A PAZ NA FAMÍLIA - ?· Sabemos bem quem são os culpados, e sabemos bem de que males ... mas só se…

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  • FRANCISCO FAUS

    A PAZ NA FAMLIA

    QUADRANTE

    So Paulo

    1997

  • Copyright 1997 QUADRANTE, Sociedade de Publicaes Culturais

    Capa

    Jos C. Prado

    Ilustrao da capa

    Mother and child (1922), de Pablo Picasso;

    The Baltimore Museum of Art.

    Francisco Faus licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Cannico pela Universidade de So Toms de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em So Paulo, onde exerce uma intensa atividade de ateno espiritual entre estudantes universitrios e profissionais. Autor de diversas obras literrias, algumas delas premiadas, j publicou na coleo Temas Cristos, os ttulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lgrimas de Cristo, lgrimas dos homens, A lngua, A pacincia e A voz da conscincia.

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    QUADRANTE, Sociedade de Publicaes Culturais

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    CEP 05016-000 So Paulo SP

  • INTRODUO

    DESEJOS DE PAZ

    Se perguntarmos a uma pessoa recm-casada qual o bem que mais deseja na famlia, provavelmente responder:

    O amor.

    Se fizermos a mesma pergunta a um homem ou a uma mulher j maduros, com longos anos de convivncia familiar, provvel que nos responda:

    A paz.

    Nem todos diro isso, certamente, mas muitos, sim. que os anos de convvio entre marido e mulher, e entre pais e filhos, vo evidenciando, com luminosa clareza, que a paz um bem inestimvel, tanto mais precioso quanto mais frgil e difcil de conseguir e de conservar.

    Paz! Pelo amor de Deus, quero paz l em casa! dizem alguns, com gemidos de nufrago que j no agenta mais segurar-se numa tbua no meio da tormenta.

    Tm ampla experincia das agruras da guerra: desavenas, incompreenses, brigas, maus humores, recriminaes, injustias, teimosias, desafios, reclamaes montonas... A esses, a harmonia parece-lhes um sonho que lhes escapou das mos h muito tempo, como se fosse um balo perdido no espao, sem meio algum de o recuperar.

    A harmonia familiar um ideal que essas pessoas entristecidas amam, com um amor ardente e dolorido, unido convico amarga de que a paz familiar estvel no existe na terra ou, caso exista, uma loteria que no os contemplou.

    Uma loteria, uma questo de sorte. assim que muitos vem as alegrias da paz familiar. Uns so agraciados e outros no. Qualquer pessoa pai, me, filho que se queixa da falta de paz familiar costuma dispor de uma explicao para essa infelicidade: a m sorte de ter que conviver com um cnjuge ou filhos ou pais de carter difcil, de temperamento insuportvel, de... Instintivamente, o queixume pela falta de paz toma a forma de uma acusao. Sabemos bem quem so os culpados, e sabemos bem de que males so culpados. a grosseria do marido, a indisciplina e o desrespeito dos filhos, a tirania irracional dos pais... Ou, ento: que no me compreendem, no me escutam, no

  • acreditam em mim, no tm responsabilidade, no tm ordem, gritam toa, ofendem... Assim, no possvel ter paz!

    Em face dessa tendncia para a acusao dos outros, parece-me muito sugestivo o seguinte comentrio de um escritor brasileiro:

    Nos casos de conflitos entre pessoas [o autor est tratando do divrcio], asseveramos que a nica soluo, o nico termo ou desenlace perfeito s pode ser atingido quando se chega confrontao leal e verdica de um sentimento de culpa. Um desentendimento jamais poder ser resolvido se as partes obstinadamente fogem dessa confrontao. Consegue-se um apaziguamento com evasivas, com frmulas conciliatrias como aquela: ningum tem culpa; mas s se consegue uma cura profunda e fecunda no momento em que cada parte queixosa seja capaz de um duplo ato moral: o do reconhecimento de sua culpa, na base de uma genuna humildade; e o da cincia proporcionada e justa da culpa alheia, num ato de misericrdia, predisposto ao perdo [...]. O remdio especfico para os humanos desentendimentos no pode ser puramente psicolgico. H de ser moral, e no outro seno o ato de humildade e o ato de generosidade1.

    um conselho lcido e muito til. Sim. Quando cambaleia ou naufraga a paz familiar, a primeira coisa que devemos fazer deixar de lado toda e qualquer acusao, por objetiva e justa que parea, e comear pela tarefa humilde de reconhecer as nossas culpas: Qual a minha parte de culpa no mal-estar familiar? Ningum nos pede que assumamos toda a culpa, mas sim que comecemos por enxerg-la e aceit-la sem desculpas, como passo prvio para conquistar ou reconquistar a paz no lar.

    Depois disso, poderemos dar o segundo passo, o da ponderao serena e objetiva da culpa alheia, e ento estaremos em condies de encarar essa culpa com a disposio generosa de compreender e perdoar, de corrigir e ajudar.

    AS CORDAS DO CORAO

    Uma comparao simples pode ajudar-nos a perceber melhor a convenincia de comear reconhecendo a nossa culpa.

    O corao humano pode ser comparado a um instrumento de cordas. Imagine, se quiser, um violino, uma harpa, ou um piano, que tem cordas tambm.

    claro que, para extrair do instrumento uma msica harmoniosa uma sinfonia, uma rapsdia, uma sonata , necessrio um bom intrprete. Mas no adianta dispor do melhor intrprete do mundo, se o instrumento tem as cordas soltas ou mal afinadas. Por mais que o virtuose se esforce, s conseguir dissonncias roucas ou estridentes, rudos abafados, cacofonias. A primeira coisa que fazem os msicos de uma orquestra, antes de que o regente levante a batuta e imponha o silncio expectante do incio do concerto, afinar os instrumentos. Qualquer amante da msica lembra-se desses barulhinhos inconfundveis de violoncelos, violinos e contrabaixos a regular as cordas.

  • Pois bem, o corao tambm tem as suas cordas. Umas cordas que se chamam virtudes ou defeitos. So as cordas da humildade ou do orgulho, da fortaleza ou da moleza, da preguia ou da laboriosidade, do otimismo ou do pessimismo, da generosidade ou da mesquinhez... Virtudes que soam bem, ou defeitos que soam mal.

    Os outros, quer sejam amveis ou grosseiros, quer sejam pacientes ou irritadios, faro soar dentro do nosso corao uma nota conforme as nossas cordas. Se a corda da generosidade anda fraca, qualquer atitude da esposa, do marido, do filho ou do pai que exija algum sacrifcio far vibrar a nota desafinada do mau-humor. Pelo contrrio, se o corao for grande e a corda da generosidade estiver bem temperada, mesmo as agresses mais desagradveis dos outros faro ressoar a nota da compreenso, da afabilidade que desvia a discusso, da grandeza de alma que finge nem ter reparado na ofensa. E, ento, haver paz.

    Vale a pena, portanto, insistir em que a primeira causa das desavenas, brigas e desarmonias, no convm busc-la no que os outros fazem ou dizem, mas na maneira como isso que fazem ou dizem quer seja bom, quer ruim repercute no nosso corao. Lembremo-nos do exemplo de Cristo. Ele cujo corao de Homem-Deus tinha as cordas das virtudes divinamente afinadas espalhava sua volta uma paz imensa, no s quando pregava aprazivelmente nas margens do lago de Genesar, e todos se encantavam com as suas palavras, mas tambm quando agonizava no alto da cruz, cercado de improprios, zombarias e tormentos atrozes.

    Do corao que sai tudo, dizia Cristo (Mc 7, 21). Tudo depende do corao, do amor, da bondade e das virtudes que nele se enrazam. Boas virtudes so geradoras de paz. Defeitos arraigados so provocadores de guerra.

    Como entendia bem So Paulo o ensinamento de Cristo! Bastar, por ora, lembrar apenas dois trechos das suas cartas, que pem mostra as cordas da paz e as cordas da guerra:

    Cordas da paz: Revesti-vos de entranhada misericrdia, de bondade, humildade, mansido, pacincia. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa [...]. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que o vnculo da perfeio. Triunfe em vossos coraes a paz de Cristo, para a qual fostes chamados (Col 3, 12-15).

    Cordas da guerra: Nenhuma palavra m saia da vossa boca [...]. Toda a amargura, indignao, clera, gritos, injrias, e toda a espcie de malcia, sejam banidos dentre vs (Ef 4, 29.31).

    Guerra e paz, sim. Vale a pena encar-las ambas. E, para que a nossa reflexo seja como uma escada, que vai subindo dos fundes at as cumiadas, assim como Dante comeou a Divina Comdia pelo Inferno, tambm vamos iniciar estas simplicssimas meditaes entrando, primeiro, nos pores onde fermentam os conflitos familiares, para depois subir, contemplar com perspectiva crist o ideal familiar, e procurar, enfim, os caminhos que podem conduzir a famlia paz.

  • UMA DESCIDA AOS PORES

    PRIMEIRO PORO: O ORGULHO

    O EU SOBRE O ALTAR

    De todas as cordas desafinadas do corao, a pior a do orgulho. Este vcio capital o primeiro inimigo da paz familiar; o orgulho que, de resto, o inimigo nmero um de toda a bondade e de toda a alegria. No em vo que a Bblia diz, no livro do Eclesistico, que o orgulho o princpio de todo o pecado (Ecli 10, 15).

    Mas, o que o orgulho? Uma definio clssica reza assim: O orgulho o apetite desordenado da prpria excelncia. Trocando a frase em midos, significa: o desejo exorbitado de sobressair, de ficar por cima, de ser valorizado, acatado e estimado; a nsia de sentir-se superior aos outros, ou pelo menos nunca inferiorizado; a incapacidade de aceitar qualquer coisa que fira o nosso amor-prprio ou rebaixe a nossa imagem.

    O orgulho cega. Essa supervalorizao do nosso eu impede-nos de enxergar a verdade sobre os nossos defeitos e culpas, porque no suportamos que essa verdade nos situe abaixo do alto conceito que fazemos de ns mesmos ou nos coloque por baixo dos outros.

    Poderamos dizer que a pessoa orgulhosa construiu um altar dentro do seu corao, o