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  • In: Revista Finisterra, vol. 55-56-57. Lisboa, 2006 (pp. 77-99)

    A questo social e a democracia no incio do sculo XXI

    Participao cvica, desigualdades sociais e sindicalismo*

    Elsio Estanque Centro de Estudos Sociais

    Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra Blogue: http://boasociedade.blogspot.com

    Resumo O presente artigo centra-se nas questes da democracia e cidadania, em articulao com as transformaes em curso no mundo do trabalho e do sindicalismo. O objectivo questionar at que ponto as mudanas que vm ocorrendo na esfera socioeconmica esto a incidir no funcionamento do sistema democrtico e quais os principais obstculos que se deparam ao exerccio pleno da cidadania. Trata-se de uma reflexo sociolgica sobre os problemas sociais e as perplexidades sociopolticas que atravessam as sociedades democrticas em geral e a democracia portuguesa em particular. Comea-se por discutir os conceitos de democracia representativa e participativa em articulao com a questo das classes e desigualdades sociais em Portugal e analisa-se, na segunda parte, o campo laboral e sindical, procurando questionar as tendncias em curso de crescente fragilizao do sindicalismo e assinalar alguns dos principais obstculos e desafios que se deparam ao movimento sindical portugus. Palavas-chave: democracia, cidadania, desigualdades sociais, sindicalismo

    Introduo

    A chamada questo social foi, como sabemos, um tema crucial no debate

    pblico do Ocidente ao longo de todo o sculo XIX, estando na gnese do

    prprio nascimento das cincias sociais. Com o triunfo do capitalismo e da

    revoluo industrial, os problemas laborais e econmicos ganharam ento um

    significado poltico central, intimamente associado ao protagonismo do

    movimento operrio. inquestionvel o papel decisivo da conflitualidade social e

    do sindicalismo na longa luta pela construo das democracias constitucionais

    europeias e so conhecidos os elevados custos suportados pelas classes

    trabalhadoras na conquista de um modelo baseado no contrato social e nos

    direitos de cidadania. Muito embora as velhas bandeiras iluministas, a liberdade,

    igualdade e fraternidade, se tenham debatido com tremendas dificuldades e no

    obstante a promessa de uma sociedade justa, fundada nesses valores, estar

    * Texto em publicao na Revista Finisterra.

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    por cumprir, pode dizer-se que as lutas sociais que atravessaram a Europa

    desde a Revoluo Francesa no foram em vo. O progressivo reconhecimento

    dos direitos cvicos e polticos traduziu-se, na forma das democracias liberais

    modernas e sobretudo na afirmao do modelo do Estado Providncia, aps a II

    Guerra Mundial, na realizao de um fantstico conjunto de direitos que

    beneficiaram amplamente as classes mais desfavorecidas dos pases

    ocidentais.

    Porm, o perodo de acelerado crescimento econmico, de progresso

    tcnico, e mesmo de euforia em torno da ideia de um desenvolvimento social

    irreversvel, que marcou a Europa e o mundo ocidental a partir de meados do

    sculo XX, teve curta durao. Nas ltimas dcadas, sobretudo desde meados

    dos anos 80, assistiu-se ao esgotamento da velha relao salarial fordista, o

    Estado-providncia entrou em crise e o chamado modelo social europeu est em

    risco de colapsar. Com as mais recentes tendncias de globalizao das

    economias, o aumento da competitividade, a abertura das fronteiras do comrcio

    mundial, expandiu-se uma nova onda liberal, largamente apoiada na inovao

    tecnolgica e na revoluo informtica, que, por um lado, faz reemergir velhos

    problemas sociais e, por outro, lhe acrescenta novos. As profundas

    transformaes em curso esto a promover novas contradies e desigualdades

    sociais nas sociedades contemporneas em todos os domnios, com resultados

    impressionantes na recomposio e des-standardizao das formas tradicionais

    de trabalho. Os contrastes entre plos de desenvolvimento e zonas de excluso

    e de misria so hoje mais chocantes do que no passado. Assim, a

    globalizao, longe de ser um processo linear e homogeneizante, cada vez

    mais polimrfica e repleta de riscos, vulnerabilidades e injustias sociais. A

    recomposio do mercado de trabalho coloca os sectores qualificados, que

    lidam com as novas tecnologias, lado a lado com situaes de grande

    precariedade e at de neo-escravatura. As lgicas de localizao so o outro

    lado da moeda da globalizao. As novas formas de excluso e explorao so

    o reverso dos novos privilgios e oportunidades (Beck, 1992 e 2000;

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    Ruysseveldt e Visser, 1996; Castells, 1999; Burawoy, 2000; Appadurai, 2001;

    Hyman, 2002; Visser, 2004).

    Ora, justamente porque nos tempos que correm, nos princpios do sculo

    XXI, velhos e novos problemas sociais deste teor voltam a ganhar relevo que faz

    sentido reflectir sobre eles. Embora se trate de questes abundantemente

    debatidas, elas assumem hoje uma nova actualidade e por isso necessrio

    abord-las luz das profundas transformaes que entretanto ocorreram nas

    sociedades actuais, mas sem esquecer a experincia histrica do passado

    recente.

    No presente artigo, pretendo sobretudo questionar at que ponto as

    mudanas em curso na esfera socioeconmica esto a incidir no funcionamento

    do sistema democrtico e quais os principais obstculos que se deparam ao

    exerccio pleno da cidadania. Procurarei reflectir criticamente em torno destas

    temticas, tendo em conta as inquietaes que atravessam as sociedades

    democrticas em geral e a democracia portuguesa em particular. Vivemos hoje

    mergulhados em inmeras perplexidades perante o risco de exausto dos

    modelos clssicos de organizao econmica e poltica. Os cidados afastam-se

    e desinteressam-se do debate pblico e at da participao cvica. Os sistemas

    de democracia representativa revelam fragilidades onde ainda h poucos anos

    pareciam fortes e irreversveis. A poltica tornou-se, perante o comum dos

    cidados, uma actividade suspeita, sinnimo de oportunismo e de corrupo,

    onde antes era fonte de respeito e de prestgio. , pois, fundamental repensar

    estas temticas, procurando diagnosticar alguns dos desafios com que hoje nos

    deparamos a este respeito.

    Comearei por discutir, na primeira parte, os conceitos de democracia

    representativa e participativa em articulao com a questo das classes e

    desigualdades sociais em Portugal, prestando particular ateno s novas linhas

    de segmentao de classe e s subjectividades relacionados com a noo de

    classe mdia, sem esquecer as alteraes em curso nas relaes laborais e no

    plano socioeconmico mais geral. Na segunda parte, o texto centra-se na

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    questo sindical, procurando analisar as tendncias em curso de crescente

    fragilizao do sindicalismo e assinalar alguns dos principais desafios que se

    deparam ao movimento sindical portugus. A partir destas diferentes dimenses

    ser ento possvel retirar algumas concluses acerca das dificuldades de

    promover uma esfera pblica mais dinmica, com maior envolvimento dos

    cidados e da sociedade civil, capaz de inverter o actual ciclo de indiferena,

    pessimismo e apatia que em diversos campos restringe e inibe o exerccio dos

    direitos democrticos.

    1. Democracia representativa e participativa Falar de democracia remete-nos para o modelo da Grcia clssica, que est

    na gnese da civilizao europeia. Embora apoiada numa concepo restrita e

    elitista de cidadania, a democracia grega continha, apesar disso, elementos

    comunitaristas e participativos em que, no espao da polis, o autogoverno e o

    princpio da rotatividade eram estimulados. Formas de democracia

    representativa e tambm de democracia participativa tiveram a a sua origem.

    Foi tambm a que os primeiros demagogos (como Clon) mostraram pela

    primeira vez o perigo do populismo e os efeitos nefastos da retrica, na sua

    capacidade de perverter a democracia e de manipulao da vontade popular.

    Com o advento da modernidade, porm, a democracia liberal (e o correlativo

    conceito de cidadania restrita e individual, limitada, na prtica, ao direito de voto)

    que se imps no mundo ocidental apoiou-se na racionalidade individualista, em

    ruptura com as formas clssicas de participao. A busca de consenso, ao longo

    dos sculos XIX e XX, assentou numa tirania da razo economicista. O

    consenso burgus estruturou-se largamente em torno da recusa da ideia

    marxista de revoluo e da utopia socialista. Primeiro, com base no puro

    princpio mercantilista, e mais tarde apoiado na aco estatal, promoveu-se um

    contrato social que resultou, principalmente a partir de meados do sculo XX, no

    apaziguamento das lutas operrias e na institucionalizao da democracia

    representativa, tornado o modelo universal, sobretudo com o triunfo do Estado-

    providncia europeu (Santos, 1994). Este modelo hegemnico assentou em dois

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    pressupostos: por um lado, a necessidade de retirar qualquer papel

    mobilizao de massas e aco colectiva na construo democrtica; e por

    outro, a sobrevalorizao dos mecanismos de representao numa espcie de

    soluo elitista para a democracia moderna.

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