

    pensamento econmico : uma comparao entre Hume, Smith eBentham / Glucia Campregher, Lucas Schnhofen Longoni. -- PortoAlegre : UFRGS/FCE/DERI, 2013.

    30 p. -- (Texto para Discusso / Universidade Federal do RioGrande do Sul, Faculdade de Cincias Econmicas ; n. 10/2013)

    1. Pensamento econmico. 2. Comportamento: Economia. 3.Utilitarismo. I. Longoni, Lucas Schnhofen. II. Ttulo. III. Srie.

    CDU 330.16

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    * Professora da Faculdade de Cincias Econmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul(UFRGS). E-mail: glaucia@campregher.com** Aluno do curso de Cincias Econmicas da UFRGS. E-mail: schonhofen.longoni@ufrgs.br

    A natureza humana do comportamento individual nos primrdios do pensamento econmico: uma

    comparao entre Hume, Smith e Bentham

    Glucia Campregher*Lucas Schnhofen Longoni**

    A Natureza Humana a nica cincia do homem; entretanto, at aqui tem sido a mais negligenciada.

    David Hume

    Resumo: Pretendemos, neste trabalho, realizar uma confrontao entre as investigaes acerca do que considerado da natureza humana no comportamento individual, como visto pelos primeiros pensadores do que veio a se consolidar como cincia econmica, nos centrando em Hume, Smith e Bentham. Dentro desse debate privilegiaremos: a) o que esses pensadores entendem por natureza humana e como pensam alcan-la; b) como a sua situao de filsofos morais simpatizantes do empirismo - crticos da mera especulao racional e, por isso mesmo, precursores da cincia econmica - influencia no seu tratamento do que seja a natureza e a cultura, o indivduo e a sociedade; e c) at que ponto compreendem a prpria natureza como algo em transformao, e uma transformao na qual o homem historicamente atuante, ou seja, suas investigaes abrem caminho para uma compreenso da natureza humana menos natural. Veremos que, principalmente em Hume e Smith, a capacidade natural de nos importarmos com o outro, sympathy, no diz muito em si, mas ganha concretude com o hbito. Veremos tambm que, em Bentham, a sympathy, que faz o indivduo sair de si e se reconhecer no outro, dar lugar ao indivduo isolado, o que impossibilita a superao da natureza natural pela natureza histrico-social do homem.

    Palavras-chave: Natureza humana. Simpatia. Utilitarismo.

    Abstract: The aim of this paper is confront the compreension of human nature in individual behavior in the early thinkers of economic thought: Hume, Smith and Bentham. We intent to highlight: a) what these thinkers meant by human nature and how to achieve it ; b) how these, moral philosophers supported by empiricism, could observe the imbrication between nature and cultural (Hume and Smith) and how not (Bentham) and c) how their investigations contributed with the less natural understanding of human nature, where its changes result from historical activity of men. We will see that, especially in Hume and Smith, that the only natural gift in

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    Glucia Campregher, Lucas Schnhofen Longoni

    mankind is the hability of caring about each other. This does not say much by itself, but even in Hume and Smith this is put in contact with concrete forms of sociability acquired by habit. This results that individual judgments and actions are preceded by the recognition of oneself in another .We will also see that this sympathy in Bentham disappears leaving the man alone in their actions and judgments, without an impartial observer with whom can share responsibilities for their own utilitarian calculus.

    Keywords: Human nature. Sympathy. Utilitarism.

    JEL Classification: B12; B40.

    Introduo

    A aurora do pensamento racional coincide com a perda da unidade (e at identidade), um tanto mstica ou mgica nos povos primitivos, entre parte e todo, os homens (e seus grupos) e o universo inteiro (cus, terras e seus habitantes). Uma vez perdido esse elo mgico com o todo, contudo, a histria da filosofia e da cincia no deixa de ser a histria da produo de outros conjuntos de partes e todos, e de discursos que os conectem. Assim, se criar objetos de reflexo subtra-los a um todo natural, tambm instal-los numa relao outra entre todo e partes componentes. Pode-se dizer tambm que objetos cientficos novos nascem quando o que era parte, numa construo anterior, ganha tanta ateno que passa a se constituir num novo todo.1 Assim, nem bem nasce um objeto para o pensamento cientfico, definir o que a parte e o que o todo deste - e como se relacionam, e se transformam seu primeiro grande desafio. Muito provavelmente, os mtodos de investigao se distingam uns dos outros a partir desse primeiro procedimento, de seco e reunio. Perguntamos-nos, e no caso da economia, o que a parte e o que o todo? Podemos dizer que a parte a unidade de ao/deciso, as pessoas - mais ou menos individualizadas2 -, ou, simplesmente, o indivduo; e o todo a sociedade - eventualmente a tribo, cl, cidade, imprio, ou nao geogrfica, mas tambm historicamente (e at politicamente) delimitados? E como se d a relao entre partes e todo nesse caso? Ou, at que ponto as aes dos indivduos fazem o todo (suas instituies, valores, leis), e at que ponto o todo que faz os indivduos? Alm disso, se ocorre inventarmos uma cincia nova para a parte que cresceu, como a psicologia para o estudo do indivduo, como as novas descobertas desta vo ser compreendidas pela cincia j estabelecida? No corremos o risco de que o indivduo se torne cada vez mais soberano e, por tabela, as determinaes prprias do todo da qual parte? Ou, ao contrrio, as contribuies de uma cincia dedicada

    1 Obviamente essa no a nica circunstncia requerida, nem queremos disputar aqui quo central seria. Para maiores aprofundamentos acerca do surgimento de novas cincias, objetos, teorias e paradigmas cientficos, ver Kuhn (1989), Popper (1993) e Lakatos e Musgrave (1979).2 Assim posto, descremos de um individualismo metodolgico que se instaure a priori. Acreditamos que, quanto mais atrs na histria, menos os indivduos aparecem enquanto tais, unidades de deciso e ao, e mais as pessoas se vm presas s suas comunidades e mesmo ao ambiente natural, como nos mostram os antroplogos. Apenas para citar um destes cujos trabalhos so bastante conhecidos entre os economistas, ver Polanyi, Arensberg e Pearson (1957).

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    A natureza humana do comportamento individual nos primrdios do pensamento econmico...

    ao estudo do indivduo podem cobrir lacunas dentro das teorias que, centrando-se no todo, esvaziavam o seu papel?

    de amplo conhecimento que a bifurcao do pensamento econmico a partir de Ricardo nos legou uma corrente (o marxismo) mais focada no todo, seja este a sociedade e suas classes em conflito, seja o capital e seus interesses, em grande medida tambm conflituosos; e uma outra (o neoclassicismo) mais focada no indivduo e nas articulaes entre este mais harmnicas. Entretanto,