A QUESTÃO RACIAL NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA 2005

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Text of A QUESTÃO RACIAL NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA 2005

UNIVERSIDADE DO LEGISLATIVO BRASILEIRO

A QUESTO RACIAL NA LEGISLAO BRASILEIRA

VERNICA DE CARVALHO MAIA BARAVIERA

2005

UNIVERSIDADE DO LEGISLATIVO BRASILEIRO

VERNICA DE CARVALHO MAIA BARAVIERA

A QUESTO RACIAL NA LEGISLAO BRASILEIRA

Trabalho final apresentado ao Curso de Especializao em Direito Legislativo realizado pela Universidade do Legislativo Brasileiro UNILEGIS e Universidade Federal do Mato Grosso do Sul UFMS como requisito para obteno do ttulo de Especialista em Direito Legislativo.

Orientador: Prof. Alexandre Damasceno Braslia - 2005

ii

Para Ricardo, pela presena nos momentos mais difceis.

iii

AGRADECIMENTOS

Agradeo a Deus por ter uma vida cercada de oportunidades valiosas de

aprendizado e de pessoas fantsticas; aos meus pais por terem me ensinado a

estudar sempre mais; a Luciana, Larissa e Lvia por serem o melhor motivo da

minha existncia; ao Ric... eternamente, por todo o apoio e incentivo.

Ao Professor Edson Cardoso, por acender a chama do movimento da

liberdade dentro de mim, ensinando-me a lutar por nossos ideais.

Agradeo, ainda, aos meus colegas de curso e aos professores, pois em

muitos momentos difceis foram a alavanca para que no desistisse.

Ao Professor Alexandre Damasceno agradeo, especialmente, pela reviso

e orientao neste artigo, com pacincia e carinho extremos.

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Navio Negreiro

Castro Alves

Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira esta, Que impudente na gvea tripudia? Silncio. Musa... chora, e chora tanto Que o pavilho se lave no teu pranto!... Auriverde pendo de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balana, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperana... Tu que, da liberdade aps a guerra, Foste hasteado dos heris na lana Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um ris no plago profundo! Mas infmia demais! ... Da etrea plaga Levantai-vos, heris do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendo dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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R E S U M O

No presente trabalho fao uma breve anlise da evoluo do

pensamento legislativo, com um recorte na questo racial.

Na Introduo, item 1, ressalto o papel da Constituio como norma

geradora das outras normas em um sistema jurdico, para definir o estudo a partir da

hierarquia das leis, ou seja, primeiro avalia-se a norma superior, para em seguida

analisar as que dela emanaram.

No segundo item, fao um estudo das Constituies brasileiras, no

que tange a causa racial, separando o Imprio durante o qual, por longos anos, a

escravido do negro foi aceita pela sociedade e pelo corpo legislativo da

Repblica, enfatizando, nesta, a Constituio de 1988, pelos avanos trazidos, bem

como por ser atual base no nosso ordenamento jurdico.

Aps a anlise constitucional, no item 3, so observados os aspectos

da legislao civil e penal atual, assim como seu histrico.

Embora sempre tenham contido a disposio de que todos so iguais

perante a lei, as Constituies brasileiras, durante anos, trouxeram em seu corpo

inmeros aspectos racistas, retrato sempre fiel dos hbitos e costumes dos anos em

que vigeram, reflexo claro da excluso do negro da elite do pas.

O Estatuto da Igualdade Racial, ainda em debate no Congresso, a

mais recente empreitada legislativa, buscando atravs das aes afirmativas, corrigir

as lacunas ainda existentes entre a legislao que j no guarda mais os ranos do

preconceitos, e a realidade do negro que ainda se encontra em posio desigual na

sociedade.

vi

SUMRIO

1. INTRODUO ........................................................................................................1 2. IGUALDADE E DISCRIMINAO NAS CONSTITUIES....................................1

2.1. NO IMPRIO ........................................................................................................1 2.2. NA REPBLICA....................................................................................................3 2.2.1. CONSTITUIO DE 1988 ...................................................................................5

3. DIREITO CIVIL E DIREITO PENAL ......................................................................11 3.1. LEGISLAO CIVIL .............................................................................................12 3.2. LEGISLAAO PENAL...........................................................................................17

4. CONCLUSO........................................................................................................22 5. REFERNCIAS.....................................................................................................24 ANEXO I....................................................................................................................25

1. Introduo Este trabalho tem por objetivo fazer um estudo comparativo da Legislao

Brasileira sobre a questo racial ao longo da histria, buscando verificar as

mudanas ocorridas.

Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados diversos textos da

literatura especfica existente, as leis relacionadas a cada etapa e a Constituio

Federal; busco expor de maneira clara o tema abordado, conciliando os vrios

enfoques e proporcionando um panorama geral assunto.

A Constituio a Lei Maior, qual todas as demais se subordinam,

devendo respeito e coerncia, sob pena de no fazerem parte do mundo jurdico.

Alexandre de Moraes define Constituio da seguinte forma: Constituio, lato sensu, o ato de constituir, de estabelecer, de

firmar; ou, ainda, o modo pelo qual se constitui uma coisa, um ser vivo, um grupo de pessoas; organizao, formao. Juridicamente, porm, Constituio deve ser entendida como a lei fundamental e suprema de um Estado, que contm normas referentes estruturao do Estado, formao dos poderes pblicos, forma de governo e aquisio do poder de governar, distribuio de competncias, direitos, garantias e deveres dos cidados. Alm disso, a Constituio que individualiza os rgos competentes para a edio de normas jurdicas, legislativas ou administrativas (MORAES, 2003, p. 36).

A Constituio o ponto primrio a ser visto, pois deve representar a

vontade do povo, sendo as demais normas derivaes e detalhamentos do que a

Carta Maior preconiza. A liberdade do legislador ordinrio para criar est limitada

pelo que a Carta maior preconiza. Mas mesmo quando a Constituio padece de

ausncia de legitimidade, como as diversas Constituies outorgadas na Histria do

Brasil, o texto imposto respeitado pelo legislador inferior.

Assim, para a observao da questo racial no Brasil, importante iniciar

pela Constituio, para posteriormente chegar s normas que a esmiam e tentam

expressar concretamente seu contedo.

2. Igualdade e discriminao nas Constituies

2.1. No Imprio

Menos de dois anos aps a independncia, no dia 25 de maro de 1824

foi outorgada a primeira Constituio brasileira, em cujo texto j se proclamava a

igualdade perante a lei, caracterstica, alis, de todas as constituies ptrias: Art. 179 ...

1

XIII A Lei ser igual para todos, quer proteja, quer castigue, e recompensar em proporo dos merecimentos de cada um.

Contudo, tal princpio solenemente ignorava o regime escravocrata

vigente, no qual os negros, oriundos do Continente Africano, eram destitudos de

sua humanidade. Trata-se de um invulgar poder conferido ao direito, o de, a partir de

palavras, definir coisas, pessoas e situaes, ignorando sua natureza. Para entender

a situao do escravo, imprescindvel entender a diferena entre coisa e pessoa

fsica ou natural. CONCEITO JURDICO DE COISA (RES) Em acepo vulgar, a

palavra coisa tem sentido muito amplo: ela abrange tudo o que existe na natureza, ou que a inteligncia do homem capaz de conceber. Em sentido jurdico, no entanto, coisa empregada em acepo mais restrita: aquilo que pode ser objeto de direito subjetivo patrimonial. Consequentemente, tudo o que suscetvel de apropriao pelas pessoas, desde que seja uma entidade econmica autnoma, juridicamente uma coisa (JOS CARLOS MOREIRA ALVES, 1995, p. 139).

O conceito de coisa eminentemente patrimonial e refere-se

possibilidade de apropriao de algo, a coisa. Quanto pessoa fsica ou natural,

assim ensina o eminente jurista, j mencionando peculiaridades da escravido, no

caso a romana: CONCEITO DE PERSONALIDADE E CAPACIDADE JURDICAS A

ordem jurdica romana no reconhecia a todo e qualquer homem a qualidade de sujeito de direitos. Assim, o escravo no a possua, uma vez que era considerado coisa (res), isto , objeto de direitos. Para que o homem fosse titular de direitos (pessoa fsica ou natural), era necessrio que se lhe atribusse personalidade jurdica. Personalidade jurdica a aptido de adquirir direitos e contrair obrigaes. Em geral, os autores consideram sinnimas as expresses personalidade jurdica e capacidade jurdica. Parece-nos, entretanto, que mister distingui-