A Prosa Do Mundo - Merleau-Ponty

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Text of A Prosa Do Mundo - Merleau-Ponty

MAURICE MERLEAU - PONTY

O HOMEM E A COMUNICAOA Prosa do MundoTraduo de Celina Luz

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Primeira edio brasileira: 1974 Copyright 1969 f r l i i i i m - ; Gallimard Traduzido do original em Francs: La Prose du Monde Capa de Vera Duarte Direitos exclusivos para a lngua portuguesa BLOCH EDITORES S.A. Rua do Russell, 804 Rio de Janeiro, GB Brasil Printed i Brazil

ndiceAdvertncia Nota Sobre a Edio O Fantasma de Uma Linguagem Pura A Cincia e a Experincia da Expresso A Linguagem Indireta p i w T.

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O Algoritmo e o Mistrio da Linguagem A Percepo de Outrem e o Dilogo T A Expresso e o Desenho Infantil

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Advertncia

A obra que Maurice Merleau-Ponty se propunha intitular A Prosa do Mundo ou Introduo Prosa do Mundo est inacabada. Sem dvida devemos at pensar que o autor abandonou-a deliberada m ente e que no teria desejado, vivo, conduzi-la a seu termo, pelo menos na forma outrora esboada. Este livro devia constituir, quando foi comeado, a primeira pea de um dptico a segunda revestindo-se de um carter mais francamente metafsico cuja ambio era oferecer, no prolongamento da Fenomenologia da Percepo, uma teoria da verdade. Da inteno que comandava essa empresa possumos um testemunho, tanto mais precioso porque as notas ou esboos do plano reencontrados so de fraco socorro. Trata-se de um relatrio enviado pelo autor a Martial Gueroult, por ocasio de sua candidatura ao Collge de France1; Merleau-Ponty enuncia nesse documento as ideias J mestras de seus primeiros trabalhos publicados, assinalando , depois que se engajou desde 1945 nas novas pesquisas destinadas "a fixar definitivamente o sentido filosfico das primei- , rs", e rigorosamente articuladas a estas j que delas recebem seu itinerrio e seu mtodo. "Acreditamos encontrar na experincia do mundo percebido, escreve ele, uma relao de um novo tipo entre o esprito \ a verda sen aspecto concreto, a textura mesmo de suas qualidades, a essa equivalncia entre todas as suas propriedades sensveis que fazia Czanne dizer que se devia poder pintar at os \.Morale, n. 4, 1962, A. Colin.

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odores. diante de nossa existncia indivisa que o mundo verdadeiro ou existe; sua unidade, suas articulaes se confundem, c dizer que temos do mundo uma noo global cujo inventrio nunca se acaba, e que fazemos nele a experincia de uma verdade que transparece ou nos engloba mais do que nosso esprito a detm e circunscreve. Ora, se agora nos consideramos, acima do percebido, o campo do conhecimento propriamente dito, onde o esprito quer possuir o verdadeiro, definir ele mesmo objetos e aceder, assim, a uma sabedoria universal e desvinculada das particularidades de nossa situao, a ordem do percebido no faz figura de simples aparncia, e o entendimento puro no uma nova fonte de conhecimento a respeito da qual nossa familiaridade perceptiva com o mundo no passa de um esboo informe? Somos obrigados a responder a essas questes por uma teoria da verdade primeiro, e depois por uma teoria de intersubjetividade que abordamos em diversos ensaios, como A Dvida de Czanne, O Romance e a Metafsica, ou, no que diz respeito filosofia da histria, Humanismo e Terror, mas dos quais devemos elaborar com todo o rgor os fundamentos filosficos. A teoria da verdade objeto de dois livros nos quais trabalhamos agora." Esses dois livros so mencionados um pouco mais adiante: Origem da Verdade e Introduo Prosa do Mundo. MarleauPonty define seu propsito comum que fundar sobre a descoberta do corpo como corpo ativo ou potncia simblica "uma teoria concreta do esprito que se mostrar a ns numa relao de troca com os instrumentos que d a si prprio"... Para nos recusar qualquer comentrio que acarretaria o risco de induzir abusivamente os pensamentos do leitor, limitamonos a indicar que a teoria concreta do esprito devia ordenarse em volta de uma ideia nova da expresso que ali haveria para libertar e da anlise dos gestos ou do uso mmico do corpo e do de todas as formas de linuagem, at as mais' sublimadas da linguaeem matemtica. imoortante, por outro lado, chamar a ateno sobre algumas linhas que esclarecem o desgnio de A Prosa do Mundo e que revelam sobre o trabalho completado. "Esperando tratar compleamente esse problema (o do pensamento formal e da linguagem) na obra que preparamos sobre a Origem da Verdade, ns o abordamos por seu lado menos abrupto num livro cuja metade est escrita e que trata1 da linguagem literria. Nesse domnio mais adequado mostrar' que a linguagem jamais a simples vestimenta de um pensamento que se possuiria ele mesmo em toda a clareza. O sentido de um livro primeiramente dado no tanto pelas ideias, como por uma variao sistemtica e inslita dos modos da linguagem e do relato ou das formas literrias existentes. Esse sotaque, essa modulao particular da palavra, se a expresso tem

fxito, f assimilada pouco a pouco pelo leitor e lhe torna arrssvel um pensamento ao qual ele permanecia as vezes indiferente ou mesmo rebelde anteriormente. A comunicao em literatura no o simples apelo do escritor a significaes que fariam parte de um a priori do esprito humano: muito mais elas suscitam a isso por arrebatamento ou por uma espcie de ao oblqua. No escritor o pensamento no dirige a linguagem de fora: o escritor ele mesmo um novo idioma que se constri, se inventa meios de expresso e se diversifica segundo seu prprio sentido. O que chamamos poesia s talvez a parte da literatura onde essa autonomia se afirma com ostentao. Qualquer grande prosa tambm uma recriao do instrumento significante, a partir de ento manejado segundo uma sintaxe nova. O prosaico se limita a tocar por sinais convencionados significaes j instaladas na cultura. A grande prosa a arte de captar um sentido que nunca tinha sido objeivado at ento e torn-lo acessvel a todos os que falam a mesma lngua. Um escritor ultrapassado quando no mais capaz de fundar assim uma universalidade nova e comunicar no risco. Parece-nos que poderamos dizer tambm das outras instituies que cessaram de viver quando se mostram incapazes de levar uma poesia das relaes humanas, ou seja, o apelo de cada liberdade a todas as outras. Hegel dizia que Estado romano a prosa do mundo. Ns intitularemos Introduo Prosa do Mundo este trabalho que deveria, elaborando a categoria da prosa, lhe dar, alm da literatura, uma significao sociolgica." Esse texto constitui certamente a melhor das apresentaes da obra que publicamos. Tem tambm o mrito de esclarecer um pouco sobre as datas de sua redao. Endereado a M. Gueroult pouco tempo antes da elejo do Collge de France que ocorreu em fevereiro de 1952), no duvidamos que ele se refere s cento e setenta pginas reencontradas nos papis do filsofo aps sua morte. So bem essas pginas que formam a primeira metade do livro ento interrompido. Nossa convico fundamenta-se em duas observaes complementares. A primeira que em agosto de 1952, Merleau-Ponty redige uma nota que contm os inventrios dos temas j tratados; ora, esta, apesar de sua brevidade designa claramente o conjunto dos captulos que possumos. A segunda que entre o momento em que comunica a Martial Gueroult o estgio de avano de seu trabalho e o ms de agosto, o filsofo decide extrair de sua obra um captulo importante e modific-lo sensivelmente para public-lo como ensaio em Os Tempos Modernos: este aparece em junho e julho do mesmo ano, sob o ttulo A Linguagem Indireta e as Vozes do Silncio. Ora, temos a prova que este ltimo trabalho no foi comeado antes do ms de maro, pois faz referncia no comeo a um livro do Francastel, Pintura e Sociedade, que s em fevereiro saiu da

impressora. Certo, esses poucos elementos no permitem fixar a data exata em que o manuscrito foi interrompido. Autorizam-nos todavia a pensar que ela no foi posterior ao comeo do ano de 1952. Talvez situe-se alguns meses antes. Mas como sabemos, por outro lado, por uma carta que o autor mandou sua mulher, por ocasio do vero precedente, que ele consagrava nas frias o principal de seu trabalho a A Prosa do Mundo, legtimo supor que a parada se deu no outono de 1951, ou no mais tardar no comeo do inverno 1951-1952. Menos exatas, por outro lado, so as referncias que determinam os primeiros momentos do trabalho. A redao do terceiro captulo cujo objetivo comparar a linguagem pictrica e a linguagem literria no pode ter sido comeada antes da publicao do ltimo volume da Psicologia da Arte. ou seja, antes de julho de 1950: as referncias a A Moeda do Absoluto no deixam dvidas sobre esse ponto. Considerando o trabalho feito sobre a obra de Andr Malraux, cujos traos reencontramos num longo resumo-comentrio, seramos levados a pensar que entre as duas se passaram vrias semanas ou vrios meses. No nos esqueamos que Merleau-Ponty ensinava na poca na Sorbonne e consagrava tambm parte de seu tempo a Tempos Modernos. A hiptese reforada pela presena de vrias* referncias a um artigo de Maurice Blanchot O Museu, a Arte e o Tempo , publicado em Crtica no ms de dezembro de_1950. Este ltimo indcio nos envia novamente ao ano de' 1951^) Nada probe, verdade, a suposio de que os dois primeiros captulos estavam quase inteiramente redigidos quando o autor decidiu apoiar-se nas anlises de Malraux. Tal mudana no decorrer de seu trabalho no inverossmil. Duvidamos somente que isso tenha acontecido, pois todos os esboos do plano que foram encontrados prevm um captulo sobre a linguagem e a pintura; e o estado do manuscrito no sugere uma ruptura na composio. Alm disso, significativo que o exemplo do pintor seja tomado nas ltimas pginas do segudo captulo, antes de passar, seguindo um encadeamento lgico, ao centro do terceiro. Assim, inclinamo-nos a concluir que Merleau-Ponty escreveu a primeira metade de sua obra no espao do mesmo ano. Mas certo que tivera bem antes a ideia de um livro sobre a linguagem e, mais precisamente, sobre a literatura. Se a obra de Malraux pode pesar sobre sua iniciativa, o ensaio de Sartre, O Que a Li