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A Obra de arte segundo Heidegger

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segundo Heidegger Gustavo Bertoche A distribuição deste texto online é permitida desde que sejam respeitados a primazia do Autor e seus corpyrights. Não distribua sem citar fonte, não venda, não re-edite o texto. [email protected] Para entrar em contato com o autor: Rio de Janeiro, 18 de julho de 2006 http://diarioazul.blogspot.com

Text of A Obra de arte segundo Heidegger

  • segundo Heidegger

    Gustavo Bertoche

  • www.ebooksbrasil.org

    Edio do Autor 2006 - Gustavo Bertoche

    A distribuio deste texto online permitida desde que sejam respeitados a primazia do Autor e seus corpyrights. No distribua sem citar fonte, no venda, no re-edite o texto.

    Rio de Janeiro, 18 de julho de 2006

    Para entrar em contato com o autor:

    [email protected]

    http://diarioazul.blogspot.com

  • A obra de arte segundo Heidegger

    O que a obra de arte? Como uma coisa pode se tornar arte?

    Estas duas perguntas so fundamentais quando se trata do fenmeno artstico. Afinal, no podemos falar de arte sem nos remetermos obra de arte .

  • Na histria da filosofia, h muitos filsofos que interrogam-se acerca da arte e do que a define, que a obra.

    No texto que voc tem em mos, o problema o que a obra de arte? ser respondido pela

    filosofia de Martin Heidegger, um dos filsofos alemes mais importantes do sculo XX.

    Trabalharemos com base no livro A origem da obra de arte (HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Lisboa: Edies 70, 2000; o livro fruto de trs conferncias de 1936, editado originalmente em 1950), a partir do qual delinearemos quatro eixos que se encontraro no fim.

    Em primeiro lugar, procuraremos mostrar

    como Heidegger compreende que a perspectiva tradicional sobre o que a coisa est errada.

  • Em segundo lugar, explicaremos o que Heidegger quer dizer com a afirmao de que a caracterstica do apetrecho no a utilidade, mas a confiabilidade , a solidez .

    Terceiro, comentaremos os termos mundo e terra a partir da descrio que Heidegger faz

    da pintura de Van Gogh e da descrio do templo.

    Finalmente, em quarto lugar, exporemos a

    diferena que Heidegger v entre a coisa , o apetrecho e a mera coisa . A partir da, o

    crculo hermenutico se fecha e haveremos

    compreendido a obra de arte segundo Heidegger.

    Utilizaremos citaes mais ou menos extensas

    para que o leitor possa ir aos trechos do livro por si mesmo.

  • Comecemos ento pelo primeiro eixo que

    propusemos. Heidegger apresenta 3 modos tradicionais de se conceituar a coisa:

    1 - a coisa como suporte de propriedade;

    2 - a coisa como unidade de mltiplas sensaes e

    3 - a coisa como matria enformada.

    Em cada uma das trs, no entanto, ele mostra como a coisa permanece impensada.

    Heidegger logo de incio determina que, para encontrar a essncia da arte, devemos procurar a obra real e perguntar obra o que e como . A resposta que toda obra tem um carter de coisa. Embora chamar de coisa a obra de arte possa parecer grosseiro, porque assim

    poderiam se expressar a faxineira ou o vigia do museu, no se pode contornar o carter coisal da obra.

  • Assim, para buscar a origem da obra de arte necessrio que, antes de tudo, se compreenda o que a coisa

    e o que a coisa no . Parece

    que bastante bvio o que a coisa . Tradicionalmente, se entende a coisa de trs modos. (A razo pela qual Heidegger torna necessrio conhecer estes trs conceitos

    simples: ele procura, pela apresentao da presuno destes conceitos, assim como pela refutao de sua aparente obviedade, manter afastados os enganos destes modos de pensar).

    O primeiro modo de entender a coisa como suporte para as propriedades. A propsito, assim se expressa Heidegger (A origem da obra de arte, edies 70, 2000, p. 16):

    Uma simples coisa , por exemplo, este bloco de granito. duro, pesado, extenso, macio, informe, rude, colorido, ora bao,

  • ora brilhante. Tudo o que acabamos de enumerar podemos encontrar na pedra. Tomamos assim conhecimento das suas caractersticas. Mas as caractersticas

    indicam que peculiar prpria pedra. So as suas propriedades. A coisa tem-nas. A coisa? Em que pensamos quando nos referimos aqui coisa? Manifestamente, a coisa no apenas o somatrio das caractersticas, tampouco a acumulao das propriedades atravs da qual somente surge o todo. A coisa , como todos julgam saber, aquilo em torno do qual esto reunidas as propriedades.

    Aparentemente, este modo de compreender a coisa corresponde ao nosso olhar natural sobre as coisas. Mas a naturalidade que sentimos vem do hbito antigo: o hbito de projetar o modo como concebe a coisa no enunciado sobre a estrutura da prpria coisa (o que

  • transpe, sem que seja nem ao menos perguntado como, a estrutura da preposio para a coisa, sem que a prpria coisa tenha se

    tornado visvel); esta interpretao no natural e, sobretudo, afasta a coisa de ns, jogando-a no campo do discurso. E esta interpretao da coisa como suporte de suas caractersticas no vale apenas para a coisa,

    mas para todo o ente. Por isso, no basta para distinguir o ente coisal do ente no-coisal

    geral demais. Este modo de compreender a coisa deve, portanto, ser afastado.

    O segundo modo de entender a coisa como a unidade de uma multiplicidade do dado nos sentidos. O problema imediato que apresenta Heidegger que esta interpretao sempre to geral quanto a anterior. Mas existe outro

    problema: no verdadeiro que as coisas se apresentem imediatamente a ns como sensaes. Com efeito, quando ouvimos um

  • motor de automvel, no ouvimos apenas o rudo

    no, ns ouvimos a coisa motor. Para

    ouvir um mero rudo, para ver uma mera cor, para ter uma mera sensao, temos que deixar as coisas, ouvir abstratamente. Esta concepo acaba por nos aproximar excessivamente das coisas. Como diz Heidegger (A origem da obra de arte, p. 19):

    No conceito de coisa agora referido, no h tanto um ataque coisa quanto a tentativa exagerada de trazer as coisas a uma imediatez to grande quanto possvel em relao a ns. Mas uma coisa nunca a chega, enquanto lhe atribumos o que percebido na sensao como o seu carter coisal. Enquanto a primeira interpretao da coisa no-la mantm distncia e demasiadamente afastada de ns, a segunda f-la vir excessivamente sobre ns. Em ambas as interpretaes, a coisa

  • desaparece. Importa, por isso, evitar os excessos destas duas interpretaes. A coisa deve deixar-se no seu estar-em-si. Deve apreender-se no carter de consistncia que lhe prpria.

    O terceiro modo de compreender a coisa parece mais verdadeiro: a coisidade da coisa estaria em sua consistncia, em sua

    materialidade. Nesta determinao da coisa como matria est implicada a forma. A matria se conjuga com a forma, resultando a firmeza, a consistncia. A coisa seria matria

    enformada. Finalmente, diz Heidegger, se encontra um conceito de coisa que se aplica igualmente bem s coisas da Natureza e s coisas do uso, aos apetrechos.

    Mas ainda se pode desconfiar deste conceito de coisa. O fato de a distino entre matria e

  • forma ser o esquema conceitual por

    excelncia para toda a esttica e teoria da arte nada prova. necessrio ainda investigar se esta concepo est bem fundada.

    A origem do complexo matria-forma encontra-se na essncia do apetrecho, ou seja, no que criado para ser utilizado. Isto porque apenas quando o apetrecho vem-a-ser que surge a distino entre forma e matria. A forma determina a organizao da matria. Esta organizao implica expressamente na

    escolha da matria. Um cntaro, que levar gua, deve ser feito de barro, e no de algodo; uma roupa deve ser feita de algodo, no de ferro. A utilidade, a serventia, o trao fundamental do apetrecho, e esta serventia apresenta-se na separao entre a forma, que

    determina o objetivo do ente criado, e a matria, que possibilita que o ente tenha serventia. Matria e forma tm a sua raiz na

  • essncia do apetrecho. Matria e forma no constituem determinaes originais da coisidade da mera coisa.

    Meras coisas no so produzidas, no tm serventia. A mera coisa uma espcie de apetrecho, mas um apetrecho despido de seu carter de ser-apetrecho, um apetrecho no fabricado. O ser-coisa, ento, est no que resta; mas este resto, diz Heidegger (v. A origem da obra de arte, p. 22), no expressamente determinado no seu carter ontolgico. A abstrao de seu carter instrumental no far aparecer o carter de coisa, o carter coisal. Deste modo, esta terceira interpretao da coisa tambm deixa inalcanado o carter coisal da coisa.

    Heidegger explica os trs modos de compreender a coisa em um pargrafo revelador (A origem da obra de arte, p. 23) :

  • Os trs modos referidos de determinao da coisidade concebem a coisa como o suporte das caractersticas, como a unidade de uma multiplicidade de sensaes, como matria enformada. No decurso da histria da verdade sobre o ente, as referidas interpretaes ainda se combinaram entre si, o que agora no teremos em conta. Nesta combinao, reforaram ainda a amplitude de que se revestem, de tal modo que valem igualmente para a coisa, para o apetrecho e para a obra. Assim se constitui a partir delas o modo de pensar segundo o qual pensamos no s sobre a coisa, o apetrecho, a obra em particular, mas tambm sobre todo o ente em geral. Este modo de pensar, que h muito se tornou corrente, antecipa-se a toda a experincia imediata do ente.A antecipao veda a meditao sobre o ser do ente, de que cada

  • vez se trata. assim que os conceitos dominantes de coisa nos barram o caminho, tanto para o carter coisal da coisa, quanto para o carter instrumental do apetrecho, e, a fortiori, para o carter de obra da obra.

    Ficou um pouco mais claro?

    Vamos tentar ento trabalhar com o segundo eixo. Segundo o argumento de Heidegger, a caracterizao do apetrecho com base na sua utilidade apenas uma caracterizao superficial do apetrecho. Uma caracterizao mais originria do apetrecho encontra-se naquilo que Heidegger chama de confiabilidade , solidez . Como Heidegger

    justifica essa afirm

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