A QUESTÃO RACIAL NO ENSINO SECUNDÁRIO BAIANO ...· Em relação específica sobre a escravidão

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A QUESTO RACIAL NO ENSINO SECUNDRIO BAIANO: PROBLEMATIZANDO O LIVRO DIDTICO DE HISTRIA

MARIA CRISTINA DANTAS PINA

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA UESB/PQI-CAPES DOUTORANDA EM HISTRIA DA EDUCAO UNICAMP/HISTEDBR

A partir do movimento republicano vencedor em 1889 as discusses em torno do futuro

da nao brasileira se intensificaram. No bojo dessas discusses ganharam destaque as

explicaes em relao ao papel assumido pelos grupos raciais presentes na formao

brasileira. Esse debate acontecia na sociedade como um todo, sendo a escola um espao

privilegiado para as expresses polticas dos intelectuais.

nesse contexto que se encontra o livro didtico de histria, elaborado para uso no

ensino secundrio, objeto de nossa investigao. Esse artigo faz parte de uma pesquisa

mais ampla, em andamento, sobre as mudanas e/ou permanncias enfrentadas pela

temtica escravido nos livros didticos. Alm disso, nosso estudo pretende dialogar

com uma cultura intelectual hegemnica, analisando como ela dialoga ou se confronta

com outras idias e vises sobre a temtica em questo.

Especificamente, o objetivo deste texto analisar como o escravo negro foi retratado

nos livros didticos de histria, utilizados no Ginsio da Bahia, nas trs primeiras

dcadas do sculo XX, percebendo as relaes entre os contedos desses livros e o

contexto vivido por seus autores e leitores.

O nosso recorte emprico se atm ao Ginsio da Bahia, criado em 24 de agosto de 1895,

com a Lei n. 117, substituindo o Instituto Oficial de Ensino Secundrio (Lima, 2003).

At a dcada de 1940 o Ginsio era a nica instituio pblica de ensino secundrio na

Bahia. Durante esse perodo o Ginsio formou geraes, principalmente ligadas s elites

baianas, s a partir de meados da dcada de 1940 que estendeu-se s classes mais

populares. Nesse sentido importante verificar a partir dessa Instituio os contedos

escolares referentes ao negro e sua escravido presentes nos livros didticos ali

utilizados. O Colgio foi durante dcadas centro de referncia de produo intelectual e

de viso de mundo e, portanto, espao privilegiado para se entenderem as relaes entre

escola e sociedade.

Neste texto analisa-se trs livros utilizados no Ginsio: Histria do Brasil curso

superior (1900), de Joo Ribeiro; Histria do Brasil (1900), de Rocha Pombo e

Compndio de Histria do Brasil (1929), de Veiga Cabral.

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Inicialmente abordamos questes referentes ao ensino de histria e sua interface com o

livro didtico de histria e a historiografia da escravido, destacando as

mudanas/permanncias ocorridas no perodo em destaque e suas implicaes na

construo de uma viso de mundo sobre o negro. Como parte desse percurso, elegemos

a anlise de Nina Rodrigues como exemplar e peculiar na construo de uma viso

sobre o negro, no perodo em foco, especialmente pela sua atuao na Bahia.

Em seguida apresentamos os autores e suas obras, situando-os em seu contexto histrico

e em suas concepes tericas. Da partimos para a anlise do contedo dos livros no

que diz respeito escravido negra.

Por fim apresentamos algumas concluses no sentido de pontuar os desafios colocados

para a pesquisa em curso e as possibilidades abertas para a discusso do livro didtico e

seu contedo referente ao negro.

O ensino de histria, o livro didtico e a historiografia da escravido

Faremos um breve percurso pela trajetria do ensino de histria no Brasil, identificando

como as temticas referentes aos grupos tnicos e escravido foram trabalhadas pela

historiografia e incorporadas ao currculo e ao livro didtico.

Um dos marcos fundadores do ensino de Histria do Brasil foi a criao da Cadeira de

Histria do Brasil no Colgio Pedro II, em meados do sculo XIX1 (Mattos, 2000).

Desde ento se inicia uma trajetria de produo de manuais didticos de histria do

Brasil.

Outro momento importante e marcante nesse percurso a criao do Instituto Histrico

e Geogrfico Brasileiro IHGB, fundado em 1839 com o objetivo de colligir,

methodizar e guardar documentos, fatos e nomes, para finalmente compor uma histria

nacional para este vasto pas carente de delimitaes no s territoriais (Schwarcz,

1993: 99).

O IHGB foi marcado nas suas primeiras dcadas pelo predomnio das elites agrrias

regionais cujo interesse era construir e preservar a memria de sua classe associada a da

nao. Schwarcz (1993) discute como esse Instituto foi responsvel pela construo da

1 At ento o currculo da escola secundria no Brasil contemplava apenas a disciplina de Histria Geral da Civilizao, sendo que o ensino da Histria do Brasil ficava contido nesta, na forma de apndice, na fase final dos cursos.

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histria da nao marcada por um saber de cunho oficial e de exaltao e glria da

ptria, utilizando smbolos, monumentos, medalhas e hinos. Viso marcada pela

historiografia tradicional, na qual o conhecimento histrico era organizado a partir da

cronologia, predominncia dos fatos polticos, documentos lidos como verdade

indiscutvel e a recusa em analisar os fatos recentes.

A produo do conhecimento histrico pelo IHGB, tambm, foi marcado pelo debate

em torno da questo racial na formao do Brasil2. O negro era visto a partir de uma

viso determinista e fatalista quanto a sua impossibilidade de integrao sociedade. A

partir do final do sculo XIX, numa sociedade ps-abolio, o negro foi analisado sob a

perspectiva eugnica3.

Vale ressaltar a obra de Nina Rodrigues que teve grande repercusso entre os

intelectuais desse perodo, no s na Bahia seu Estado de atuao profissional, mas

em todo o pas e fora dele. Nina Rodrigues teve um papel de destaque na anlise sobre o

negro baiano que ser de valiosa importncia para nossa questo.

A produo dos compndios de histria do Brasil nesse perodo foi marcada pelo

modelo de histria defendido pelo IHGB. Muito intelectuais do Instituto escreviam

livros para o ensino secundrio, assumindo funo de professor de Histria. Esses

autores tinham estreitas ligaes com o governo, produzindo uma histria oficial da

nao.

Nadai (1993) reconstri a trajetria desse ensino identificando tanto a influncia do

IHGB como das produes francesas que construram uma disciplina escolar marcada

pela histria da civilizao, e da nao, formada pela colaborao das trs raas.

Segundo a autora, o currculo de histria das escolas secundrias, no incio do perodo

republicano, tinha a preocupao de expressar as idias da nao e do cidado

embasadas na identidade comum dos seus variados grupos tnicos e classes sociais

constitutivos da nacionalidade brasileira (Nadai, 1993).

Nas dcadas finais do Imprio e incio de Repblica acentuam as crticas produo

didtica da histria, feitas principalmente pelos grupos liberais, sobre seu carter

religioso/sagrado ou mesmo sua limitao de contedo. Ou seja, exigia-se maior

2 exemplar desse debate, o concurso promovido pelo Instituto sobre como deveria ser escrita a histria do Brasil, o qual foi vencedor von Martius com a monografia sobre a influncia e o papel das trs raas nessa histria. 3 So exemplares as anlises de: Rodrigues, 1933, 1935; Cunha, 1902; Romero, 1888.

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ateno ao livro, pois a histria como disciplina escolar passava a vigorar como

disciplina de formao da cidadania, como matria obrigatria para as geraes

escolares (Bittencourt, 1993: 220).

A primeira dcada republicana foi marcada pelas idias liberais e positivistas que,

vindas da Europa eram absorvidas e adaptadas por intelectuais brasileiros, oriundos das

classes mdias e altas. Como diz Ribeiro (2003: 65)

Liberais e cientificistas estabelecem pontos comuns em seus programas de ao: abolio dos privilgios aristocrticos, separao da Igreja do Estado, instituio do casamento e registro civil, secularizao dos cemitrios, abolio da escravido, libertao da mulher para, atravs da instruo, desempenhar seu papel de esposa e me, e a crena na educao, chave dos problemas fundamentais do pas.

um momento marcado, tambm, pelas reformas educacionais, mas que tiveram

poucas efetivaes prticas. Como exemplar pode-se citar a Reforma Benjamim

Constant (1890), com forte influncia positivista, indicando como princpios

norteadores a liberdade e laicidade do ensino. Em relao ao ensino secundrio, esta

reforma ampliou sua durao para sete anos, implantou o exame de madureza para

avaliar as condies de acesso ao curso superior e indicou uma orientao voltada para a

cincia, rompendo com a tradio humanstica clssica.

Na realidade, o que ocorreu foi o acrscimo de matrias cientficas s tradicionais, tornando o ensino enciclopdico. Este fato constitui outro motivo de crtica e acaba por comprometer a defesa do princpio de que a base da formao humana deveria ser cientfica, dando foras queles que defendiam a predominncia literria (Ribeiro, 2003: 74).

Foi tambm um momento vivenciado pelo movimento conhecido posteriormente de

Escola Nova, marcado pelo entusiasmo pela educao (crena de que a educao seria

a sada para o progresso nacional) e pelo otimismo pedaggico (confiana extrema

nas idias pedaggicas) que fundamentaram vrias reformas estaduais de educao4.