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A PRIMEIRA ANOTAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA

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  • A PRIMEIRA ANOTAO DA LNGUA PORTUGUESA

    MARIA LEONOR CARVALHO BUESCU

    A biografia de Ferno de Oliveira o que nem sempre sucede relativamente s personagens literrias ou cientficas do sculo XVI pde ser reconstituda quase integralmente, graas documentao existente. Essa documentao, consti-tuda por processos inquisitoras, cartas, alistamentos, infor-maes coevas sobre essa desconcertante figura de aventureiro e de letrado, encontra-se compilada na biografia parcialmente desemaranhada por Henrique Lopes de Mendona (^).

    No obstante, h lacunas e espaos duvidosos coisa ine-vitvel numa vida to acidentada, cheia de imprevistos, aven-turas e desditas.

    Ferno de Oliveira foi filho do juiz de rfos de Pedrgo, Heitor de Oliveira, e nasceu provavelmente em Aveiro, em 1507. Morreu cerca de 1580 ou 1581. Foi, no entanto, na Beira que decorreu a sua infncia, conforme ele prprio testemunha no captulo XLVII da Gramtica: Contudo, sendo eu moo

    (1) Henrique Lopes de Mendona, O Padre Ferno de Oliveira e a sua obra nutica Memria comprehendendo um estudo biographico sobre o afamado grammatico e nautographo e a primeira reproduo typographica do seu tratado indito Livro da Fabrica das Nos, Lisboa, Academia das Cincias, 1898.

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    pequeno, fui criado em S. Domingos de vora, onde faziam zombaria de mim os da terra, porque o eu assim pronunciava, segundo o que aprendera na Beira.

    De qualquer modo, aos treze anos de idade entrou como novio no Convento dos Dominicanos de voraos quais se-riam mais tarde seus implacveis perseguidores. A, foi disc-pulo de Andr de Resende, que muitos anos depois viria tam-bm testemunhar contra o frade desfradado e talvez herege.

    , contudo, s em 1532, j homem, que abandona o con-vento e se refugia em Espanha. Ter sido durante essa estada nesse pas que deu incio redacao da sua Gramtica? Galindo, editor da Gramtica de Ia lengua Castellana de Antnio de Nebrija, faz essa deduo, mas o argumento apresentado no , a meu ver, suficientemente probante. Diz ele que Ferno de Oliveira, citando Nebrija a propsito das letras latinas pelo seu modo de falar em tal passo e tambm quando alude aos que no se lembram da sua terra a que muito devem, faz pensar que escreveu a sua obra achando-se em Espanha e tal-vez em Toledo ( ). Interpretando, porm, outro passo da obra de Ferno de Oliveira, torna-se-me evidente, pelo contrrio, que a Gramtica foi redigida em Lisboa, onde viria a ser pu-blicada, em Janeiro de 1536. Diz Ferno de Oliveira: Ainda, porm, que nesta cidade houve ou cuido que haja e viva uma mulher que se chamava Cataroz. (captulo XLIV) (^). Aqui, o autor exemplifica uma excepo da lngua portuguesa, donde se torna evidente que esta cidade em Portugal.

    Secularizado por Paulo III, o egresso da Ordem dos Pre-gadores dedica-se ento a leccionar jovens fidalgos, filhos e filhas de alguns senhores principais desta terra, entre os quais D. Anto de Almada (filho de D. Fernando de Almada, por sugesto do qual publicar a Gramtica), os filhos do baro do Alvito e os de Joo de Barros. Nesta poca parece ter gozado de uma certa estabilidade, a qual nunca mais reencontraria.

    (2) Gramtica de Ia lengua castellana de Antnio de Nebrija, ed. cit., p. 25, n,

    (3) Sublinhado nosso.

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    Por volta de 1540 ou 1541 parte para Itlia, talvez em ser-vio secreto de D. Joo III, na complicada questo que este rei manteve com a Santa S, a propsito dos crstos-novos. Talvez em virtude do caracter secreto desses servios o seu nome no aparea mencionado na documentao relativa a esse assunto.

    Regressa a Portugal em 1543, acompanhando o nncio Lippoman e, em Lisboa, abandonado pelos amigos, criando inimizades e conflitos, pelo seu temperamento irrequieto e arrebatado, mal visto pelos dominicanos, omnipotentes no Santo Ofcio, atravessa dois anos de penria.

    Em 1545, com o nome de Capito Martinho, alista-se a bordo de uma nau francesa, sob o comando de Saint-Blancard, na frota de Antoine Escaln, baro de La Garde. Vem, porm, ter a Londres, e freqenta a corte de Henrique VIII. A dissi-dncia do rei ingls em relao a Roma parece quadrar-se com as opinies pessoais de Ferno de Oliveira, que ento denuncia certos aspectos do ritual e do conceiturio catlico. Morto Henrique VIII, volta a Portugal, e, talvez duvidoso do acolhimento que o esperava, faz-se acompanhar, em 1547, de uma carta credencial para D .Joo III, passada pelo jovem rei Eduardo. No obstante, logo nesse ano denunciado e preso pela Inquisio. Tendncias religiosas consideradas he-rticas? Apologia audaciosa da atitude dissidente de Henri-que VIII? Ressentimento dos dominicanos? O certo que Ferno de Oliveira preso por tempo indeterminado, cumpre a pena durante trs anos, findos os quais, por motivos de sade, transferido para o Mosteiro de Belm, em recluso, Um ano depois -lhe concedida liberdade condicionada.

    Em 1552, parte para o Norte de frica, na quahdade de capelo, e, feito prisioneiro, vem a Lisboa para negociar o resgate de outros cativos e fica em Portugal.

    As suas desventuras, prosseguiriam: em 1554 denun-ciado como cismtico por um falso amigo. Consegue, no entanto, durante uns meses ser nomeado revisor na Univer-sidade de Coimbra, onde ensina Retrica. Volta ao crcere, de 1555 a 1557. O seu rasto torna-se agora mais incerto e duvidoso. Em 1565 sabe-se que ha casos de conscincia na

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    escola dos espatrios em Palmela e recebia uma tena de D. Sebastio.

    Ora, da pluralidade de vivncias de que a sua biografia d conta, resulta uma pluralidade e uma diversidade notvel de prticas de escrita. Historiador, arquitecto naval, estra-tego e at economista, ele foi se no gramtico (ttulo que no reivindica, alis) o primeiro anotador da Lngua Portu-guesa, isto , o primeiro que, assumindo um dos rasgos caracterizadores do Humanista, se debrua e reflecte sobre o fenmeno lingstico.

    A Gramtica de Oliveira , efectivamente, um conjunto de curiosas e judiciosas reflexes, de tipo ensastico; em suma, uma miscelnea lingstica e cultural embora no, propriamente, uma Gramtica, no sentido tcnico de estudo sistemtico das categorias gramaticais, segundo o esquema tradicional transmitido pelos gramticos latinos, o que, de facto, s ser feito, cerca de quatro anos mais tarde por Joo de Barros, O que de modo algum significa um demrito para a obra de Ferno de Oliveira: ela apresenta-se como ele lhe chama, de facto, como uma e primeira anotao. Desarrumada mas sempre pertinente e at brilhante nos problemas que levanta e nas solues crticas que sugere ou preconiza.

    Inicia-se por uma parte preambular (ausente da gram-tica tipicamente escolar do seu sucessor), em que define a linguagem (A linguagem figura do entendimento) e expende consideraes, apoiado na autoridade dos filsofos antigos, sobre a formao das lnguas. Seguem-se algumas pginas sobre o modo de falar dos Portugueses e a formao do reino. S depois de se referir origem dos nomes de Lisboa, Lusitnia, Portugal, de fazer um breve resumo da histria dos primeiros reinados, de tomar como exemplo a perdura-blidade da glria romana, devido imposio da lngua aos vencidos, se prope definir gramtica. Refere-se em seguida ao papel de D. Dinis e de D, Joo III no desenvolvimento da instruo e segue um pormenorizado estudo da pronncia, articulao e grafia dos sons portugueses, a parte talvez mais original da sua obra.

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    De facto, a primeira questo prtica, ainda antes de qualquer doutrinao, foi o estabelecimento ou, se assim qui-sermos, a fixao de um alfabeto proveniente da translao duma lngua de diferente estrutura para outra, isto , pro-veniente do latim e aplicvel ao portugus. Mais do que estabelecimento ou fixao, podemos considerar que se trata, mesmo, da expanso ou criao dum alfabeto, questo com-plexa, na qual intervm a presso envolvente da tipografia que, em poucas dezenas de anos se impe como uma fora irreversvel.

    Com efeito, essa arte (que) vem novamente terra, segundo a expresso de Ferno de Oliveira qualquer coisa que os homens desta poca pressentem como um instrumento novo que vai proporcionar-lhes uma fora at ento insuspei-tada, perante a qual a primeira reaco quase a dum temor reverente. Significativo o testemunho de certo modo ingnuo de Garcia de Resende, na imediatez dum primeiro encontro, que inclui a tipografia entre as maravilhas ou monstros do seu tempo.

    Aprendiz de feiticeiro, o humanista est, de certo modo, ultrapassado e subjugado por uma tcnica que avanou talvez a um ritmo imprevisvel e incontrolvel. Efectivamente, nume-rosas vezes os autores se queixam da interveno desfigurante do tipgrafo ou dos tipgrafos, j que a tcnica de im-presso exigia, geralmente a interveno de dois. O impressor , portanto, aquele que detm a tcnica e, com ela, o poder de ditar a lei ortogrfica. E a ortografia submete-se, de algum modo, a uma tecnocracia dominadora e imparvel. A anarquia ortogrfica do escrivo, sujeito sua imaginao e at a projectos e iniciativas individuais, por vezes caprichosas e discordantes ou mesmo dependentes da fantasia ornamental e simblica do esprito medieval, sucede a supremacia da vaga tipogrfica avassaladora e to capaz de recusar pro-postas como de impor costumes. Sempre, porm, no sentido duma regularizao.

    Pelo contrrio, no livro manuscrito medieval, em que tudo significa e no qual at a forma grfica contribui para a fixao do sentido, em que a uma caligrafia regular e per-

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    feitssima (mas correspondente marca do seu criador) corresponde uma ortografia oscilante, que caracteriza as diversas escolhas pessoais e ocasionais que cada copista faz do instrumento alfabtico de que dispe, podemos dizer que a ortografia anrquica ainda que significativa. A tal anarquia ir pr cobro essa cousa tam digna, no dizer de Garcia de Resende, a tcnica da letra de forma.

    A conscincia do problema ortogrfico e a acelerao das solues, imposta pela vaga tipogrfica, , assim, assumida como um primeiro impacto tecnolgico. Tem que ver com o problema da ortopca e este com o estabelecimento da norma lingstica. E essa nova tecnologia, transformada num mass-medium, que vai, por um lado, produzir a conscincia necessria para homogeneizao centralizadora da lngua escrita e oral, e, por outro lado, criar as condies e oferecer o aparelho para esse fim. fcil de entrever, a partir de tais premissas, as relaes possveis e necessrias entre uma feno-menologa marcadamente etnocntrica e uma ordem poltica e nacional. A tecnologia gutembergiana vai, de facto, criar uma trama de conceitos sociolgicos segundo os quais se busca, a partir dos finais do sculo XV, fixar ou imobilizar, segundo um padro determinado, modelo talvez arbitrrio, a realidade lingstica, na posse, durante a Idade Mdia, do homem oral e do escriba: vai operar, por conseguinte, a meta-morfose do oral no visual, do pluralismo medieval no singu-larismo homogneo e normalizado duma cultura e dum pro-grama tecnolgicos.

    Assistimos, pois, passagem duma tcnica dactilolgica com tudo o que implica de pessoalidade para uma tcnica mecnica com tudo o que vai implicar de impessoalidade, regularidade e normalizao.

    Parece-nos, pois, significativo qLie, Ferno de Oliveira mantendo-se de certo modo alheio problemtica do Renas-cimento, a qual incidia sobretudo, nas partes da Gramtica, partes do discurso, e figuras de Retrica, tenha retido do plano sistemtico da arte gramatical apenas um ponto: a Ortografia. A, Ferno de Oliveira quis e soube fazer dou-trina, E comea por propor um alfabeto, isto , um instru-

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    mento virtual de produo lingstica, capaz de corresponder a uma prxis e retratar o real.

    Eis, portanto, o problema mais delicado e difcil no qual vo entrar em jogo conceitos por vezes contraditrios e colo-car os ortografstas na difcil convergncia de duas vias: a via descritiva ou fontica, correspondendo a um modo de ver scio-antropolgico, e a via histrica ou etimolgica, corres-pondendo a um modo de ver histrico. Estabelece-se, portanto, uma nova tenso que ope a descrio histria, em suma, a viso sincrnica viso dacrnica. Gera-se um novo para-doxo tambm, visto que esses mesmos homens que parecem recusar a via etimolgica sero aqueles mesmos que daro abertura gramtica e at ao comparativismo lingstico.

    Ferno de Oliveira, e poucos anos depois Joo de Barros tero encontrado como meta a capacidade de representar por escrito a fala sem falha, isto , analisando o que consi-deram um alfabeto pobre, o alfabeto latino, de escassas 23 letras, entendem que s uma ampliao poder faz-lo corres-ponder diversidade das nossas dices.

    Rejeitam, pois, o princpio de uma autoridade imoblstica e assumem as estruturas de mudana que o reconhecimento e dgnifcao do vulgar postulariam. Pela primeira vez, o latim chamado, pelo irreverente Ferno de Oliveira, uma lngua morta, na qual no lcito pr nem tirar.

    Com efeito, ao tentarem reduzir as lnguas modernas aos esquemas gramaticais da herana clssica, os gramticos do Renascimento deparam com dificuldades resultantes das dife-renas que lentamente iam detectando entre o sistema fono-lgico latino e o sistema fonolgco de cada uma das lnguas romnicas. Para estas era, pois, necessrio encontrar novos smbolos e representaes grficas que correspondessem e pudessem representar o novo sistema.

    Sucede, pois, que a doutrina de Quintliano, Escauro, Vlio Longo, Varro, Prisciano, Donato, Diomedes, s dificil-mente poderia ser abandonada e jamais sujeita a audaciosa reviso: reviso que conduziu a adaptaes e tambm a ino-vaes.

    No que diz respeito aos gramticos portugueses do Renas-

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    cimento Ferno de Oliveira e Joo de Barros , a influncia dos Italianos, pioneiros da gramtica moderna nascente, parece indiscutvel. E, contudo, nem no primeiro nem no segundo essa influncia se manifestou ditatorialmente.

    Quanto a Ferno de Oliveira, a sua obra, singularmente original, apresenta, como j vimos, uma indisciplina de plano, uma ocasionalidade de reflexes, que lhe retiram a feio de uma gramtica no sentido tcnico do termo. Talvez por essa mesma feio, liberta de esquemas sistemticos, a sua doutrina ortogrfica se encontre inserida na definio das letras, a qual formava, na planificao gramatical tradicional, um captulo parte.

    Nesses captulos (do captulo IX e ao captulo XVII), o autor passa em revista todos os sons cuja noo se con-funde com a de letra, definindo o seu esprito, fora e figura. No captulo XII, notamos uma tentativa para fazer corresponder o valor fontico de cada letra palavra que o define: 1=lambe; f=fecha; m = muge; z = zine; etc. Artifcio lcido de fins pedaggicos? Ou, pelo contrrio, adeso ao inquietante princpio cratilano que postula a motivao da lngua e da escrita?

    Ora, os Italianos haviam enfilerado no que pode consi-derar-se o partido inovador, tendendo para aproximar a grafia o mais possvel da fontica da lngua (ortografia fontica); os Franceses, com algumas excepes, e tambm Nebrija, embora no de forma decisiva, inclinam-se mais para a grafia etimolgica, como sinal de latinidade.

    Cludio Tolomei (^), insistindo, embora, numa reforma, hesita em aceitar os novos signos para a notao das vogais abertas e fechadas propostas na gramtica toscana annima de 1494. Trssino, por seu lado, em 1524 ( ), adopta os carac-teres gregos e CO para a notao das vogais abertas (respecti-vamente e e o), considerando que os acentos no se prestam para diferenciar a abertura e o fechamento voclicos. Tolomei,

    (4) Versi e regole delia nuova poesia toscana, Roma, 1539. (5) Gian Giorgio Trissino, na Carta a Clemente VII, expe as suas

    idias sobre a necessria reforma ortogrfica da lngua toscana.

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    por seu turno, preferia o emprego das maisculas para a representao das vogais abertas. Essa preferncia, de resto, embora no adoptada por Ferno de Oliveira, parece reflec-tir-se na designao de grande e pequeno, respectivamente para a vogai aberta e fechada.

    Parenteticamente, alis, note-se que, enquanto entre os Italianos se estabelece uma controvrsia, retomada, como se ver, pelos gramticos portugueses, a diferenciao entre e aberto e e fechado nunca foi referida pelos Franceses ( excepo de Meigret e de Peletier). Nebrija tampouco se lhe refere, devido, obviamente, s caractersticas prosdicas da lngua castelhana.

    Daqui se torna visvel que os gramticos italianos e fran-ceses consideraram, de acordo com o sistema fonolgico das lnguas respectivas, o problema da abertura e do fechamento apenas para o caso de e e de o. , por conseguinte, de notar que Ferno de Oliveira e Joo de Barros ao contrrio (um pouco mais tarde) do etmologista, em busca das origens, Duarte Nunes de Leo, em 1606 (*) se refiram ao caso de a aberto e fechado, um dos rasgos, como sabemos, da especi-ficidade da prosdia portuguesa.

    Ora, enquanto Joo de Barros, na sua Gramtica, publi-cada em 1540, parece acusar uma influncia italiana, ao propor as designaes de grande e de pequeno (respectivamente aberto e fechado) e uma influncia francesa, aproximando-se da soluo de Jacques Peletier (O, utilizando, portanto, os diacrtcos, Ferno de Oliveira, pelo contrrio, mantm-se mais prximo da doutrina italiana, inclinando-se para a intro-duo das trs vogais gregas, a fim de diferenciar os timbres aberto/fechado.

    Verificamos, efectivamente, uma conformidade entre as designaes de grande pequeno e uma disparidade entre a representao grfica preconizada por cada um dos ortogra-

    () Origem da lngua portuguesa, Pedro Craesbeck, Lisboa, 1606: 2." ed. Lisboa, 1784; 3. ed. por Jos Pedro Machado, Lisboa, 1945; 4." ed. por Maria Leonor Carvalho Buescu, IN-CM, Lisboa, 1983.

    () Dialogue de Vortografe, Paris, 1515.

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    fstas. A designao corresponde posio mais generalizada entre os Italianos, enquanto a representao grfica aproxima Ferno de Oliveira da posio de Salviati para o caso de o e da de Trissino para o de e.

    A distino do timbre voclico, aberto e fechado, de to relevante valor na lngua portuguesa claramente apercebido por Ferno de Oliveira e pelos seus pares. Torna-se, pois, para ele indispensvel uma sinalizao que possa fazer dis-tinguir na escrita, sobretudo quando a escrita, segundo ele prprio diz, consente que aprendam os que vierem e tambm os ausentes, sobretudo porque, como diz, somos bem apar-tados em tempos e terras (f).

    Fixar a lngua, fixando a escrita, tornando-a, pois, capaz de transpor tempos e terras o objectivo de Ferno de Oliveira, para quem mais vale que ensinemos a Guin do que sejamos ensinados de Roma. Tornar eficaz a ortografia, como instrumento de legibilidade, a sua maior pugna cultural. E assim se delineia, cristalizado no irreverente e arrebatado Ferno de Oliveira, o perfil mental do homem do Renasci-mento: a curiosidade presencialista, por um lado, em relao ao mundo circundante, a par de um majesttico sentimento de venerao pelo legado cultural dos Antigos, por via dos Romanos, sem que isso jamais signifique aceitao passiva e acrtica. Essa majestade, com efeito, parece ser a marca ou trao distintivo da latinitas aos olhos dos Humanistas de Quinhentos. Para ela apelam numerosas vezes, como exem-plardade do discurso e da aco, sem que, todavia, os valores novos, modernos, romncos, em suma, no deixem de estar presentes e constituir o grande motivo da euforia renas-centista.

    (8) Note-se o valor testemunhai destas consideraes que apontam claramente para a situao plurilingustica do sculo XVI, no encontro das civilizaes quer asiticas, quer amerndias, quer africanas, e no desafio de inteligibilidade que esse encontro coloca. A resposta consis-tir na dialctica ensino/aprendizagem patente espectacularmente nas mltiplas cartinhas, becedros e catecismos bilinges que surgem impressos e, sobretudo, em circulao manuscrita.

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    Assim, se a auctortas, a urbantas, a vetustas, consti-tuem trs factores de possvel fixidez e imobilismo, os seus correlata, o usus, a rusticitas e a modernitas so, pelo con-trrio, factores de mutao. Eis, portanto, a trama interna duma dinmica que vai entrar em jogo na constituio da norma. Dinmica axiolgica que Ferno de Oliveira, num discurso que consideramos espectacular pelo lcido crit-cismo, define: (.,.) desses vocbulos novos tomemos os mais velhos (,,.). (...) com serem mais velhos, sejam tambm mais usados e o uso deles seja aprovado por aqueles que mais sabem.

    A aprovao dos que mais sabem , pois, para Ferno de Oliveira, um dos princpios que garantem a auctortas. E tambm para Joo de Barros, cujo conceito de gramtica, enquanto arte, resulta do modo rto e justo (...) colheito do uso e autoridade dos bares doutos, numa linguagem que, afinal, coincide com a de Ferno de Oliveira, este num dis-curso mais pitoresco e arrebatado:

    Gramtica (..,) resguardo e anotao desse costume e uso, tomada depois que os homens souberam falar, e no lei posta que os tire da boa liberdade, quando bem regida e ordenada por seu saber, nem divindade mandada do cu que nos possa de novo ensinar o que j temos e nosso, no embargando que mais divino quem melhor entende. E, assim, verdade que a arte nos pode ensinar a falar melhor, ainda que no de novo: ensina aos que no sabiam e aos que sabiam ajuda.

    , pois, a harmonia entre auctortas e usus, em estvel equilbrio, que vai ser a primeira geradora da norma. Mas a auctortas depende tambm do modelo analgico do latim. a conformidade com o latim, tantas vezes invocada no discurso de Joo de Barros e, mais reticentemente, no de Oli-veira, que constitu, com o assentimento dos que mais sabem, a garantia da legitimidade do uso. E tambm a autoridade dos poetas (lato-sensu) e daqueles que, atravs dos estudos liberais, escrevendo, traduzindo, ilustravam o verbo informe das lnguas a princpio incultas. Assim, diz ainda Ferno de Oliveira, so os melhores da lngua (..,) que mais leram e

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    viveram (...) sisudos e assentados, os garantes de autoridade e fixao.

    Ora, para alm da autoridade dos poetas e antes da imposio do uso, existe outra autoridade: a da erudio. Ferno de Oliveira refere-se por duas vezes ao Padre Mestre Baltasar, da Ordem do Carmo, cuja lngua eu no tenho em pouco entre os Portugueses, e a Joo de Barros. Assim subs-titui, como detentores da autoridade, Quintliano e Varro, senhores da lngua latina, na qual, como lngua morta e ferida de fixidez, depois que os Latinos acabaram, no temos ns, que no somos Latinos, licena de pr nem tirar, nem mudar nada (...). Licena que concede, em relao lngua portu-guesa, queles que tm habilidade e saber: toda a inovao, em princpio legtima, quando o houvermos mister, seja conforme melodia da nossa lngua e seja entregue no a qualquer pessoa, mas queles de cujo saber e vontades nos poderemos fiar com razo (...). Estabelece-se, pois, um equi-lbrio entre autoridade e liberdade.

    Equilbrio ou tenso criativa, atravs da qual os huma-nistas procuram erigir uma entidade que, seja qual for o nome que tiver, corresponder, assim cremos, ao conceito moderno de norma.

    Se, com efeito, e julgamos que sem dificuldade, esse con-ceito emerge da doutrina destes gramticos e se eles clara-mente aperceberam o conceito de lngua como sistema de equlbrios e coerncas, parece-nos tambm claro que a esse outro problema, a existncia ou aspirao a uma norma-pa-dro, foram igualmente sensveis: segundo um discurso evi-dentemente diferente do discurso moderno mas, talvez, dotado duma total ou, pelo menos, grande eficcia. O uso proteico, portador duma multiplicidade de nomes, aparece como uma espcie de intermedirio entre a Lngua e a Fala e identifica-se, assim julgamos (uma vez sancionado pela auctortas), com uma antecipao do que vai ser a norma. A oscilao ter-minolgica dos doutrinadores corresponde a uma indefinio conceptual mas, por outro lado, leva a identificar aquilo que nos usos permite eleger um e erigi-lo ao estatuto de norma, sobrepondo-se ou ganhando terreno sobre os demais.

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    Assim, a norma , para Ferno de Oliveira, unidade de lngua, prpria de nosso tempo e terra, a mais acostu-mada; ela certa lei, orelha, melodia, harmonia, msica, costume. A orelha julga a linguagem e msica e censor d'ambas e, como s consintir um dia, ficam perpetuamente. Mas , tambm, vontade do povo.

    , pois, a orelha e a vontade do povo que vo pro-duzir a unidade de lngua e essa boa linguagem, bom costume, bom uso. Eis que se estabelece uma ordem nor-mativa proveniente dum juzo de valor que, se depende, em princpio, da auctortas, deriva tambm dum conceito de urbantas a que, no contexto da Europa renascentista, corres-ponde o uso ulico ou, para os italianos, nomeadamente para Bembo, a lngua cortigiana.

    Se, no caso dos italianos, existe, como referimos, uma tenso entre os vrios usos e uma dificuldade em encontrar, a partir da eleio entre diferentes modos de falar, a norma, como estatuto lingstico unificador, no caso dos gramticos portugueses do sculo XVI parece, pelo contrrio, estabele-cer-se uma tendncia capaz de eliminar a tenso entre o uso ulico e o uso regional correspondente ao conceito designado, no discurso latino, por rusticitas, a qual alguns indoutos desprezam, mas que no pode tambm confundir-se com fala de cortesos.

    Assim, numa postura sincrnica, os dois doutrinadores portugueses apercebem-se da dialectao, ainda que atenuada, de Entre Douro e Minho, Beira e Alentejo; mais ainda, da nova dialectao que vai produzir o que chamam fala de negros: e assim se entrecruzam agora e se definem os con-ceitos que designmos por vetustas e modernitas. Se a fala de Entre Douro e Minho sinal de antigidade, que constan-temente aparece como marca de prestgio, para Joo de Barros, e por isso entra, na hierarquia conceptual, numa ordem venervel, a fala de negros que ir desenvolver-se espectacularmente na criao dos crioulos e das variantes transcontinentais da Lngua Portuguesa, uma marca da modernidade, to imediata que constitui parte da expe-rincia testemunhai dos observadores. E essa modernidade

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    entra tambm na teia complexa de princpios em tenso mas em equilbrio, da qual vai surgir o tecido da norma que o tempo, entidade legitimadora do ilegtimo, consagra: ser cousa trabalhosa serem logo estas novas figuras recebidas [...] mas o tempo s far to prprias como sam as outras de que o usamos, dir Joo de Barros.

    Equilbrio, portanto, entre a rusticitas e a urbantas, entre a vetustas e a modernitas. E assim se constitui, em ltima anlise, uma viso que, de sincrnica, se assume como viso dacrnica do fenmeno da linguagem: abertura sin-gular em direco a uma Gramtica Histrica que no chega, todavia, a erigir-se como rea de reflexo, mas se limita a uma verificao imposta pela prpria evidncia. que, de facto, ao descrever a norma, dum ponto de vista sincrnico, os doutrinadores no perdem de vista a dinmica da evoluo lingstica, que leva a que as orelhas no consntam a msica e vozes fora do seu tempo e costume.

    Assim, sujeita ao tempo, mais ainda, ao tempo dos ho-mens, a norma emerge como resultante do adquirido equilbrio entre foras contrastantes ou, at, da superao de contra-dies. Ultrapassada a oscilao e fragmentaridade, assu-mida a face perturbadora e em constante mobilidade de um real que , afinal a marca do humano. assumida, em ltima anlise, a empresa e divisa Humani nihl a me alienum puto: Nada do que humano me alheio.

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